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sábado, 24 de fevereiro de 2024

«O assassino cego» de Margaret Atwood - Opinião

“A única forma de escrever a verdade é partir do princípio que aquilo que se escreve nunca vai ser lido por ninguém. Nem por outra pessoa, nem mesmo nós próprios, mais tarde. De outra maneira começamos a desculpar-nos a nós próprios.”

Esta é a premissa de «O Assassino Cego» onde Iris Chase escreve para se confessar, mas não pede perdão. Narrada ao ritmo da sua velhice: “cada vez mais me sinto como uma carta – depositada aqui, recolhida ali. Mas uma carta que não é dirigida a ninguém.” Ou é, nem que seja a si mesma, enquanto se ouve a recontar, detalhadamente os acontecimentos. É uma caça às recordações.

“Um pássaro vivo não é a mesma coisa que os seus ossos etiquetados”

Nas primeiras cinquenta páginas temos elementos-chave para toda esta narrativa complexa e descritiva. 

As mulheres sem língua, inchadas por aquilo que as obrigam a calar, é apanágio da época. Calar as mulheres, casá-las para salvar a honra e as fortunas depenadas das famílias, entregá-las aos conventos ou à religião… tudo se justificava pelo papel submisso e secundário da mulher numa sociedade onde “havia muitos deuses. Os deuses dão sempre jeito, justificam quase tudo…” ainda assim, a narradora-protagonista, Iris Chase diz que à luz quente de uma chama, quando confrontados com a verdade não somos mais que ossos e “Sabe Deus que ossos roí durante o sono.”

terça-feira, 17 de março de 2020

«A história de uma serva» de Margaret Atwood :: Novela gráfica - Opinião



"Vendo que não dava à luz filhos a Jacob, Raquel começou a ter inveja da irmã e disse a Jacob: «Dá-me filhos ou, então, morro!»

E Jacob irritou-se com Raquel e disse-lhe: «Julgas-me capaz de substituir Deus, que te recusou a fecundidade?»

Ela respondeu: «Aqui tens a minha serva Bila; vai ter com ela. Que ela dê à luz sobre os meus joelhos; assim, por ela, eu também terei filhos.»"  
                                                                                                                                       Génesis, 30:1-3

Esta passagem da Bíblia é um dos pilares fundadores da sociedade de Gileade, uma estrutura ditatorial, apoiada no fanatismo religioso e numa segregação sufocante e violenta para as mulheres. Atwood idealizou e montou o romance «A história de uma serva», um relato igualmente sufocante e que lemos com nó na garganta. 

"Se o que estou a contar é uma história, então tenho controlo sobre o final. Haverá então um final para a história, ao que se seguirá a vida a sério. Posso recomeçar onde fiquei.
O que eu estou a contar não é uma história. (...)
Contar, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, em todo o caso, escrever é proibido. Mas se é uma história, mesmo na minha cabeça, devo estar a contá-la a alguém. Há sempre mais alguém. (...) Querido Tu, diria eu. Apenas tu, sem um nome. Juntar um nome, junta-te ao mundo dos factos, que é mais arriscado (...) Tu pode até ser mais de uma pessoa.
Tu podem ser milhares."


Ler o romance escrito por Atwood e agora poder ver esta interpretação gráfica por Renée Nault permite dar outra dimensão às palavras já intensas da autora; as imagens captam muito bem a rigidez, a apreensão, o sufoco, a ameaça, o medo, mas também a vontade de fuga e resistência, a necessidade do toque, a constante denúncia e revolta; entre tantas outras coisas para as quais é difícil dar um só nome. 

Ver com atenção estas imagens, estáticas, tão diferente de ver o livro adaptado a série televisiva, acrescenta essa tal dimensão que refiro, podemos perder-nos dentro de muitas destas imagens tempos sem fim e ir ler e reler passagens que marcámos aquando da leitura deste diário, contado na cabeça da Serva June, não June, não, DeFred, já que não pode mais usar o seu próprio nome, ela já não é dela mesma, mas sim de um homem, de um líder, do Comandante.

"A noite é minha, um tempo meu, para fazer o que quiser, desde que em silêncio. Desde que não me mexa. Desde que fique deitada, imóvel. (...)
Estou deitada na cama, ainda a tremer. Se molharmos o rebordo de um copo e passarmos o dedo por ele, produz um som. É assim que me sinto: esse som do vidro. Sinto-me como a palavra estilhaçar
Quero estar com alguém."

A falta de contacto é em si uma forma de subjugação, as Servas nem no acto da Cerimónia devem ser tocadas pelo Comandante, ele apenas as deve possuir, a fim de depositar nelas a semente.

"Espero, lavada, penteada, alimentada, como um porco premiado. 
(...)
A cerimónia decorre conforme o habitual.
Deito-me de costas, completamente vestida com excepção da saudável roupa interior de algodão branco. (...)
Envolve-nos uma neblina de Lírio do Vale, um tanto fria, quase fresca. Não há calor neste quarto.
Acima de mim, (...) encontra-se Serena Joy, estendida. Tem as pernas abertas, eu estou deitada no meio delas, tenho a cabeça no estômago dela, a nuca em cima do seu osso púbico, ladeadas pelas coxas dela. Também ela está completamente vestida. 
Tenho os braços levantados; as mãos dela seguram as minhas. O que supostamente significa que somos uma só carne, um só ser. (...)
A minha saia vermelha está subida até à cintura, mas não mais do que isso. Abaixo dela, o Comandante fode. Aquilo que fode é a parte inferior do meu corpo. (...)
Serena Joy  aperta-me as mãos como se estivesse ela a ser fodida (...) e o Comandante fode, com a cadência de marcha regular dois-quatro, e assim continua como uma torneira a gotejar. (...)"

Poderia continuar com descrições, mas nada como pegarem na novela gráfica e irem descobrindo as imagens e lendo passagens correspondentes na narrativa. E melhor ainda, a Bertrand publicou recentemente «Os Testamentos» continuando assim a história de Gileade e a da Resistência. E é sobre isso mesmo este último excerto: a resistência, a esperança e o acreditar.

"Na penúria, uma pessoa é levada a acreditar em todo o tipo de coisas. Agora a credito na transmissão de pensamento, vibrações do éter, tretas dessas. Nunca tinha acreditado.
Também acredito que não o apanharam, ou que não o alcançaram, afinal de contas, que ele conseguiu chegar à outra margem (...) Imagino a roupa. É um conforto para mim vesti-lo com roupas quentes. Estabeleceu contacto com os outros, deve haver uma resistência , um Governo no exílio. Há-de haver lá alguém, a tratar das coisas. Acredito na resistência da mesma maneira que acredito que não pode haver luz sem sombra; ou melhor, não pode haver sombra a não ser que também haja luz. Tem de haver uma resistência, senão de onde é que vêm todos os criminosos, na televisão?"

*

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

«A história de uma serva» de Margaret Atwood :: Opinião



«A história de uma serva» livro que deu origem à tão badalada série televisiva que em 2017 ganhou um Emmy na categoria de Drama foi escrita em 1985 e, perante tal galardão Margaret Atwood afirmou que a sua narrativa especula sobre um futuro assustador é ainda mais assustador se assumirmos que a mesma tem contornos de documentário pelas circunstâncias sociais asfixiantes que marcam a actualidade. 

A história que a Serva narra é a pouca que lhe é permitida numa sociedade onde quase tudo é proibido às mulheres, até o uso do seu próprio nome. Porém, os patamares sociais distanciam muito as mulheres desta sociedade totalitária e fortemente religiosa. O regime instituído espartilha um quotidiano resumido às tarefas domésticas e a certas práticas sociais restritas, onde cabe às mulheres o papel que os homens interpretam das escrituras: casamento, manutenção do lar, procriação e obediência ao marido. 

Atwood criou assim um casulo preso a raízes puritanas e cerimoniosas, onde as Servas vivem mais restringidas do que as demais mulheres; são elas as responsáveis pela descendência, são elas as mães da nação de Gileade. Porém, não são elas as mães que darão colo ou afecto, elas são as Servas, a sua missão é parir, até lá, são o depósito da semente (e esperança) dos comandantes, os grandes senhores e líderes de Gileade. As Esposas zelam pela família, controlam Servas e Martas (basicamente criadas) e organizam pequenos festins comensais para celebrar sementes bem lançadas e partos com nados vivos, para além de tomarem parte na Cerimónia mensal. Rituais que chegam a ser chocantes aos nossos olhos de hoje, mas que, com traços verdadeiros, têm origem em tradições do fanatismo religioso. Assustador é o mínimo que se pode pronunciar e que o leitor sente em certas passagens mais descritivas.

A narrativa assume o pensamento fragmentado de June, a Serva protagonista, com saltos temporais tão necessários para a sua saúde mental, como para o leitor perceber como se chegou aquela sociedade tóxica e recente. Ao mesmo tempo mostra a luta quotidiana de uma mulher, outrora livre e independente, numa tentativa de se adaptar a esta nova realidade e provar o seu valor de mulher fértil, ou seja, engravidar do Comandante a quem serve. 
Provar ou não o seu destino: engravidar; faz a sua vida ter valor e continuar integrada na sociedade ou ser desterrada para as Colónias: um local envenenado pelos erros (ambientais?) do passado, onde só se vai para trabalhar e morrer vítima de radiação. 

Todo este relato tem um silêncio constrangedor e de falsa resignação e dele resultam inúmeros códigos e significados partilhados entre as Servas e as Martas. Nos seus olhares, cheios de desconfiança mas também de empatia, desenvolve-se um sistema paralelo e secreto que visa salvar estas mulheres e contrariar a profunda estratificação da sociedade.

No resguardo que é obrigatório a estas mulheres vê-se o quanto este livro é anti-utópico e com uma voz reivindicativa, contrariando teorias de felicidade máxima e concórdia entre os cidadãos de um regime totalitário. A denúncia que aqui se faz é feroz e reduz o totalitarismo a um único termo: primitivo. E faz dele estandarte para denunciar igualmente como é primitiva e bárbara a violência e os condicionalismos exercidos sobre as mulheres. Para além disso, há um traço ténue mas sempre presente, de uma critica social pesada e facilmente transferidas para os dias de hoje. E assim se justifica a intemporalidade da escrita de Atwood.

*

«A história de uma serva» de Margaret Atwood é uma das melhores leituras de 2018!

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Próximas Novidades :: Bertrand


Recriação de A Tempestade de Shakespeare Felix está no seu auge como diretor artístico do festival de Teatro de Makeshiweg. As suas produções geram espanto e perplexidade. Está agora a encenar uma Tempestade ímpar: não só irá incrementar a sua reputação, como sarar as suas feridas emocionais. Pelo menos, era esse o plano. Em vez disso, e na sequência de uma indescritível traição, Felix está a viver numa barraca nos fundos da civilização, atormentado pelas memórias da adorada filha que perdeu, Miranda. E a alimentar o desejo de vingança. Depois de doze anos, essa vingança surge por fim sob a forma de um curso dramático numa prisão das redondezas. É aí que Felix e os seus companheiros levarão à cena A Tempestade e encurralarão os traidores que o destruíram. É magia! Mas mudará Felix quando os seus inimigos forem derrotados? A recriação de Margaret Atwood é não só um exercício de encanto, vingança e segundas oportunidades, mas também nos conduz a uma viagem interativa, cheia de ilusão, bem como novas surpresas e maravilhas.



Corre o ano de 1996 e Reacher ainda está no Exército. De manhã dão-lhe uma medalha e à tarde mandam-no de volta para a escola. Nessa noite está estafado. 
Há mais dois homens na turma: um agente do FBI e um analista da CIA. São ambos agentes de primeira e ambos se perguntam o que estão ali a fazer.

E depois descobrem: uma célula jiadista em Hamburgo recebeu a visita de um mensageiro saudita. Um agente da CIA infiltrado ouve dizer: «O americano quer cem milhões de dólares.» 
Para quê? E de quem? Reacher e os seus parceiros terão de o descobrir. Se falharem, o mundo será palco de um ato de terrorismo de enormes dimensões.
Da América a Hamburgo, de Jalalabad a Kiev, a narrativa dispara como uma bala por territórios ambíguos, identidades falsas e novos e terríveis inimigos.



Eles eram melhores amigos e solteiros convictos. Charlie Harrington, um belo filantropo, tem expectativas tão elevadas para a noiva ideal que nenhuma mulher de carne e osso as pode atingir. Adam Weiss, um célebre advogado quarentão, prefere as mulheres bem jovens e sensuais e as relações breves… Quanto a Gray Hawk, um talentoso artista com queda para relações complicadas, não tem problema nenhum com as mulheres, é a ideia de ter uma família que ele não consegue conceber (especialmente tratando-se da família da mulher com quem namora…) Agora, os três amigos, que passam as férias de verão num cruzeiro pelo Mediterrâneo a bordo do esplêndido iate de Charlie, estão prestes a ver suas convicções abaladas. Chegado o outono, todos eles entram em relações que nenhum antecipara. À medida que mais um verão se aproxima e, com ele, mais um ponto de viragem na vida de cada um, terão de enfrentar aquilo que mais os assusta: o amor.



A mulher que enfrentou Egas Moniz, Júlio de Matos e os sábios da época. Filha e herdeira do fundador do Diário de Notícias. Mulher do administrador do mesmo jornal, o escritor Alfredo da Cunha. Presa num manicómio por um «crime de amor». Os factos relevantes têm início em Novembro de 1918: era uma vez uma senhora muito rica que fugiu de casa, trocando o marido, escritor e poeta, por um amante. Tinha quarenta e oito anos, pertencia à melhor sociedade portuguesa. O homem por quem esta senhora se apaixonou, tinha praticamente metade da sua idade e fora seu motorista particular. Era herdeira do Diário de Notícias e a sua história chocou a sociedade da época.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Opinião "A História de uma Serva"


No início do ano disse "a minha leitura de verão será A História de uma serva". Talvez tenha sido influência dos ventos de mudança que ocorrem nos Estados Unidos, talvez seja a maturidade que me faz querer leituras diferentes ou talvez seja a adaptação da história ao pequeno ecrã que me influenciou a incluir este livro mas minhas leituras mais imediatas. Seja qual for a razão, esta é sem dúvida uma leitura que não vou esquecer tão cedo. Talvez por ser tão assustadoramente possível ou talvez porque na plenitude da minha liberdade actual ache abismal o que me é sugerido em comparação com a minha realidade.
A questão é....
Será que é?


No mundo actual há Gileade(s) por esse mundo fora, onde as vestes não são vermelhas mas onde o mundo se rege pela mente do homem, pelas leis de qualquer que seja o deus que se professe e em que a mulher não é mais que um objecto para ser usado e deitado fora quando já não cumpre o propósito que lhe foi atribuído.
Será que caminhamos inevitavelmente para isto, a nível mundial?
Com todo o poder que temos (ou nos é dado a querer que temos) será que estamos a fazer tudo ao nosso alcance para impedir que um dia as mulheres não estejam ainda mais à mercê da vontade dos homens?

Um livro poderoso, uma leitura que aconselho a toda os leitores, femininos ou masculinos.
E depois, VEJAM A SÉRIE!
Está soberba!

Fica o Trailer.

E a autora ficou-me no radar. Vou colocar o nariz nos seus outros livros.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Novidade Bertrand "O Coração é o último a morrer"

Coisas fora do vulgar para começar o ano.
Este vai para a wishlist, só saí é lá para o dia 20 deste mês :D


Charmaine e Stan estão desesperados: sobrevivem de pequenos trabalhos menores e vivem no carro. Portanto, quando veem um anúncio a Consiliência, uma «experiência social» que oferece empregos estáveis e casa própria, inscrevem-se imediatamente. A única coisa que têm de fazer em troca é ceder a sua liberdade mês sim, mês não, trocando a sua casa por uma cela da prisão. Não tarda, porém, que Stan e Charmaine, sem o saberem um do outro, comecem a desenvolver obsessões apaixonadas pelos seus «Alternantes», o casal que ocupa a sua casa quando estão na prisão. E assim mergulham num pesadelo de desconfiança, culpa e desejo.

Uma novidade
Para mais informações visitem o site Bertrand