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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

«Butcher's Crossing» de John Williams :: Opinião

"A natureza está constantemente a misturar-se com a arte."

É nas palavras de Ralph Emerson que melhor se resume o que encontramos no enredo que John Willians cria e que torna a Natureza, a paisagem, os animais e o Oeste nas personagens mais vívidas e impactantes deste romance.

«Butcher's Crossing» revela uma América profunda, numa busca pela vastidão do Oeste, já ameaçado pelo avanço da sociedade moderna que começava a impor barreiras à própria Natureza. Um jovem de Harvard, cansado da sua vida académica e urbana, pretende enfrentar as provações e descobrir por si, as experiências que só uma expedição nas montanhas lhe poderá dar e na procura por um mentor, chega até Butcher's Crossing para ter a experiência de uma vida.

Apesar de todo o encantamento que as descrições minuciosas nos causam, há todo um relato de solidão, vazio e dureza que quase causam dor e desconforto no leitor. O frio é inquietante ao ponto de o sentirmos. A passagem das estações do ano demarcam muito bem a passagem do tempo. Longo e infinito, numa demanda diária, numa luta desigual. É apenas o vazio que preenche o tempo que passa entre aqueles homens que apenas partilham um espaço exíguo quando existe toda a vastidão de um vale ou de uma montanha, mesmo ali à mão, mas a barreira imposta pelos rigores da natureza são esmagadores e fazem alterações profundas no Eu que ainda estava por descobrir em Will Andrews.

A invulgar carnificina que mancha a brancura que invade grande parte deste livro, acompanhará o leitor até ao final, a mim acompanhou-me. Na sinopse lemos que o que nos deslumbrará será a natureza humana, no entanto, a Natureza propriamente dita, no seu estado mais puro e violento eleva cada personagem, cada homem a um limite que altera o curso de cada uma daquelas vidas de forma visceral. No entanto, para mim, é a Natureza a verdadeira personagem deste livro. É com ela que nos deslumbramos.

A leitura deste livro surge após uma leitura compulsiva e viciante que obtive com «Stoner» e compará-los é difícil, mas foi impossível não o fazer. A perícia da escrita de Williams mantêm-se, aliás, apura-se, bem mais que em Stoner, mas Stoner tem todo um ambiente literário que o coloca num outro patamar perante as minhas escolhas. Ainda assim, o preciosismo que John Williams coloca nos detalhes das longas descrições que faz dos dias em que os homens aguardam pela caçada ou lutam contra a intempérie poderiam tornar-se enfadonhos ou desmotivantes, mas não, são esses momentos descritivos que abrilhantam o enredo e envolvem o leitor, tornando também este um grande livro. Outra comparação que senti necessidade de fazer foi com «O Deserto dos Tártaros» de Buzzati, mas julgo que é mesmo a escrita de Williams que me leva a isso. Apesar de todo o detalhe quase obsessivo com que Williams carrega os seus livros, há todo aquele deserto interior que povoa as vidas das suas personagens e isso liga-me sempre ao relato inóspito da vida de Giovanni Drogo.

Uma leitura com o apoio DOM QUIXOTE.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

STONER de John Williams - Opinião

Começarei por um detalhe, um a que cada vez dou mais importância, por cada vez desconfiar mais ;) a capa!
A multiplicidade de capas que encontramos para esta obra de John Williams, revelam um cuidado extremo, quem as seleccionou, reuniu nelas a singularidade, a autenticidade, a persistência e a tenacidade que o próprio autor deu à sua personagem. William Stoner é um exemplo de resiliência, a sua força é profunda e talvez seja por aí que nos agarramos e nos deixamos levar, até que nos confrontamos com o fim e prestamos-lhe um certo culto.

Apesar de logo ao início toda a história apontar para Stoner como um homem que morreu sem deixar grande marca ou sem ser recordado com grande nitidez, julgo que ele causa exactamente o oposto no leitor. Ao lê-lo recordei algumas ideias e imagens que me assaltaram aquando da leitura de "O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati. Há também aqui um certo deserto, talvez não tão permanente, mas a mesma falta de apego, de relações interpessoais, de objectivos subvertidos... mas por outro lado, há como que o encarar da vida como uma peregrinação singular, sem atalhos para voltar atrás, sem lugar a arrependimentos (que existirão, é certo!). Há um olhar a vida juntamente com os seus obstáculos, aqueles que podemos contornar e deixar pendentes e aquelas que nos surpreendem e que queremos mesmo galgar, ignorando a dificuldade, esperançosos apenas do que haverá do lado de lá.

Não sei se sou bem sucedida com a metáfora que escolhi, mas interpretar a mensagem nas entrelinhas de Stoner, foi para mim tão pessoal quanto o ensinamento que podemos retirar da mensagem de Buzzati. Para mim, ambos grandes livros, como mensagens duras que revelaram também muito do entendimento dos autores para a vida, a deles e a dos demais. Não digo que quem lê um tenha, obrigatoriamente de ler o outro, mas eu liguei-os muito.

Ultrapassando a introspecção a que o livro me levou, o autor é exímio em também nos fazer sentir um maior carinho pelos livros e pela literatura. Stoner teria nos seus livros uma maior herança do que aquela que a vida que escolheu lhe deixaria. A prisão de um casamento, o afastamento da filha, a perda de entusiasmo, a doença, a falta de amigos, tudo deixou a sua nódoa, a sua cicatriz, mas perder as suas capacidades ou lutar contra o esquecimento era uma ferida demasiado grande.

“Por vezes, imerso nos seus livros, tomava consciência de tudo o que não sabia, que não lera, e a serenidade à qual aspirava estilhaçava-se, quando percebia o pouco tempo de que dispunha na vida para ler tanta coisa, para aprender o que queria.”

Todo este livro um culto à literatura. É o poder redentor da paixão pelos livros, pela educação, pelo passar da palavra, da mensagem e das transformações que operam nas pessoas. Há uma amizade e uma paixão criadas através do gosto e do prazer que se tem pelos livros. É assim (inicialmente) com a filha e com alunos, mas também com alguém muito especial que nos faz ter um olhar inovador e quase desenfreado para este personagem até então, tão espartano e até melancólico.

Neste relato muito lúcido e até despojado, vemos, a certo ponto, o desfiladeiro, o abismo, a prova derradeira que a tal peregrinação terá de atravessar e aí lembrei-me de "Um Homem Singular", do quanto torci pelo personagem... nós sabemos que não vai dar certo, que existem obstáculos que causam sofrimentos atrozes e incuráveis, mas admiramos tanto a honestidade do personagem que queremos que ele vença.

Os livros não o acompanharam toda vida, mas a maior parte dela e ainda assim houve solidão, uma solidão que alimentou fragilidades, angústias e desamor, mas também foi essa solidão que lhe abriu portas à tolerância e a uma certa ingenuidade, mascarando o lugar frio que é mundo é, permitindo-lhe a paixão e a livre vontade do pensamento.

Leia mais sobre o livro aqui no site da Leya.