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sábado, 21 de setembro de 2019

«O que fica somos nós», Jill Santopolo :: Opinião



“Durante anos senti-me culpada. Culpada de nos termos beijado a primeira vez enquanto a cidade ardia, culpada por ter sido capaz de me perder em ti naquele momento. Mas, mais tarde, compreendi que não éramos os únicos. As pessoas confessaram-me, em sussurros, que tiveram sexo naquele dia. Que fizeram um filho. Que ficaram noivos. Que disseram «amo-te» pela primeira vez. Há alguma coisa na morte que faz as pessoas quererem viver. Naquele dia queríamos viver, e não nos culpo por isso. Deixei de nos culpar.”

Este romance de Jill Santopolo está cheio de culpa e ambiguidades e talvez seja isso que o torna tão plausível.
É a culpa por não se ter o condão de adivinhar qual é o destino de cada um e de uma vida a dois.

Lucy, Gabe e Darren compõem um enredo cheio de encontros e desencontros e até um certo abandono. São vidas cheias, mas ao mesmo tempo vazias, vidas em função de outras vidas; de objectivos, de sonhos, de certezas. Certezas que a vida se encarrega de abalar e baralhar.
Mas mais do que tudo, e como não podia deixar de ser, há aqui um amor absorvente, vivido numa medida maior e com contornos de tragédia. Lucy e Gabe conheceram-se a 11 de Setembro de 2001. Ainda assim, e que por mais que se amem, anos a fio, são pessoas diferentes e seguem - separados - vidas independentes.

"(...) sempre me pareceu que pertencias a ti próprio e que te emprestavas a mim quando te apetecia; nunca te possui completamente"

Mas quem possuí quem, se por vezes é tão difícil possuirmo-nos a nós mesmo!? É nessa dificuldade que Lucy avança com a sua vida e conhece Darren. E toda essa parte mais cor de rosa foi deliciosa de ler, tem detalhes muito bem conseguidos e cenas muito reais. No entanto, o que incomoda (e não sei se essa é a palavra certa) é percebermos que toda a narração é dirigida a Gabe, como se Lucy lhe relatasse a sua vida, numa carta sem fim, anos e anos seguidos.
Gabe é um fantasma maior e assombra todas as outras coisas: a maternidade, a carreira, o casamento ou a família que parece estável e completa.

"Vemos tudo através do filtro dos nossos desejos e arrependimentos, das nossas esperanças e medos."

Para além dos filtros e dos arrependimentos em que o livro nos faz pensar, leva-nos igualmente a reflectir na forma como as relações nascem e se desmoronam, e o difícil que é encontrar o equilíbrio.

Foi uma boa leitura e recomenda-se, seja para leitores apaixonados ou corações despedaçados.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Opinião "O que fica somos nós"

Eu tenho uma certa e doentia preferência por romances que doem, por histórias impossíveis e por amores não correspondidos. 
Quando li que este "o que fica somos nós" era um encontro entre "Um dia" e "Viver depois de ti" sabia me iam arrancar pedacinhos do coração e não me enganei. 
Dei comigo a pensar "gostaria de ter escrito este livro". 


Lucy e Gabe conheceram-se num dia que ainda hoje me faz engolir em seco quando penso na data, 11 de setembro de 2001. O mundo mudou e consequentemente também todos nós mudámos. Para Lucy e Gabe foi o começo de algo arrebatador e honesto mas também o dia em que prometeram fazer os possíveis para deixar uma marca no mundo. Se para Lucy era mudar mentalidades das gerações futuras, para Gabe era mostrar a realidade ao mundo com as suas fotografias.
Mesmo quando tudo à nossa volta é um mar de rosas, há espinhos que mais tarde ou mais cedo acabam por nos ferir. Por vezes é o mundo que não nos deixa seguir o caminho que queremos e outras vezes somos nós que escolhemos um destino diferente e que não se mantém interligado com o da pessoa que mais amamos. 

A história de Lucy e Gabe é-nos contada pela voz de Lucy e isso aproxima-nos dela, quer pela dor que lhe reconhecemos quer pelas dúvidas que todos nós um dia já tivemos por mais perfeita que seja a nossa vida a determinado ponto. Quem nunca foi assaltada por um nome, um perfume ou a visão de alguém do passado? Quantos de nós temos uma pessoa nos nossos passados que ainda acampa no nosso coração e nos atormenta a alma? 

"Nunca senti que fosses meu no mesmo sentido em que o Darren o era...sempre me pareceu que pertencias a ti próprio e que te emprestava a mim quando te apetecia; nunca te possui completamente" 

Oh como eu gostei de ler esta história!
Passamos o livro a conhecer a sua história. O momento que se conheceram, o tempo que o fogo da sua paixão consumia todo o mundo em seu redor e os anos que passaram separados. Ao longo da leitura temos mil e uma ideias sobre o que se passou ou em que ponto estão agora. Queremos saber se eles algum dia voltam a ser o "nós" que internamente nunca deixaram de ser ou porque raio só ouvimos a voz de Lucy ao longo de todo o livro. E depois, se forem como eu, percebem tudo e fazem os possíveis para aguentar as lágrimas até ao final.

Este era daqueles livros que em filme resultava tãooooooooooooo bem :) 

Uma aposta