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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

«Deste lado da luz» de Colum McCann - Opinião



«Deste lado da luz» foi o primeiro livro lido em 2018. E veio no seguimento da leitura do mais recente título: «Cartas a um jovem escritor» que Colum McCann escreveu. Depois das cartas, com dicas muito interessantes, a curiosidade por um romance escrito por McCann aumentou bastante. E convêm já dizer que não desilude este aclamado autor norte americano com raízes em Dublin, Irlanda que é de onde parte a história, dos imigrantes irlandeses, entre outros, que foram essenciais para o desenvolvimento desse colosso que é a América e em particular Nova Iorque e os seus alargardos arrabaldes.

"Do lado de fora da câmara estanque, os sandhogs, ainda com os seus chapéus, entram no meio do ar condensado do túnel. Mais de cem homens chapinham através da lama. Waterboys e soldadadores, carpinteiros e estucadores, manobradores de guindastes e electricistas tiram chapéus e sobretudos com o calor. Uns têm tatuagens, outros barrigas salientes, alguns têm um ar macilento, muitos são musculosos. Quase todos trabalharam anteriormente como mineiros - no Colorado, Pensilvânia, Nova Jérsia... (...)
Tem havido muitas mortes dentro do túnel, mas há uma lei que os sandhogs aceitam: vivemos o tempo que duramos. (...)
Mas os quatro muckers - Walker, O'Leary, Vannucci e Power - não param de falar. Têm de caminhar ao longo de todo o túnel, sob os aros de ferro fundido, passar por máquinas e tornos de serralheiro e cavilhas e chaves-inglesas gigantescas e sacos empilhados de cimento ... continuam a andar, directamente para as profundezas da escuridão."

É nessas profundezas e nessa escuridão que encontramos os cenários que nos levam nesta caminhada, lado a lado, com esses homens, especialmente Walker, que dão a sua saúde e força, em troca de um misero ordenado, fazendo uma cidade avançar em direcção ao progresso projectado por alguns visionários. Estes imigrantes escavam os acessos que deram origem ao túnel do rio Hudson, ligando Nova Jérsia à ilha de Manhathan e mais tarde virão a dar os acessos para circular o metropolitano.
Dentro já desses túneis do metropolitano encontramos o cenário, povoado de excluídos da sociedade, tal como os primeiros também o eram em grande medida, e é-nos apresentada outra personagem central, Treefrog, um sem-abrigo, que conta ao leitor a continuidade da exclusão social, o racismo, a dureza da vida à margem dos bem sucedidos e as mortes que continuam a interessar pouco numa cidade sempre sedenta de inovação e crescimento.

"Um pedaço de jornal antigo pega-se-lhe ao pé e envolve-se à volta do tornezelo, e ela leva a página consigo durante cerca de vinte metros. Treefrog - escondido à muito tempo na penumbra - pensa nos cabeçalhos que se abatem sobre os seus tronozelos e são transportados ao longo dos túneis definitivamente, mas ela dá um pontapé no jornal e continua a cambalear na direcção de Elijah- Deve ter estado aqui antes, pensa Treefrog, pela maneira como se movimenta, pela forma como nunca olha por cima do ombro. (...)
Ele vai descobrir mais tarde que o seu nome é Angela. Esteve a viver no outro túnel, na baixa da cidade, entre a Second Avenue e a Broadway-Lafayette, numa estação de metropolitano, a uns cem metros da plataforma (...).


É muito interessante a forma como, capítulo a capítulo, oscilando entre o princípio do século XX e a actualidade (1998 quando o livro foi escrito), McCann descreve a história de uma família e a forma como ela evoluiu, mesmo estando sempre ligada aos túneis, o autor narra quatro gerações marcadas por eventos fortes que competem com a estrutura familiar e o amor que os tente sempre salvar da dureza e da exigência de um século pejado de transformações e discriminação. O "recheio" dado pelo lado histórico, que não é de modo algum exaustivo, é bastante envolvente e por si só um excelente fio condutor.

terça-feira, 17 de junho de 2014

A nova chancela do Grupo Editorial Presença - Jacarandá


O Grupo Editorial Presença dá a conhecer o nome da sua nova chancela - JACARANDÁ, com novos títulos já previstos para a rentrée literária deste ano.
Contando com a experiência editorial de Simona Cattabiani, no activo no mercado editorial desde 1995 e até Novembro de 2013 no cargo de directora editorial na Civilização Editora.

A chancela Jacarandá editará alguns nomes sonantes como Hilary Mantel, David Nicholls ou ainda Keith Richards. Assumindo uma vertente generalista, tanto com autores conhecidos como outros estreantes e também direccionada a diversas faixas etárias.

Ficamos então a contar com os novos títulos a partir de Outubro.

Estou a lembrar-me de nomes como Colum McCann, Rosamund Lupton, autores Civilização que lemos e apreciámos ou ainda John Updike ou Jodi Picoult que arrastam multidões de leitores. Há também no catálogo Civilização, o egípcio Naguib Mahfouz, vencedor do Nobel da Literatura... ou ainda Jeff Abbott ou a Philippa Gregory, autores muito solicitados pelos leitores quer de policiais quer de romance histórico, respectivamente.

Fiquemos então a aguardar o catálogo.

Entretanto vamos procurar por jacarandás em flor que são bem bonitos... ;)




sexta-feira, 11 de outubro de 2013

«Deste lado da Luz» de Colum McCann - Opinião


Com uma escrita que é bastante acessível e não deixando de ser cuidada, o autor leva-nos a viajar por um mundo de miséria durante quatro gerações, entre o ano de 1916 e 1991 fazendo-nos um guia sobre alguns dos grandes acontecimentos de Nova Iorque.

Esta história é-nos trazida através da vida de dois personagens, Nathan Walker e Treefrog que ao principio parecem nada ter a ver um com o outro, mas conforme avançamos nas páginas do livro este suposto afastamento vai-se dissolvendo e mais ou menos a meio do livro começamos a supor o que se ira revelar.

Comecemos então o enredo. O novelo é escuro, sombrio e nas profundidades. Nathan Walker é um "toupeira", um trabalho sujo e perigoso, mas muito necessário em construções subterrâneas. Construção essa que é um acontecimento marcante na história da Big Aple. Nathan escava túneis sob o rio Hudson que servirá o metro entre Brooklyn e Manhattan.
Também nesses túneis encontramos, Treefrog, um sem abrigo que se refugia no esquecimento e na invisibilidade dadas por esses locais sombrios.

O livro é brilhante, já que combina de forma muito harmoniosa factos com ficção. Revelando grandes flagelos da sociedade da época, McCann traz à luz temas tão sombrios como o racismo e as precárias condições de trabalho, talvez dois dos flagelos que mais vidas colocavam em risco.

A história colectiva de uma cidade, cruza-se com as histórias pessoais de cada um dos personagens. Se por um lado temos flagelos e problemas de cariz social, económico e até racial. Temos por outro lado, crises familiares, álcool, preconceito, orgulho e dificuldades de diálogo que vão contribuindo para alguns desfasamentos mentais de Treefrog.

As histórias avançam e as gerações também, mas nem por isso as histórias ficam menos grotescas. Apesar de existir aqui dedicação, amor e confiança, há também muita incompreensão e até alguma ignorância em entender a própria condição humana.

Com as suas palavras, sábias e bem estruturadas, este livro consegue por vezes fazer-nos odiar as personagens e logo a seguir sentirmos uma certa empatia, evoluindo para a compreensão, quase fazendo esquecer os sentimentos mais nefastos anteriormente sentidos.

Para mim, o livro em questão ganha ainda mais valor, por nos levar a pensar em quais seriam as nossas acções se tivéssemos crescido num ambiente semelhante ao que é descrito, leva-nos a pensar que certas pessoas pelo seu estatuto na sociedade ou pela sua fraca educação, são obrigadas a ter determinados comportamentos.

Por fim é um livro que nos leva a uma realidade que penso que em Portugal não existe, mas é frequente haver relatos de países como a América. A existências de inúmeros sem abrigo em túneis, esquecidos e escondidos da sociedade.
O enredo faz-nos descer à realidade do submundo dos sem abrigos que vivem confinados aos túneis do metro, sendo que quase passam despercebidos da sociedade em geral, leva-nos a pensar como esta gente "meio morta", quase invisível, pessoas com problemas com álcool e com drogas, alguns até com problemas mentais, ainda têm sentimentos e que talvez, ainda desejem e possam voltar a ser integrados na sociedade.
Creio que nesses aspecto, a escrita aproxima-nos muito da realidade, tentando fazer-nos olhar para algo de que desviamos constantemente o olhar.

Apesar de ser um livro muito sombrio adorei a sua leitura e sobretudo como o autor consegui juntar as vidas destas personagens durante um período tão grande de tempo.


«Deste lado da Luz» de Colum McCann é uma edição da Civilização Editora.