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segunda-feira, 13 de março de 2017

Novidade Elsinore :: "Reino do Amanhã"

A derradeira obra de J. G. Ballard, inédita em Portugal.


OS SUBÚRBIOS SONHAM COM A VIOLÊNCIA.

Um homem armado abre fogo sobre os clientes do Metro-Centre, um gigantesco centro comercial nas imediações do aeroporto de Heathrow. Uma das vítimas é o pai de Richard Pearson, um executivo ligado à publicidade, recém-desempregado. O principal suspeito é libertado pouco tempo depois, sem qualquer acusação.

Richard, determinado a desvendar o mistério que envolve o caso, começa a ter fortes suspeitas de que algo muito maior e sinistro habita na aparentemente pacata cidade de Brooklands. Ao deparar-se com um mundo neofascista onde os motins são frequentes, as comunidades imigrantes são atacadas por hooligans e os acontecimentos desportivos se transformam em comícios políticos chauvinistas, Richard conhece a verdadeira cúpula do Metro-Centre, que, acima de toda a cidade, controla a população como se transformada no olho de um todo-poderoso deus urbano.

Com esta investida distópica e arrepiante - o seu último romance, inédito em Portugal -, J. G. Ballard força a sociedade moderna a olhar-se ao espelho, mostrando-lhe o rosto das forças mais perversas que atuam sob o brilho do consumismo e do patriotismo arreigado.

Uma novidade

segunda-feira, 6 de março de 2017

«Crash» de J. G. Ballard :: Opinião

Estranhos prazeres estes de ler livros e ver filmes cujo uma certa bizarria pauta grande parte da acção. É o caso de «Crash» de J. G. Ballard, tal como já tinha sido o de «Arranha-céus», onde o narrador se vê envolvido em acontecimentos visionários que exploram possibilidades derradeiras e colocam em cenários de violência os seus intervenientes. «Crash» não é excepção, antes pelo contrário é a obra mais destacada e chocante de Ballard pelo conteúdo erótico e exploratório do corpo humano brutalmente danificado pelos acidentes de viação.

Originalmente publicado em 1973 e adaptado mais de vinte anos depois por David Cronenberg, o conteúdo brutal deste enredo continua, ainda hoje, a surpreender e a explorar os limites da dependência de objectos como forma de potenciar ou promover as relações humanos.

"Após a sua última tentativa para matar a minha mulher, a Catherine, percebi que o Vaughan se tinha finalmente refugiado na sua própria mente. Nesse mundo vibrante dominado pela violência e pela tecnologia, ele estava agora a conduzir eternamente a cento e sessenta quilómetros por hora numa autoestrada vazia, (...) Na sua mente, o Vaughan via o mundo inteiro a morrer num acidente automóvel simultâneo, milhões de veículos a embaterem uns contra os outros numa amálgama final de ejaculações e líquido de refrigeração."

O caos dos corpos e do metal, num misto de superfícies amolgadas e marcadas pelos desastres, encaminharão as diversas personagens para outros desenvolvimentos não menos marcantes. Maioritariamente guiados pelas ideias de Vaughan, um homem perturbado, mas igualmente desafiante e de postura vibrante, capaz de reunir à sua volta um grupo de mentes perturbadas, recheadas de desejos de sexo e dor.

"Em muitas fotografias (...) via-se a imagem de um travão de mão, por cima do grande plano de uma vulva profundamente lesionada estava a imagem do centro do volante com o respectivo símbolo do fabricante. Estas confluências entre órgãos genitais lacerados e partes de carroçaria e painéis de instrumentos formavam uma série de módulos perturbantes (...)
Aqueles ferimentos pareciam autênticas iluminuras, quais manuscritos medievais, com os pormenores dos frisos do painel de instrumentos e das buzinas(...)"

As fotografias, as filmagens, a repetição dos acidentes são igualmente formas de excitação às quais recorrem para recriar fantasias. Tanto Vaughan como Ballard, o narrador, permitem-se a entrar em fantasias que evoluem numa espiral de violência e decadência, um por estar a atingir o seu limite de demência e o outro por estar a explorar a sua curiosidade mórbida.

*
Um livro ELSINORE

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

«Arranha-céus» de J. G. Ballard :: Opinião


Assim que terminei esta leitura, escrevi:

Já o terminei. É estranho, meio alucinado ou até alucinógeno (ou alucinogénico!?), passamos o tempo a perguntar ou a pedir, a justificação, a fonte do problema... drogas, álcool, sonho (pesadelo?) ou simplesmente as pessoas? Creio que é um enredo recheado de pessoas perturbadas, alteradas, danificadas, será? Cheguei ao fim com muitas questões, mas uma maior que todas, que não revelarei para não quebrar qualquer surpresa para com a leitura deste «Arranha-Céus». Espero que ao ser passado para o cinema seja bem conseguido e com o elenco certo.

*

Cheguei a Ballard através de Crash, ou melhor, através do filme que julgava ter sido a adaptação de um dos seus livros, mas já enquanto lia este «Arranha-céus» apercebi-me que o Crash que tinha visto não era o Crash de Ballard adaptado por Cronenberg. Confusões à parte, ganhei mais um filme para a lista dos a "ver futuramente", bem como será a adaptação cinematográfica deste «Arranha-céus».

O enredo distópico, típico do universo ballardiano (dizem os entendidos!), coloca o leitor num ambiente claustrofóbico de um condomínio fechado. Fechado, segmentado e eu diria espartilhado entre a divisão de classes e os hábitos das mesmas. Nos mil apartamentos vivem cerca de duas mil pessoas, dividas entre pisos, hábitos, festas e crises típicas de bestas pouco humanizadas. A colisão entre pisos faz-se à margem das regras mais básicas de convivência ou do bom senso geral e, é claro, os eventos perdem o equilíbrio, já frágil, e desviam-se dos padrões aceitáveis e rapidamente entram no patamar da selvajaria. 

Os predadores andam à solta, mas ninguém sabe ao certo qual será a próxima vítima e a própria caçada em si é pouco lógica e ninguém se sente a salvo. No entanto, há sempre uma pergunta que coloquei ao longo da leitura: apesar de auto suficiente, as pessoas saiam para trabalhar, porque não aproveitam para fugir? Porque não denunciar a situação? Claro que não, perder-se-ia a demência que funcionava como elo.
Estranha forma de vida a destes espécimes abastados que preferem correr o risco constante, ao ponto de se barricarem dentro das suas próprias casas, do que denunciar e expor os podres desta vida a bordo do último grito arquitectónico e tecnológico.

São inúmeras as questões que a trama de Ballard levanta, desde o conflito entre a massa influente ou "heavy breathers" e as camadas mais familiares dos pisos iniciais... como se os outros aos estarem mais perto do céu se sentissem endeusados e na posse das decisões. O sossego e o anonimato fictício constantemente bombardeado pelas festas e pelas orgias que faziam da insónia a doença mais comum. Todo o glamour da sociedade moderna a perder-se nos problemas banais e transversais do quotidiano da população em geral, como o barulho dos vizinhos, o dejectos dos cães ou a sujidade à porta do outro...

Dr. Robert Laing, Antony Royal e o produtor televisivo Wilder unem-se, num roteiro improvável, à viúva Charlotte Melville, a Eleanor Powell ou o casal Steel naquela que será uma autêntica rota de colisão, demonstrando as atitudes frias e calculistas que fazem da cidade vertical uma verdadeira cidade aberta, digna de um cenário apocalíptico, isolado e demente.

Fico com vontade de ver a adaptação e aguardo pela publicação de «Crash» para então ler o "verdadeiro" ;)

Uma leitura com o selo 20|20, na chancela Elsinore.