
«nas tragédias, quando os golpes são muito fortes, o espírito defende-se, concentrando-se num pormenor insignificante» (em «Rua Katalin» de Magda Szabo)
A leitura é uma viagem por palavras nacionais, estrangeiras, umas cultas, outras menos, umas mais rebuscadas, outras simplificadas, algumas levam-nos às lágrimas, muitas delas às gargalhadas e as melhores, aquelas que nos deixam abismadas, tamanha é a profundeza da ideia, da genuinidade expositiva, onde a simples contemplação daquelas palavras nos deixa assim: sob o Efeito dos Livros!

«nas tragédias, quando os golpes são muito fortes, o espírito defende-se, concentrando-se num pormenor insignificante» (em «Rua Katalin» de Magda Szabo)
Dono dessa ansiedade de ilhéu, um homem condenado e à
espera de ser “polvilhado de balas” faz uso de técnicas que remontam às 1001
noites, oscilando entre condenado, biografo e contador de estórias. Ou
encantador… Pois enquanto conta, encanta e narra a vida e um prodígio, o Língua.
Tal qual Xerazade vai atrasando o seu destino ou melhor dizendo, recriando
destinos enquanto cria uma utopia na falésia.
“Sei que o falesiano é um povo brando e habituado ao
desapego, pela nossa própria origem, porque este povo nasceu pendurado da vida
de alguém que estava por um fio, mas sei que temos a debilidade de um bicho
destroçado, sei que a porta da saudade nos deixa como cão que perdeu o dono.
Agora só nos resta o consolo.”
E o consolo era a palavra!
O tempo passa e ele não morre nem de balas, nem de fome. E
se mais não conseguir, consegue a proeza de converter os seus verdugos numa
turma de escuteiros à volta da fogueira, ansiosos pelo próximo capítulo. Pelas
rotinas.
E capítulo a capítulo, a mensagem espalhou-se e a aldeia
trepou a falésia para ouvir contar uma estória que em pouco tempo se
transformou na história de uma nova comunidade com qualidades mágicas: a de
saber ouvir, em silêncio.
“O silêncio, para quem escuta, é uma multidão sábia.”
Uma comunidade que se juntou apenas pelo prazer de escutar, tanto que até viravolteavam em silêncio para não atrapalhar a magia que testemunhavam na falésia, numa azáfama cativa à palavra do condenado que já não falava do frenesim da fuga, mas do dilema e do enigma que era o amor que desabrochava no peito do Língua. E quem vê o amor desabrochar, ama melhor, quem sente e vê a confiança, “entra no mundo, muito diferente de vir ao mundo.”
“(…) não era vontade, era coragem. De modo que todas as
perguntas foram dadas por respondidas e o mistério passou a fazer parte do
grande património das coisas que os escravos nunca disseram, nuca dizem, nunca
dirão.”
Mas “os anos têm olhos na nuca” e o biografo era um homem
com alguns anos a somar aos anos que foi perdurando na falésia e uma comunidade
não se faz sem memória e sem o relato das experiências que fazem uma história
colectiva. A história de um país, um continente, a humanidade.
Na falésia, “cultiva-se a prática da devoção ao outro”, o
que todos querem é que se queiram bem e se sintam bem, porque “o homem é de
onde se sente bem.”
“Nós não queremos fazer história, queremos ouvir história.”
E mesmo só a ouvir, é possível fazer história e pertencer à
história, porque quem ouve aprende e já faz história se não repetir o que me
gostou de ouvir.
«As palavras que usamos contam uma história. O esforço que fazemos para as evitar também.» Alma Gottlieb*
Sobre o sangue que derramamos e o que daí advém, a história que conta de cada mulher, é uma história com causas e sintomas semelhantes, no entanto, cada mulher é única e precisa escutar o seu corpo. Ouvir a sua história, naquilo que cruza mas também naquilo que não é igual às outras, mas para isso é precisa literacia de corpo e essa é a história silenciada. Patrícia Melo e Catarina Maio cumprem com estes livros, a difícil mas tão importante missão de quebrar o tapu*
Quebrar tabus e consciencializar todos, sim todos, porque ambos estes livros não são só para mulheres, são para todos, para que todos possam conversar abertamente, por forma a garantir uma maior compreensão e empatia e perceber que "a menstruação é apenas um subproduto de algo maior - o ciclo menstrual, o essencial que é invisível aos olhos..." e sim, a analogia é irónica.
Irónico é também que metade da Humanidade viva a esconder algo totalmente essencial para existência de todos, por isso o que é essencial, é uma reflexão colectiva que gere um maior entendimento, cooperação e aceitação, tanto da experiência individual como da compreensão da alheia, especialmente quando chegamos ao capítulo das dores menstruais, ridiculamente normalizadas e consideradas inerentes ao ser mulher e ao estar naquela fase do mês, retirando-lhes importância. Basta perceber que apenas em 2020, Portugal adoptou medidas para o diagnóstico e o tratamento precoce da endometriose (resolução nº74/2020) Leia-se também o artigo satírico «If Men Could Menstruate» Gloria Steinem (1978) que diz muito sobre como a sociedade em geral ainda olha (e sim ainda olha, pois o artigo é completamente actual mesmo tendo mais de 40 anos!) à menstruação e ao longo caminho que ainda existe por palmilhar.
Porém, livros como estes mapeiam melhor esse caminho!
#queraioestoueuafazercomaminhavida
- a miopia vem com a idade para nos proteger
- partilhar casa pode ser uma forma de nos domesticarmos (ou tentarmos!)
-
ter um diário não é ridículo, nem tem idade, mas é um exercício de nudismo que
contraria a miopia dos quarenta
-
gratidão é mais que uma hashtag
-
um podcast pode ser uma coisa poderosa
-
yoga, superalimentos, sumos verdes e afins, não são para toda a gente
-
um cão e um livro podem ser a nossa tribo
-
a terapia pode acontecer em qualquer lado e revelar-se numa frase
-
a contrariedade existe porque a vida é complicada e nós também, tal como a
ansiedade



ONDE METI EU O PAPELITO COM O TEXTO SOBRE ESTE LIVRO?
Podia ser a introdução a esta opinião ou antes a história dos meus últimos tempos com esta mania que se instalou, a de rabiscar opiniões em pedaços soltos de papel e depois perder-lhes o rumo. Um saga sem fim à vista!
Desabafos à parte, «Desenhos Ocultos» - que eu teimo em apelidar de Obscuros - foi um leitura por impulso. Abri o livro e gostei dos desenhos, tanto os mais infantis como os mais cuidados e fiquei curiosa como evoluiria a história para partirmos de uns e chegarmos a outros.
Jason Rekulak conduz-nos até um casal para desde cedo percebermos que algo vai mal e ficarmos de olho naquela relação. A voz de Caroline é paciente e conciliadora; as respostas de Ted são curtas e duras, preciso e com as palavras bem marcadas. «É como ouvir um violino a dialogar com um martelo-pneumático». Ainda assim, enquanto dialogarem, a vida vai fluindo e são capazes de decidir a contratação de Mallory Queen.
Mallory tem apenas vinte e um anos, mas a sua história já traz um disclaimer:
"AVISO: É fácil resvalar, mas não se cai sozinho!"
E se juntarmos a história de Mallory com a que se vai desenrolando sobre Annie Barrett está montado o enredo obscuro possível de se cruzar com ensinamentos dos melhores livros, tal como Adrian lhe dá a perceber quando recorda as palavras de Spock, parafraseando Shelock Holmes:
"Quando eliminamos o impossível, o que resta, por muito improvável que seja, deve ser verdade."
Mesmo com os sábios conselhos dos livros, a cabeça de Mallory tem o hábito de criar impossíveis, de fazer cenários e driblar entre histórias sem sentido, nem que seja para esquecer que está à distância de uma pedrada em Filadélfia, portanto ela tem de compreender o que de oculto se esconde nos desenhos obscuros
que substituíram os rabiscos e as figuras-palito inocentes e típicas das crianças da idade de Teddy.
"Nunca consegui encontrar as palavras exactas para descrever a sensação - a estranha impressão - de qualquer coisa a esvoaçar na periferia dos meus sentidos, por vezes acompanhada por um zumbido agudo."
Entre estudos científicos sobre «detecção de olhares» e tábuas de espíritos, oscilamos entre tentativas da ciência explicar o que as sessões espíritas caseiras confundem, mas o mais engraçado é o humor que os diálogos com o pequeno Teddy assumem, mostrando-se tão perdido quanto o leitor.
"Eu tento inventar histórias (...) mas o príncipe Teddy só quer falar de tábuas dos espíritos. Precisam de pilhas? Conseguem encontrar qualquer coisa morta? (...) espero que ele perca o interesse, mas em vez disso pergunta se é possível fazermos uma."
O interessante do livro é a forma como o autor capta diversos universos mentais em função das idades e experiências de vida, fazendo-os conviver a todos na casinha rústica de subúrbio até colidirem e com isso dá um ritmo em crescendo à narrativa, conseguindo imagens bastante interessantes: «somos como bolas de sabão com que o Teddy gosta de brincar - mágicas, flutuantes, mais leves que o ar - condenadas a rebentar a qualquer momento», tal como o desfecho que rebenta na cara do leitor, completamente inesperado.


“Também a memória não é compreensível à falta de uma abordagem matemática. O dado fundamental é a relação numérica entre o tempo da vida vivida e o tempo da vida armazenada na memória. Nunca se tentou calcular esta relação e não existe de resto qualquer meio técnico de o fazer; no entanto, sem correr grande risco de me enganar, posso supor que a memória não guarda mais que um milionésimo, um bilionésimo, em suma uma parcela perfeitamente ínfima da vida vivida. Também isto faz parte da essência do homem. […]
Nunca acabaremos de criticar os que de forma o passado, ou reescrevem, ou falsificam, que dilatam a importância de um acontecimento, e calam a de outro (…) À margem da nossa vontade e dos nossos interesses. Nada se compreenderá da vida humana enquanto se persistir em escamotear a primeira de todas as evidências: a realidade, tal como existia quando existia, já não existe; a sua restituição é impossível.”
Atormenta-os também, a necessidade tão grande de catalogar e medir a dor e sofrimento, entre quem partiu e quem ficou, explorando uma ideia de hierarquia da dor, juntamente com os sentimentos de traição e amputação, dividindo novamente quem foi e quem resistiu, restituindo-se o reconhecimento como vítimas. Restituindo-se direitos.
“Primeiro, com o desinteresse total pelo que ela viveu no estrangeiro, amputaram na de vinte anos de vida. Agora, com este interrogatório, tentam voltar a coser o seu passado antigo e a sua vida presente. Como se a amputassem do antebraço e lhe fixassem a mão diretamente no cotovelo, como se a amputassem das pernas pelo joelho e lhe prendessem aos joelhos os pés ponto siderada por esta imagem, não é capaz de responder nada às perguntas delas (…)”
Questionando a deformação da memória, essa «memória que o detestava, que não fazia outra coisa que não fosse caluniá-lo; esforçava-se por isso por não acreditar nela», por manter a sua «insuficiência de nostalgia» e «à medida que trechos da sua vida caem no esquecimento, o homem desembaraça-se daquilo de que não gosta e sente-se mais leve, mais livre», ainda assim, para se apaixonar, é preciso estar presente e no presente. E a paixão é a exaltação do presente, da vontade de viver, mas como poderia conhecer o sentido do presente quem não conhece o futuro?

as quedas doem e as nossas decisões têm eco nas vidas dos que nos são mais queridos. 

o tal capítulo 7 de Rayuela
"Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água."
*
A transcrição deste excerto visa apenas demonstrar a beleza e a perfeição de um capítulo que, só por si, é um livro inteiro; um livro que se lê sem se saber muito bem o que se está a ler, como se deve ler, quem é quem e qual é o seu papel, qual é o sentido de tudo aquilo... numa época "lá" e outra "cá", que é como quem diz Paris e Buenos Aires, respectivamente, acompanhamos um homem que se desdobra, caminha, ama, divaga e convive.
E talvez o que mais nos fique são as suas angústias, o amor e considerações afectivas e claro, divagações. Quase uma centena de divagações que o autor isenta o leitor da necessidade de lê-las para ter o livro como completo.
Claro está que esses 99 “capítulos prescindíveis” são provavelmente aqueles que vamos logo atacar, como quem pica e debica e vai provando para saber se fica ou não cortazado.
Rayuela é um puzzle com capítulos-peça cujo arestas estão em falta ou dobradas e nem sempre encaixam. Ou encaixam! Já que a sua composição experimental deixa em aberto todas as direcções possíveis, apelando à interpretação (e criatividade?) de cada leitor, exigindo-lhe que participe e decida.
Um romance interminável que marca uma viragem na forma de fazer literatura e que está carregado de simbolismo, metáforas, jogos narrativos e de linguagem, expondo ideias e reflexões ainda bastante actuais ou até premonitórias; a própria metáfora do título/jogo da macaca como forma de estar - e ir andando na vida - é brilhante e até muito acertada!
*
Este livro foi lido no seguimento de «O Avesso da pele» de Jeferson Tenório que faz referência, especificamente, ao memorável capítulo 7
*

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Numa França vista do 6º andar de um prédio pobre, Momo, um
rapaz que “não foi datado” vive aos cuidados de Madame Rosa, ex-prostituta e
ex-judia, (os próprios papéis provam essas “não-existências”) que o recebeu por
ele ser uma “criança ilegal”, “um filho de puta”. Mas os anos estão a passar e
os quilos da Madame a aumentar à mesma velocidade que o seu corpo se deteriora
com eventos em que a cabeça ganha pernas e vai passear.
As histórias destes Miseráveis,
porque Victor Hugo e a sua capacidade de descrever a França e a miséria são uma
inspiração e aspiração de Momo (e do Senhor Hamil) que, quando crescer, quer
escrever assim a histórias dos seus miseráveis e Roman Gary consegue
isso mesmo em «Uma
vida à sua frente» na voz desta criança de dez anos, Momo, que com a sua inocência,
própria da idade, mas com a perspicácia (e alguma confusão, já que Momo ao
início era muito novo para ir à escola e de repente já tinha idade a mais) de
quem teve de se desenvencilhar sozinho… até para ter uma mesada!
“Quando os vales deixavam de vir para um de nós, a Madame
Rosa não punha o culpado na rua. Era o caso do pequeno Banania, o pai dele era
desconhecido, logo não o podíamos censurar por nada; (…) a Madame Rosa ralhava
com o Banania mas ele estava a borrifar-se, porque só tinha três anos e
sorrisos. Acho que a Madame Rosa teria dado o Banania à Assistência, mas não o
seu sorriso, e como não se podia separar um do outro, via-se obrigada a ficar
com os dois.”
Momo narra a sobrevivência que por ali se vive quase sem maldade,
embora exista dinheiros e leis à mistura, coisas que Momo pouco percebe, entre
muitas outras, mas de solidão, desamparo e ausências Momo percebe.
“Não faço ideia do que me deu, mas havia anos que não tinha
mãe nem pai, nem mesmo bicicleta (…). Fiquei todo tocado e possuído pela
violência, nem dá para acreditar. Vinha de dentro de mim, e é ali que é pior.
Quando vem de fora com pontapés no cu, podemos sempre fugir. Mas de dentro, não
é possível. Quando me apanha, quero ir-me embora e não voltar mais a lado
nenhum. É como se estivesse alguém a morar dentro de mim. Começo a gritar,
atiro-me para o chão, bato com a cabeça para sair, mas não é possível, não tem
pernas, nunca temos pernas dentro de nós. Faz-me bem falar disto, aliás, é como
se estivesse a sair um pouco. Estão a perceber?”
E o leitor vai percebendo!
Vai aceitando a dureza do relato enquanto desanuvia pelo
humor e ironia com que é descrita e é aí que reside toda a peculiaridade da
escrita de Gary; é na força do humor, pelo traço inocente da voz de Momo que a
fronteira que segrega estas pessoas, a invisibilidade e o preconceito em que
vivem, é denunciada.
Ainda assim, existem excepções, e ainda bem!
“Eu ia muitas vezes sentar-me na sala de espera do Doutor
Katz, já que a Madame Rosa repetia que era um homem que fazia o bem, mas não
senti nada. Talvez por não ter ficado tempo suficiente. Sei que há gente que
faz o bem no mundo, mas não fazem isso a toda a hora e é preciso calhar no
momento certo. (…) A Madame Rosa dizia que o Doutor Katz era a medicina geral,
e é verdade que se via de tudo ali, judeus, claro, norte-africanos, para não
dizer árabes, negros (…)”
«Uma vida à sua frente» denuncia e reflecte sobre temas que
ainda hoje são discutidos, seja pela controvérsia, seja pela herança tóxica dos
conflitos armados, do colonialismo ou outros que ainda têm muito de tabu, como
é o caso da eutanásia.
“Não queria ouvir falar do hospital onde nos fazem morrer até ao fim, em vez de nos darem uma injecção. Dizia que, em França, estão contra a morte serena e que nos obrigam a viver enquanto ainda formos capazes de sofrer. A Madame Rosa tinha um pavor à tortura e dizia sempre que, quando tivesse que chegasse, far-se-ia abortar. (...) Vi logo que ela se tinha deteriorado mais na minha ausência e sobretudo em cima, na cabeça, onde ela estava pior do que nos outros sítios. (…) estava tão danificada que até os seus cabelos tinham parado de cair porque o mecanismo que os fazia cair tinha-se também deteriorado.”
É impossível ao leitor não sorrir, por vezes até rir à
gargalhada com os termos inocentes de Momo, num humor afiado, quase cáustico,
que dão toda uma outra dimensão ao que nos narra e a leveza com que revela
preocupação pelo sentido da vida: “se quiserem a minha opinião, o tempo, é para
os lados dos ladrões que temos de o ir procurar.”
Procurar o tempo junto dos ladrões, abortar alguém na velhice, “perder-se no seu interior” ou “ter uma cabeça que passeia” quase que retira seriedade aos assuntos, mas acrescenta uma sensibilidade enorme a uma criança que efectivamente é responsável por uma mulher idosa com demência e a quem, se pudesse, daria uma morte digna e como ela pretendia, enquanto ainda podia escolher.
“- Vão obrigar-me a viver, Momo. É o que fazem nos hospitais, têm leis para isso. Não quero viver mais do que o necessário. Há um limite, até para os judeus. (…) Não quero viver só porque a medicina o exige. (…)A felicidade mesmo que a conta
gotas é sempre útil e dá-la, às vezes até sem a ter, é um acto de amor. E é
preciso amar mesmo que seja num «buraco judeu». E Gary conseguiu um livro
terno, não pelo que conta, mas pela forma como o faz, com um humor redentor.
Imaginem o enredo que dá, colocarmos oito pessoas ansiosas,
prestes a se tornarem reféns acidentais de uma outra pessoa pouco experiente
nas lides do crime (pouco!) organizado e a contar serem salvas por duas outras
pessoas que não se entendem, embora sejam policias, são também pai e filho.
"(...) algo que é impossível aos filhos compreenderem e
que os pais têm vergonha de admitir: na verdade, não queremos que os nossos
filhos persigam os seus próprios sonhos nem que sigam as nossas pegadas.
Queremos, sim, seguir as pegadas deles enquanto perseguem os nossos
sonhos."
Azar de Jim que não queria Jack como polícia. E,
aparentemente, azar daquele apartamento cheio de gente que conta com eles para
desvendar o roubo e a consequente situação de reféns. Situação essa, que, à boa
maneira de gente ansiosa, se altera rapidamente com pessoas muito diferentes a
descobrirem laços que julgavam inexistente e a se identificarem e protegerem
mutuamente
"Esta coisa das palavras é complicada, em particular
quando uma pessoa é mais velha e tudo o que quer dizer a alguém mais novo é:
«Vejo o teu sofrimento, e isso faz-me sofrer.”
E para ver o sofrimento do outro, basta por vezes parar para
ouvir realmente, com espaço e admitir o quão fácil, horrível e assustador é
fracassar nisto de ser adulto, ainda para mais quando ser adulto envolve ajudar
outros a tornarem-se adultos.
E até quando seguimos nisto de tornarmo-nos adultos?
Conhecendo Roger e Anna-Lena, diríamos que uma vida toda. Ou
é apenas medo pelo excesso de tempo, quando temos tempo para pensar que já nos
falta pouco tempo? Parece um pouco idiota, mas a ansiedade não nos torna a
todos um pouco idiotas?
«Gente Ansiosa» de Fredrik Backman é um livro cheio de
perguntas, mesmo quando aparecem sobre a forma de respostas. É um enredo com
tantos enredos dentro, tantos quantos são os personagens. Aliás, mais, é gente
com gente dentro. Gente com problemas e ansiedades como as da gente 😉
E ao mesmo tempo é uma narrativa cheia de saltos e perspectivas, momentos
tensos e outros de calmaria. E lucidez. Pois até mesmo «gente ansiosa» tem
momentos de lucidez, como Zara na psicóloga a debater o que é a felicidade. A
debater não, a afirmar.
Tal como o livro se vai afirmando com pequenas verdades: «[…]
a solidão é como a fome: só nos apercebemos do quão esfomeados estávamos quando
começamos a comer.»
«A Porta» é um relato enigmático, metafórico, desconcertante
e desconcertado, no quanto releva a inadequação das relações humanas quando falha
a comunicação. Podemos até dizer que a comunicação é mesmo uma porta, metáfora de fronteira, linha
ténue e frágil, cheia de sombras: a das classes, a do binómio urbano-rural e a do
fosso entre o que é braçal e intelectual, sem esquecer o tanto que não pode ser
dito com todas as palavras e que é político e militante. A critica apelida-a de
uma obra corajosa e confessional e nós leitores não somos capazes de ficar indiferentes
aos mundos de Magdusca e Emerence (e ao de Viola) que colidem contra diversas portas. A da violência e a da
sensibilidade (ou falta dela!) talvez sejam as que mais apoquentem o leitor, no
entanto, Szabó consegue redenção pelo brilhantismo com que escreve, empregando
a narrativa de inúmeras camadas.
“O que eu vira, Viola à mesa, talvez só aos meus olhos fosse
uma imagem idílica, e o festim de Emerence devia representar outra paixão
mitológica, pois, pensando melhor, não os via à mesa como um bravo cão
recompensado e a sua dona mas como dois convivas de um terrível banquete da
mitologia, e a carne engolida pelo animal não passava, acaso, de uma aparência
de assado, não era comida, mas invisíveis fibras e vísceras, uma espécie de
sacrifício humano, como se Emerence, com as suas lembranças e as suas boas
intenções, quisesse servir ao cão a pessoa que não tinha vindo à tarde (…)
beliscando o que havia de mais importante nas profundezas de Emerence, de que
ela nunca falava com ninguém.
(…). Voltara, enfim, à casa o silêncio, e, uma vez mais, nem
me dei conta de que este silêncio era tão falacioso como a calmaria antes da
tempestade, comprazia-me nele, quando as orelhas baixas de Viola e a sua atonia
deveriam ter-me feito compreender que alguma coisa estava para acontecer.”
É fácil compreender que este triângulo encerra parte do
enigma para toda a acção, porém, qualquer uma das mulheres é mais difícil de
entender que qualquer animal, embora dotadas da capacidade de fala, pouco fazem
uso dessa ferramenta. Emerence é secreta, desapegada (das pessoas) e noir. Tem episódios grotescos nos rasgos
de violência que profere ou tenta; e Magda não se torna menos grotesca e
chocante por “apenas” assistir. Também ela é enigmática nesse seu lado calado e
de consentimento, para o qual a intelectualidade não lhe confere nenhuma
vantagem. São duas mulheres sabedoras e vividas de realidades e cruezas
distintas e exercem, uma sobre a outra, uma toxicidade que oscila, mas alimenta
a amizade. Amizade essa que flui, aos repelões, como um cão que passeia à trela
nas mãos de um dono teimoso que não entende que o passeio é do cão e não o
deixa ir olfatar tudo o que precisa.
“Não me foi fácil admitir que (…) a sua existência
tornara-se uma das componentes da minha vida, e, no início, fiquei apavorada
com a ideia de a perder, se eu lhe sobrevivesse, o que aumentaria o meu exército
de sombras, cuja presença imanente e intangível me perturba e mergulha no
desespero. (…) por vezes, ela tratava-me de um moto tão rude que um estranho,
se assistisse, se espantaria por que razão eu tolerava isso. Tal não contava:
há muito que eu já não prestava atenção aos movimentos tectónicos que agitavam
a superfície de Emerence; ela deve ter descoberto o mesmo, e, por mais que não
quisesse arriscar o coração, (…), também ela não podia escapar à sua afeição
por mim.”
A insólita e dramática amizade que as mulheres mantêm terá repercussões
ao longo dos anos. São aprendizagens e partilhas, autênticas catarses, e
poderão ter efeito idêntico no leitor.
«A Porta» é um livro para se ler as entrelinhas, para se reflectir
no não dito, nos gestos que morrem à beira de uma mão que não se enlaça noutra.
É um relato que se espelha em nós e nos nossos, para se crescer e chorar, para
se espantar - espantando fantasmas - e revoltar-se com a inércia, mesmo sabendo
que não agir é em si uma acção, uma tomada de posição. É um relato para
despertar compaixão, fé e cumplicidade, para se saber que até a mais forte das
portas pode ser abalada e pisada, até mesmo quando as vontades são do Bem.
“- Há-de matar. Ainda há-de matar (…). Saiba que não se pode
prender aquele para quem chegou a hora, porque nada lhe pode oferecer no lugar
da vida. (…) O melhor presente que se pode dar a alguém é impedi-lo de sofrer.”
“(…) não analisara a fundo até que ponto a paixão é um
sentimento ilógico, mortal, imprevisível, e, contudo, conhecia a literatura
grega, que não representava mais do que as paixões, a morte, cujo o machado
cintilante é sustido pelas mãos enlaçadas do amor e da afeição.”
“Ora, ora! Viverá eternamente, isso não me preocupa. Agora, ao escrever estas linhas na máquina, sinto como se tivesse decidido pela segunda vez, e definitivamente, o seu destino, porque, nesse momento, lhe larguei a mão.”
«A Porta» é um livro cheio de contradições. Como a vida!
Quem o ler não lhe ficará indiferente.
“(…) continuo a pensar que às palavras há que arrancar-lhes a pele. Não há outra maneira para perceber de que são feitas.”
A frase pertence a Saramago, mas encontrei-a enquanto relia
este fabuloso (mas um tanto assustador!) «Cai a noite em Caracas» e fez-me todo
o sentido, pois é exactamente o que se passa com as palavras que Karina Sainz
Borgo encontrou, ou escolheu cirurgicamente, para aprisionar o leitor,
trespassá-lo com um dardo de medo, tal como Adelaida Falcon vive os seus dias à
beira de cair nas mãos dos algozes.
Um relato de sobrevivência que cruza escuridão, medo e
silêncio com a desumanização bruta que gera força, coragem e engenho tudo na
mesma medida gritante de violência, desenraizamento e luto.
“«Lá» era um passado. Um lugar do qual pareciam ter saído na
condição de nunca mais o mencionarem. Uma palavra que ardia como o coto de um
braço amputado.”
Um romance feito furacão distópico que com a força bruta do
tom profético, lança um alerta sobre o quão ténue é a linha que nos separa de
um passado esgaçado pela guerra e do quanto a história se repete. E olhar para
trás afunda e Adelaida larga tudo, tudo o que é mais seu, os seus mortos, mas
também os vivos, a quem a sobrevivência morde com os dentes afiados da culpa.
Uma culpa que luta por migalhas onde até os afectos são racionados.
“Os vivos lutam às dentadas pelas sobras.”
Num país triturador, munido de uma infantaria violenta e impune, colocando todos em perigo e numa espécie de antecâmara do além-túmulo, seres na iminência de apodrecer lutam sem sequer ter direito a gritar. Tiram-lhes tudo, até o direito a enterrar os seus mortos. A ocupação chegou até aos ossos e não o inocente já não se distingue do carrasco. Por isso, abatida, desenraizada e numa demolição em espiral, Adelaide Falcon, filha, enterra Adelaide Falcon, mãe. Não há renascimento possível, nem na fuga nem nas chamas, restar-lhe-á a vocação para as palavras para conseguir firmar memórias, numa biografia fragmentada entre identidades separadas por um Oceano coberto pelo cinzentismo da História que castiga meninas e mulheres, mulheres-rocha que cimentam o mundo.