segunda-feira, 18 de setembro de 2023

"O Filho de Duas Mães" de Edith Wharton :: Opinião

A estreia com Edith Wharton não podia ter sido melhor, «O filho de duas mães» tem uma aura misteriosa tal como a caracterização de Bernard Berenson sobre a autora e a sua obra: “Edith Wharton mantêm-se apenas incontactável, num sítio qualquer onde não a ouvimos e de onde não pode responder-nos. É muito duro, mas não é aquilo a que chamamos morte.”

É com este pesar e fascínio que sentimos o enredo, para o qual é difícil encontrar sinopse, embora as palavras de Berenson funcionem muito bem, cativando o leitor a abrir o livro, e encetada a leitura, tornam-se num prenúncio.

São as palavras de Aníbal Fernandes que abrem o livro mas eu só as li no final, e ainda bem, encontramos nelas algumas revelações que eu dispensava antes da leitura, mas achamos também o medo, a solidão, a opressão e a renuncia, sentimentos dos quais o enredo se alimenta, e junto com a qualidade da escrita, são a maior experiência de leitura.

Leitura essa que fiz com voracidade e sofreguidão, tanta que não me deixou espaço para conclusões precipitadas ou óbvias, de tão enlaçada que estava. Tanto melhor, ter acontecido dessa forma. O medo tornou-se real, a opressão apertou-me de igualmente, a desconfiança gerou dúvida de todos e a solidão, essa, partilhei-a com qualquer uma daquelas personagens, mas nunca tomei as vezes de narrador e me senti tentada a antecipar desfechos. Coisa rara em mim. Senti-me completamente levada pelas sensações de cada uma daquelas pessoas, sem no entanto favoritar ou desprezar, aliás flutuamos muito por sentimentos contraditórios, fruto da mestria com que está escrito este «O filho de duas mães».

A qualidade narrativa redobrar o estado de confusão do leitor, em muito conseguido pela forma como o narrador desenha as personagens diante dos nossos olhos, quase dando um pedestal a estes personagens de sentimentos (e atitudes) indecifráveis.

“(…) dei por mim sentado ao seu lado e a recordar-me destas coisas. «Pobres criaturas – era como se dois bustos de mármores fossem quebrados, atirados do alto dos seus pedestais e esmagados», pensei ao relembrar-me dos rostos do marido e da sua mulher depois de o rapaz morrer; «e ela, a pobre mulher, foi duas vezes esmagada…”

Se Catherine Glenn tinha a perfeição de um busto renascentista, já a frieza do mesmo não se lhe podia atribuir, especialmente à medida que adentramos na história das duas mães e sem precisarmos do laço taciturno e enfermo do recém-descoberto filho, embora a sua sensibilidade artística complete ainda mais a percepção que o leitor tem: a maternidade não é o tema fulcral, mas talvez uma generosa ostentação da solidão. Uma suposta fragilidade.

“Ser verdadeiramente maternizado era para ele uma nova experiência (…) ele era sensível de mais para a classificar (…) resignou-se a olhá-la como alguém que possuía um indecifrável orgulho e uma incorrigível perfeição. (…) Ela é um tema.”

Inebriados seguimos com estas personagens-tema até ao declínio de uma e a ascensão corpulenta de outra, esquecendo o filho ou o narrador, mas não um outro tema, o do quanto somos colonizados pelo outro e ansiamos devolver o resultado dessa colonização


quarta-feira, 13 de setembro de 2023

«História do Repouso» de Alain Corbin - Opinião


«Toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa, que é não saberem ficar em repouso num quarto.»

Quem o disse foi Pascal, mas Corbin vai mais além, dizendo, logo ao abrir deste pequeno tratado sobre a evolução do conceito de repouso: «É nos momentos de repouso que sabemos no que estamos a pensar.» Porém, arrisco a dizer, após uma leitura atenta, mas em repouso (daquele lânguido de quem se espraia ao sol), o que esta História do Repouso nos deixa a pensar é que a História da Humanidade se cruza, ou se faz, pela da Religião e a da Igreja, a do Dinheiro e da Industria e muito das Modas e Tendências, existindo uma circularidade daquilo que é esperado do ser humano, assim sendo, que espaço lhe sobra para saber no que está a pensar?

Ficamos inclusive a indagar se mesmo quando há espaço para esse encontro com o Eu, se rapidamente não se procuram outras formas de repouso. E a organização secular da sociedade tem variado a oferta. Nem que seja com a missa, a oração, o trabalho ou a demonização da inutilidade, já que repouso teremos muito quando entregarmos a alma ao criador.

E embora as ideias de repouso e descanso dominical tenham herdado muito do advento do cristianismo e pelo qual o autor deambula bastante, há a evolução do conceito de repouso associado ao trabalho e à consequente alteração do mesmo com a revolução industrial, sem esquecer, conforme os séculos foram passando, e consoante os pensadores de cada época, os estados de alma e os temperamentos também ditarão tendências sobre o era o repouso e como se deveria praticá-lo, até entrarmos nas prescrições médicas do repouso como curativo.

“Quando De Maistre descreve os prazeres do confinamento, pensamos logo nos pensamentos de Pascal sobre os benefícios do repouso no quarto. No fim do século XVIII, a teoria dos temperamentos, que associa a circulação dos humores aos traços de carácter, já entrara em declínio; porém, no caso de Xavier de Maistre, podemos sem dúvida, incluí-lo na categoria dos indivíduos de temperamento linfático (…) era um apreciador das delícias da «flânerie» (…) era um entusiasta da «viagem imóvel» e sentia fascínio por espaços fechados, considerados um «refúgio eleito e estável», que convidavam a um repouso longe da vã agitação.”

O repouso como refúgio ou o encontrar refúgio para repousar é mais tarde a ideia base dos sanatórios, fossem para estados de melancolia e para os valetudinários ou outros tipo de inválidos, todos eles “vitimas de um desregulamento geral da saúde”, mais tarde como famigerada cura para a tuberculose e enquanto Corbin vai relatando e referenciando como todas estas passagens do tempo alteraram a História do Repouso, o leitor está sedento do capítulo sobre aquilo que está a fazer no preciso momento da leitura – estatelado ao sol com o livro em jeito de mini-sombrinha – até que se depara com o termo vilegiatura, pára tudo, baixa o livro, olha o mar e apercebe-se que está em vilegiatura, termo pelos vistos utilizado desde o século XVII, isso mesmo dezassete ;) e continua a ler: “(…) deve a vilegiatura marítima ser incluída numa história do repouso? É lícito afirmar que esta novidade alterou, de um dia para o outro, o conceito de repouso?" e entramos um pouco na Anatomia da Melancolia, Robert Burton que nos fica já na lista.

E seguimos com a leitura e percebemos que a prescrição para a vilegiatura pressuponha “estratégias de repouso em sintonia” (e busca) com a quietude, a introspecção e as sensações agradáveis e apaziguadoras do contacto com a Natureza. Sem dúvida muito diferente do que a maioria pratica hoje em dia, ou considera repouso e férias.

Ostentar o repouso e sentir-se contente (e tranquilo) com essa prática, alimentar uma certa inutilidade e preguiça e exigir o direito ao ócio tem sido cada vez mais estudado e alvo de uma atenção redobrada, ganhando o estatuto de necessidade básica, estudos esses em paralelo com outros sobre doenças, criminalidade, suicídio, produtividade, entre tantas outras vertentes da vida moderna, especialmente aquela que faz do repouso (ou lazer) outra tarefa, com horários, tensões e consumo, transformando mais uma vez o conceito de repouso: Porque deixámos de descansar, se descansar faz parte da jornada?

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

«O Relatório de Brodeck» de Philippe Claudel :: Opinião

«O Relatório de Brodeck» é um inventário da tristeza, da desumanização, da traição, do medo e da solidão, mas é também um inventário da beleza, da esperança, da luta e da crença na palavra. Palavra após palavra, pouco a pouco, o nada ganha conteúdo, dimensão, profundidade, memória. O Relatório é isso mesmo, um compêndio de pequenos nadas que compõem memórias fortíssimas (muitas vezes duras de serem lidas), recordações que não se podem perder, porque cada homem é uma soma de pequenos nadas que justificam tudo!

“Cada homem encontrava-se curvado sobre o seu próprio silêncio, mesmo havendo quase quarenta pessoas no albergue. Estávamos comprimidos como hastes de salgueiro num feixe, asfixiando, respirando o cheiro uns dos outros, os hálitos, os pés, a viscosidade ácida do suor, da, da roupa húmida, da lã velha e do algodão., sujos da poeira, da floresta, do estrume, da palha, do vinho e da cerveja, sobretudo do vinho. O que não significa que estivessem todos embriagados, não, seria demasiado fácil acusar a embriaguez. Apagar-se iam de uma penada as atrocidades. Demasiado simples. Mesmo, muito simples. Vou tentar não abreviar o que é muito difícil e complexo. Vou tentar. Não prometo que consiga.”

E não conseguiu abreviar porque lhe vieram à cabeça, à boca, às noites e à palavra, os pesadelos a que as atrocidades do campo de concentração o condenaram. Voltou tudo, envolto naqueles cheiros e sensações, naquelas ordens que o sentenciaram perante a urgência e a obrigação de relatar. Relatar para ilibar pela palavra. Pela mesma palavra com que falava para si mesmo, descrevendo a beleza, igualmente esmagadora e aprisionante, da aldeia e a Natureza envolvente e só por aí entram alguns raios de luz na narrativa, pois o O Relatório, esse, é pior que o Inverno da sua aldeia.

“No Inverno que, na nossa Terra, é longo como séculos espetados uns atrás dos outros, numa grande espada e durante o qual, à nossa volta, a imensidão do Vale, asfixiado pelas florestas, desenha uma extravagante. Porta de prisão.”

Nos dias seguintes ao Ereigniës (palavra em dialecto usada para descrever a noite do evento) nada mais será quente para além dos ânimos da população, as braseiras ateadas por boatos e as coxas de Boulla, que é talvez das poucas vezes que nos faz rir, embora todos os habitantes sejam peculiarmente descritos, como o velho Diodème que Brodeck achava digno das epopeias e desconfiava ter sido enviado pelos deuses, mas com que intuito?

Entre questões sem resposta e memórias que caem, Brodeck reaviva o medo, sempre o medo. O medo é personagem deste romance, juntamente com o mal.

“Sinto que não fui feito para esta vida. O que eu quero dizer é que a minha vida transborda por todos os lados, que não foi talhada para um homem como eu, que se enche de muitas coisas, muitos acontecimentos, muitas misérias, muitas falhas. Talvez a culpa seja minha? Talvez eu não seja capaz de me revelar um homem? De pegar ou largar, de seleccionar. Ou talvez a culpa seja deste século em que vivo, e que é uma espécie de grande funil no qual se vasa a sobra dos dias, tudo o que corta, esfola, esmaga e retalha. Recordo o meu medo, como se o medo, doravante, fosse uma peça do meu vestuário. Uma peça que, de resto, nunca consegui despir, muito pelo contrário, e que me comprime como se me encolhesse de semana em semana. O mais estranho é que, quando eu estava no campo de concentração, quando me chamava Cão, Brodeck, não tinha medo. No campo de concentração, o medo não existia. Eu estava para lá do medo. Porque o medo ainda pertence à vida.”

Brodeck fez parte dessa marcha de cadáveres, regressou de onde não se regressa e afirma várias vezes que a morte não é difícil, difícil é tentar sobreviver perante a constante ameaça de morte, a ideia, o foco, a concentração numa única sensação, a de morrer. E o ser humano não foi talhado para viver assim. Por isso o Inverno lhe era tão doloroso, memórias como mancheias de neve entre a roupa e a pela. Um frio cortante que queima.

O Relatório vai continuando e pouco é revelado sobre o seu verdadeiro alvo, o Outro, o Estrangeiro, O Estranho, O Forasteiro, ou seja, O Anderer, o homem que foi morto pela população cega de desconfiança, porque o desconhecido é uma ameaça, mas uma multidão é uma ameaça maior, especialmente quando confrontada com o boato, a desconfiança ou o que é puro. Como a pureza dos animais fortemente atacados e usados, embora Brodeck avance e recue na história e nos faça, ora detestar ora compreender cada uma daquelas pessoas.

O que é certo, é que a guerra devastou e os seus horrores não têm fronteira, não precisam de país ou idioma, os traumas têm extensões mais altas que as montanhas e efeitos mais desconhecidos que as entranhas da terra, sempre adensados pelo isolamento e a escuridão

“Releio as páginas já escritas da minha narrativa, apercebo-me de que sigo pelas palavras como um animal acossado, que corre veloz, aos ziguezagues, procura despistar os cães e os caçadores lançados em sua perseguição. Há de tudo nesta confusão. Ostento a minha vida. Escrever alivia-me o coração e o ventre.”

Já o leitor não segue nem sai de coração ou ventre mais aliviado, antes sim num novelo, mesmo quando Brodeck cruza as suas palavras com as de Nösel e nos diz, à laia de dúvida ou de esperança que «o homem é um animal que recomeça sempre», não obstante, afirma que o autor nunca respondeu sobre o que é que o homem recomeça e o acuse de ter esquecido o verdadeiro mundo por se ter dedicado aos livros. Mas também ele, Brodeck se dedicou aos livros, desde cedo pela mão do padre Peiper.

“Alguns devorarão, outros, esventraram-nos, violaram-nos, conspurcaram-nos. E o que é justo nem sempre triunfou sobre o que é sujo.

O que me obrigou, como milhares de outros homens, a carregar uma cruz que não escolhera, a sofrer um calvário que não fora feito para os meus ombros e que não me dizia respeito?

Quem decidiu, então, remexer a minha obscura existência, desenterrar a minha parca tranquilidade, o meu anonimato cinzento, para me lançar como uma bola tresloucada e minúscula para o meio de um imenso jogo? Deus? Mas então, se Ele existe, se Ele existe realmente, que se esconda. Que erga as mãos à cabeça e a curve. Talvez, como dantes nos ensinava Peiper, muitos homens não sejam dignos Dele, mas hoje também sei que Ele não é digno da maior parte dos homens, e que se a criatura pôde gerar o horror, foi unicamente porque o seu criador lhe forneceu a receita.”

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

"A piscina" de Libby Page :: Opinião


Sou uma amante de praia e de dias que envolvem mergulhos e o som do mar como única companhia. Adoro o efeito da água salgada no cabelo, a areia no pé, os desenhos que ficam de nos deitarmos na areia e o terminar de qualquer dia é sempre melhor se for com uma caminhada à beira-mar, maré bem vazia (e a praia também, de preferência) e o sol a cair e transformar tudo aquilo em que toca apenas já por breves momentos. Ler à beira-mar, de cadeirinha enterrada na areia molhada… Enfim, podia continuar a descrever cenários que envolvem a praia, porque a piscina, sendo pública e municipal e tem regras, mas mesmo assim, é um espaço onde cada vez mais recorro para recarregar baterias e nivelar os humores 😊

E o mesmo se passou com este livro «A PISCINA» de Libby Page, que em boa hora as minhas queridas Rodistas me chamaram à atenção para ele, por isso, de todas as vezes que o abria foi como se desse um mergulho na minha piscina, aonde regressei em plena pandemia e por lá me tenho mantido, seja para treinar ou relaxar. No meu pote com papelinhos coloridos, que são notas de gratidão, de um ano para os outros, reencontro inúmeros agradecimentos por mais um mergulho e a água fria que tantas vezes (ou quase sempre!) é curativa.

Contudo, «A Piscina» não é só para os fãs de mergulhos em águas frias, lycras justas e tocas apertadíssimas que comprimem o cabelo e as ideias 😉 são também para quem queira uma história leve, que ainda assim toca em temas sensíveis, como a perda, o luto, a ansiedade ou a falta de confiança em nós mesmos e sensibiliza para a importância de equipamentos públicos que criem espaços de convívio e partilha e assim se fomente um maior sentimento de comunidade. E pelo meio, conhecemos Rosemary, numa idade em que já só se flutua, ou dentro de água ou nas memórias e é aí que a conhecemos jovem e percebemos o quanto uma simples piscina acompanhou e definiu a sua vida familiar, como pode agora definir a de kate.

“Chega sempre com antecedência, mas só se sente mesmo confortável quando a luz diminui e, como ela, todos se perdem no filme. Estica o pescoço para o ecrã e vê a comédia romântica, o thriller, o filme de espionagem escolhido este mês., chorando ou rindo em coro com os outros espectadores. A emoção flui pela sala como uma onda. quando assiste a um filme, não está sozinha, faz parte de algo maior, um rosto sem nome numa grande plateia de rostos sem nome.”

Esta massa humana e tantas vezes incógnita no seu todo, também pode estar na piscina, naquela orquestra de barbatanas, pás, mãos e pés nus, que dialogam com os guinchos das crianças, o chapinhar dos brinquedos que flutuam, as gargalhadas a ecoar maia alto que a música das aulas, um burburinho incessante que apenas sossega a cada mergulho quando a água nos devolve a um silêncio desfocado pela respiração tantas vezes sustida em esforço.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Regressar à escrita de Sainz Borgo sem ser para dar continuidade à saga de Adelaida Falcon foi uma barreira difícil de ultrapassar. Eu queria aquela mulher, fosse imigrada em Espanha, fosse de regresso à Venezuela que a ia comendo viva. E custou-me esta nova realidade. Houve até alguma luta com este cenário árido, mas rapidamente reencontrei a dureza e a brutidade das palavras a quem a autora arranca a pele. 

Um casal debicado pelas agruras de um país entregue à miséria e à peste, decidi partir em busca de um outro destino que não o da aflição e do desamparo. A vida já quase lhes retirou tudo, mas deu-lhes dois gêmeos que entre ânsias e pobreza, nasceram prematuros.

O adiantamento dos moços não lhes atrasou a fuga. Angústias Romero sabia que agora tinha ainda mais por que partir. Forte e destemida, embora crente de que "Deus nunca se decidiu a acompanhá-los" fez-se ao caminho com os dois amarrados às costas, enquanto tentavam acabar de cozinhar-se entre suor, poeira e o trapo que os amarrava à mãe. Amarrava mas não os segurou a vida. 

E se o deserto já era imenso e agigantou-se perante a morte dos gêmeos.

Mordida pela dor, temos uma mãe determinada a enterrar os seus filhos, já que chão será a única coisa que ainda lhe pode dar, mas temos um pai picado pela serpente do desânimo que ameaça ruir a cada passo. E desmontados cada um à sua maneira, estas duas almas penadas vão em busca de Visitación Salazar, um ser mítico cuja biografia parecia um pai-nosso, uma verdade sem explicações

E neste baile de almas penadas, neste chão que encerra o queixume dos mortos, a lei de Salazar faz frente à lei de homens violentos e corruptos, os verdadeiros donos de Las Tolvaneras, morada última de tantos que ficaram para trás, cujo destino seria uma sepultura de pó, vento e esquecimento. Mas aqui, neste cemitério, neste Terceiro País, a voz destas mulheres são a única árvore que dão sombra e irão mudar a vida de alguns que ainda serão capazes de se parir de novo. 

Porém, o morredouro que circunscreve esta fronteira às portas da efectiva fronteira é terreno para enredos que se cruzam entre o real e o sobrenatural, no entanto, o sofrimento é transversal a vivos e mortos ou não fosse com as palavras de Juan Rulfo em Pedro Páramo que Karina Sainz Borgo decide abrir este livro. Que fazem ainda mais sentido agora que já li ambos.


sábado, 29 de julho de 2023

"A história de Roma" de Joana Bértholo :: Opinião

A história de Roma ou como foi que o nosso amor aconteceu? Se é que aconteceu mesmo. E quando acontece, o amor é sentido igual? Bate de forma igual?

Aqui, claramente que não!

Chuana (ou Joana) recém-chegada à complexa geografia de uma Buenos Aires milongueira e perdida na arte de chuchurrear e compreender os meandros da confecção e degustação do mate, faz um desvio para conhecer um homem pela arqueologia do seu quarto, sem, no entanto, perceber muito bem o enigma com o qual anda de mãos dadas na rua, festas e outros eventos por onde socializam como casal. E mais uma vez, é na caracterização das personagens e na densidade que lhe dá que a escrita de Joana Bértholo ganha todo o fôlego e reencontro o que mais gostei em «Ecologia», a forma de descrever os outros que é logo em si mesma uma relação com o outro.

“Orgulhoso e casmurro: são várias as recordações da tua fúria a pontuar a mesa com o punho. Tens prazer em exaltar-te. Chamam-Te conflituoso, mas não possuis a rigidez das pessoas conflituosas, apenas uma atração genuína pelo confronto. Falas de qualquer desconhecido com fel e de qualquer camarada com mel. És tribal. Eu penso em termos de planeta e tu em termos de clã. (…) Casamento da Irene e do Tomazzo, um senhor sentado ao teu lado, pergunta tu que fazes. Sem pestanejar, respondes que és talhante. Isso parece surpreender e cativar as pessoas na mesa, que ficam mesmerizadas a ouvir-te discorrer acerca dos distintos ângulos de corte de carne, o desmanche de uma peça ou o Segredo de um bom hambúrguer. Passo a refeição esquinar graçolas por ser a companheira vegetariana do talhante. Vamos embora sem que desfaças o embuste.

No calor de uma discussão, tu a dizeres que a verdade não interessa, só importa sermos honestos.”

E é em busca da honestidade para consigo mesma que Joana repesca as memórias e iludida ou não por essas mesmas memórias discorre uma narrativa quase diarística sobre um amor de difíceis contornos e uma Roma que não chegou a existir. Uma quase cidade que foi calcorreada apenas pelas expectativas e reflexões, muitas delas sobre a maternidade ou melhor dizendo, a não-maternidade


“(…) Grávidos, todos.
Alguém filma. Alguém me filma, de pé, a conter o pânico. A câmara persegue-me, eu tento escapar mas esbarro em barrigas. (…) Incapaz de olhar e de ignorar. A ferir-me e a nutrir-me com aquela imagem. Quero acordar, mas não consigo.
(…) Ao centro do círculo aparece um caixão com a forma de um enorme corpo nu de mulher, que se divide em dois como num truque reles de mágico de circo. O interior do caixão-corpo é azul e aveludado. Está cheio de bebés.”

A estranheza de alguns episódios retira o leitor do périplo turístico e do novelo romântico e é com eles que a narrativa ganho o outro fôlego, navega em águas mais turvas, mas os momentos de reflexão social sobre o papel da mulher-não-mãe são muito interessantes, lúcidos e até acutilantes, embora as arestas não apontem de dedo em riste. São reflexões-nuvem, pairam e dão fronteira aos diálogos do casal.

Independentemente de gostarmos ou não do enredo, partilharmos ou não, viagens e reflexões, o melhor deste livro é mesmo a forma como a autora nos apela aos sentidos e como demonstra o quanto as relações nos apuram ou atordoam esses mesmos sentidos.

“Não tenho dúvida de que esta ênfase na alimentação é uma forma de me ancorar e de lidar com a ansiedade que aquele reencontro tinha gerado. Contra essa ameaça, eu saboreio, o que une e arreiga. Cada pinhão, cada talo crocante, cada pedaço de pão chato mergulhado em molho ou coberto de condimentos, me ajuda a ficar na imediatez dos sentidos e a não me deixar apanhar pelos desvarios da mente, da memória ou da expectativa do que irá acontecer a seguir.”

Entretanto, na imediatez da expectativa fica o leitor, tal e qual amor não correspondido perante a impossibilidade de fechar certas histórias, mas até nisso está bem feito, pois quando um casal discute, ambos têm razão, mas nenhum está certo 😉

“Não negoceio: A viagem será sempre a melhor das minhas más decisões.”

E existem muitas formas de viajar!

terça-feira, 18 de julho de 2023

"O homem do ciúme" de Jo Nesbo :: Opinião

 

“A taxa de homicídios na Grécia e baixa. Tão baixa que muita gente se pergunta, como tal é possível num país em crise, com grande taxa de desemprego, corrupção e agitação social. A resposta espirituosa é que, em vez de matarem alguém que odeiam., os Gregos permitem que a vítima continue a viver na Grécia. Outra é que não temos crime organizado porque não somos capazes de organização necessária. Mas é claro que temos sangue quente. Temos o crime passional. E eu sou aquele que é chamado quando há suspeita de o ciúme ser o motivo por trás de um homicídio. Dizem que consigo cheirar o ciúme.”

Não sabemos se o ciúme tem cheiro, mas sabemos que Nesbo mete o leitor de nariz bem empinado, olfatando por culpados em cada esquina e com a cauda num frémito como pás de uma ventoinha.

Para o leitor com faro menos apurado ou sem aspirações para roubar o lugar ao inspector, o ritmo pode ir buscá-lo à «Black Dog» dos Led Zepplin e enquanto dá ao pezinho e lê desenfreadamente, cruza os olhos quando os sons se misturam e já o karaoke vai em «Happier» de Ed Sheeran quando os graves roçam a tortura emocional, causada pelo ciúme… mas a verdade é que ela está mais feliz.

Ou parece!

E aqui há muita coisa que parece mas habilmente não é! Por isso, os Led Zepplin retomam o palco e o riff  (que parece) menos harmonioso imita o batimento descompassado do coração do leitor perante alguns finais. Um coração que não sabe se martela e insiste como a pedaleira dupla duma bateria que acusa o ciúme como mote para tudo ou se, tal guitarra se deixa dedilhar e gritar consoante o tom de cada história.

Jo Nesbo agarra o leitor desde o primeiro conto e a morte cola-se-lhe à pele, daí em diante, a luta é entre a ansiedade, para afastá-la, e a atração para ela, como solução para tudo, o que não deixa de ser rebuscado quando misturado com ciúme, actualidade e justiça.

“O homem do ciúme” é um sortido fino de contos, polvilhados com um toque de malvadez, especiarias maceradas no ponto certo, humor refinado, uma pitada de inocentes e uma mão cheia dos culpados do costume, tudo muito bem embrulhado em dilemas intemporais e um laçarote bem repenicado que aponta o dedo aos temas actuais. 


sexta-feira, 7 de julho de 2023

Opinião "Ainda bem que a minha mãe morreu" de Jennette McCurdy

 Faz muito tempo que não me sento "aqui" para escrever.

As leituras andam pelas ruas da amargura e as opiniões, ui, reconhecem-se ausências de anos, menos regulares que aquele café que juramos combinar com aquela colega da escola secundária com quem (por sorte ou azar!) nos cruzamos na estação dos comboios.

Mas hey....aqui vamos nós!

"Ainda bem que a minha mãe morreu" não foi o único livro que li nos últimos meses (e anos!) de ausência aqui. Ainda bem!

"Ainda bem que a minha mãe morreu" foi um dos que nunca, nem por sombras, me viria parar à mãos por escolha própria. Foi o meu filho que disse "quero ler!" e eu pensei "ahhhhh, isto é alguma dica?!". 

Parece que não, era mesmo só um adolescentes com um olho no Tiktok e nas suas tendências. Eu acabei por o comprar, sem nunca ter ouvido falar da Jennette McCurdy e por mais que a leitura da contracapa me tenha deixado a pensar "Wow!", entreguei-o ao suposto leitor e nunca mais olhei para o livro.

Mas a curiosidade levou a melhor de mim e as pessoas que me enviaram um clip de uma entrevista no programa da Drew Barrymore também (vejam aqui)

Devorei este "Ainda bem que a minha mãe morreu" como se de ficção se tratasse, a arrepiar-me com as ações e reações de uma mãe manipuladora e doente e de uma filha que não conheceu outra realidade e assim cresceu condicionada. 

Dizia o Buzz (sim sou velha!), é "FACTO OU FICÇÃO?".

O que nos é contado não é ficção, é a vida de alguém, por mais que a Jennette não fosse conhecida no meu universo de trintona que nunca viu o iCarly, é chocante os episódios que vamos lendo sobre o seu crescimento, a relação da mãe com ela e com a restante família (especialmente o pai!), o desprezo por um caminho que nunca desejou seguir, uma total aniquilação da sua pessoa e as consequências nefastas de todos os fios que a mãe puxou na marioneta superestrela Jennette.

Ainda não terminei mas senti-me inspirada para vir escrever qualquer coisa. Nem que seja porque preciso de ganhar novo fôlego para continuar a leitura após tropeçar em 3 momentos de tradução que despertaram o Pat em mim.

(nota: o Pat de Guia para um final feliz  The Silver Linings Playbook do Matthew Quick)

NOTA: a capa/título gera sempre comentários e virares de cabeça das pessoas à nossa volta. E vejam lá se no vosso universo, a leitura deste livro não é uma dica a alguém.

Se for, então deviam mesmo ler.

Boas leituras!

sexta-feira, 23 de junho de 2023

«O Quarto do bebé» de Anabela Mota Ribeiro - Opinião

Escatológico ou não, seja pela quantidade de vezes que relata os seus episódios fecais, seja pelas preocupações que a se abeirou sobre o fim do mundo e ideias de pós-fim de mundo, por motivos de doença e ambiente pandémico, o que e certo é que «O Quarto do bebé» de Anabela Mota Ribeiro é um registo diarístico peculiar, sem friso cronológico definido e que tanto disserta sobre a banalidade e a mesmice do dia-a-dia como tece comentários e preocupações de teor mais intelectual, deixando o leitor sem saber muito bem o que vai encontrar ao virar de cada página. Uma coisa é certa. O medo. 

"Escrever é fazer pão. É dar uma forma ao medo, torná-lo comestível, ser capa de o cuspir."

E em confinamento, pandemia, doença e incerteza, o medo foi companheiro de muitas horas, nas horas de todos nós. "A raiz deste medo é diferente da raiz do medo do que é incognoscível. Ainda que seja sempre medo. Um solo diferente que dá pedras semelhantes. Lá no fundo, na ramificação, talvez deem as mãos." Tal como as pedras, o medo assume diversas formas, sempre exigentes. Duras. Escrever foi uma forma de combater o medo. Escrever e limpar. Limpar e escrever. Reescrever. Limpar. Mas limpar o quê? O medo e o passado?

"É uma coisa mesmo minha: apagar qualquer vestígio e iluminar-me de espanto se, por acaso, encontrar no futuro uma coisa do meu passado. Isto foi mesmo connosco? Isto fomos mesmo nós? (...)
A descrição dos factos destes dias, um dia, vai constituir um dialeto do isolamento. Uma linguagem que só pertence a este contexto, que só nós, que vivemos o medo de morrer e o horror da desesperança, dominamos com proficiência."

Talvez esta possa ser uma resposta ou um roteiro de leitura. Um diário-prova dos factos. Uma limpeza do medo e do passado das que deixa rasto, embora limpo, arrumado, datado e acedido apenas pelo acto de ler. Contraditório. Como tudo no ser humano, especialmente quando o medo estica as ramificações a um futuro (ou passado) longínquo, como a solidão e a orfandade de ser só cinzas, corpo sem descendência, camada de pó que ninguém vá visitar. E oscila entre a não-maternidade própria, real e a orfandade nascida no abuso que foi a colonização, dando uma perspectiva que não se ouve muitas vezes.

“Quando passaram 40 anos sobre o 25 de Abril, dei-me conta de que o meu pai não estava quando comecei a andar e a falar. Tinha meses quando ele foi para a tropa. Essa era a condição de milhares de crianças. A compreensão dessa ausência, do trauma, da orfandade é uma coisa que só agora começa a ser escalpelizada nos estudos sobre o colonialismo. Escalpelizada é mesmo aquilo que quero dize. Abriu-se uma porta para a cabeça, fez-se um lenho, alguns começaram a entrar, muito começou a sair.”

São variadas e entrecortadas, as memórias entre passado e presente, porque o presente quando começa a ser escrito já é uma memória, diz-nos a certa parte, como também nos diz que luta e esbraceja, é borboleta. E de bater de asas hesitante, hesitamos muitas vezes em continuar, questionando o sentido do que lemos e entretanto a autora responde-nos: "Ainda não estamos nessa fase. Não procuramos capta um sentido. Procuramos sobreviver." E podemos extrapolar as suas palavras sobre a pandemia para o que sentimos com o seu livro, que nos vamos desviando de certas palavras que caem como pedras. Pancada seca, queda abrupta, umas conseguimos identificar de que falésia caem, outras não.

E chegamos ao fim acreditando que o sentido de tudo isto provêm de uma tristeza imensa que acompanha futuros que ficaram por cumprir, que morreram no cansaço e na doença. Uma tristeza imensa perante a dor e o medo da solidão. Simultaneamente há uma enorme capacidade e inteligência de pensar tudo isto de forma detalhada e cirúrgica, ficcionando um registo com arestas verídicas.

"A minha vida são esforços de emancipação, gestos de recusa, uma dor que me autoinfligia, a culpa de me ter insubordinado. E um desamparo absoluto. A certeza de estar sozinha. Não há uma clareira última para onde possa fugir, onde me sinta embalada. Pegada ao colo. O cancro deixou um imenso rasto. Eu não sabia que a extração do tumor eram mais simples. É única coisa simples."


sábado, 13 de maio de 2023

"O alegre canto da perdiz" de Paulina Chiziane - Opinião

 

“Um grito coletivo. Um refrão”

Eu acrescentaria, uma litania, uma ladainha que no seu tom poético pretende converter a dureza de temas tão vastos e intermináveis como o racismo, a colonização, a guerra, a violência e a violação; a liberdade versus a assimilação e a traição, o jugo da opressão, da guerra de raças e de sexos (e a da religião) - a escravatura - os conflitos interiores e a luta desmesurada pela sobrevivência, num misto complexo e contraditório de sofrimento e destruição, sem esquecer a que é autoinfligida. E ainda há lugar para narrar a Mulher, essa raiz mais profunda e extensa de África, o seu corpo, o seu papel, a sua sexualidade, toda a sua complexidade e sofrimento.

“Quantas forças uma mulher deve ter para carregar a tortura, a ansiedade e a esperança, quantas palavras terá a oração da eterna clemência a um deus desconhecido, cuja resposta jamais virá?”

Quantas forças um escritor deve ter para narrar as dores de uma terra que o viu nascer?

E quantas forças mais terá que ter sendo mulher que quis encontrar as palavras que são chuva fresca e têm “o poder das ondas mansas embalando as embarcações na valsa da brisa”.

Desengane-se o leitor, «O alegre canto da perdiz» nem sempre é alegre e nem sempre é fluído como uma valsa. O batuque por vezes impõe-se, caótico e na tensão de cada batida há uma subversão que quer romper a noite, rasgar quem derruba a esperança que às vezes já não vem com cada nascer de cada dia.

Por isso, as mulheres e os homens que aqui encontramos seguem de sorriso aberto e o peito fechado, muitas vezes “frustrados como abelhas embatendo nas vidraças frias de uma janela” porque “há parcelas do organismo que não se alimentam de arroz, nem de remédios ou palavras divinas” precisam de sonhos realizados e não de miragens. Ainda assim, o ingrediente que mais abunda é o da complexidade contraditória que habita todo o ser humano, balanças ao vento, aguardando a acalmia.

“Nas cidades humanas a liberdade é proibida. O ser humano tem que andar sempre vestido, documentado, calçado. Por andar sem rumo, a polícia prende por vadiagem, como se alguém conhecesse de facto o rumo de cada passo. Por que é que tem de se andar num rumo exacto se todos os lugares são lugares para andar?”

E caminhando até ao final do livro, lê-se nas entrelinhas a mensagem de esperança, acreditando numa humanidade capaz de se reinventar, já purgada de que ainda reste por denunciar e perdoar.


sábado, 6 de maio de 2023

«A Ofensa» de Ricardo Menendez Sálmon :: Opinião

“A morte é a condição real que ofende a fantasia.” Harold Brodkey, The Runaway Soul

Uma alma que foge à morte, nas suas mais variadas formas, pode ser o resumo deste «A Ofensa» que valeu a Menendez Sálmon as luzes da ribalta da ficção espanhola nos idos de 2007.

“O heroísmo foi inventado para os que carecem de futuro e melhor não podia ser introduzido o homem deste relato, Kurt. Um homem em transformação desde o primeiro momento. Em homem em fuga.

“(…) Kurt abraçou Rachel durante longos, suados e comovedores minutos em que ambos conjugaram os dois verbos mais antigos que homens e mulheres reiteram na intimidade: amar e temer.” 

“O mundo era um teatro de exaltações e de ruído envolto no grato celofane da velocidade, da exactidão, da mecânica da sedução.”

A guerra estava à porta e os homens montavam insólitos cavalos mecânicos, seduzidos pela potência que resfolegava campo afora, parecendo imunes aos corpos horrivelmente mutilados, corpos que outrora contracenavam em abraços e despedidas, promessas e desejos e agora não passavam de escombros.

“Ao fim e ao cabo, até a filosofia mais trivial ensina que a vida se parece mais com um quadro de Bosch do que com um bucólico almoço na relva.”

É esse quadro de Bosch que encontramos numa linguagem acelerada que introduz e resume manobras de guerra e artilharia, posições e detalhes geográficos, mas que embate em pequenas coisas, réstias de luminosidade (ou humanismo?) que comprometem a engrenagem de virilidade, posse e sentimento de violação infinita.

“(…) todo aquele estrondo não fez mais do que atirar baforadas de frio sobre o seu peito e extremidades, de modo que receou não conseguir dar um passo sem desabar como um boneco de neve.”

Não obstante, o lirismo enternecedor não suplanta a estranha dignidade que os homens em guerra precisam de manter, um sentido que parece não ter local de inversão e os faz esquecer os seus e a sua própria língua. Os faz esquecer de si, do seu corpo naquele combate sem fronteiras para a desumanização.

Será esse esquecimento uma forma de desmaio? Uma forma de viver sem estar realmente naquela realidade da guerra?

sexta-feira, 28 de abril de 2023

"Sangue Derramado" de Asa Larsson :: Opinião


Perante a morte da pastora protestante, Mildred, adentramos em Kiruna. Conhecemos o gene policial de Asa Larsson na personificação de várias personagens fortes. Mulheres fortes. Eu diria até, mulheres fortes protegidas por uma loba solitária e fugidia e é dessa forma que as árvores ganham mais vida, os ruídos espessura e o enredo um outro tom que eleva este policial nórdico. 

Foi uma bela estreia no universo de Asa Larsson! Tanto, que mesmo com o rabo sentado na areia e entrevalando as leituras com banhos de mar e sol, cheguei a sentir o frio e a escuridão daquelas terras nórdicas, silenciosas e misteriosas.

Embora tenha sido uma estreia, a história de Rebecca Martisson arrancou num livro anterior, mas as pistas estão todas nas entrelinhas e é como se existissem dois crimes por desvendar, não obstante, eu estar mais preocupada em saber da loba e querer saber que continuava intocável. Portanto, neste "Sangue Derramado" apanhamos uma Rebecca meio fugida, meio perdida, para quem as coisas ultimamente só lhe entram na cabeça à força. Depois os últimos acontecimentos, sente o seu mundo de pernas para o ar, mas observa com muita lucidez que todos à sua volta andam «com a fita métrica a postos nos bolsos». 

Sente-se observada, analisada e medida por tudo o que diz, mas essencialmente pelo que não faz ou não diz. Para além de estar rodeada de uma equipa onde todos lutam por protagonismo, estão todos à espera que se passe novamente da cabeça e resvale, dando sentido à opinião de alguns que acreditam que ela não é a melhor escolha para ir a Kiruna. Assim sendo, este «Sangue Derramado» pode muito bem ser o cenário ideal para isso, já que Kiruna é precisamente a terra que a viu nascer.

Como se isso não bastasse, o enredo envolve um crime na paróquia, uma mulher à frente desse posto de comando. Coisa rara! E ainda por cima uma feminista e defensora de que já é mais do que tempo de contrariar o sistema e fazer as coisas avançar. Mudar. E a mudança assusta muita gente. Pior, a mudança sugerida (ou imposta) por uma mulher. Aliada a outras mulheres.

Larsson não poupa a sociedade escandinava, a religião, as comunidades pequenas e tacanhas e os atentados ambientais mesmo naqueles que parecem ser paraísos de gelo, lugares sagrados, recônditos e intocáveis. Ou assim se esperava.

Larsson lança pedradas, umas atrás das outras, como que a avaliar a que distância está o fundo do poço. 

O que de lá se ouve? Ou reluz? 

A sua escrita e capacidade de saciar o leitor, fazendo-o querer avançar, capítulo a capítulo, enquanto ela vai afogando os seus personagens em mentiras, ódios, crimes e segredos. E claro, o amor! Servindo-se de diferentes tipos de amor, mas essencialmente um muito grande à Natureza e aos Animais. E arriscaria dizer: às pessoas, que na sua solidão, isolamento e bondade tantas vezes abusada, comentem crimes; a sua literatura não os exonera, mas tenta mostra que a linha é ténue e qualquer um pode cometê-los.

domingo, 23 de abril de 2023

«Atelier de Noite» de Ana Teresa Pereira – Opinião

“Não podemos pôr nada inteiro, mas no meio dos pedaços temos uma visão enovoada do que existia antes (…)”

Enovoada surge-nos uma mulher, Teresa, uma Agatha Christie que se reinventa, embora seja uma mulher cheia de pensamentos intermitentes e dúvidas. Ela foge, sem dizer muito bem do que foge. Talvez para um último amor, talvez para se reinventar e se amar a si mesma, uma última vez, por isso nos diz: “Há um tempo para as últimas coisas, o último relógio de pulso, a última gabardina, o último cão, o último amor. A última beleza intermitente. Por vezes é assim que penso naqueles onze dias. A última vez que fui bonita.”

Talvez um amor platónico. Sabemos que havia um homem; «nota-se na boca» diz-nos ela a determinada parte. Seria uma antiga paixão? Uma paixão sempre capaz de se reacender, como as boas histórias que «começam uma e outra vez, mesmo depois de já termos ido embora.”

Ficamos na dúvida, mas supomos que essa é claramente a intenção da autora, o seu traço característico, o de criar «alguém que pudesse habitar», reescrevendo-se como um poema cujos versos andam soltos e só se unem dançando. É preciso dançar, embalar e namoriscar a noite, pois «nada é seguro. Uma manhã podemos acordar num quarto de hotel, e não encontrarmos a nossa personagem». Há um medo em perder-se de si e não mais se encontrar ou encontrar-se sozinha, quebrada, já sem ninguém, já sem nada que a ponha inteira de novo.

«O Atelier de Noite» é um livro carregado de fragmentos e incertezas, mas que transparece uma preocupação: um medo enorme pela desordem do que pode ser o fim, quando se esgota o que a caracteriza e lhe dá sentido. As camadas.

É um romance que vive mais de forma do que enredo, é cheio de referências e fluxos de consciência, mais do que de uma história concreta, com princípio meio e fim, mas até nisso cruza bem com a personagem de Agatha Christie, que queria fugir desse registo, já que o policial, por norma, mesmo que enredado, negro e complexo, tem uma estrutura regrada, expectável e testada. Por isso, a ideia de Ana Teresa Pereira em cruzar um episódio verídico ainda sem uma explicação concreta (facto que eu desconhecia) com esta possibilidade também ela pouco nítida e que casa muito bem com o “desfecho”: o escritor escreve sempre a mesma história e de tanto escrevê-la haverá de acertar, quase como se isso corrigisse a vida 

domingo, 16 de abril de 2023

«No jardim do Ogre» de Leila Slimani :: Opinião


Eu não sei se Adèle é a nova Bovary, mas um certo tédio e desvario instalaram-se na vida desta mulher, que “em união” com uma patologia de distúrbio sexual, lhe condiciona os dias e as noites em busca de sexo. Ela está insaciável!

“Não mantém um livro de registo, não retém os nomes e, muito menos, as situações. Como poderia ela lembrar-se de tantas peles, de tantos cheiros? Como poderia guardar na memória o peso de cada corpo sobre o seu, a largura das ancas, o tamanho do sexo?”.

Posto desta forma, como Slimani o descreve, parece quase poético. Não o é! É bruto, é visceral, fragmenta e destrói esta mulher. Corrói-lhe corpo e alma. E o respeito por si mesma, torna-a numa «boneca no jardim do ogre». E com as bonecas, brinca-se. Até o marido brinca.

A paz pobre que cobre o tom de respeitabilidade do matrimónio com Richard, um médico reconhecido e socialmente bem inserido (fruto do casamento, de um filho e de uma mulher bonita) ajudam a que ela viva desenfreadamente os capítulos tóxicos de uma sexualidade de risco, onde o desejo não rima com luxúria ou prazer, mas antes com um êxtase que se chega ao abismo. Há até uma certa repugnância e angústia que acaba a espalhar-se a tudo.

“Não se tocam. Beijam-se pouco. Os seus corpos nada têm a dizer um ao outro. Nunca sentiram atracção, nem sequer ternura, um pelo outro e, de certa forma, essa ausência de cumplicidade carnal reconforta-os. Como se isso provasse que a sua união estava acima das contingências. Como se já tivessem feito o luto de algo de que os outros casais só se conseguirão desligar a contragosto, com gritos e lágrimas.”

Controla esses gritos e lágrimas, mas nem sempre Adèle controla o que lhe vai no pensamento: «apetece-lhe arranhar aquele rosto descontraído e meigo, esventrar aquele colchão reconfortante», no entanto, vai esventrando-se a si mesma num planeamento que a consume, mas que é inverso ao planeamento de Richard, dono de um colchão cada vez maior, mais alto, antecipando ao leitor a queda de proporções implacáveis.

“Não é dos homens que ela tem medo, mas sim da solidão. Já não ser alvo de olhares, ser desconhecida, anónima, um peão na multidão.”

Não obstante a audácia do enredo, julgo que a força está na forma sucinta e cirúrgica como Slimali usa a linguagem para demonstrar ao leitor a mulher-peão numa doença que a torna em pouco mais que um corpo anónimo, consumido, usado, abusado.

«Rua Katalin» de Magda Szabo :: Opinião

 

"Hoje tenho a noção da importância daquele momento; contudo, na altura, não cheguei a percebê-la. Muitas vezes só tardiamente nos apercebemos de como teria sido importante, enquanto é possível, prolongar e reter o tempo. Mas eu não tentei retê-lo. Estava com pressa. (...) Naquela altura, ainda sabia que se podia morrer bem antes da morte verdadeira. (...) Mas agora, isso já pouco importa; os sentimentos e as recções, tal como os factos, são irreversíveis, não se pode revivê-los nem mudá-los."

Em menos de três páginas, três pequenos excertos que podiam saltar do livro para a vida. Imitando-a. Salva-nos uma nuance: o livro, esse, podemos reler, mas mesmo assim não anulamos o que já conhecemos, o enredo, o desfecho. Podemos reinterpretar, saborear e usufruir o que não soubemos fazer à primeira, mas será impossível alterar a expectativa (e a pressa!) com que o atacamos na leitura inicial. E isso é uma metáfora da vida. É preciso saber dar a cada coisa o seu lugar e o seu tempo e não fazer comparações. Mas como fazer isso bem feito quando as expectativas vão elevadas?

A "culpa" foi da experiência arrebatadora provocada pela leitura de «A Porta» e a vontade de querer, às primeiras páginas, ficar assoberbada, inebriada e rendida e uma personagem que pudesse equilibrar a balança ao lado de Emerence. Mas os livros, como a vida, têm personagens irrepetíveis, ainda assim, todas têm o seu lugar e o seu efeito sobre nós. Basta deixarmos!

Em «Rua Katalin», Szabo mostra-nos o envelhecimento através do processo de rememoração da infância e de episódios que definem para sempre as vidas de Irén, Blanka, Balint e Henriette, crianças de três famílias diferentes que nos são apresentadas num quadro de personagens iniciais (que tanto determinam a experiência de leitura) e num curto capítulo introdutório que, à laia de aviso, nos diz: "Ninguém lhes havia explicado que o desaparecimento da juventude seria alarmante, não por lhes retirar, mas por lhes oferecer algo (...) a consciência da desintegração do Todo (...) o Todo harmonioso fragmentara-se."

E é na senda dessa fragmentação que o leitor vai compondo a cronologia possível que, julga ele, lhe permitirá compreender o que aconteceu naquelas vidas e o peso e os fantasmas que carregam, perante a crueldade de determinadas memórias, feridas sempre abertas e emoções demasiado confusas, para se expressarem na simplicidade das lágrimas.    

"Continuámos sentados em silêncio, como dois irmãos e, pela primeira vez na minha vida, presumi que os mortos não morrem, e quem já vivera neste mundo, seja sob que forma de existência, é indestrutível."

A inevitabilidade do curso da História e a dor que daí advém, muda-os e molda-os ao entrarem na idade adulta. Transforma-os em desconhecidos uns para os outros, mas também para si mesmos, porque «nas tragédias, quando os golpes são muito fortes, o espírito defende-se, concentrando-se num pormenor insignificante», tal como logo ao início o narrador nos avisa: «na realidade, os acontecimentos que constituíam as suas vidas só em poucas situações, nalguns momentos e episódios, foram importantes; o resto servia apenas para encher os poros da fragilidade da existência, tal como as aparas de madeira impedem que se quebre o conteúdo de uma caixa destinada a uma longa viagem». 

E nessa longa viagem, composta por aparas que enchem mais de trinta anos, conhecemos vários tipos de amor, de sacrifício, de opressão e de união familiar, mas também a inocência da amizade e dos amores de infância que geram memórias responsáveis por decisões que determinaram as vidas destas três famílias «como um barco que é levado pelo vento, Deus sabe para onde, agarrando-se um ao outro, (...), pois lembram-se das mesmas coisas (...) tinham visto o mesmo céu azul antes de a tempestade se ter desencadeado».

 *

Nota extra: Percebi o quanto tinha gostado deste livro ao reler a opinião sobre os efeitos da leitura de «A Porta». Está cá tudo, igualmente cheio de mestria e desconcerto para o leitor. E também por ter encontrado nas páginas finais, nas revelações impactantes de Irén, ecos de «A Herança de Eszter» e perceber, mais uma vez, quanto tempo os livros, como as memórias, vivem dentro de nós.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

«Um detalhe menor» de Adania Shibli - Opinião


«nas tragédias, quando os golpes são muito fortes, o espírito defende-se, concentrando-se num pormenor insignificante» (em «Rua Katalin» de Magda Szabo)
A frase não pertence a este enredo, mas podia. Encontrei-a numa leitura seguinte, mostrando-me que os livros, mesmo aqueles que não aprecio tanto, ficam a pairar e estabelecem traços entre eles, que os unem e explicam, dando-lhes mais sentido. Neste caso, perante esta frase compreendi o grito de revolta que se encerra nos pormenores insignificantes deste «Um detalhe menor», que são as repetições, as descrições e a monotonia (e alguns piscares de olho), quase como últimos redutos para um povo que se viu em escombros perante uma ocupação e uma expropriação que ainda hoje tem persiste, divide e oprime.

"(...) o que parece uma aranha começará a tecer os seus fios em meu redor, apertando-os de tal maneira que pouco a pouco se transformarão em algo semelhante a uma barreira, que nenhuma pessoa, sendo tão frágil, consegue trespassar. É a barreira do medo, cuja a origem é o medo da barreira do posto de controlo. (...) ou se disser abertamente que vivemos sob ocupação. (…) O que acontece diariamente num lugar onde prevalece o tumulto de ocupação e a matança permanente”

Por isso, enquanto um homem de patente cumpre os seus rituais de higiene, mas continua a apodrecer - detalhe nada menor - com um ritual monótono, como a paisagem dunar e a canícula longa e prolongada, uma mulher é vítima do crime hediondo da violação. Uma violação repetitiva e duradoura, onde toda um regimento se satisfaz. No entanto, esse parece um detalhe menor, não pela ausência descritiva, totalmente dispensável, mas por só lhe der dado destaque vinte cinco anos depois quando uma outra mulher tem conhecimento desse crime e decide percebê-lo melhor. Embora sem saber muito bem como ou porquê, metáfora para a guerra sangrenta que afunda um povo num «abismo de inquietação».

E chamar-lhe inquietação é pouco. A paz é uma miragem, mesmo para quem continua a empurrar o corpo e a querer com ele saltar e quebrar fronteiras, mesmo que por vezes o faça de forma irracional, fruto de um desassossego que atormenta quem vive uma liberdade furtiva e fragmentada. Metafórica.

"O único movimento agora é o da miragem, que faz as estradas e as colinas tremerem nervosamente, nelas aparecendo espectros que, quando uma pessoa os encara directamente, se desvanecem num piscar de olhos (...)"

domingo, 2 de abril de 2023

«Biografia do Língua» de Mário Lúcio Sousa :: Opinião

“A ansiedade de um ilhéu é uma fonte de histórias pelas esquinas.”

Dono dessa ansiedade de ilhéu, um homem condenado e à espera de ser “polvilhado de balas” faz uso de técnicas que remontam às 1001 noites, oscilando entre condenado, biografo e contador de estórias. Ou encantador… Pois enquanto conta, encanta e narra a vida e um prodígio, o Língua. Tal qual Xerazade vai atrasando o seu destino ou melhor dizendo, recriando destinos enquanto cria uma utopia na falésia.

“Sei que o falesiano é um povo brando e habituado ao desapego, pela nossa própria origem, porque este povo nasceu pendurado da vida de alguém que estava por um fio, mas sei que temos a debilidade de um bicho destroçado, sei que a porta da saudade nos deixa como cão que perdeu o dono. Agora só nos resta o consolo.”

E o consolo era a palavra!

O tempo passa e ele não morre nem de balas, nem de fome. E se mais não conseguir, consegue a proeza de converter os seus verdugos numa turma de escuteiros à volta da fogueira, ansiosos pelo próximo capítulo. Pelas rotinas.

E capítulo a capítulo, a mensagem espalhou-se e a aldeia trepou a falésia para ouvir contar uma estória que em pouco tempo se transformou na história de uma nova comunidade com qualidades mágicas: a de saber ouvir, em silêncio.

“O silêncio, para quem escuta, é uma multidão sábia.”

Uma comunidade que se juntou apenas pelo prazer de escutar, tanto que até viravolteavam em silêncio para não atrapalhar a magia que testemunhavam na falésia, numa azáfama cativa à palavra do condenado que já não falava do frenesim da fuga, mas do dilema e do enigma que era o amor que desabrochava no peito do Língua. E quem vê o amor desabrochar, ama melhor, quem sente e vê a confiança, “entra no mundo, muito diferente de vir ao mundo.”

“(…) não era vontade, era coragem. De modo que todas as perguntas foram dadas por respondidas e o mistério passou a fazer parte do grande património das coisas que os escravos nunca disseram, nuca dizem, nunca dirão.”

Mas “os anos têm olhos na nuca” e o biografo era um homem com alguns anos a somar aos anos que foi perdurando na falésia e uma comunidade não se faz sem memória e sem o relato das experiências que fazem uma história colectiva. A história de um país, um continente, a humanidade.

Na falésia, “cultiva-se a prática da devoção ao outro”, o que todos querem é que se queiram bem e se sintam bem, porque “o homem é de onde se sente bem.”

“Nós não queremos fazer história, queremos ouvir história.”

E mesmo só a ouvir, é possível fazer história e pertencer à história, porque quem ouve aprende e já faz história se não repetir o que me gostou de ouvir.

quinta-feira, 23 de março de 2023

«Não é só sangue» e «Dores menstruais não são normais» de Patrícia Lemos e Catarina Maia :: Opinião

 



"(...) este é o único sangue que derramamos que não decorre de doença nem de violência; um sangue capaz de criar vida, mas, ainda assim, e talvez porque torne o corpo demasiado real, é um assunto a evitar." 

«As palavras que usamos contam uma história. O esforço que fazemos para as evitar também.» Alma Gottlieb*

Sobre o sangue que derramamos e o que daí advém, a história que conta de cada mulher, é uma história com causas e sintomas semelhantes, no entanto, cada mulher é única e precisa escutar o seu corpo. Ouvir a sua história, naquilo que cruza mas também naquilo que não é igual às outras, mas para isso é precisa literacia de corpo e essa é a história silenciada. Patrícia Melo e Catarina Maio cumprem com estes livros, a difícil mas tão importante missão de quebrar o tapu*

Quebrar tabus e consciencializar todos, sim todos, porque ambos estes livros não são só para mulheres, são para todos, para que todos possam conversar abertamente, por forma a garantir uma maior compreensão e empatia e perceber que "a menstruação é apenas um subproduto de algo maior - o ciclo menstrual, o essencial que é invisível aos olhos..." e sim, a analogia é irónica.

Irónico é também que metade da Humanidade viva a esconder algo totalmente essencial para existência de todos, por isso o que é essencial, é uma reflexão colectiva que gere um maior entendimento, cooperação e aceitação, tanto da experiência individual como da compreensão da alheia, especialmente quando chegamos ao capítulo das dores menstruais, ridiculamente normalizadas e consideradas inerentes ao ser mulher e ao estar naquela fase do mês, retirando-lhes importância. Basta perceber que apenas em 2020, Portugal adoptou medidas para o diagnóstico e o tratamento precoce da endometriose (resolução nº74/2020) Leia-se também o artigo satírico «If Men Could Menstruate» Gloria Steinem (1978) que diz muito sobre como a sociedade em geral ainda olha (e sim ainda olha, pois o artigo é completamente actual mesmo tendo mais de 40 anos!) à menstruação e ao longo caminho que ainda existe por palmilhar. 

Porém, livros como estes mapeiam melhor esse caminho! 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

«confissões de uma quarentona na m*rda» de Alexandra Potter :: Opinião


#queraioestoueuafazercomaminhavida


Podia ser o subtítulo deste «confissões de uma quarentona na merda», com o “e” devidamente assumido em «merda», já que há muitos anos alguém me disse: “a merda aduba a vida!” e em algumas das peripécias da vida de Nell assenta que nem uma luva.

“Parei. Se havia uma metáfora para a minha vida, era aquela. Eu estava do lado de fora a observar os outros que estavam do lado de dentro de todas aquelas cenas reconfortantes de felicidade doméstica.”

Porém, não tão rápido como devia, que isto afinal é um romance (embora imite bem a vida), Nell começa a perceber, talvez pelos exercícios de gratidão, que a sua vida também tem cenas reconfortantes, sejam elas de felicidade, de aventura doméstica ou de amizades improváveis e amigos peludos. A felicidade não tem uma receita definida, mas tem por certo alguns ingredientes essenciais e são esses que Nell irá redescobrir, juntamente com uma (ou duas) cheia de pequenas pérolas:

- a miopia vem com a idade para nos proteger

- partilhar casa pode ser uma forma de nos domesticarmos (ou tentarmos!)

- ter um diário não é ridículo, nem tem idade, mas é um exercício de nudismo que contraria a miopia dos quarenta

- gratidão é mais que uma hashtag

- um podcast pode ser uma coisa poderosa

- yoga, superalimentos, sumos verdes e afins, não são para toda a gente

- um cão e um livro podem ser a nossa tribo

- a terapia pode acontecer em qualquer lado e revelar-se numa frase

- a contrariedade existe porque a vida é complicada e nós também, tal como a ansiedade 


E podia continuar a enumerar.

Alexandra Potter coseu muito bem esta história, alinhavando algumas futilidades da vida moderna com a mesmice dos dias, revolvendo-as muito bem nos problemas que se podem ter, aos 40, aos 50 ou até aos 80, mostrando que, todos contamos a mesma história, várias vezes, “mas de cada vez que a conto a mim própria, há uma parte de mim que tem esperança de que o fim seja diferente.”

Diferente é aprender a resignificar e não querer adivinhar. Talvez esses ingredientes é que não possam faltar: “não saber como uma história acaba também pode ser bastante emocionante.”, seja num livro, numa amizade ou ao pensarmos no futuro.

Uma pequena mostra da minha própria lista de gratidão ao ler este livro podia ser:
- rever-me na gratidão de ter um cão e embrenhar o rosto no seu pêlo;
- rir-me com as entradas da Nell ao expressar a sua gratidão;
- reler passagens e não saber por que motivo as destaquei 🤷‍♀️
- levar menos a sério a escolha de algumas leituras
- descobrir o significado de JOMO que é quase o mesmo que "viver debaixo de uma pedra" 🙏
- cruzar este livro, com este da Lori Gottliebe e pensar talvez devesse relê-lo ;)

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

«Persépolis» | «Neve nos Bolso» - de volta das Novelas Gráficas para começar 2023


Não deixa de ser curioso que esta recente viagem por BD's e Novelas Gráficas tenha começado com Bordados e Frango com Ameixas, ambos de Marjane Satrapi e ter iniciado este ano a ler Persépolis e Neve nos Bolsos, este último de Kim. 
As novelas de ambos os autores têm um cunho biográfico relatando uma parte das suas vidas em que se vêm refugiados em países como a Alemanha ou a Áustria, fruto da guerra que deflagra nos seus países de origem, segregando-lhes liberdades, tanto por motivos religiosos e ditatoriais.


É também interessante a coincidência dos estudos em Belas-Artes os ter levado até estes testemunhos, estas narrativas visuais que se alimentam precisamente dessa vocação que despertou tão cedo e é dela que se abre perante o leitor, a magia do detalhe, pois quando procuramos bem nos desenhos, são realmente esses detalhes que fazem toda a diferença.

Marjane com um traço aparentemente mais simples, remetendo para as micro expressões das caras, fazendo da expressividade a história maior.
Onde um corte de cabelo revela um estado de alma ou o detalhe de um tacho metáfora para saudades e objecto de revolta.

Kim, também a preto e branco, explora cada quadrado com tamanho detalhe que cada tira é mais que um capítulo, é toda uma cena altamente realista que nos transporta para a Alemanha branca, de neve acabada de cair e fria, de um frio que nós sentimos. O frio que entranha até aos ossos, para logo de seguida entrarmos com ele no abrigo e na caverna da arte e até podermos escutar o carvão do lápis contra o papel ou as noites de farra entre amigos.


Os amigos, essas mãos alheias que se estendem para eles. E também nisso as narrativas são comuns. Dá-se destaque à importância que o outro assume no curso das suas vidas. Sempre os outros. Os que acolhem na fuga e os que ficam. Ou os que no regresso os recebem, sendo já outros diferentes do que eram aquando da partida.
E novamente a intertextualidade entre os livros que se lêem, uns atrás dos outros, para aqui reencontrar os fantasmas da guerra, as preocupações e as críticas que escorregam nas entrelinhas de Kundera (não tanto em «A vida não é aqui» mas numa releitura de «A Ignorância») que tanto escreveu sobre esse abismo, apartando quem fica e quem parte, como se a dor tivesse uma hierarquia ou a guerra desse muito espaço para escolhas.

Foi muito interessante, sem estar sequer a fazer esse exercício, seguir estas leituras e sentir por diversas vezes a forma como se ligavam e até se completavam, independentemente de latitudes, género, causas ou lutas, porque a luta maior, a de dimensões poéticas, é a luta pela dignidade e liberdade.