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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Finalmente o Nobel - PEITO GRANDE ANCAS LARGAS - Opinião



“Mo Yan é um escritor cujo realismo alucinatório funde contos tradicionais, História e contemporaneidade”, disse o comité aquando da decisão pelo autor chinês para Prémio Nobel da Literatura 2012 


- Está calado! 

- Não estou! 













E ainda bem que não ficou calado!!!

Mo Yan significa "está calado" e é o pseudónimo de Guan Moye, nascido na China rural de 1955, crescendo entre os transtornos da guerra e da fome, intercalado com a vida no campo e as tradições enraizadas da cultura chinesa.

Antes de mais, eu recomendaria a leitura de algumas informações sobre o autor, mas mais ainda sobre a China. Acredito que só assim possamos interpretar a profundidade de alguns dos episódios, cenários e personagens que Peito Grande, Ancas Largas. Algo que eu só me apercebi depois.

Mo Yan, expõe com mestria, mas é o nosso olhar que está turvo e toldado pelo peso das páginas, pela brutalidade de algumas situações, pelo enredo das descrições, mas pior ainda, o nevoeiro que jaz na nossa compreensão é fruto do desconhecimento de uma China tão distante, de tradições tão díspares, de uma cultura com riquezas próprias e de um clima de guerra, fome e subjugação da mulher, que nós só conhecemos dos livros, dos filmes, dos relatos noticiosos... felizmente.
Mesmo assim, é possível ler Mo Yan! E é bem possível que se vicie na história, que a leia incessantemente, mas - vá com calma! São 600 páginas, são 100 anos de história, são 8 filhas, 1 filho e 1 mãe, mas são maridos, netos, padres, soldados, fome, violações, peitos, seios, mamas... tudo muito intenso e intensamente descrito, intensamente rebuscado, hilariantemente no estilo inconfundível deste marcante narrador e ferozmente um romance sobre a história, a guerra, a política, a fome, a religião, o amor e o sexo, na China do século XX, pelo olhar de um filho da terra, censurado, recrutado, proibido, badalado, controverso... 

... e assim nasce Mo Yan, no Peito Grande, Ancas Largas: “O impulso criativo veio-me da profunda admiração pela minha mãe”.

Considerando o impulso e a inspiração materna, as informações sobre o autor e ainda o que ele diz sobre a sua própria obra:“Se quiserem podem ignorar todos os meus outros livros. Mas é obrigatório que leiam Peito Grande, Ancas Largas. É um romance sobre história, a guerra, a política, a fome, a religião, o amor e o sexo” ... é impossível não questionar: será Jintong, o narrador uma personificação do próprio autor?


Perceba-se aqui que este é um livro que espelha a força e perseverança do sexo feminino, hiperbolicamente descrita em cenários brutos, tocantes, chocante: “Nesse momento, vimos que metade da cabeça de Mudo Grande desaparecera e que um buraco do tamanho de um punho aparecera na barriga de Mudo Pequeno. Ainda vivo, mostrava-nos o branco dos olhos. A Mãe pegou numa mão-cheia de terra alcalina e pressionou-a contra o buraco, mas tarde de mais para impedir que um liquido verde borbulhante e o branco dos intestinos escorresse para fora". 

No entanto, a fraqueza e obsessão de Jintong é abismal-mente controversa ao poderia feminino da família. Ainda assim a forma como é descrita a sua dependência física e mental garante ao leitor uma amálgama de bizarrice digna de nos viciar também... conduzindo-nos ao profundo desequilíbrio visual, num festim de cenas carnais, até aos confins da imensidão das metáforas do pensamento sexual, num fetiche omnipresente!
"O pastor estava de pé, alto e maciço por trás dela; as suas mãos, tão feias, contornaram-na e cobriram as duas pombas brancas. Com os dedos grosseiros alisaram-lhes as penas, beliscaram e apertaram as suas cabecinhas! Pobres cabaças! Pombinhas queridas! (...) Berros sonantes romperam-me da garganta; um rio de lágrimas turvou-me os olhos."

Poderia continuar a revelar-vos descrições marcantes, exageradas, delirantes, não só de seios, mulheres, corpos, sexo, mas de também de guerra, fome, subjugação... em variadíssimas partes há simultaneamente um realismo profundo, bruto, cruel, que quase nos fere, mas logo em seguida é como se a escrita do autor esvoaçasse até terrenos do delírio, plataformas da alucinação de um qualquer opiáceo e toda a dureza se transforma numa beleza inebriante de uma escrita metafórica única.

"Nos últimos dez anos, ou mais, os membros da família Shangguan morreram que nem pés de cebolinho. Ao mesmo tempo, nasceram outros para tomar o lugar deles. Onde há vida, há morte. Morrer é fácil, o difícil é viver. E quanto mais difícil, maior é a vontade de viver. E quanto maior o medo da morte, mais a gente luta para continuar viva. (...) Os seus olhos marejados de lágrimas porém cuspindo fogo, varreram os nossos rostos e vieram pousar no meu, como se eu fosse o depositário de todas as suas esperanças. Isto deixou-me incrivelmente nervoso e assustado, dado que, com a excepção do meu jeito para memorizar as lições e para cantar o «Hino de Libertação das Mulheres» (...) era um bebé chorão, apavorado coma própria sombra, e um fraco, como um borrego castrado."


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Finalmente o Nobel... uma boa escolha para 2013!

Ainda antes de ser Nobel da Literatura, Mo Yan já tinha o seu "Peito grande, ancas largas" editado em Portugal pela mão da Ulisseia desde 2007, mas a consagração veio em 2012 aquando da escolha para Prémio Nobel da Literatura.

Ao Efeito dos Livros despertou-lhe bastante a curiosidade e agora chega a vez da sua leitura.

A Academia Sueca anunciou hoje o Prémio Nobel da Literatura 2012. O galardão foi para o escritor chinês Mo Yan. Em Portugal tem editado o livro «Peito Grande, Ancas Largas», pela Ulisseia, lançado em 2007.

A Academia Sueca é, habitualmente, silenciosa quanto à divulgação de qualquer pista sobre possíveis finalistas ao galardão, mas, nas semanas que antecedem o anúncio, surgem listas e apostas de favoritos.
O escritor japonês Haruki Murakami, 63 anos, autor de «Kafka à beira-mar», «Sputnik meu amor» e o mais recente «1Q84», encabeçava os favoritos na página de apostas Ladbrokes, seguido do escritor húngaro Peter Nadas.
Nos 104 prémios Nobel da Literatura já atribuídos, apenas 12 distinguiram mulheres, por isso a imprensa internacional também fazia eco de algum favoritismo para a contista canadiana Alice Munro, prémio Man Booker International em 2009, para a poetisa sua conterrânea Anne Carson e para a romancista egípcia Nawal el Saadawi.
No novo milénio três mulheres foram premiadas: Elfriede Jelinek (2004), Doris Lessing (2007) e Herta Muller (2009), da qual o Efeito dos Livros leu e comentou, "Tudo o que eu tenho trago comigo", editado pela Dom Quixote.
Entre os favoritos nas apostas estavam ainda o romancista irlandês William Trevor, o escritor holandês Cees Nooteboom e o compositor norte-americano Bob Dylan.
No ano passado, o galardão foi atribuído ao poeta sueco Tomas Transtromer.
José Saramago permanece o único escritor português a ter sido distinguido com o Nobel da Literatura, que recebeu em 1998.Nobel da Literatura tem um valor pecuniário de 926 mil euros e é considerado o mais prestigiado dos galardões internacionais na área das letras.
*
Mo Yan nasceu a 17 de Fevereiro de 1955 e é descrito como «um dos mais famosos e pirateados escritores chineses».
Entre os seus trabalhos destaque para «Red Sorghum» (1987), «The Garlic Ballads» (1995), «Explosions and Other Stories», «The Republic of Wine» (1992), «Shifu: You´ll Do Anything for a Laugh», «Big Breasts & Wide Hips» (1996), «Life and Death Are Wearing Me Out».
Os romances de Mo Yan, estão enraizados na China rural, onde nasceu, mas revelam também influências do «realismo mágico» e outras correntes ocidentais, dizem críticos e tradutores.
Entre os escritores favoritos de Mo Yan estão: William Faulkner, Gabriel Garcia Marquez, Oe Kenzaburo e Rabelais.
Mo Yan, que, na verdade, se chama Guan Moye, passou a usar o seu pseudónimo («Não Fale», em mandarim) a partir da publicação do seu primeiro livro, devido à repressão e regime vivido na China.
Mo, que se fez adulto durante a revolução cultural chinesa, quando o afã intelectual transformou-se em algo suspeito, explica que escolheu o seu pseudónimo porque tinha fama de ser muito directo ao falar e, ao adoptar essa nova identidade, poderia lembrar-se facilmente que não devia falar demais.
Outros escritores, como o também chinês Ma Jian, criticam Mo precisamente por não ter defendido outros autores e intelectuais que se viram perseguidos durante a revolução cultural chinesa.
Mas, por outro lado, Mo possui uma enorme fama no seu país, além de ser um dos autores chineses mais conhecidos e traduzidos. No entanto, mesmo com todo reconhecimento dentro do seu país, o escritor também já foi vítima de censura em algumas ocasiões.
Por causa de seu romance «Fengru Feitun» («Peitos grandes, Ancas Largas»), que foi lançado em 1995 e causou uma grande polémica na China pelo seu conteúdo sexual, o Exército chinês obrigou o escritor a fazer uma autocrítica, enquanto o livro foi retirado de circulação.
Apesar da rigidez do regime chinês, o novo prémio Nobel assegura que não se preocupa com a censura quando decide os argumentos das suas obras. «Restrições aos escritores sempre existiram em cada país», declarou Mo à revista Time em 2010, antes de ter sublinhado que esses limites poderiam representar uma vantagem, já que forçam o autor a «fugir da estética literária».
No seu caso, Mo opta por recriar um mundo rural - o de Gaomi, cidade situada na província de Shangdong -, ancorado no tempo e com toques de realismo mágico que popularizou Gabriel García Márquez, de humanismo de William Faulkner e de sátira de Lu Xun (o pai da literatura moderna chinesa), algumas das suas principais influências.
Versátil e prolífico - escreveu «Shengsi Pilão» («A Vida e a Morte Estão a Desgastar-me», em livre tradução) em apenas 43 dias -, a obra de Mo estende-se desde o romance histórico «Red Sorghum: a Novel of China» à sátira de «Fengru Feitun».
Nascido em 1955 numa família de camponeses, o Nobel de Literatura 2012 abandonou os estudos devido à Revolução Cultural. Após trabalhar no campo e numa fábrica durante os seus anos de adolescência e juventude, Mo entrou para o Exército chinês em 1976. Em 1981, começou a escrever contos e, em 1984, entrou para a Academia de Arte do Exército.
Em 1987, um ano depois de ser formar, publicou o «Red Sorghum: a Novel of China» («Hong gaoliang jiazu», no original), livro que o catapultou para a fama. Dois anos mais tarde viria «Tiantang Suantai Zhi Ge» («As Baladas do Alho», em livre tradução).
O livro que considera a sua obra de maior destaque, «Fengru Feitun», foi lançado em 1995.
Depois de ter abandonado as Forças Armadas, Mo começou a trabalhar como editor de jornal, embora continuasse a escrever os seus livros, como «Tanxiangxing» («A Tortura do Sândalo», em livre tradução), de 2001, e «Wa» («Rã», em livre tradução), de 2009.
Nos últimos dias, a imprensa chinesa passou a abordar a possibilidade de Mo ganhar o prémio, o primeiro Nobel entregue a um escritor chinês radicado no país, já que Gao Xijian, premiado em 2000, residia em França e tinha nacionalidade francesa.
Seguidor do conselho que deu a si mesmo ao escolher o seu pseudónimo, Mo optou pelo silêncio nestes dias que antecedeu a definição do prémio e deverá permanecer assim.
Em algumas ocasiões anteriores, o escritor chinês já tinha advertido que não diria nada numa situação como esta. «Uma vez que dissesse algo, eles atacar-me-iam, como muitos já criticaram os escritores chineses pela ansiedade em torno do Nobel», declarou Mo.


Nobel da Literatura 2012 tem um livro publicado em Portugal











O escritor chinês Mo Yan mostrou-se hoje «feliz» pela atribuição do Prémio Nobel da Literatura 2012 pela Academia Sueca, e prometeu, em declarações na China, investir mais na escrita.
Em declarações à agência noticiosa Nova China, o autor laureado confessou que, assim que recebeu a notícia do galardão, ficou «muito feliz».
«Vou concentrar-me na criação de novas obras. Quero aplicar-me mais para agradecer a todos», acrescentou.
No entanto, Mo Yan disse que ganhar o Nobel da Literatura «não significa tudo».
«Penso que a China tem numerosos autores muito dotados. A sua produção brilhante merece igualmente ser reconhecida pelo mundo», apelou, falando a partir da localidade de Gaomi, na província de Shandong.
As reacções ao prémio foram de grande felicidade no seio da população chinesa, para quem Mo Yan é um autor bem conhecido, habituado a escrever «best-sellers».
Mo Yan, pseudónimo literário de Guan Moye, nascido em 1955, é um dos escritores chineses contemporâneos mais publicados fora da China, nomeadamente no Japão, França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos.
Os romances do Nobel da Literatura 2012 estão enraizados na China rural, onde nasceu, mas revelam também influências do «realismo mágico» e outras correntes ocidentais, segundo críticos e tradutores.
A sua primeira obra literária, um conto que começou a escrever enquanto ainda era soldado, saiu em 1981. Seis anos depois publicou um romance de grande sucesso, Red Sorghum (‘Sorgo Vermelho’), que seria adaptado ao cinema por Zhang Yimou.
Em Portugal, a única obra de Mo Yan no mercado livreiro foi publicada em 2007, e intitula-se Peito grande, ancas largas, traduzida por João Martins e editada pela Ulisseia.

Fonte: Diário Digital com Lusa

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Livros, a melhor prenda de natal

Verdade seja dita, dei mais livros do que os que recebi, mas...

a biblioteca do Efeitocris e do Caracol Literário ficou mais rica, entre agendas, bombons, perfumes, roupa e uma garrafinha EA, veio também "Mudanças" de Mo Yan, "Jaime Bunda e a morte do americano" de Pepetela e ainda "Um ano no tráfico de mulheres" de Salas.


O difícil é escolher por onde começar, já que a lista de leituras já vai alta e para largas horas.

Boas leituras.