A apresentar mensagens correspondentes à consulta a porta ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta a porta ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de julho de 2022

«A Porta» de Magda Szabó :: Opinião


«A Porta» é um relato enigmático, metafórico, desconcertante e desconcertado, no quanto releva a inadequação das relações humanas quando falha a comunicação. Podemos até dizer que a comunicação é mesmo uma porta, metáfora de fronteira, linha ténue e frágil, cheia de sombras: a das classes, a do binómio urbano-rural e a do fosso entre o que é braçal e intelectual, sem esquecer o tanto que não pode ser dito com todas as palavras e que é político e militante. A critica apelida-a de uma obra corajosa e confessional e nós leitores não somos capazes de ficar indiferentes aos mundos de Magdusca e Emerence (e ao de Viola) que colidem contra diversas portas. A da violência e a da sensibilidade (ou falta dela!) talvez sejam as que mais apoquentem o leitor, no entanto, Szabó consegue redenção pelo brilhantismo com que escreve, empregando a narrativa de inúmeras camadas.

“O que eu vira, Viola à mesa, talvez só aos meus olhos fosse uma imagem idílica, e o festim de Emerence devia representar outra paixão mitológica, pois, pensando melhor, não os via à mesa como um bravo cão recompensado e a sua dona mas como dois convivas de um terrível banquete da mitologia, e a carne engolida pelo animal não passava, acaso, de uma aparência de assado, não era comida, mas invisíveis fibras e vísceras, uma espécie de sacrifício humano, como se Emerence, com as suas lembranças e as suas boas intenções, quisesse servir ao cão a pessoa que não tinha vindo à tarde (…) beliscando o que havia de mais importante nas profundezas de Emerence, de que ela nunca falava com ninguém.

(…). Voltara, enfim, à casa o silêncio, e, uma vez mais, nem me dei conta de que este silêncio era tão falacioso como a calmaria antes da tempestade, comprazia-me nele, quando as orelhas baixas de Viola e a sua atonia deveriam ter-me feito compreender que alguma coisa estava para acontecer.”

É fácil compreender que este triângulo encerra parte do enigma para toda a acção, porém, qualquer uma das mulheres é mais difícil de entender que qualquer animal, embora dotadas da capacidade de fala, pouco fazem uso dessa ferramenta. Emerence é secreta, desapegada (das pessoas) e noir. Tem episódios grotescos nos rasgos de violência que profere ou tenta; e Magda não se torna menos grotesca e chocante por “apenas” assistir. Também ela é enigmática nesse seu lado calado e de consentimento, para o qual a intelectualidade não lhe confere nenhuma vantagem. São duas mulheres sabedoras e vividas de realidades e cruezas distintas e exercem, uma sobre a outra, uma toxicidade que oscila, mas alimenta a amizade. Amizade essa que flui, aos repelões, como um cão que passeia à trela nas mãos de um dono teimoso que não entende que o passeio é do cão e não o deixa ir olfatar tudo o que precisa.

“Não me foi fácil admitir que (…) a sua existência tornara-se uma das componentes da minha vida, e, no início, fiquei apavorada com a ideia de a perder, se eu lhe sobrevivesse, o que aumentaria o meu exército de sombras, cuja presença imanente e intangível me perturba e mergulha no desespero. (…) por vezes, ela tratava-me de um moto tão rude que um estranho, se assistisse, se espantaria por que razão eu tolerava isso. Tal não contava: há muito que eu já não prestava atenção aos movimentos tectónicos que agitavam a superfície de Emerence; ela deve ter descoberto o mesmo, e, por mais que não quisesse arriscar o coração, (…), também ela não podia escapar à sua afeição por mim.”

A insólita e dramática amizade que as mulheres mantêm terá repercussões ao longo dos anos. São aprendizagens e partilhas, autênticas catarses, e poderão ter efeito idêntico no leitor.

«A Porta» é um livro para se ler as entrelinhas, para se reflectir no não dito, nos gestos que morrem à beira de uma mão que não se enlaça noutra. É um relato que se espelha em nós e nos nossos, para se crescer e chorar, para se espantar - espantando fantasmas - e revoltar-se com a inércia, mesmo sabendo que não agir é em si uma acção, uma tomada de posição. É um relato para despertar compaixão, fé e cumplicidade, para se saber que até a mais forte das portas pode ser abalada e pisada, até mesmo quando as vontades são do Bem.

“- Há-de matar. Ainda há-de matar (…). Saiba que não se pode prender aquele para quem chegou a hora, porque nada lhe pode oferecer no lugar da vida. (…) O melhor presente que se pode dar a alguém é impedi-lo de sofrer.”

“(…) não analisara a fundo até que ponto a paixão é um sentimento ilógico, mortal, imprevisível, e, contudo, conhecia a literatura grega, que não representava mais do que as paixões, a morte, cujo o machado cintilante é sustido pelas mãos enlaçadas do amor e da afeição.”

“Ora, ora! Viverá eternamente, isso não me preocupa. Agora, ao escrever estas linhas na máquina, sinto como se tivesse decidido pela segunda vez, e definitivamente, o seu destino, porque, nesse momento, lhe larguei a mão.”

«A Porta» é um livro cheio de contradições. Como a vida!

Quem o ler não lhe ficará indiferente.

sexta-feira, 21 de março de 2014

"Noites Escaldantes" :: Opinião

Quando a tentação nos bate à porta, será que resistimos em abrir?
A tentação de Stacey é o melhor amigo e colega de Aidan, igualmente um Guerreiro de Elite, capaz de a deixar a salivar pelo momento em que se vai enveredar por maus caminhos e se perder por completo.
"If you never get lost, then you never get found"
(autor desconhecido)

Se Aidan era de perder o norte, com Connor perde-se o pontos cardais e qualquer referência de geográfica, de tempo....raios, eu acho que a Stacey se chega a esquecer do seu próprio nome!

SINOPSE

Stacey fica a tomar conta da casa e do malfado gato de Lyssa durante a sua ausência enquanto se debate e atormenta com a viagem inesperada do seu filho à neve com o pai, o desgraçado ex de Stacey que nunca se interessou o suficiente pelo filho. As suas divagações são interrompidas quando Connor lhe aparece à porta de casa de Lyssa e Aidan, vindo sabe-se lá de onde, Stacey tem a plena noção que o único motivo que a faz abrir a porta é porque este se proclama amigo de Aidan, caso contrário e perante todo aquele esplendor masculino, ao qual o seu corpo automaticamente reage, ela não o teria deixado passar da ombreira da porta.
Stacey conhece os seus dramas de cor e tem pleno conhecimento do seu gosto por "bad boys". O facto de este ser lindo de morrer e ter uma confiança tremenda em si, até ponto de ser rudemente honesto e directo sobre o que quer, é algo que Stacey acaba por considerar interessante e curiosamente excitante. Claro que inicialmente luta com todas as forças contra a desconcertante atracção que sente mas rapidamente, e de modo feroz, percebe que a resistência é inútil e deixa-se levar num noite louca de puro prazer com um homem de sonho.

Alternando o plano de acção entre Stacey e Connor em casa e Lyssa e Aidan que se encontram no México, a autora prende-nos com o passar de páginas a um ritmo avassalador, com descobertas incompletas sobre o mundo dos Guardiões e com a evolução de todos os personagens, incluindo os que se encontram no Crepúsculo.
Mas é quando as personagens estão todas reunidas que a história sofre a reviravolta que nos faz mergulhar mais fundo e terminar a leitura a pedir por mais....por mais Conner, por mais Aidan e atrevo-me a dizer, Wager?! Mas creio ter más notícias :( não há mais livros desta série, pelo menos por enquanto e porque já verifiquei existirem divergências entre a autora e a editora que a publica. (explicação dada pela autora)
No entanto, não desesperem, com paciência teremos mais, um dia destes. Até lá, temos noites escaldantes (talvez não tão escaldantes como as das heroinas destas histórias! Continuo a dizer, "onde está o meu guardião de sonhos?")
Nota: gostei de ver os papéis invertidos neste livro. O primeiro a desejar uma ligação mais profunda não foi quem habitualmente começa a magicar o futuro ao primeiro olhar ou beijo. 

 
Um romance repleto de momentos eróticos (não, não, é capaz de ser mesmo porno), para serem saciados com fulgor e paixão, como a ligação carnal que inicialmente se cria entre Connor e Stacey.
Se o corpo chama pelo toque de alguém que queremos porque não satisfazer o seu pedido com momentos de prazer entre dois adultos conscientes do que querem e do que são um para o outro?
Quando o corpo e a mente se alinham, porque não dar espaço aos sentimentos para crescerem?
Já que o euromilhões é tão dificil de ganhar, peçam boa comunicação e uma conexão sexual esplêndida. Na minha opinião esse é um jackpot de milhões!

E como hoje é sexta-feira...vou tentar a minha sorte! :) No euromilhões, claro.
E vocês tentem a vossa, com a leitura deste livro que chega hoje às livrarias.
:) Não percam a oportunidade.
Boas leituras!

Uma novidade escaldante da
http://www.saidadeemergencia.com/produto/frutos-proibidos/

sexta-feira, 25 de maio de 2018

«Aqui estou» de Jonatham Safran Foer :: Opinião


Aqui estou! Estou aqui! 
As mesmas duas palavras. Sentidos tão opostos.
Aqui estou, aceita, sacrifica. 
Estou aqui, afirma-se, destaca-se.

O novo romance de Foer, após onze anos de interregno, acerta em cheio no leitor e pede-lhe que se renda. Que aceite as atitudes, os sentimentos, as emoções, as decisões e as peripécias da família Bloch face a todas as necessidades da vida familiar, por vezes irreconciliáveis com as exigências do mundo actual.

"A parte de dentro da vida tornou-se muito mais pequena do que a de fora, o que criou uma cavidade, um vazio. Por isso o bar mitzvá parecia tão importante: era o último fio de um laço prestes a romper-se. (...)
O rabi entrelaçou os dedos, mesmo como um rabi.
- Há um provérbio hassídico que diz: «Quando corremos atrás da felicidade, fugimos da satisfação.»"

Talvez a família Bloch corresse atrás do barulho do tempo. Daquele zumbido de fundo, banda sonora de uma grande parte da vida em que ainda: pai, mãe e filhos convivem em puro ambiente de partilha.
Julia, Jacob, Sam, Max, Benjy e Argus, o cão; compõem uma família prestes a atingir duas décadas de história, mas a história deles tem ligações mais ancestrais, o judaísmo e a luta em Israel são personagens maiores que determinam tradição, conceito de família e noção de lar. E é essa vida de fora que tanto povoa a de dentro, que criou um fosso entre todos eles e os demais familiares que os rodeiam. Talvez se brinque às aparências, cumprindo rituais e forçando ligações e assim se vá jogando com sentimentos, numa constante ocultação do ressentimento e das necessidades tão próprias de cada um.

"Tudo era outra coisa sublimada: a proximidade doméstica tornara-se distância íntima, a distância íntima tornara-se vergonha, a vergonha tornara-se resignação, o ressentimento tornara-se auto-defesa. Julia pensara várias vezes que, se ao menos conseguissem seguir o fio até à origem da ocultação, poderiam chegar a encontrar a abertura."

Encontrar a abertura dar-lhe-à abertura para superar o que os separa? Serão os danos, entre familiares, recuperáveis com o passar dos anos? Ou apenas se aprende a esconder melhor o que nos incomoda? E por quanto tempo se aguenta esse esconde-esconde? E os outros, notarão?

Foer diz-nos que sim. Os filhos reparam, a família desconfia e os casais sabem que algo não está bem, mas avançam. «T-B-I-S-T-O-P-A-S-A-R-A-» é o nome de um dos capítulos deste romance, em jeito de prenúncio ou de aviso. Existem várias formas se superação, talvez só seja preciso encontrar o tempo certo para cada um.

"Tentava não repara nas vidas deles, mas era impossível ignorar a quantidade de vezes que o pai adormecia a ver a ausência de notícias, como a mãe se retirava para ir podar as árvores dos modelos arquitectónicos, como o pai agora se servia de sobremesa todas as noites, como a mãe dizia ao Argus que «precisava de espaço» quando ele a lambia, como o pai mudara a palavra-passe do iPad, (...) o fim do contacto visual."

É nessa ausência de contacto visual que deixamos de ver o outro e também de olhar para nós mesmos. Jacob e Julia são personagens interessantes, com complexos e medos transversais a todos nós. Ela com a necessidade de obter nos filhos um escudo, uma desculpa que a tudo dá justificação. Ele com a necessidade de ter e dar atenção, criou laços diferentes, mais flexíveis, mas nem por isso mais íntimos. Ambos se chocam e sentem ciúmes, girando em torno de dois grandes temas: os filhos e o facto de serem judeus, talvez para camuflar o desconforto da vida íntima.

"Ficou à porta até ouvir Benjy respirar fundo. Jacob era um homem que recusava o conforto, mas permanecia à porta quando outros teriam partido há muito. Ficava sempre à porta de casa até muito depois de o carro que levava os miúdos à escola ter partido. tal como ficava à janela até a roda traseira da bicicleta de Sam desaparecer na esquina. Tal como ficava a ver-se a si mesmo desaparecer."

"As armas enterradas na terra de Jacob e Julia não eram tão inofensivas como isso (...)
Os rituais domésticos estavam suficientemente enraizados para lhes permitir evitarem-se de forma fácil e discreta. (...) Ela dava o pequeno-almoço aos miúdos, ele tomava duche (...), ela levava os miúdos até ao carro e ia até à rua Newark para ver se vinham carros a descer o monte, ele fazia marcha-atrás."

Duas décadas de feridas demasiado rombas para matar, mas suficientes para equacionar a inautenticidade da vida e representar o espectáculo do divórcio. Nas entrelinhas resta-lhes compreender o barulho do tempo de cada um. 

"Demorou algum tempo (...) a perceber do que é que ele estava a falar. O frigorífico estava a ser arranjado, por isso faltava, na cozinha, aquele zumbido omnipresente e quase imperceptível. (...) Esse era o barulho do tempo dele.
O meu pai ouvia ataques.
Julia ouvia as vozes dos miúdos.
Eu ouvia silêncios.
Sam ouvia traições e o som de produtos da Aplle a ligar.
Max ouvia os ganidos de Argus.
Benjy era o único suficientemente jovem para ouvir a casa."

Encarar diferenças, limitações, profundidade das atitudes, necessidade de diversão, de espaço, de conforto ou de um abraço pode diminuir o desgaste próprio da vida e equilibrar melhor a rotina dos dias. «Aqui estou» tem alusões à Bíblia e à Tora, fala do luta dos Judeus, chama à atenção para a guerra eterna em Israel, satiriza e discute a causa, mas acima de tudo é um livro sobre o íntimo de cada um e a compaixão necessária para que a resignação não supere a vida.



segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Opinião "O Rapaz à Porta"

A perfeição sempre me aborreceu mas garantidamente a vida certinha e espectacular Cecilia Wilborg revelou-se tudo menos aborrecida.

Conhecemos Cecilia como uma daquelas mulheres que só de olhar para ela se torna cansativo. Sempre primorosamente arranjada e composta, Cecilia tem a dose certa de tudo. Desde o marido atraente e que toda a gente queria caçar às duas filhas lindas e fofinhas, desde o casarão com vista para o porto de Sandefjord ao trabalho como decoradora freelancer que lhe garante ocupação e "independência" na sua posição de mulher moderna.
Como ela bem diz "tudo o que a Cecilia quer, a Cecilia tem".
No entanto, toda esta fachada foi polida de modo a esconder as imperfeições, as gaffes, os problemas e os erros do passado que podiam manchar a vida perfeita da família Wilborg mas principalmente de Cecilia.
E a primeira frecha abre-se quando, como que caído do céu, Tobias vem parar à vida de Cecília e da sua família.
Mas seria esta a primeira frecha ou apenas a que vai fazer tudo se desmoronar?

Alguém se esqueceu de ir buscar Tobias à aula de natação e devido à sua boa reputação em Sandenfjord e por ter sido a última a sair da piscina, coube a Cecilia leva-lo a casa onde chegou à conclusão que o local estava deserto e não havia sequer indícios de lá viver alguém.
Ressentida com a responsabilidade de tomar conta de um miúdo que pouco ou nada falou desde que estava consigo, Cecilia levou-o para casa só com o objectivo de se desenvencilhar dele no dia seguinte na escola mas surpresa surpresa, também aí ele não era esperado ou conhecido e é aí que a coisa começa a complicar.
Onde estão os pais desta criança?
Se não vive naquela casa, vive onde?
Porque Tobias não fala e quase parece um sombra a mover-se na escuridão?

Com a estadia de Tobias em casa dos Wilborg, a pedido do serviço de assistência social e contra vontade de Cecilia, começamos a perceber que a fachada polida que ficamos a conhecer tem rachas e bastante profundas, que Cecilia não é nem de longe um amor de pessoa, que alberga nela uma escuridão bastante profunda e capaz de destruir tudo à sua volta, a começar por si mesma.A sua bitchiness, desculpem a falta de expressão em Português, tem momentos que são tão espectaculares como repugnantes e quantos mais abalos sofre no seu dia a dia, maior é a sua instabilidade e acreditem, a coisa vai de mal a pior em meia dúzia de páginas.

E à medida que vamos avançando ficamos igualmente a conhecer pedaços da história pelos olhos de Tobias e Annika. Sim, Cecilia pode ser a grande peça do puzzle mas foi Annika que me prendeu à história, mesmo que inicialmente começasse por a desprezar, pouco a pouco mostrou um lado tão humano e credível que se tornou, pelo menos para mim, na melhor personagem deste livro. Não vos vos explicar quem é a Annika, vou convidar-vos a ler o livro. Acreditem, merece a pena só para ficar a conhecer Annika e Cecília, especialmente esta última que com a sua arrogância e altivez fez-me pensar em todas as razões porque não almejo a perfeição e por me afasto de pessoas que fazem da ostentação, superioridade e rebaixamento do outro uma actividade diária.

É curioso como tinha a certeza sobre o destino desta história desde que li a sinopse mas foi interessante ver a narrativa dar-me a volta, levar-me a acreditar que aquilo que bati o pé desde o primeiro momento não era o que a história me estava a oferecer, só para no fim ficar de queixo caído quando se sabe a verdade e ela é ainda pior do que estávamos à espera.
Fiquei sem dúvida rendida à história de Cecilia, Tobias e Annika e também à escrita de Alex Dahl.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

«A Travessia» de Wm. Paul Yong - Opinião

Anthony Spencer ziguezagueava pelas indecisões da vida, gerando sofrimento, angustia e desespero, afastando os outros de si e afastando o seu "eu" superficial do seu "eu" profundo (Emerson), canalizando tudo o que de nefasto encontrava na sociedade, aumentando cada vez mais a sua paranóia.

"A tragédia é uma ferramenta para os vivos obterem sabedoria, não um guia para a vida", mas perante tamanhas tragédias, o que nos guia na vida? Deus? A fé?

Wm. Paul Yong encaminha a história da travessia de Anthony pelo encontro com Jesus e o Espírito Santo, reensinando-o a viver, mesmo que vá viver sem viver por ele mesmo e sempre através da cabeça dos que o rodeiam.


Colocando questões sobre a espiritualidade e o credo em Deus, Anthony confronta-se com a interrupção e os imprevistos da vida, a morte ou a doença, mas também a fúria de perceber que a morte não é o fim. E agora, que esperança?

A esperança de Anthony ou Tony, é muito reduzida quando, perante Jesus, se confronta com os destroços que são a sua vida."

"-Mas é apenas terra! Não é uma pessoa. É terra!
(...)
Pó ao pó. Terra"

"Já tinha avaliado aquele lugar a partir de um distanciamento superior e declarara-o uma terra de ninguém, juncada de destroços, uma sucata indigna de ser salva."

Descobrindo os seus "defeitos" e sentindo-se esmagado por "um punho invisível" será que Tony encontrará o caminho para a "verdadeira" travessia? Agora que todos os trilhos parecem abandonados...

Qual o papel das interrupções e dos imprevistos na nossa vida, o que nos ensinam as provações? Como descobrimos o nosso caminho e o sentido da vida?

É através de vários diálogos, como o que ocorre com Wijan Wanagi, Kusi, ou simplesmente Avó que o autor encaminha a sua história, explorando trilhos da espiritualidade. A ascensão da alma e a importância de aceitar e convidar a espiritualidade a entrar na nossa vida.

"Deus entra em todas as pessoas por uma porta privada." Ralph Waldo Emmerson

O transcendentalismo é, para Emerson, um esforço de introspecção metódica para se chegar além do "eu" superficial ao "eu" profundo, o espírito universal comum a toda a espécie humana. Alimentando assim a máxima de interpretação do ser humano com um conjunto de partes, todas elas vivas e que precisam de harmonizar para o equilíbrio. Só silenciando os ecos mais sombrios que habitam dentro de nós, poderemos ser plenos e viver em harmonia com a Terra. Levando assim estas interpretações às origens mais ascéticas do cristianismo.

A maioria da acção de «A Travessia» passa pela (SPOILER) capacidade espiritual de Anthony entrar na cabeça alheia (Maggie), para sentir e reviver o seu passado, apelando à doçura ou ao sufoco das memórias.
Nesta possibilidade de alimentar a alma, como algo vivo que é, pressupõe-se que Anthony encontra aqui a sua cura e descobre as suas falhas e as soluções necessárias para corrigir o seu passado.

De cabeça em cabeça, Tony espalha a mensagem de Deus... E a "relação" com Cabby é inesperada e reveladora - a dedicação e a luta das crianças portadoras de deficiência e das suas famílias.

Perante as histórias de personagens como Lindsay ou Cabby o autor leva-nos a perguntar qual a legitimidade de fazer pedidos pelos nossos filhos quando são tantos os filhos dos outros que também sofrem como os nossos? Que papel tem a oração na força e na luta contra a doença?

Apesar de todas as revelações e descobertas, a presença final da família, aquela a quem Anthony julgava perdida pelos seus erros, perdoa-lhe, mas ele, perdoar-se-à a si mesmo? Será Gabriel a constatação de estar perdido no limbo pela dificuldade de se perdoar a si mesmo?
Terá o perdão um papel redentor?

Creio que um livro como este, antes de ser um livro de auto-ajuda ou um sobre fé e espiritualidade, é um guia de introspecção, sugerindo em vez de impor, tentando fazer-nos pensar em questões que muitas vezes evitamos. Se bem que acredito que perante a provação somos capazes de agir como nunca julgamos ser capazes...

"Oh, alguém me guie agora, por favor,
Na travessia deste caminho intermédio
E junte os pedaços da minha alma desfeita
Ao real, que é invisível"

Trilhando um caminho que pretende calcorrear os confins da metafísica e até contornar os obstáculos da falta de espiritualidade, dá-se um encontro improvável, uma relação (ou várias) transcendental e que pretende encaminhar Anthony a fazer as escolhas certas que lhe permitirão obter a plenitude.

E a salvação, a quem dar?

*

Uma leitura com o apoio da PORTO EDITORA, veja mais do livro, aqui: http://www.portoeditora.pt/produtos/ficha/a-travessia?id=15007172


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

TOP 2012... pela mão da Quetzal


Na bertrand estão em destaque os títulos que mais sucesso fizeram em 2012... e pela mão da Quetzal eis alguns que nos despertaram maior atenção... se bem que os olhos também se me prenderam por alguns títulos de 2011 (como por exemplo: Richard Yates, Christopher Isherwood, Irvine Welsh ou V. S. Naipaul... mas a lista iria continuar...)

A Visita do Brutamontes
de Jennifer Egan
Prémio Pulitzer 2011

Sinopse
Bennie Salazar, antigo punk rocker, está a envelhecer e é agora um executivo discográfico; Sasha é a sua assistente, uma jovem mulher impetuosa e cleptomaníaca. Apesar de Bennie e Sasha nunca chegarem a descobrir o passado do outro, o leitor vai conhecê-lo, até ao mais íntimo detalhe, bem como a vida secreta de um variadíssimo leque de personagens, cujos caminhos se cruzam com os deles ao longo de muitos anos e muitos lugares: Nova Iorque, São Francisco, Nápoles e África. A Visita do Brutamontes é um livro sobre a interação do tempo e da música, a capacidade de sobreviver, e as mudanças e transformações, quando inexoravelmente postas em movimento ainda que pelas mais efémeras conjunturas do nosso destino. Numa arrebatadora plêiade de estilos e registos - da tragédia à sátira, passando pelo Power Point - Egan captura a corrente que nos atrai para a auto-destruição - à qual sucumbimos se não a soubermos dominar; a fome de redenção de cada homem e mulher; e a tendência universal para alcançar ambas através da ação "condutora" da arte e a música e escapando à impiedosa passagem do tempo. Um livro astuto, surpreendente e hilariante.


Críticas de imprensa
«Um romance riquíssimo e inesquecível sobre declínio e endurance, sobre indivíduos num mundo que à sua volta se transforma. Egan está entre os maiores escritores dos nossos dias.»
The New York Review of Books

«Gloriosa e furiosamente humano.»
Chicado Tribune

«Audacioso, extraordinário.»
Philadelphia Inquirer



A Porta do Sol
de Elias Khoury


Sinopse
Há histórias que salvam vidas. Usando o método de Xerazade, o narrador de A Porta do Sol tece um longo e contínuo fio de histórias com que pretende resgatar a vida de um homem. Esse homem, em coma profundo na cama do hospital, é o seu pai espiritual e um herói da resistência palestiniana. No furor de o reanimar através da memória, é todo um povo e a sua epopeia que o narrador faz reviver diante dos olhos do leitor: os acontecimentos da guerra civil no Líbano, os episódios mais marcantes da sua vida e os dolorosos itinerários de um punhado de homens e mulheres apanhados pela história, após a sua expulsão da Galileia em 1948.

Inspirado na estrutura narrativa de As Mil e Uma Noites, A Porta do Sol é um romance amplo, pungente, e considerado de forma unânime o grande relato do êxodo palestiniano.




Os Tambores da Chuva
de Ismail Kadaré
Sinopse
Muralhas ensanguentadas que milhares de homens tentam, apesar de tudo, escalar; um comandante-chefe, cujo destino está dramaticamente ligado à tomada daqueles muros; uma angústia constante sob um sol tórrido. Estes acontecimentos desenrolam-se no século XV e a praça sitiada é uma cidadela albanesa que pode evocar Troia, mas remete mais seguramente para a situação da Albânia moderna, dos anos 1960, sujeita a um bloqueio implacável por parte dos países socialistas.
Com a precisão de um processo verbal, esta crónica impiedosa de uma sucessão de dias cheios de calor, crueza e morte introduz-nos lentamente na sua angústia, uma angústia estranha plena de uma luz que encandeia.

Críticas de imprensa
«Sem o objectivo do realismo histórico, Ismail Kadaré escreveu uma impiedosa e impressionante história de resistência […].»
José Riço Direitinho, Público

Quem leu e o que leram?



terça-feira, 8 de abril de 2014

"Liberta-me" :: Opinião

Fãs de E. L. James, Sylvia James e eróticos em geral, acerquem-se de mim!
Se reclamavam que os homens nos livros do género têm sempre algo tenebroso a esconder, metam os olhos em "Liberta-me" de J. Kenner.

Se há passado obscuro à espera de salvação é o da personagem​
​ feminina e pela primeira vez, o drama centra-se no ultrapassar de um obstáculo imposto pela mulher, pelos seus medos e traumas. Bem, pelo menos neste livro!


Em "Liberta-me" não falamos só de um problema de confiança, falamos de marcas que estão gravadas bem fundo e que necessitam de muita dedicação e perseverança para serem ultrapassadas e abandonadas no passado, para que o presente possam correr sem interferências.
A personagem de Nikki (embora tenha nome de solicite americana loira burra) é uma mulher inteligente, profissionalmente bem sucedida, que teve uma dura educação sulista por parte da mãe mas que de tanto ser o que os outros queriam que fosse reprimiu a sua própria personalidade de modos extremos. Eventos do seu passado ​
​ abalaram a sua confiança e o rumo da sua vida mudou quando saiu do Texas com destino à Califórnia, mais propriamente para Los Angeles. No entanto, nem os três estados que separam os dois pontos são suficientes para afastar Nikki das amarras que não a deixar se tornar livre e completa.

A entrada de Damien na sua vida torna-se a centelha que precisava para atear o fogo que guarda em si. Ousada, com um equilíbrio brilhante entre a iniciativa e a rendição ao desejo, Nikki vai encontrar em Damien o parceiro à altura, para isso, basta aceitar e abrir a porta para ele entrar e ficar a conhecer os seus segredos.
Por vezes estar sem roupa não nos deixa despidas perante a outra pessoa, é quando abrimos o coração e a mente que estamos expostos. Só quando mandamos abaixo as barreiras atrás das quais nos escondemos é que abrimos caminho para a mudança e se tivermos sorte, para a felicidade e o amor.

No entanto, quando li a sinopse o meu interesse estava só a meio gás. Depois de ler tantos livros eróticos não sabia exatamente o que poderia esperar, que diferença nos traria J. Kenner nesta trilogia. Por vezes o que nos arrebata é o lado possessivo do personagem masculino, outras vezes a familiaridade com a personagem feminina ou então as cenas de carácter intimo (mesmo as feitas com público ou participantes extra) que nos tiram o fôlego. Para mim, "Liberta-me" convenceu-me pelos detalhes que nada têm a ver com o romance mas sim com a possibilidade desta ligação carnal ser apenas o que é, puro entendimento sexual e sincronia de "querer e poder". Embora inicialmente a ligação íntima que criam possa parecer um pouco "comercial" e até degradante aos olhos de almas mais puras, é uma decisão que Nikki toma conscientemente após ponderar (com a ajuda das suas hormonas) os prós e contras de se envolver com o enigmático Damien Stark e aceitar a sua proposta.

Por mais degradante que possa parecer aos olhos dos ditos que mencionei anteriormente, aos meus foi uma maneira de se despojar dos demónios do passado e acho que fez muito bem. Expor a sua nudez a Damien é abrir uma porta para expiar o passado, é tirar os esqueletos do armário para dançar com eles. "Liberta-me" centra-se emancipação de Nikki numa nova cidade, com uma desafiante etapa profissional pela frente e uma iminente ligação com um homem que está habituado a deter poder sobre tudo.

Por vezes dou comigo a pensar
"Venha lá um livro destes que não existem demónios do passado com que as personagens se tenham de gladiar"
Curiosamente, o que gostei é que neste livro os demónios que vemos caírem por terra são os de Nikki e dai em diante sabemos que, embora com passos pequeninos, caminhamos para um possível "viveram felizes e excitados para sempre".

Embora tenha encontrado detalhes que me fizeram pensar ou comparar esta história à trilogia 50 Sombras de Grey ou Crossfire (de Sylvia Day), gostei de encontrar em "Liberta-me" uma história que pegou nas fragilidades da personagem feminina e as deitou por terra. Sendo que a grande maioria dos leitores destes romances são LEITORAS, os livros devem ajudar as pessoas a libertarem-se do que as prende, do que as limita e por vezes, só o facto de ver alguém que nos é semelhante ultrapassar uma má memória ou uma trauma é o incentivo necessário para tomarmos rédeas da nossa vida. É claro que Nikki apoia-se em Damien, até demais mas a dependência que criam um do outro é o que os ajuda a desenvolver a sua ligação e a tornar um jogo em algo mais.

Embora tenha lido os dois livros seguidos, estou a tentar ser fiel à opinião que tive separadamente.
Por isso, a outra está já a sair do forno também.

Até lá....LIBERTEM-SE E SEJAM FELIZES!

Uma leitura com o apoio

terça-feira, 20 de maio de 2014

Trilogia Divergente de Veronica Roth :: Opinião

Li os três livro de seguida mas optei por falar individualmente sobre cada um, ou pelo menos tentar. No entanto, percebi que não tinha bem maneira de dividir a trilogia por isso....que se lixe, vai tudo no mesmo post. Desafio alguém a ler só o primeiro. Quem gostar de "Divergente" irá com toda a certeza consumir o resto, por isso, deal with it!

Com o primeiro livro, Divergente, onde somos sugados para a vida de Tris, tentei ser o mais concisa possível. Com o segundo e o terceiro, onde somos arremessados e maltratados, tento ao máximo não passar informação que estrague a leitura a quem ainda não leu e que pretende mergulhar de cabeça nesta série.
A todos, perdoem-me se me entusiasmei mas eu adoro estas histórias :) Se não passei informação suficiente, lamento igualmente, peguem nos livros e comecem a ler.
Ninguém fica indiferente à série Divergente!

Ora vamos lá tentar resumir isto sem aborrecer ninguém.
Num mundo fustigado pela Guerra, encontramos uma Chicago em ruínas, por vedações cercada, que se reabilita através do trabalho e dedicação dos seus habitantes. Nesta visão distópica, a sociedade encontra-se dividida em facções que foram criadas pelos cidadãos que, embora trabalhem para um bem comum, variam nos consensos sobre qual deve ser a verdadeira característica a prevalecer num ser humano.

A divisão por facções​ foi​ o método mais eficaz após a guerra, que embora recente já decorreu há algumas gerações​. Deste modo os cidadãos ​são segmentados, mediante a família e as suas características, para um grupo dedicado em prol da sobrevivência e prosperidade da população geral. No entanto, o ser humano por mais treinado e limitado que seja a um conjunto de regras e ensinamentos, "sofre" de um terrível código genético que lhe permite evoluir e não​ se​ ficar por um conjunto fixo de características.
A vida nas facções é fácil, toda a gente sabe onde pertence, qual o seu papel na sociedade e dentro da sua facção. A Comunidade está a cima do individuo e a individualidade não é bem vista, aqui vive-se para a "alcateia", sendo o lema "A Facção acima do sangue"​
É na pacata facção dos Abn​e​gados (o grupo altruista que tem como prioridade o bem estar dos outros) que encontramos ​Beatrice (​Tris​)​, a nossa personagem principal.
Nasceu no seio de uma família enraizada na cultura altruísta e simples dos abnegados mas luta por dentro contra a d​ú​vida se será realmente este o seu lugar, visto que o seu primeiro intincto nem sempre é ajudar ou compreender o próximo.
No ano em que​ completam 16 anos (estas histórias distopicas e os 16 anos) todos os membros das facções são submetidos a testes de aptidão que permitem a confirmação da facção onde já se encontram ou, mediante os resultados, lhes indica que as suas características se adequam mais a outra ​das cinco​ facções. O resultado é importante, conclusivo e simples, apenas uma facção é indicada para cada candidato.
Ter um resultado inclusivo é diferente, é mau, é quase "contra as regras impostas pelo sistema"....ter um resultado inconclusivo é ser DIVERGENTE.
​E não fosse este o nome do livro e da trilogia, sabemos que a vida de Tris está em perigo no momento em que descobre a sua natureza e a tem de manter em segredo, quer ​decida ficar do lado da família quer tome a decisão de optar pelos Intrépidos, que a fascinam desde pequena porque além de serem corajosos são livres.
A escolha de Tris no dia da cerimónia choca a sua família/facção e traça o curso do seu futuro. Vemo-la quebrar as amarras pela primeira vez e presenciamos o seu primeiro acto de coragem como iniciada nos Intrépidos. Mas a aventura ainda agora começou e novas provações surgem no seu caminho. 
​A "empata" (alcunha que recebe por ser abnegada)​ tem de lutar para ficar na sua nova facção e há poucos lugares para tantos iniciados. 
Entre treinos, lutas e novas descobertas sobre a sua condição de Divergente e os pontos de conflitos que surgem entre as facções, Tris descobre o valor da amizade, a crueldade humana na sua forma mais violenta mas acima de tudo, encontra algo bem mais interessante, sob a forma de Four (Quatro), o seu misterioso instructor.
É com a sua ajuda que Tris vai conseguir camuflar as suas característica fora do comum e ao seu lado que vai lutar contra a facção que planeia dominar todas as outras, a bem ou a mal.
E é essa luta que nos vai fazer virar página após página, que nos vai fazer gostar de Tris, torcer por ela, por eles, pelas personagens que nos agradam e pelo mundo aparentemente organizado em que eles vivem.
Por isso preparem-se, quem gostou do primeiro vai querer ler o segundo e eu digo...depois não digam que não avisei.

Pequena nota sobre o primeiro livro que como toda a gente sabe JÁ TEM ADAPTAÇÃO AO CINEMA
Recordo que vi o filme antes de ter lido sequer o primeiro livro. Por esse motivo, dei por mim durante a leitura a ver as alterações que foram feitas no filme. Se ficou melhor ou pior, não consigo dizer. Houve detalhes que foram mudados que fazem com que outras cenas mais para a frente possam ter de ser alteradas, há outras que compreendemos terem sido mudadas para captar melhor a atenção do espectador (não leitor) mas a essência está lá. Está lá a tábua rasa que Beatrice era até chegar aos Intrépidos e se tornar Tris, está o despertar das suas características naturais em comparação com as que lhe foram incutidas no seio da família, as descobertas das suas capacidades, de novas sensações e conhecimentos que a tornam uma personagem mais completa. Os cenários estão espectaculares, os outros personagens (especialmente Quatro, a mãe dela, Marcus, Peter, etc) foram todos bem escolhidos e as cenas marcantes estão muito boas (raios, a cena do cabo está espectacular mas onde raio está o Uriah?!)

Façam um favor, leiam e depois vejam o filme. Se foram como eu e fizeram o contrário, então não deixem passar a oportunidade de ler Insurgente e Convergente.

AVISO
Se só leram o primeiro livro ou só viram o filme, não leiam mais, não quero ser responsável por possíveis spoilers.
OK??

(fanart de thesearchingeyes - deviantart)
Spoilers!!

Este livro foi lido num tiro e dei graças ao facto de ter esperado até os três livros estarem publicados para os ler, caso contrário teria tido um ataque cardíaco com a espera. Aquelas últimas 3 páginas deixaram-me WHAT?!...mas vá, já me estou a adiantar, vamos lá começar pelo início.
(fica a dica - quando forem ler o Insurgente, tenham à mão o último livro. Depois não digam que eu não avisei!)

Com o final de Divergente, Tris, Four e Companhia maravilha (qual deles o que me magoa mais de ver vivo!) dirigem-se para a zona além da cerca, em busca de ajuda e refugio nos campos de cultivo em que está localizada a sede dos Cordiais.
Aqui ficamos a conhecer personagens importantes para o desenrolar desta história, como Johanna (que será interpretada por Octavia Spencer), a "líder" dos Cordiais, que é mais porta voz do que alguém que toma decisões. É daqui em diante que começa o drama e o horror. Descobrimos que há um segredo por detrás da tentativa de erradicação dos Abnegados no primeiro livro e que ainda faz os Eruditos lutar pelo poder sob todas as facções. É esse segredo que nos faz seguir em frente para momentos que nos apertam o estômago e descobertas que são como se levássemos um murro bem forte na cara. Aquela que se julga morta está viva, os sem facção afinal não são assim tão desorganizados, aqueles que nos são mais próximos são que espetam a faca mais fundo nas nossas costas e por vezes, aqueles que julgamos que nos odeiam conseguem encontrar em si poder para nos perdoar (ou pelo menos conviver connosco sem nos matarem).

Quanto à nossa heroína Tris, esta segue ao longo da narrativa num estado meio dormente (até para com Four). Os acontecimentos que a conduziram aqui, as lutas, as perdas humanas e a incerteza no futuro são um cocktail que a torna impulsiva e incapaz de autopreservação, torna-se numa bomba relógio capaz de explodir à mais ligeira oscilação e pelos motivos menos válidos. Com actos altruístas e corajosos mas por vezes altamente estúpidos, Tris encontra maneira de se castigar pelos seus pecados e estás disposta a morrer por eles, por Tobias, pelo outros, por todas as facções mas acima de tudo para fugir a si própria, tamanha é a culpa que a consome.
E quando mais pessoas à sua volta começam a morrer graças uma nova simulação, Tris, na sua condição de Divergente, entrega-se na sede dos Eruditos para ser drogada, estudada e eventualmente morta.
(honestamente não sei o que me chocou mais, se a traição de um se a ajuda de outro mas vá, no spoilers!)
Uma série de eventos que se seguem ao salvamento de Tris, levam-nos ao momento em que, com as facções longe de ser o que eram inicialmente, conhecemos o segredo que está para lá da cerca que encerra a cidade para o exterior.
E que nos faz pensar "what the f***?!"
As respostas ao mundo que está lá fora, ao propósito dos divergentes, das facções, da cidade, de tudo está ali à mão de semear com a leitura do Convergente.
A quem teve de esperar muitos meses para ler o terceiro livro, têm a minha compreensão...deve ter custado tanto :|

Spoilers!

Preparem-se para sofrer, é o que vos digo.
Se com o final de Insurgente ficamos todos pendurados pelo video originário do exterior que pedia salvamento por parte dos Divergentes, então nem sonhamos com o que nos espera uma vez ultrapassada a linha limitadora da cidade e a falsa segurança que o mundo que conhecemos nos dava.
As ideias de uma vida mais simples, sem mentiras para Tris e Four acabam no momento em que tomam conhecimento da verdade por detrás da sua cidade e da sua existência.

Preparem-se para pensar no mesmo que eu "My life is lie!", neste caso, a deles, a vida deles é uma mentira. Que chapada na cara, cara Veronica!
Faz-nos conhecer um mundo, apaixonar-nos pelas personagens, lutar com elas e por elas para depois nos despir de tudo aquilo que pensamos ser verdade, de todo o conhecimento que detemos. Pior, acabamos a chorar no chão. Com isto não quero dizer que não gostei do livro, adorei mas custou a ler.
Mas vou-me calar com a minha reacção ao livro e concentrar-me na história.

Enquanto na cidade a liderança é assumida pelos sem-facção (e a sua líder que os leitores sabem quem é mas eu não vou contar), o grupo rebelde (Os Leais) formado pelos que acreditam no sistema antigo e que pretende sair da cidade para descobrir a verdade além dos limites, convencem Tris a juntar-se a eles na busca pela verdade que espera por eles lá fora. O grupo que parte em direcção ao desconhecido junta um pouco de todas as antigas facções e o que descobrem irá para sempre mudar a sua vida. Nada mais será igual!
Explicar o que descobrem iria contra as minhas regras sobre spoilers, por isso, apenas posso dizer que nada do que possam ter pensado inicialmente se verifica (pelo menos a mim nunca me ocorreu isto).
Embora os capítulos sejam mais calmos, estão repletos de informação explosiva, momentos de alta tensão e outros que nos vão roubar o coração.
Conhecer a verdade faz-nos sentir perdidos mas permite-nos pensar no nosso próprio mundo e nas escolhas que fazemos.
Podem sair revoltados com as escolhas da autora para o rumo desta trilogia ou podem aceitar o destino, dando razão a algo que uma vez li e que faz sentido quando as lágrimas das últimas cenas ainda nos queimam na cara.
Desafio-vos a não se apaixonarem por esta trilogia :)
Bem eu tentei, perco-me na fantart disponível na internet e espero pacientemente pelo lançamento do próximo filme (Março de 2015). O último livro, à semelhança de Os Jogos da Fome, será dividido em dois filmes. Portanto, esta aventura termina lá para 2017.
Até lá, terei todo o gosto de divulgar novidades.

Se não fui bem sucedida na apresentação da trilogia, lamento. Quando gosto realmente de um livro (neste caso de uma trilogia) tenho grandes dificuldades em colocar por palavras a minha opinião. Tenho vontade de dizer 
"Eu adoro. Acho que todos vocês deviam ler. Vais sorrir, lutar, chorar, sofrer....mas vais gostar!"
:)

Os responsáveis pela trilogia em português

Para mais informações, visitem a página dedicada à trilogia
Espero chegar a ler, em português se possível, as histórias sobre Four como iniciado que já figuram no goodreads.

Agora, vamos lá ver, temos fãs de Divergente?

sexta-feira, 22 de julho de 2016

«Manual para mulheres de limpeza» de Lucia Berlin :: Opinião


A critica é unânime. Lucia Berlin é largamente aclamada e premiada. No passado mês de Junho, "Manual para mulheres de limpeza", foi o título ganhador do California Book Award, destacando o melhor livro de ficção nos Estados Unidos, e ainda o Prémio Libreter que destaca o melhor livro de literatura estrangeira em Espanha, atribuído pelo Grémio de Livreiros da Catalunha. Os jornais The New York Times e The Guardian atribuem-lhe o selo: "descoberta literária do ano". Por cá, quem o publica é Alfaguara, do Grupo Penguin Random House que reúne 43 das 76 histórias que são conhecidas de Lucia Berlin. Segundo a editora, "um estilo muito próprio", "faz eco da sua própria experiência -- tão rica quanto turbulenta".


A forma esporádica como foi escrevendo deixa na sua escrita a marca do dia a dia, trazendo-nos histórias que sobrevivem tanto à banalidade como ao peso do quotidiano. A realidade relatada nos escritos de Berlin foi associada à sua própria vida. Talvez seja essa autenticidade associada à brutalidade em muitas das partes da sua narrativa que lhe conferem uma importância ainda maior. Os seus contos oscilam assim, tal como a vida, entre episódios peculiares e divertidos, mas também momentos dramáticos e perturbadores que se conhecem por terem pautado a sua atribulada vida.

A selecção dos contos foi muito bem feita e até a forma como vão surgindo no livro, permitem-nos acompanhar o passar do anos, mas também, atingir um ponto tal de confusão entre relatos pessoais e ficcionais, ao ponto de o leitor não conseguir dizer ao certo que fio condutor rege estas vidas, mas será preciso?

"Que outras coisas perdi? Quantas vezes na minha vida terei estado sentada no alpendre das traseiras, não no da frente? O que teria sido dito que não consegui ouvir? Que amor podia ter havido que eu não senti?
São perguntas vãs. (...)"

A força da sua escrita sente-se de tal forma que em breves parágrafos e com a energia que nos transmite, passamos a ser testemunhas de cada acontecimento. É como se estivéssemos lá. E termos lá chegado valida cada momento ali descrito. Em alguns deles, Berlin parece contar-nos segredos, como se sussurrasse aquelas palavras, e dessas vezes, a força é mais contida, como que sufocada, mas muito mais profunda. Há dor, drama, muitas lágrimas e medo, nas linhas que rebatem certos acontecimentos aqui expostas ao leitor.
Ainda assim, percebe-se o quanto se nega à auto-complacência ou ao ressentimento. Aliás no final, é exactamente isso que volta a ser frisado:

"(...) O único motivo por que vivi tanto tempo foi ter largado o meu passado. Fechar a porta à dor, ao arrependimento, ao remorso. Se os deixar entrar, basta uma nesga autocomplacente, zás, a porta abre-se por inteiro e eis que entra uma torrente de dor que me rasga o coração e me cega os olhos de vergonha (...)"

Por isso, o melhor fio condutor para todos os seus contos é o humor. Nuns contos será a gargalhada alta e estridente, noutros apenas o leve sorriso que apenas sobe um canto da boca, mas ainda assim, está lá. Sim, é isso. A energia dos seus contos é fruto do humor que coloca em cada relato que faz do que a rodeia ou do que marcou a sua vida.

"«Sim, agora não parece tão chocante, não é? Que tenham vindo de férias depois de a mãe ter morrido.»
«Sabe... é pena que não seja uma tradição. Umas férias pós-funeral, como uma lua-de-mel ou uma festa de boas-vindas a um bebé.»
Riram-se as duas. «Herman!», disse a Srª Wacher ao marido. «Depois de nós as duas morrermos, vocês, homens, prometem ir fazer uma férias juntos?»
Herman abanou a cabeça. «Não. São precisos quatro para jogar brídege.»

Despudorada, meio seca, recheada de análises simples do quotidiano e um bando de gente anónima. São estes os ingredientes destes contos. E se a certa parte, quase no final, lemos: "Tudo o que de bom e mau aconteceu na minha vida foi previsível e inevitável, especialmente as escolhas e as acções que garantiram que agora estou totalmente sozinha." Talvez sejamos levados a pensar que a escrita foi uma companheira de vida e de estrada de Lucia Berlin e que muito do que guardou para os seus contos fossem conversas que nunca chegaram a acontecer, no entanto, talvez o facto de só postumamente ter obtido reconhecimento literário venha aumentar o mito e o drama em torno da sua vida. No entanto, quer-me parecer que viveu consoante os seus desejos, fervilhantes e intensos, e só digo isto pelo que de apaziguador que a sua escrita me transmite.

E há ainda outra coisa, Berlin tem contos que são como uma ode à frase de Mae West: «quando sou boa, sou muito boa, mas quando sou má, sou melhor ainda!»




Um livro ALFAGUARA.
Para ler mais sobre a autora: 
Lydia Davis na Sábado e o texto de Isabel Lucas no Público

terça-feira, 29 de julho de 2025

TEORIA KING KONG de Virginie Despentes :: Opinião


“Se a mulher apenas existisse, de facto, na ficção escrita pelos homens, surgiria na imaginação como um ser da máxima importância; muito versátil; heróica e mesquinha; maravilhosa e sórdida; infinitamente bela e terrivelmente medonha; tão importante como um homem e segundo alguns ainda mais. Contudo, está é a mulher como aparece na ficção. A verdade é que, tal como o professor Trevelyan acentua, a mulher era fechada à chave, espancada e torturada.”

VIRGINIA WOOLF, Um quarto que seja seu

Não obstante a qualidade da escrita de Virginie Despentes, faz todo o sentido destacar as palavras de Virginia Woolf, já que esta dualidade percorre toda a Teoria King Kong: é bonita e guerreira a mulher da ficção, mas quando a realidade bate à porta e essa mulher é feia, abrutalhada, gosta de sexo e não tem vergonha de o dizer, tem opiniões, fala alto e esbraceja, trabalha e paga as suas contas e ainda se afirma mulher, filha, mãe, amiga e caga d’alto nas palavras dos outros, que a definem como louca, destravada, malfodida, machona ou histérica… Pois é, o enredo já é outro, não se sabe se a beleza justifica e o perfil guerreiro é remetido para o da mulher-ficção. Mas essa não existe, todas as outras existem, sempre existiram e vão continuar a existir. E algumas falam ainda mais alto e escrevem coisas como Despentes escreveu. Escreve!

“Nós somos do sexo do medo, da humilhação, o sexo alheio. É sobre essa exclusão do nosso corpo que se constroem as virilidades; é nesses momentos que se tece a sua famosa solidariedade masculina. Um pacto que assenta na nossa inferioridade. (…) A prova é que, se realmente não quiséssemos ser violadas, teríamos preferido morrer, ou teríamos conseguido matá-los. Aquelas a quem isso acontece, do ponto de vista dos agressores – eles lá se arranjam, de uma maneira ou de outra, para acreditar nisso -, desde que escapem com vida é porque o ocorrido não lhes desagradou assim tanto.”

O corpo, a sexualidade, a violação e a pornografia são mais que temas neste Teoria King Kong, são pilares-base para olharmos a sociedade. São pontos de vista acutilantes e com as arestas bem afiadas, deixando hipocrisias e subterfúgios de lado. A análise de Despentes vai da literatura à política, da 7ª arte à imigração, da subordinação económica e social à segregação da prostituição, do consumismo à religião, do manifesto feminista à maternidade, família e religião até à morte da fada do lar.

“É esta a condição feminina, a sua cartilha. Sempre culpadas do que nos fazem. Seres considerados responsáveis pelo desejo que suscitam. A violação é um programa político preciso: esqueleto do capitalismo, é a representação crua e directa do exercício do poder. Designa um dominante e organiza as leis do jogo de modo a permitir-lhe exercer o seu poder sem restrições. Roubar, arrancar, extorquir, impor, que a sua vontade se cumpra sem entraves e que ele desfrute da sua brutalidade, sem que a parte adversa possa manifestar resistência. Desfrute da anulação do outro, da sua palavra, da sua vontade, da sua integridade. A violação é a guerra civil, a organização política pela qual um sexo declara ao outro: assumo todos os direitos sobre ti, obrigo-te a sentires-te inferior, culpada, aviltada.

A violação é apanágio do homem. A única coisa de que as mulheres nunca – até agora –se apropriaram não foi da guerra, da caça, do desejo cru, da violência nem da barbárie, mas da violação. A mística masculina deve ser construída como intrinsecamente perigosa (…) A violação, o acto condenado de que não se deve falar, sintetiza um conjunto de crenças fundamentais envolvendo a virilidade.”

Despentes não tem medo das palavras e vai mais longe: violação, virilidade, poder, sedução, economia, pornografia, mediatismo e poder político, tudo se une pela mesma cola, a da hipocrisia.

“A parte promocional do meu ofício de escritora mediatizada sempre me impressionou pelas suas semelhanças com o acto da prostituição. Salvo quando dizermos, «sou puta», termos todos os salvadores do nosso lado, enquanto se dissermos «apareço na televisão» termos os invejosos contra nós. Mas o sentimento de não pertencermos completamente a nós próprios, de vendermos o que é íntimo, de mostrar o que é privado, é exactamente o mesmo.”

“A pornografia é o sexo encenado, cerimonial. Ora, por um truque de prestidigitação conceptual que continua a ser obscuro, o que é bom para alguns, a que aqui chamamos de libertinagem, constituiria para as massas um perigo de que era absolutamente necessário protegê-las.”

Podemos não concordar ou achar exagerado, podemos nem nunca ter olhado aquilo com aqueles olhos, podemos ficar chocados, mas dificilmente ficamos indiferentes ao que aqui é exposto. E o que Virginie faz é isso, ela expões, mais do que só escrever algo. Ela escolhe as palavras certas e o momento adequado para dizer o que diz, por isso mesmo expõe e denuncia, fazendo-nos pensar e repensar conclusões deslocadas.

“Para um homem, não gostar das mulheres é uma atitude. Para uma mulher, não gostar dos homens é uma patologia. (…) Veja-se as reacções quando dizemos alguma coisa (…) todos os golpes são permitidos, a começar pelos mais baixos- Nem sequer somos estrangeiras, mas estamos sempre a ser legendadas porque não sabemos o que temos para dizer. Ou pelo menos não tão bem como os machos dominantes…

Tão interessante quanto esta narrativa, suas ideias e contradições, é ver como a autora aplica isso no âmbito do romance com a trilogia de Vernon Subutex; habilmente construída com inúmeras personagens, capazes de dar voz a muitas destas preocupações king kongíanas 😉 sem esquecer a radiografia social e política com a banda sonora a marcar o friso cronológico.

A ler: Gail Pheterson; O pavilhão das crianças loucas de Valerie Valére; Camille Paglia e Josée Dayan


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O Passageiro do Fim do Dia - Rubens Figueiredo - Opinião

capas da edição brasileira e portuguesa (2011 e 2013)
Uma edição Clube do Autor


Pedro é um cidadão como tantos outros, cansado do dia a dia de trabalho e que encontra nas viagens de autocarro um tempo para as suas leituras, um escape do stress diário. No entanto, a sua capacidade, conhecimentos e memórias mais recentes, levam-no muitas vezes a viajar para fora do autocarro sem nunca de lá sair.

É isso mesmo, são quase 200 páginas, com um personagem num percurso de autocarro em direcção a um bairro de lata, um morro, uma favela... uma panela de pressão, prestes a explodir e que explode tantas vezes, entre violência, assaltos, discriminação, roubo, crime... tudo o que desigual a sociedade gera e a sociedade somos todos nós.
Neste caminho para o desconhecido, já que o autocarro é obrigado a desviar da rota habitual, Pedro divaga ainda mais e facilmente abandona o livro de Darwin e se centra na vida e em questões que o preocupam.

O livro de Rubens Figueiredo, arrecadou vários elogios e um prémio para melhor livro 2011 e o autor afirmar ter levado quatro anos, não só a escrevê-lo, mas a pensar sobre o que escrevia. E esse é o cerne do livro. Pedro é um pensador, um divagador, que quer obter respostas e ligações entre os episódios da vida. Questionando-se sobre o porquê de à sua volta pouca gente questionar o que para ele é questionável?
Confuso? É capaz, mas afinal a sociedade e as relações entre indivíduos não é coisa fácil.

Espere um livro que o desperte para a desigualdade social e como percebemos essa desigualdade. Como assimilamos e aceitamos a desigualdade sem a questionar!?
É esse quotidiano nefasto que segrega e condiciona o cidadão brasileiro que o autor pretende explorar. O medo, a instabilidade, a violência e a cegueira do dia a dia, que criam mecanismos que nos "defendem" da desigualdade e da segregação social.

Mas ela está à porta de todos! Mas como vê-la? Aliás como fazê-la mostrar-se aos olhos de todos como algo que é de todos? A desigualdade é como o crime e a violência, não existe só quando nos bate à porta, existem mesmo quando não se pensa nela.

Não espere de «Passageiro do fim do dia» um romance ou um enredo complexo. Pedro é um personagem só e solitário, mas com um pensamento que engloba o mundo. O enredo não quer chegar a lado nenhum, talvez nem a Tirol, ou sequer a Rosanne. As divagações de Pedro, o presente preso ao passado e o futuro condicionado pelo presente pretendem chamar a nossa atenção para o hoje, a importância de entender o agora, compreendendo as metáforas da vida.

O livro deixa questões em aberto para que fiquemos a pensar: quando somos vespa e quando somos aranha? Talvez a intenção seja mostrar-nos que a sociedade actual nos transforma em vítimas, mas igualmente em agressores.

Curioso é ainda a forma como Pedro se isola nos seus pensamentos e como cada divagação o vai levando para fora da realidade e acção, passiva e opressiva, que se passa dentro do autocarro, será isso um mecanismo de defesa e de auto controlo? Será que este livro também nos ensina a camuflar medos e a ultrapassar barreiras do dia a dia?

Leiam! Recomenda-se a entrada no autocarro em hora de ponte, num lugar sentado e para uma viagem longa, assim irá lê-o de uma assentada e sentirá, de certeza, o peso que a sociedade actual exerce sobre todos nós e não deixará de tecer comparações entre a realidade brasileira e a portuguesa.

*

Deixo também uma entrevista ao autor que concluí muito bem a leitura do livro.


terça-feira, 10 de abril de 2018

Mais novidades Topseller :: Abril

Data de lançamento :: 16 de Abril

Depois de "A Duquesa Inesperada" e "A Condessa Acidental" chega o terceiro livro da série de Valeria Bowman.

Um romance intenso e cativante com personagens absolutamente irresistíveis.
Jane Lowndes é uma jovem solteira de 26 anos que adora ler e que sonha em passar o resto dos seus dias a estudar, a lutar pelos direitos das mulheres e a frequentar salões intelectuais. Contudo, a sua mãe tenta insistentemente convencê-la a casar e a participar em eventos sociais.

Lorde Garrett Upton é um solteirão despreocupado que sobreviveu à guerra e regressou a Londres com o intuito de aproveitar ao máximo a vida. Tal como Jane, não tem qualquer intenção de se casar.

Ambos se conhecem há vários anos, mas não se toleram, estando constantemente a discutir e a provocarem-se. Só que um dia, num baile de máscaras, beijam-se, sem saberem a identidade um do outro. Quando o descobrem, tudo começa a mudar entre eles.
Conseguirá o desejo que sentem um pelo outro superar o sonho de permanecerem independentes e descomprometidos?

Uma cidade a recuperar de uma tragédia.
Um pirómano anda à solta em Colmstock, na Austrália. Incendiou o tribunal da cidade, e um rapaz que ficara encurralado no  interior do edifício morreu.

Uma jovem aspirante a jornalista à procura de um furo.
Rose Blakey sempre sonhou em ser jornalista, mas todas as candidaturas que envia para os meios de comunicação social são rejeitadas. Tudo o que precisa é de uma história que a faça dar o grande passo da sua vida, e essa história finalmente aparece.

Pequenas bonecas de porcelana cheias de segredos.
Algumas semanas após o incêndio no tribunal, começam a aparecer à porta de certas casas bonecas com rostos idênticos aos das crianças que aí vivem. A população fica aterrorizada, pois suspeita-se de que um pedófilo possa estar envolvido, e a polícia desvia a sua atenção do incendiário para este caso. Rose começa a escrever artigos sobre o tema, que são publicados num jornal, ganhando uma dimensão cada vez maior à medida que vão sendo divulgadas mensagens do pedófilo. Mas numa cidade em que toda a gente guarda pequenos segredos, a verdade torna-se difícil de encontrar.

E se a terra fosse o planeta mais absurdo do universo?
O professor Andrew Martin, génio matemático, acaba de descobrir a chave para os maiores mistérios do Universo. Ninguém sabe do salto que isto representará para a Humanidade? exceto seres evoluídos de outro planeta.

Determinados a impedir que esta revelação caia nas mãos de uma espécie tão primitiva quanto os humanos, estes seres enviam um emissário para destruir as provas. E é assim que um alien intruso, completamente alheio aos costumes, chega à Terra. Rapidamente, ele descobre que os humanos são horrendos e têm hábitos ridículos ? comida dentro de embalagens, corpos dentro de roupas e indiferença por trás de sorrisos? Esta espécie não faz sentido!

Durante a sua missão, sob a pele e identidade de Andrew Martin, este alien sente-se perdido e odeia todos os terráqueos. Exceto, talvez, Newton, um cão. Contudo, quanto mais se envolve com os que o rodeiam mais fica a perceber de amor, perda, família; e de repente está contagiado: será que afinal há qualquer coisa de extraordinário na imperfeição humana?

A amizade consegue superar todas as diferenças...
Kit é a rapariga mais gira da escola. David é um rapaz solitário, incapaz de interagir com os colegas. Ele sabe que é pouco provável que Kit alguma vez repare nele.

Até ao dia em que Kit, cansada das conversas fúteis das amigas, decide almoçar na mesa de David. A química é imediata e os dois passam a partilhar o tempo das refeições. Fruto desta nova e inesperada amizade, David começa a aprender a relacionar-se com os outros, e Kit, ainda a recuperar da trágica e recente morte do pai, encontra o ombro de que precisava.

Kit só conseguirá reaprender a viver se descobrir a causa do acidente do pai e, sabendo disso, David decide ajudá-la. Mas nenhum dos dois está preparado para o mistério que estão prestes a desvendar, e é aí que a sua amizade é posta à prova.

Será ela capaz de sobreviver à verdade?

Uma mulher entre duas culturas, um amor contra todas as probabilidades.

Indochina Francesa, 1952. Nicole Duval tem 18 anos, sangue vietnamita e francês e vive na sombra da sua irmã Sylvie desde a morte da mãe. Daí que a irmã tenha ficado responsável pela gestão do negócio de sedas do pai, e Nicole com a pequena loja de tecidos da família, situada no quarteirão vietnamita de Hanói ? uma área a fervilhar com militantes rebeldes que se opõem ao domínio francês.

Convivendo cada vez mais com o povo vietnamita, Nicole desperta para a corrupção e violência do colonialismo. E o seu mundo acaba por desabar ao saber do chocante envolvimento da sua família nas maquinações coloniais.

Num país rasgado pelos contrastes, Nicole conhece Tran, um rebelde vietnamita que a ajuda a escapar aos seus problemas; mas é por Mark, um charmoso empresário americano, que ela se apaixona. Os dois homens são de mundos opostos e Nicole sente-se dividida. Chegará o momento em que ela terá de fazer uma escolha, mas em quem poderá ela confiar quando ninguém é o que parece?

Um romance sobre autodescoberta, rivalidade entre irmãs e um amor que desafia as convenções.


Novidades

quarta-feira, 10 de julho de 2013

«O Conto da Ilha Desconhecida» de José Saramago - Opinião

                                 "Dá-me um barco."

Era este o requerimento de um sujeito, incógnito, que de pedra e qual se prostrou à porta das Petições, fazendo o obséquio (envenenado) de por ali se quedar até El Rei  se designar a atendê-lo e ouvi-lo, revoltando-se contra a indiferença e espera prolongada causada pela porta favorita do Rei.
Indignada estava também a mulher da limpeza que assistia, extasiada, pela coragem e determinação do revoltoso.

El Rei, dono e senhor era tendencioso e tinha uma preferência pela porta dos obséquios, apreciando todos os favores que a ele lhe prestavam. Incomodado com a indignação do pedinte e com o potencial aflorar de desencantamento social, o Rei ponderou os futuros benefícios e, com maus modos, atendeu o homem que queria um barco.

Impulsionado pela apreensão e pelo tumulto social, o Rei concedeu o desejo do pedinte.
Agora restava saber como iria ele, já de barco e punho, atingir e descobrir uma ilha desconhecida. Ora tal preciosidade, sendo desconhecida, é como se não existisse, não figurava no mapa, nem nas ideias dos homens que opinavam e aconselhavam o pedinte com o desejo de chegar à ilha desconhecida.
Impulsionada, estava também a criada, que arrebatada, saiu pela porta das decisões.

A decisão estava tomada. As portas abertas. O barco escolhido.
Homem e mulher tinham tarefa árdua pela frente, mas...

"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar."

E aqui, a indecisão, a contrariedade e insegurança assombram o projecto e a aventura.

...

«O Conto da Ilha Desconhecida» é um conto recheado de metáforas, eu diria até que é uma escrita icónica, mas alegórica que se refugia num tom quase infantil, levando-nos a descurar o quão intensa e mordaz é a crítica social neste conto, e o quanto nos pede para olharmos para dentro, já que o social somos todos.

"Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver, Não sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha nada para fazer, ia sentar-se ao pé de mim (...) dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância. tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha."

Apesar de ser um conto, eu vejo um livro, vejo algo para além das frases enérgicas, labirínticas e por vezes até confusas. É época é confusa, o ser humano é complexo, indestrinçável, enigmático, duvidoso e cheio de dúvidas.
Se vivemos na senda do conhecimento, da evolução, da inovação, vivemos inextricavelmente na senda da busca interior e do conhecimento de nós mesmos, como solução para decifrar os sonhos, os que temos para nós e para o mundo.

"o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa as pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra (...) tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a sonhar."


Uma excelente leitura proporcionada pela minha grande amiga Philipa a quem agradeço a recomendação!
Uma edição da Editorial Caminho, saiba mais aqui e do livro, aqui.