sexta-feira, 28 de abril de 2023

"Sangue Derramado" de Asa Larsson :: Opinião


Perante a morte da pastora protestante, Mildred, adentramos em Kiruna. Conhecemos o gene policial de Asa Larsson na personificação de várias personagens fortes. Mulheres fortes. Eu diria até, mulheres fortes protegidas por uma loba solitária e fugidia e é dessa forma que as árvores ganham mais vida, os ruídos espessura e o enredo um outro tom que eleva este policial nórdico. 

Foi uma bela estreia no universo de Asa Larsson! Tanto, que mesmo com o rabo sentado na areia e entrevalando as leituras com banhos de mar e sol, cheguei a sentir o frio e a escuridão daquelas terras nórdicas, silenciosas e misteriosas.

Embora tenha sido uma estreia, a história de Rebecca Martisson arrancou num livro anterior, mas as pistas estão todas nas entrelinhas e é como se existissem dois crimes por desvendar, não obstante, eu estar mais preocupada em saber da loba e querer saber que continuava intocável. Portanto, neste "Sangue Derramado" apanhamos uma Rebecca meio fugida, meio perdida, para quem as coisas ultimamente só lhe entram na cabeça à força. Depois os últimos acontecimentos, sente o seu mundo de pernas para o ar, mas observa com muita lucidez que todos à sua volta andam «com a fita métrica a postos nos bolsos». 

Sente-se observada, analisada e medida por tudo o que diz, mas essencialmente pelo que não faz ou não diz. Para além de estar rodeada de uma equipa onde todos lutam por protagonismo, estão todos à espera que se passe novamente da cabeça e resvale, dando sentido à opinião de alguns que acreditam que ela não é a melhor escolha para ir a Kiruna. Assim sendo, este «Sangue Derramado» pode muito bem ser o cenário ideal para isso, já que Kiruna é precisamente a terra que a viu nascer.

Como se isso não bastasse, o enredo envolve um crime na paróquia, uma mulher à frente desse posto de comando. Coisa rara! E ainda por cima uma feminista e defensora de que já é mais do que tempo de contrariar o sistema e fazer as coisas avançar. Mudar. E a mudança assusta muita gente. Pior, a mudança sugerida (ou imposta) por uma mulher. Aliada a outras mulheres.

Larsson não poupa a sociedade escandinava, a religião, as comunidades pequenas e tacanhas e os atentados ambientais mesmo naqueles que parecem ser paraísos de gelo, lugares sagrados, recônditos e intocáveis. Ou assim se esperava.

Larsson lança pedradas, umas atrás das outras, como que a avaliar a que distância está o fundo do poço. 

O que de lá se ouve? Ou reluz? 

A sua escrita e capacidade de saciar o leitor, fazendo-o querer avançar, capítulo a capítulo, enquanto ela vai afogando os seus personagens em mentiras, ódios, crimes e segredos. E claro, o amor! Servindo-se de diferentes tipos de amor, mas essencialmente um muito grande à Natureza e aos Animais. E arriscaria dizer: às pessoas, que na sua solidão, isolamento e bondade tantas vezes abusada, comentem crimes; a sua literatura não os exonera, mas tenta mostra que a linha é ténue e qualquer um pode cometê-los.

domingo, 23 de abril de 2023

«Atelier de Noite» de Ana Teresa Pereira – Opinião

“Não podemos pôr nada inteiro, mas no meio dos pedaços temos uma visão enovoada do que existia antes (…)”

Enovoada surge-nos uma mulher, Teresa, uma Agatha Christie que se reinventa, embora seja uma mulher cheia de pensamentos intermitentes e dúvidas. Ela foge, sem dizer muito bem do que foge. Talvez para um último amor, talvez para se reinventar e se amar a si mesma, uma última vez, por isso nos diz: “Há um tempo para as últimas coisas, o último relógio de pulso, a última gabardina, o último cão, o último amor. A última beleza intermitente. Por vezes é assim que penso naqueles onze dias. A última vez que fui bonita.”

Talvez um amor platónico. Sabemos que havia um homem; «nota-se na boca» diz-nos ela a determinada parte. Seria uma antiga paixão? Uma paixão sempre capaz de se reacender, como as boas histórias que «começam uma e outra vez, mesmo depois de já termos ido embora.”

Ficamos na dúvida, mas supomos que essa é claramente a intenção da autora, o seu traço característico, o de criar «alguém que pudesse habitar», reescrevendo-se como um poema cujos versos andam soltos e só se unem dançando. É preciso dançar, embalar e namoriscar a noite, pois «nada é seguro. Uma manhã podemos acordar num quarto de hotel, e não encontrarmos a nossa personagem». Há um medo em perder-se de si e não mais se encontrar ou encontrar-se sozinha, quebrada, já sem ninguém, já sem nada que a ponha inteira de novo.

«O Atelier de Noite» é um livro carregado de fragmentos e incertezas, mas que transparece uma preocupação: um medo enorme pela desordem do que pode ser o fim, quando se esgota o que a caracteriza e lhe dá sentido. As camadas.

É um romance que vive mais de forma do que enredo, é cheio de referências e fluxos de consciência, mais do que de uma história concreta, com princípio meio e fim, mas até nisso cruza bem com a personagem de Agatha Christie, que queria fugir desse registo, já que o policial, por norma, mesmo que enredado, negro e complexo, tem uma estrutura regrada, expectável e testada. Por isso, a ideia de Ana Teresa Pereira em cruzar um episódio verídico ainda sem uma explicação concreta (facto que eu desconhecia) com esta possibilidade também ela pouco nítida e que casa muito bem com o “desfecho”: o escritor escreve sempre a mesma história e de tanto escrevê-la haverá de acertar, quase como se isso corrigisse a vida 

domingo, 16 de abril de 2023

«No jardim do Ogre» de Leila Slimani :: Opinião


Eu não sei se Adèle é a nova Bovary, mas um certo tédio e desvario instalaram-se na vida desta mulher, que “em união” com uma patologia de distúrbio sexual, lhe condiciona os dias e as noites em busca de sexo. Ela está insaciável!

“Não mantém um livro de registo, não retém os nomes e, muito menos, as situações. Como poderia ela lembrar-se de tantas peles, de tantos cheiros? Como poderia guardar na memória o peso de cada corpo sobre o seu, a largura das ancas, o tamanho do sexo?”.

Posto desta forma, como Slimani o descreve, parece quase poético. Não o é! É bruto, é visceral, fragmenta e destrói esta mulher. Corrói-lhe corpo e alma. E o respeito por si mesma, torna-a numa «boneca no jardim do ogre». E com as bonecas, brinca-se. Até o marido brinca.

A paz pobre que cobre o tom de respeitabilidade do matrimónio com Richard, um médico reconhecido e socialmente bem inserido (fruto do casamento, de um filho e de uma mulher bonita) ajudam a que ela viva desenfreadamente os capítulos tóxicos de uma sexualidade de risco, onde o desejo não rima com luxúria ou prazer, mas antes com um êxtase que se chega ao abismo. Há até uma certa repugnância e angústia que acaba a espalhar-se a tudo.

“Não se tocam. Beijam-se pouco. Os seus corpos nada têm a dizer um ao outro. Nunca sentiram atracção, nem sequer ternura, um pelo outro e, de certa forma, essa ausência de cumplicidade carnal reconforta-os. Como se isso provasse que a sua união estava acima das contingências. Como se já tivessem feito o luto de algo de que os outros casais só se conseguirão desligar a contragosto, com gritos e lágrimas.”

Controla esses gritos e lágrimas, mas nem sempre Adèle controla o que lhe vai no pensamento: «apetece-lhe arranhar aquele rosto descontraído e meigo, esventrar aquele colchão reconfortante», no entanto, vai esventrando-se a si mesma num planeamento que a consume, mas que é inverso ao planeamento de Richard, dono de um colchão cada vez maior, mais alto, antecipando ao leitor a queda de proporções implacáveis.

“Não é dos homens que ela tem medo, mas sim da solidão. Já não ser alvo de olhares, ser desconhecida, anónima, um peão na multidão.”

Não obstante a audácia do enredo, julgo que a força está na forma sucinta e cirúrgica como Slimali usa a linguagem para demonstrar ao leitor a mulher-peão numa doença que a torna em pouco mais que um corpo anónimo, consumido, usado, abusado.

«Rua Katalin» de Magda Szabo :: Opinião

 

"Hoje tenho a noção da importância daquele momento; contudo, na altura, não cheguei a percebê-la. Muitas vezes só tardiamente nos apercebemos de como teria sido importante, enquanto é possível, prolongar e reter o tempo. Mas eu não tentei retê-lo. Estava com pressa. (...) Naquela altura, ainda sabia que se podia morrer bem antes da morte verdadeira. (...) Mas agora, isso já pouco importa; os sentimentos e as recções, tal como os factos, são irreversíveis, não se pode revivê-los nem mudá-los."

Em menos de três páginas, três pequenos excertos que podiam saltar do livro para a vida. Imitando-a. Salva-nos uma nuance: o livro, esse, podemos reler, mas mesmo assim não anulamos o que já conhecemos, o enredo, o desfecho. Podemos reinterpretar, saborear e usufruir o que não soubemos fazer à primeira, mas será impossível alterar a expectativa (e a pressa!) com que o atacamos na leitura inicial. E isso é uma metáfora da vida. É preciso saber dar a cada coisa o seu lugar e o seu tempo e não fazer comparações. Mas como fazer isso bem feito quando as expectativas vão elevadas?

A "culpa" foi da experiência arrebatadora provocada pela leitura de «A Porta» e a vontade de querer, às primeiras páginas, ficar assoberbada, inebriada e rendida e uma personagem que pudesse equilibrar a balança ao lado de Emerence. Mas os livros, como a vida, têm personagens irrepetíveis, ainda assim, todas têm o seu lugar e o seu efeito sobre nós. Basta deixarmos!

Em «Rua Katalin», Szabo mostra-nos o envelhecimento através do processo de rememoração da infância e de episódios que definem para sempre as vidas de Irén, Blanka, Balint e Henriette, crianças de três famílias diferentes que nos são apresentadas num quadro de personagens iniciais (que tanto determinam a experiência de leitura) e num curto capítulo introdutório que, à laia de aviso, nos diz: "Ninguém lhes havia explicado que o desaparecimento da juventude seria alarmante, não por lhes retirar, mas por lhes oferecer algo (...) a consciência da desintegração do Todo (...) o Todo harmonioso fragmentara-se."

E é na senda dessa fragmentação que o leitor vai compondo a cronologia possível que, julga ele, lhe permitirá compreender o que aconteceu naquelas vidas e o peso e os fantasmas que carregam, perante a crueldade de determinadas memórias, feridas sempre abertas e emoções demasiado confusas, para se expressarem na simplicidade das lágrimas.    

"Continuámos sentados em silêncio, como dois irmãos e, pela primeira vez na minha vida, presumi que os mortos não morrem, e quem já vivera neste mundo, seja sob que forma de existência, é indestrutível."

A inevitabilidade do curso da História e a dor que daí advém, muda-os e molda-os ao entrarem na idade adulta. Transforma-os em desconhecidos uns para os outros, mas também para si mesmos, porque «nas tragédias, quando os golpes são muito fortes, o espírito defende-se, concentrando-se num pormenor insignificante», tal como logo ao início o narrador nos avisa: «na realidade, os acontecimentos que constituíam as suas vidas só em poucas situações, nalguns momentos e episódios, foram importantes; o resto servia apenas para encher os poros da fragilidade da existência, tal como as aparas de madeira impedem que se quebre o conteúdo de uma caixa destinada a uma longa viagem». 

E nessa longa viagem, composta por aparas que enchem mais de trinta anos, conhecemos vários tipos de amor, de sacrifício, de opressão e de união familiar, mas também a inocência da amizade e dos amores de infância que geram memórias responsáveis por decisões que determinaram as vidas destas três famílias «como um barco que é levado pelo vento, Deus sabe para onde, agarrando-se um ao outro, (...), pois lembram-se das mesmas coisas (...) tinham visto o mesmo céu azul antes de a tempestade se ter desencadeado».

 *

Nota extra: Percebi o quanto tinha gostado deste livro ao reler a opinião sobre os efeitos da leitura de «A Porta». Está cá tudo, igualmente cheio de mestria e desconcerto para o leitor. E também por ter encontrado nas páginas finais, nas revelações impactantes de Irén, ecos de «A Herança de Eszter» e perceber, mais uma vez, quanto tempo os livros, como as memórias, vivem dentro de nós.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

«Um detalhe menor» de Adania Shibli - Opinião


«nas tragédias, quando os golpes são muito fortes, o espírito defende-se, concentrando-se num pormenor insignificante» (em «Rua Katalin» de Magda Szabo)
A frase não pertence a este enredo, mas podia. Encontrei-a numa leitura seguinte, mostrando-me que os livros, mesmo aqueles que não aprecio tanto, ficam a pairar e estabelecem traços entre eles, que os unem e explicam, dando-lhes mais sentido. Neste caso, perante esta frase compreendi o grito de revolta que se encerra nos pormenores insignificantes deste «Um detalhe menor», que são as repetições, as descrições e a monotonia (e alguns piscares de olho), quase como últimos redutos para um povo que se viu em escombros perante uma ocupação e uma expropriação que ainda hoje tem persiste, divide e oprime.

"(...) o que parece uma aranha começará a tecer os seus fios em meu redor, apertando-os de tal maneira que pouco a pouco se transformarão em algo semelhante a uma barreira, que nenhuma pessoa, sendo tão frágil, consegue trespassar. É a barreira do medo, cuja a origem é o medo da barreira do posto de controlo. (...) ou se disser abertamente que vivemos sob ocupação. (…) O que acontece diariamente num lugar onde prevalece o tumulto de ocupação e a matança permanente”

Por isso, enquanto um homem de patente cumpre os seus rituais de higiene, mas continua a apodrecer - detalhe nada menor - com um ritual monótono, como a paisagem dunar e a canícula longa e prolongada, uma mulher é vítima do crime hediondo da violação. Uma violação repetitiva e duradoura, onde toda um regimento se satisfaz. No entanto, esse parece um detalhe menor, não pela ausência descritiva, totalmente dispensável, mas por só lhe der dado destaque vinte cinco anos depois quando uma outra mulher tem conhecimento desse crime e decide percebê-lo melhor. Embora sem saber muito bem como ou porquê, metáfora para a guerra sangrenta que afunda um povo num «abismo de inquietação».

E chamar-lhe inquietação é pouco. A paz é uma miragem, mesmo para quem continua a empurrar o corpo e a querer com ele saltar e quebrar fronteiras, mesmo que por vezes o faça de forma irracional, fruto de um desassossego que atormenta quem vive uma liberdade furtiva e fragmentada. Metafórica.

"O único movimento agora é o da miragem, que faz as estradas e as colinas tremerem nervosamente, nelas aparecendo espectros que, quando uma pessoa os encara directamente, se desvanecem num piscar de olhos (...)"

domingo, 2 de abril de 2023

«Biografia do Língua» de Mário Lúcio Sousa :: Opinião

“A ansiedade de um ilhéu é uma fonte de histórias pelas esquinas.”

Dono dessa ansiedade de ilhéu, um homem condenado e à espera de ser “polvilhado de balas” faz uso de técnicas que remontam às 1001 noites, oscilando entre condenado, biografo e contador de estórias. Ou encantador… Pois enquanto conta, encanta e narra a vida e um prodígio, o Língua. Tal qual Xerazade vai atrasando o seu destino ou melhor dizendo, recriando destinos enquanto cria uma utopia na falésia.

“Sei que o falesiano é um povo brando e habituado ao desapego, pela nossa própria origem, porque este povo nasceu pendurado da vida de alguém que estava por um fio, mas sei que temos a debilidade de um bicho destroçado, sei que a porta da saudade nos deixa como cão que perdeu o dono. Agora só nos resta o consolo.”

E o consolo era a palavra!

O tempo passa e ele não morre nem de balas, nem de fome. E se mais não conseguir, consegue a proeza de converter os seus verdugos numa turma de escuteiros à volta da fogueira, ansiosos pelo próximo capítulo. Pelas rotinas.

E capítulo a capítulo, a mensagem espalhou-se e a aldeia trepou a falésia para ouvir contar uma estória que em pouco tempo se transformou na história de uma nova comunidade com qualidades mágicas: a de saber ouvir, em silêncio.

“O silêncio, para quem escuta, é uma multidão sábia.”

Uma comunidade que se juntou apenas pelo prazer de escutar, tanto que até viravolteavam em silêncio para não atrapalhar a magia que testemunhavam na falésia, numa azáfama cativa à palavra do condenado que já não falava do frenesim da fuga, mas do dilema e do enigma que era o amor que desabrochava no peito do Língua. E quem vê o amor desabrochar, ama melhor, quem sente e vê a confiança, “entra no mundo, muito diferente de vir ao mundo.”

“(…) não era vontade, era coragem. De modo que todas as perguntas foram dadas por respondidas e o mistério passou a fazer parte do grande património das coisas que os escravos nunca disseram, nuca dizem, nunca dirão.”

Mas “os anos têm olhos na nuca” e o biografo era um homem com alguns anos a somar aos anos que foi perdurando na falésia e uma comunidade não se faz sem memória e sem o relato das experiências que fazem uma história colectiva. A história de um país, um continente, a humanidade.

Na falésia, “cultiva-se a prática da devoção ao outro”, o que todos querem é que se queiram bem e se sintam bem, porque “o homem é de onde se sente bem.”

“Nós não queremos fazer história, queremos ouvir história.”

E mesmo só a ouvir, é possível fazer história e pertencer à história, porque quem ouve aprende e já faz história se não repetir o que me gostou de ouvir.

quinta-feira, 23 de março de 2023

«Não é só sangue» e «Dores menstruais não são normais» de Patrícia Lemos e Catarina Maia :: Opinião

 



"(...) este é o único sangue que derramamos que não decorre de doença nem de violência; um sangue capaz de criar vida, mas, ainda assim, e talvez porque torne o corpo demasiado real, é um assunto a evitar." 

«As palavras que usamos contam uma história. O esforço que fazemos para as evitar também.» Alma Gottlieb*

Sobre o sangue que derramamos e o que daí advém, a história que conta de cada mulher, é uma história com causas e sintomas semelhantes, no entanto, cada mulher é única e precisa escutar o seu corpo. Ouvir a sua história, naquilo que cruza mas também naquilo que não é igual às outras, mas para isso é precisa literacia de corpo e essa é a história silenciada. Patrícia Melo e Catarina Maio cumprem com estes livros, a difícil mas tão importante missão de quebrar o tapu*

Quebrar tabus e consciencializar todos, sim todos, porque ambos estes livros não são só para mulheres, são para todos, para que todos possam conversar abertamente, por forma a garantir uma maior compreensão e empatia e perceber que "a menstruação é apenas um subproduto de algo maior - o ciclo menstrual, o essencial que é invisível aos olhos..." e sim, a analogia é irónica.

Irónico é também que metade da Humanidade viva a esconder algo totalmente essencial para existência de todos, por isso o que é essencial, é uma reflexão colectiva que gere um maior entendimento, cooperação e aceitação, tanto da experiência individual como da compreensão da alheia, especialmente quando chegamos ao capítulo das dores menstruais, ridiculamente normalizadas e consideradas inerentes ao ser mulher e ao estar naquela fase do mês, retirando-lhes importância. Basta perceber que apenas em 2020, Portugal adoptou medidas para o diagnóstico e o tratamento precoce da endometriose (resolução nº74/2020) Leia-se também o artigo satírico «If Men Could Menstruate» Gloria Steinem (1978) que diz muito sobre como a sociedade em geral ainda olha (e sim ainda olha, pois o artigo é completamente actual mesmo tendo mais de 40 anos!) à menstruação e ao longo caminho que ainda existe por palmilhar. 

Porém, livros como estes mapeiam melhor esse caminho! 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

«confissões de uma quarentona na m*rda» de Alexandra Potter :: Opinião


#queraioestoueuafazercomaminhavida


Podia ser o subtítulo deste «confissões de uma quarentona na merda», com o “e” devidamente assumido em «merda», já que há muitos anos alguém me disse: “a merda aduba a vida!” e em algumas das peripécias da vida de Nell assenta que nem uma luva.

“Parei. Se havia uma metáfora para a minha vida, era aquela. Eu estava do lado de fora a observar os outros que estavam do lado de dentro de todas aquelas cenas reconfortantes de felicidade doméstica.”

Porém, não tão rápido como devia, que isto afinal é um romance (embora imite bem a vida), Nell começa a perceber, talvez pelos exercícios de gratidão, que a sua vida também tem cenas reconfortantes, sejam elas de felicidade, de aventura doméstica ou de amizades improváveis e amigos peludos. A felicidade não tem uma receita definida, mas tem por certo alguns ingredientes essenciais e são esses que Nell irá redescobrir, juntamente com uma (ou duas) cheia de pequenas pérolas:

- a miopia vem com a idade para nos proteger

- partilhar casa pode ser uma forma de nos domesticarmos (ou tentarmos!)

- ter um diário não é ridículo, nem tem idade, mas é um exercício de nudismo que contraria a miopia dos quarenta

- gratidão é mais que uma hashtag

- um podcast pode ser uma coisa poderosa

- yoga, superalimentos, sumos verdes e afins, não são para toda a gente

- um cão e um livro podem ser a nossa tribo

- a terapia pode acontecer em qualquer lado e revelar-se numa frase

- a contrariedade existe porque a vida é complicada e nós também, tal como a ansiedade 


E podia continuar a enumerar.

Alexandra Potter coseu muito bem esta história, alinhavando algumas futilidades da vida moderna com a mesmice dos dias, revolvendo-as muito bem nos problemas que se podem ter, aos 40, aos 50 ou até aos 80, mostrando que, todos contamos a mesma história, várias vezes, “mas de cada vez que a conto a mim própria, há uma parte de mim que tem esperança de que o fim seja diferente.”

Diferente é aprender a resignificar e não querer adivinhar. Talvez esses ingredientes é que não possam faltar: “não saber como uma história acaba também pode ser bastante emocionante.”, seja num livro, numa amizade ou ao pensarmos no futuro.

Uma pequena mostra da minha própria lista de gratidão ao ler este livro podia ser:
- rever-me na gratidão de ter um cão e embrenhar o rosto no seu pêlo;
- rir-me com as entradas da Nell ao expressar a sua gratidão;
- reler passagens e não saber por que motivo as destaquei 🤷‍♀️
- levar menos a sério a escolha de algumas leituras
- descobrir o significado de JOMO que é quase o mesmo que "viver debaixo de uma pedra" 🙏
- cruzar este livro, com este da Lori Gottliebe e pensar talvez devesse relê-lo ;)

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

«Persépolis» | «Neve nos Bolso» - de volta das Novelas Gráficas para começar 2023


Não deixa de ser curioso que esta recente viagem por BD's e Novelas Gráficas tenha começado com Bordados e Frango com Ameixas, ambos de Marjane Satrapi e ter iniciado este ano a ler Persépolis e Neve nos Bolsos, este último de Kim. 
As novelas de ambos os autores têm um cunho biográfico relatando uma parte das suas vidas em que se vêm refugiados em países como a Alemanha ou a Áustria, fruto da guerra que deflagra nos seus países de origem, segregando-lhes liberdades, tanto por motivos religiosos e ditatoriais.


É também interessante a coincidência dos estudos em Belas-Artes os ter levado até estes testemunhos, estas narrativas visuais que se alimentam precisamente dessa vocação que despertou tão cedo e é dela que se abre perante o leitor, a magia do detalhe, pois quando procuramos bem nos desenhos, são realmente esses detalhes que fazem toda a diferença.

Marjane com um traço aparentemente mais simples, remetendo para as micro expressões das caras, fazendo da expressividade a história maior.
Onde um corte de cabelo revela um estado de alma ou o detalhe de um tacho metáfora para saudades e objecto de revolta.

Kim, também a preto e branco, explora cada quadrado com tamanho detalhe que cada tira é mais que um capítulo, é toda uma cena altamente realista que nos transporta para a Alemanha branca, de neve acabada de cair e fria, de um frio que nós sentimos. O frio que entranha até aos ossos, para logo de seguida entrarmos com ele no abrigo e na caverna da arte e até podermos escutar o carvão do lápis contra o papel ou as noites de farra entre amigos.


Os amigos, essas mãos alheias que se estendem para eles. E também nisso as narrativas são comuns. Dá-se destaque à importância que o outro assume no curso das suas vidas. Sempre os outros. Os que acolhem na fuga e os que ficam. Ou os que no regresso os recebem, sendo já outros diferentes do que eram aquando da partida.
E novamente a intertextualidade entre os livros que se lêem, uns atrás dos outros, para aqui reencontrar os fantasmas da guerra, as preocupações e as críticas que escorregam nas entrelinhas de Kundera (não tanto em «A vida não é aqui» mas numa releitura de «A Ignorância») que tanto escreveu sobre esse abismo, apartando quem fica e quem parte, como se a dor tivesse uma hierarquia ou a guerra desse muito espaço para escolhas.

Foi muito interessante, sem estar sequer a fazer esse exercício, seguir estas leituras e sentir por diversas vezes a forma como se ligavam e até se completavam, independentemente de latitudes, género, causas ou lutas, porque a luta maior, a de dimensões poéticas, é a luta pela dignidade e liberdade.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

«Desenhos Ocultos» de Jason Rekulak - Opinião


ONDE METI EU O PAPELITO COM O TEXTO SOBRE ESTE LIVRO?

Podia ser a introdução a esta opinião ou antes a história dos meus últimos tempos com esta mania que se instalou, a de rabiscar opiniões em pedaços soltos de papel e depois perder-lhes o rumo. Um saga sem fim à vista!

Desabafos à parte, «Desenhos Ocultos» - que eu teimo em apelidar de Obscuros - foi um leitura por impulso. Abri o livro e gostei dos desenhos, tanto os mais infantis como os mais cuidados e fiquei curiosa como evoluiria a história para partirmos de uns e chegarmos a outros. 

Jason Rekulak conduz-nos até um casal para desde cedo percebermos que algo vai mal e ficarmos de olho naquela relação. A voz de Caroline é paciente e conciliadora; as respostas de Ted são curtas e duras, preciso e com as palavras bem marcadas. «É como ouvir um violino a dialogar com um martelo-pneumático». Ainda assim, enquanto dialogarem, a vida vai fluindo e são capazes de decidir a contratação de Mallory Queen.

Mallory tem apenas vinte e um anos, mas a sua história já traz um disclaimer: 

"AVISO: É fácil resvalar, mas não se cai sozinho!"

E se juntarmos a história de Mallory com a que se vai desenrolando sobre Annie Barrett está montado o enredo obscuro possível de se cruzar com ensinamentos dos melhores livros, tal como Adrian lhe dá a perceber quando recorda as palavras de Spock, parafraseando Shelock Holmes:

"Quando eliminamos o impossível, o que resta, por muito improvável que seja, deve ser verdade."

Mesmo com os sábios conselhos dos livros, a cabeça de Mallory tem o hábito de criar impossíveis, de fazer cenários e driblar entre histórias sem sentido, nem que seja para esquecer que está à distância de uma pedrada em Filadélfia, portanto ela tem de compreender o que de oculto se esconde nos desenhos obscuros 😉 que substituíram os rabiscos e as figuras-palito inocentes e típicas das crianças da idade de Teddy.

"Nunca consegui encontrar as palavras exactas para descrever a sensação - a estranha impressão - de qualquer coisa a esvoaçar na periferia dos meus sentidos, por vezes acompanhada por um zumbido agudo."

Entre estudos científicos sobre «detecção de olhares» e tábuas de espíritos, oscilamos entre tentativas da ciência explicar o que as sessões espíritas caseiras confundem, mas o mais engraçado é o humor que os diálogos com o pequeno Teddy assumem, mostrando-se tão perdido quanto o leitor.

"Eu tento inventar histórias (...) mas o príncipe Teddy só quer falar de tábuas dos espíritos. Precisam de pilhas? Conseguem encontrar qualquer coisa morta? (...) espero que ele perca o interesse, mas em vez disso pergunta se é possível fazermos uma."

O interessante do livro é a forma como o autor capta diversos universos mentais em função das idades e experiências de vida, fazendo-os conviver a todos na casinha rústica de subúrbio até colidirem e com isso dá um ritmo em crescendo à narrativa, conseguindo imagens bastante interessantes: «somos como bolas de sabão com que o Teddy gosta de brincar - mágicas, flutuantes, mais leves que o ar - condenadas a rebentar a qualquer momento», tal como o desfecho que rebenta na cara do leitor, completamente inesperado.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

«A Vida não é aqui» Milan Kundera - Opinião



“O poeta necessita de uma metade mágica para fazer poesia.” Otávio Paz

Será essa metade a mãe? A vida ou a morte? A guerra? Ou a resistência?

Ao poeta não podemos exigir que evite a guerra. Mesmo palavras poderosas que ferem e separam. Mesmo essas, não matam. Por isso, ao poeta, só podemos pedir que resista e reconstrua os vazios da guerra, num diálogo alimentado a ausências.

Em “A vida não é aqui”, Kundera “deixa” escorregar do corpo de uma mulher, para os lençóis manchados do mundo, um poeta. Um bebé primaveril e por isso de nome Jaromil ;) Com o bebé nasce uma mãe, experimentando a poesia abrupta do corpo, uma animalidade que até ali a repugnava.

“Tratava-se de uma coisa completamente nova, porque a mãe experimentava desde a infância uma repugnância relativamente à animalidade, tanto dos outros como sua; achava degradante sentar-se no assento das sanitas (…), e havia mesmo alturas em que tinha vergonha de comer diante de gente, porque a mastigação e a deglutição lhe pareciam repugnantes. E eis que estranhamente a animalidade do seu filho, erguida acima de toda a fealdade, purificava e justificava aos olhos dela o seu próprio corpo.”

Talvez a metade mágica seja o amor, nas suas mais variadas formas e lutas e Jaromil teve a sorte de começar a vida com o amor materno, bem como o da restante família, porém se a falta de amor causa danos, tê-lo não o isentou de dissabores.

“O amor materno imprime na fronte dos rapazes uma marca que repele a simpatia dos colegas.”

E talvez alguns dissabores o conduzam a alguma solidão, uma solidão povoada por companhias fantásticas, tornando-a numa solidão produtiva.

“Sonhar com cães tornou-se a paixão da sua solidão (…) e como passava muito tempo à secretária do pai com um lápis e papel (…) de maneira que os seus devaneios e a sua falta de jeito deram origem a um universo estranho de homens cinocéfalos, um universo de personagens…”

Porém, quando as solidões se cruzam abrem brechas que podem virar abismos: “o abismo da intimidade ilícita e da compreensão proibida.”

Um livro sobre o universo interior que se alimenta muito do que não é dito, embora o que é dito e dado a entender nas entrelinhas seja suficiente para de uma história tecer várias, enredando-lhe os fios com os da literatura, da guerra, da filosofia, da poesia, da traição, da obscuridade, da loucura e da depressão, do amor e da solidão. Ou seja, a vida a enredar-se na vida. Nas vidas! Quando uma se esconde, outra se revela.

“Xavier não vivia uma vida só estendendo-se do nascimento à morte como um longo fio sujo; não vivia a sua vida, mas dormi-a; nessa vida-sono saltava de um sonho para outro sonho; sonhava; adormecia a sonhar e sonhava outro sonho, de tal maneira que o seu sono era como uma caixa na qual entre uma outra caixa, e nesta uma outra caixa ainda, e nesta outra, e assim por diante.”

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

«A Ignorância» de Milan Kundera :: Opinião


Lido pela primeira vez em 2010, «A Ignorância» é um pequeno livro cheio de grandes questões como é hábito conterem os livros de Milan Kundera. Nessa primeira leitura foquei-me na nostalgia, memória e regresso e desta não foi muito muito diferente, embora seja curioso ver a diferença entre os trechos selecionados. 

Um homem, Josef, vê-se a braços com um regresso e as indagações que daí advêm, quando se confronta com a pátria e uma mulher. Irene, da qual não se lembra, mas com o que ele mais se confronta é com a memória e a certeza de que o regresso é a reconciliação com a finitude da vida, caso contrário, seria alimentar a eterna fuga, «habitar o infinito», que foi precisamente do que fugiu quando deflagrou a guerra e o comunismo. 

E a dúvida instala-se! Atormenta-o. Aliás, atormenta-os a ambos, numa fraternidade nocturna, cujo sonho comum expõe os mesmos medos.

“Também a memória não é compreensível à falta de uma abordagem matemática. O dado fundamental é a relação numérica entre o tempo da vida vivida e o tempo da vida armazenada na memória. Nunca se tentou calcular esta relação e não existe de resto qualquer meio técnico de o fazer; no entanto, sem correr grande risco de me enganar, posso supor que a memória não guarda mais que um milionésimo, um bilionésimo, em suma uma parcela perfeitamente ínfima da vida vivida. Também isto faz parte da essência do homem. […] 

Nunca acabaremos de criticar os que de forma o passado, ou reescrevem, ou falsificam, que dilatam a importância de um acontecimento, e calam a de outro (…) À margem da nossa vontade e dos nossos interesses. Nada se compreenderá da vida humana enquanto se persistir em escamotear a primeira de todas as evidências: a realidade, tal como existia quando existia, já não existe; a sua restituição é impossível.”

 Atormenta-os também, a necessidade tão grande de catalogar e medir a dor e sofrimento, entre quem partiu e quem ficou, explorando uma ideia de hierarquia da dor, juntamente com os sentimentos de traição e amputação, dividindo novamente quem foi e quem resistiu, restituindo-se o reconhecimento como vítimas. Restituindo-se direitos. 

“Primeiro, com o desinteresse total pelo que ela viveu no estrangeiro, amputaram na de vinte anos de vida. Agora, com este interrogatório, tentam voltar a coser o seu passado antigo e a sua vida presente. Como se a amputassem do antebraço e lhe fixassem a mão diretamente no cotovelo, como se a amputassem das pernas pelo joelho e lhe prendessem aos joelhos os pés ponto siderada por esta imagem, não é capaz de responder nada às perguntas delas (…)”

Questionando a deformação da memória, essa «memória que o detestava, que não fazia outra coisa que não fosse caluniá-lo; esforçava-se por isso por não acreditar nela», por manter a sua «insuficiência de nostalgia» e «à medida que trechos da sua vida caem no esquecimento, o homem desembaraça-se daquilo de que não gosta e sente-se mais leve, mais livre», ainda assim, para se apaixonar, é preciso estar presente e no presente. E a paixão é a exaltação do presente, da vontade de viver, mas como poderia conhecer o sentido do presente quem não conhece o futuro?


segunda-feira, 28 de novembro de 2022

A Balada de Adam Henry de Ian McEwan :: Opinião


“Ela tinha poder para retirar o filho a um pai cruel, e por vezes fazia-o. Mas retirar-se a si própria a um marido cruel? Quando estava fraca e inconsolável, onde estava o juiz para a proteger? (...)

O rosto do marido estava tenso quando ele encolheu os ombros e saiu da sala. Ao ver as costas dele afastarem-se, ela sentiu o mesmo medo frio. Se não fosse o receio de ser ignorada, teria chamado por ele. O que poderia dizer? (…) e depois o silêncio a abater-se sobre o apartamento deles, o silêncio e a chuva que não parava havia um mês.”

Ian McEwan tem uma capacidade muito própria para, em poucas palavras, dizer o indizível e dar vitalidade ao não-dito que chega a sufocar com os silêncios gritantes a cada frase. A solidão, a melancolia se entranha em eventos complexos, causa de contornos irreparáveis que mexem escorregadiamente com as emoções e os sentimentos dos seus personagens. E por conseguintes os dos seus leitores.

“Aqueles eram pensamentos novos, aquela era a forma como o verme da suspeita infestava o passado.”

O passado, a suspeita, os fantasmas dos problemas que se tentam camuflar com a passagem do tempo... esses medos frios autodestrutivos que quando nos confrontam nunca chegam sós. Um impossível nunca chega sozinho, diria Saramago e neste enredo de McEwan é bem visível.

Fionna May é essa mulher de poder, que encabeça um desfile de adultos importantes e importunos, cheia de si e das suas conquistas, uma juíza do Tribunal de Família, cujo os casos mediáticos, de causas duríssimas, têm infligido lanhos profundos no seu casamento já votado a uma certa surdez conjugal, mas não tão profundos quanto a traição de Jack cravou na sua auto-estima e energia.

A amante mais nova que ela não anteviu. O pedido descabido por uma relação aberta. Uma amante nova, ardente e voluptuosa enquanto ela envelhecia, vendo nos milímetros paranoicos, ainda assim mensuráveis, dos tornozelos que engrossavam, da cintura que se avolumava ou “os cantos da boca a começarem a descair em busca de uma expressão de constante recriminação. Muito razoável numa juíza de cabeleira a fitar o advogado de cenho franzido. Mas numa amante?”

É isso que Fionna se sente, uma juíza de cenho franzido, embrenhada em processos complexos, condicionada por questões éticas e religiosas, onde a ciência e a lei ora se cruzam ora caminham para lados opostos e é preciso sentenciar para impedir um mal maior.

Quantos males menores deixou Fionna pelo caminho, não como juíza, mas como mulher, como esposa?

Adiamentos, remorsos, culpa e amargura dão uma capa de frieza, pragmatismo e poder a uma mulher que carrega arrependimentos que despertam agora atitudes que a surpreendem perante um novo caso, o de Adam Henry. A pressão e o mediatismo do caso e as escassas horas que separam Henry de uma sentença de morte. Caso o tribunal não decida contrariamente aquela que é a sua vontade, suportada na devoção e ensinamentos religiosos, Henry sucumbirá por falta de uma transfusão de sangue.

“De novo a religião (…). Todo o circo a ser montado, mas tão lentamente (…) como um balão de ar quente, torto e mal amarrado.”

Perante a assombrosa singularidade do caso (também porque Adam Henry é um adolescente excepcional e cativante, apesar de condicionada à educação ininterruptamente religiosa monocromática), a crueldade da doença, a dualidade religião/ciência e a fragilidade e autocomiseração que a assaltam e deixam indefesa nesta fase da vida, Fionna sente-se amordaçada entre convicções, dúvidas e arrependimentos antigos que esbarram em toda uma teatralidade de uma máscara que está cansada de usar.

“O seu tom emocional, como ela por vezes o designava e que gostava de controlar, era uma completa novidade. Um misto de mágoa e de indignação. Ou de nostalgia e de fúria. Queria que ele voltasse e nunca mais o queria ver. A vergonha também era uma componente.”

“(...) adiando o momento do regresso, perguntando-se de novo se aquilo que perdera não seria tanto o amor quanto uma forma moderna de respeitabilidade, se o que temia não seria tanto o desprezo e o ostracismo, como nos romances de Flaubert e Tostói, mas a piedade. Ser alvo da compaixão geral era também uma forma de morte social. O século XIX estava mais próximo do que a maioria das mulheres pensava. Ser apanhada a representar o seu papel num estereótipo revelava mais mau gosto do que uma falta de moral.”

McEwan é exímio ao escrever sobre sentimentos e sobre todas essas energias que confluem para as relações humanas, ainda assim, consegue uma mistura muito equilibrada entre temas polémicos, casos reais, critica social, reflexões muitos actuais e sensações e sentimentos, tudo milimetricamente organizado num tom poético extremamente vívido.

“Em vez disso, ficou ali, indefesa perante o momento. A sensação de pele contra pele anulou qualquer possibilidade de escolha.”

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

«28 livros para te encontrar» de Ali Berg e Michelle Kalus - Opinião

 


E se para encontrar o amor tiveres de alargar os teus horizontes literários, aceitas?

«28 livros para te encontrar» de Ali Berg e Michelle Kalus tem no original um título bem mais curioso: «The Book Ninja», porque Frankie e Cat, amigas de longa datas, espalham livros, camufladamente, nos comboios e dobram-se e torcem-se em aulas de yoga, contando equilibrar a insanidade hormonal, que por motivos bem diferentes, pauta os dias de cada uma delas. 

Por isso, entre hormonas, remédios literários e analgésicos em forma de croissants, as duas amigas de longa data têm planos para encontrar (ou manter!) o amor das suas vidas, gerir uma livraria, ler clássicos e outros tantos livros repetidos e claro, fazer yoga, tomar smoothies verdes e estragar tudo isto com episódios açucarados, fobias a bananas, encontros amorosos clandestinos e discussões que contrariam teorias filosóficas da grande ;) Samantha Jones. 

Posto isto e encarando que por vezes erramos no calor do momento, apatetando algumas decisões, ambas as amigas aprendem que mesmo caindo em casulos de tricô 😜 as quedas doem e as nossas decisões têm eco nas vidas dos que nos são mais queridos. 

Por isso, enquanto o amor não acontece ou fica atrapalhado entre asanas mais difíceis, Frankie e Cat distribuem sugestões de leitura, acreditando que os livros reflectem aquilo que já existe dentro de nós e que discuti-los devia ser o melhor caminho para se percorrer um encontro, mas mesmo assim: «como pôr todos os livros no mesmo cesto?»

E tu, estarias disposta a alargar a tua lista de leituras para encontrar o amor? 🙃😍

Por aqui, tomei algumas notas:
- (In)Fidelidade: Repensar o Amor e as Relações de Esther Perel 
- O fardo do amor de Ian McEwan
- Eu Dou-te o Sol de Jandy Nelson
- Um homem em busca de um sentido de Viktor E. Frankl
- Estamos todos completamente fora de nós de Karen Jay Fowler
- Middlesex de Jeffrey Eugines

E sublinhei alguns que já constam da "lista":
- Emma
- A sombra do vento
- A menina perdida & achada
- O ódio que semeias





terça-feira, 15 de novembro de 2022

«O Jogo do Mundo» de Julio Cortazar :: Opinião

o tal capítulo 7 de Rayuela

"Toco a tua boca. 

Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.

Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água."

*

A transcrição deste excerto visa apenas demonstrar a beleza e a perfeição de um capítulo que, só por si, é um livro inteiro; um livro que se lê sem se saber muito bem o que se está a ler, como se deve ler, quem é quem e qual é o seu papel, qual é o sentido de tudo aquilo... numa época "lá" e outra "cá", que é como quem diz Paris e Buenos Aires, respectivamente, acompanhamos um homem que se desdobra, caminha, ama, divaga e convive.

E talvez o que mais nos fique são as suas angústias, o amor e considerações afectivas e claro, divagações. Quase uma centena de divagações que o autor isenta o leitor da necessidade de lê-las para ter o livro como completo. 

Claro está que esses 99 “capítulos prescindíveis” são provavelmente aqueles que vamos logo atacar, como quem pica e debica e vai provando para saber se fica ou não cortazado.

Rayuela é um puzzle com capítulos-peça cujo arestas estão em falta ou dobradas e nem sempre encaixam. Ou encaixam! Já que a sua composição experimental deixa em aberto todas as direcções possíveis, apelando à interpretação (e criatividade?) de cada leitor, exigindo-lhe que participe e decida. 

Um romance interminável que marca uma viragem na forma de fazer literatura e que está carregado de simbolismo, metáforas, jogos narrativos e de linguagem, expondo ideias e reflexões ainda bastante actuais ou até premonitórias; a própria metáfora do título/jogo da macaca como forma de estar - e ir andando na vida - é brilhante e até muito acertada!

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Este livro foi lido no seguimento de «O Avesso da pele» de Jeferson Tenório que faz referência, especificamente, ao memorável capítulo 7

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Conteúdo selecionado para o artigo "11+ livros incríveis para celebrar o Dia Mundial do Livro", publicado no blog da editora educativa Twinkl.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

O INTRUSO de Tana French - Opinião

 


Cheguei a Tana French e ao seu cáustico INTRUSO pelas estantes da biblioteca que às vezes percorro como se de uma montra de doces se tratasse ;)

Ao pegar e ler: “A Brigada de Homicídios não gosta da detetive (vou fingir que está lá o “c”) Antoinette Conway. (...). Consegues vencer um assassino, mas vencer a tua própria equipa é outra coisa.” fiquei logo de pulga atrás da orelha.

“Breslin abre a porta para que eu possa sair primeiro da sala de observação e não trocar uma palavra com Steve nas costas dele – não que precisemos de trocar sussurros, mas ainda assim. O corredor devia envolver-me com a familiaridade de um lar: tem a tinta verde a descascar e a alcatifa gasta e tudo; devia parecer um caminho conhecido através do meu território, levando-me direita e em segurança (…) em vez disso, parece um trilho não assinalado através da terra de ninguém pejado de buracos traiçoeiros e armadilhas.

(…). Nunca tinha percebido que precisamos realmente que a brigada seja uma parte de nós, próxima e de confiança como o nosso próprio corpo, para conseguirmos sobreviver a ela.”

Um thriller psicológico, carregado de muita lama a turvar a água, onde os que deviam ser os bons são os maus (aparentemente) faz sempre pensar nos motivos por que tal acontece e por isso mesmo eu queria ter recebido mais deste livro, no entanto, o forte deste enredo está na perseguição que Conway sente e o texto explora e transborda dessa pressão psicológica de que é vítima por parte da sua equipa e em especial pelo pavãozinho inchado do Breslin (UMA TOUPEIRA?). Isso tudo, junto com a teoria dos “ses” em que o detective Stephen Moran (o colega e compincha de Conway) é perito e que lhes dá pilhas de nada (mas que dão trabalho), fazem o livro e justificam a sua leitura numas tardes de esplanada a torrar ao sol (enquanto na Irlanda o tempo faz caretas – sempre!).

“- E se ela o encontrou? (…) E se afinal não fosse um namorado? Se fosse o pai dela? (…), dou dar em doida se tiver de aguentar mais tempo esta merda do se.
- Está bem – diz Steve (…). Então, se o pai quer compensá-la pelos anos…
- Caralho – respondo, ligando o Kadett e ficando a ouvi-lo protestar por ter sido acordado. – E se eu te pagar para não fazeres essa merda? Funciona?
- Devias tentar. Aceito cheques.
- Aceitas barras de Snickers? Porque pelo menos fechas a matraca quando estás a comer.
Encontro o Snickers na mala e atiro-lhe para o colo, e ele dedica-se a devorá-lo. (…). Sei que o Steve não é o puto sardento simplório que aparenta ser, mas ainda assim… Parece, isso sim, estar a pensar no chocolate.
- O que foi? – pergunta com a boca cheia.
- Nada – respondo. – O silêncio combina contigo, só isso. – E dou por mim a sorrir ao avançar para o meio do trânsito.”


French tem um discurso cáustico e humoristicamente negro que elevam o livro e melhor, consegue-o ao longo das mais de 450 páginas, sem cansar o leitor, até mesmo quando a acção e alguns desfechos são previsíveis.

E os diálogos são top! Sejam eles entre a dupla de novatos: Conway e Moran ou Conway e Breslin a embirrarem e a desconfiarem um do outro, ou ainda em dois momentos muito bons de interrogatório, superando a já habitual cena do polícia bom, polícia mau.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Nomadland - sobreviver na América do século XXI :: Opinião


Nomadland é um relato sobre como sobreviver na América do século XXI evitando ser atropelado por beterrabas rolantes ou sucumbir debaixo de um desabamento de tralha, enquanto ajudantes de um moderno Pai Natal em armazém da Amazon enquanto dura a bonança consumista.

Poderia ser um relato de uma experiência divertida ou até desafiante, mas a maioria destes campistas sobre rodas, uns sem-abrigo nómadas modernos, viram-se obrigados a reestruturar as suas vidas em função de empregos sazonais mendigados e obsessivamente controlados por gigantes com a Camperforce da Amazon.

O trabalho de Jessica Bruder não se apoia tanto na critica ou denúncia, antes expõe um mapa da geografia possível para o (novo) american dream; o de não sucumbir, em idade de reforma, a dificuldades tão grandes como a da total insolvência.

Neste novo sonho, o possível, existem pessoas destemidas que com os seus testemunhos levam o leitor numa viagem imersiva, deixando-o fixo na forma dolorosa em como subsistem, mas também a forma comunitária e quase idílica em que, juntos, persistem!


                                                


E enquanto não chega a possibilidade de ver o filme em DVD, fica uma entrevista interessante sobre o ponte de vista da autora face à adaptação do seu trabalho à grande tela.
*
O que sentiu quando viu que Nomadland levou três estatuetas do Oscar para casa, incluindo a de melhor filme? Foi insano. Para mim, a parte mais empolgante foi ajudar Linda Mae e Swanky...


Leia mais em: 
https://veja.abril.com.br/cultura/o-filme-e-o-livro-sao-criaturas-bem-distintas-diz-autora-de-nomadland/

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

“O meu nome era Eileen” de Ottessa Moshfegh :: Opinião


"(...) raramente sorria. Quando sorria, fazia um enorme esforço para impedir que o meu lábio de cima subisse, tarefa que exigia uma grande austeridade, consciência e autodomínio. Nem dá para acreditar no tempo que passei a disciplinar aquele lábio. Sentia deveras que o interior da minha boca era uma parte íntima, saliências e reentrâncias de carne húmida separada, por isso, deixar que alguém o visse era algo tão mau como abrir as pernas."

Otessa Moshfegh conseguiu redesenhar os contornos da solidão. Uma solidão bem afiada, decadente, sórdida e profundamente sombria e dentro dela está Eileen. 
Eileen Dunlop é protagonista e narradora deste enredo sufocante e caótico, para o qual é impossível não nos sentirmos puxados tal é o fascínio (e também alguma repulsa) por esta personagem de mente fantasiosa e rebuscada, dona de atitudes bruscas e arrogantes, mas também contida, púdica, perdida. 

Eileen é um misto de invisibilidade com lança-chamas, embora muito do que aconteça se passe só na sua cabeça, é na forma como o revela que se desnuda, seja com sensibilidade e atenção ao detalhe, seja na total crueza e fúria. Uma fúria reprimida.

"(...) quando a minha mãe faleceu, passou a beber gim. A melhor explicação que consigo encontrar é que talvez o gim lhe fizesse lembrar o perfume dela - ela usava uma eau de toilette forte, floral, mas acre, de marca Adelaide - e que talvez absorver a fragância da morte de algum modo o apaziguasse. Ou talvez não. Ouvi dizer que um trago de gim nos torna imunes aos mosquitos e a outras pragas. Por isso, talvez ele o bebesse tendo essa lógica por base."

Também Eileen tinha uma lógica semelhante. Engolia remorsos enquanto se empanturrava de gelado, misturando tudo com álcool e comprimidos, alimentando ideias tóxicas que lhe consumiam o corpo. Quando atingia o limite, expelia tudo a toque de laxantes, celebrando o festim de excrementos e as manifestações corporais que tanto a fascinavam.

"Eu parecia extremamente fastidiosa, insípida, apática e impassível, mas na verdade estava sempre furiosa, violenta, com os pensamentos em rodopio, a mente como a de um assassino. (...) Eu gostava de livros sobre coisas tenebrosas, tais como assassínios, doenças e morte (...) para estudar a macabra prática de extrair o cérebro dos defuntos pelo nariz como se fossem meadas de lã. Gostava de pensar no meu cérebro desse modo, emaranhado dentro do meu crânio. A ideia de que o meu cérebro podia ser desemaranhado, endireitado e, desse modo, refeito num estado de paz e sanidade, era uma fantasia reconfortante."

"O meu nome é Eileen" é um relato inteligente, obscuro e bastante equilibrado no quanto brinda o leitor com momentos de elogio e de delírio (e também com momentos desagradáveis) mostrando como uma família disfuncional pode danificar a imagem que uma criança tem de si e do mundo, mas mais ainda, é um relato sobre o mundo interior, a psique e o que ela não revela na convivência do dia-a-dia. 

"Por muito desprezíveis que fosse, as minhas colegas de trabalho não ocupavam um lugar cimeiro na lista de pessoas abjectas que fizeram parte da minha vida (...) As minhas colegas eram por demais taciturnas, insípidas e afectadas (...).
Consigo ainda recordar as imagens mentais que eu fazia delas em posições sexuais, as caras enfiadas nas partes pudendas uma da outra, contorcendo os narizes por causa do cheiro enquanto esticavam as línguas.
As minhas suspeitas em relação às minhas colegas de escritório não eram necessariamente depreciativas. Ajudavam-me a nutrir alguma compaixão..."

O desajuste, a indiferença, a falsa responsabilização ou culpa e a maledicência, juntamente com uma solidão profunda alimentaram em Eileen um fardo pesado e o uso constante da uma máscara fúnebre, mas mesmo assim, denunciadamente triste e só, Eileen era invisível.
E o manto da invisibilidade não era um crime seu. Cresceu com ela, enquanto desabrochava espicaçada e ridicularizada, numa infância descarnada de qualquer carinho, atenção ou sequer a lancheira preparada.

*

Leia mais sobre este livro no artigo de Gonçalo Correia/Observador por ocasião do Festival Literário da Madeira (2018) com a presença da autora.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

«Uma Vida à Sua Frente» de Romain Gary :: Opinião

Numa França vista do 6º andar de um prédio pobre, Momo, um rapaz que “não foi datado” vive aos cuidados de Madame Rosa, ex-prostituta e ex-judia, (os próprios papéis provam essas “não-existências”) que o recebeu por ele ser uma “criança ilegal”, “um filho de puta”. Mas os anos estão a passar e os quilos da Madame a aumentar à mesma velocidade que o seu corpo se deteriora com eventos em que a cabeça ganha pernas e vai passear.

As histórias destes Miseráveis, porque Victor Hugo e a sua capacidade de descrever a França e a miséria são uma inspiração e aspiração de Momo (e do Senhor Hamil) que, quando crescer, quer escrever assim a histórias dos seus miseráveis e Roman Gary consegue isso mesmo em «Uma vida à sua frente» na voz desta criança de dez anos, Momo, que com a sua inocência, própria da idade, mas com a perspicácia (e alguma confusão, já que Momo ao início era muito novo para ir à escola e de repente já tinha idade a mais) de quem teve de se desenvencilhar sozinho… até para ter uma mesada!

“Quando os vales deixavam de vir para um de nós, a Madame Rosa não punha o culpado na rua. Era o caso do pequeno Banania, o pai dele era desconhecido, logo não o podíamos censurar por nada; (…) a Madame Rosa ralhava com o Banania mas ele estava a borrifar-se, porque só tinha três anos e sorrisos. Acho que a Madame Rosa teria dado o Banania à Assistência, mas não o seu sorriso, e como não se podia separar um do outro, via-se obrigada a ficar com os dois.”

Momo narra a sobrevivência que por ali se vive quase sem maldade, embora exista dinheiros e leis à mistura, coisas que Momo pouco percebe, entre muitas outras, mas de solidão, desamparo e ausências Momo percebe.

“Não faço ideia do que me deu, mas havia anos que não tinha mãe nem pai, nem mesmo bicicleta (…). Fiquei todo tocado e possuído pela violência, nem dá para acreditar. Vinha de dentro de mim, e é ali que é pior. Quando vem de fora com pontapés no cu, podemos sempre fugir. Mas de dentro, não é possível. Quando me apanha, quero ir-me embora e não voltar mais a lado nenhum. É como se estivesse alguém a morar dentro de mim. Começo a gritar, atiro-me para o chão, bato com a cabeça para sair, mas não é possível, não tem pernas, nunca temos pernas dentro de nós. Faz-me bem falar disto, aliás, é como se estivesse a sair um pouco. Estão a perceber?”

E o leitor vai percebendo!

Vai aceitando a dureza do relato enquanto desanuvia pelo humor e ironia com que é descrita e é aí que reside toda a peculiaridade da escrita de Gary; é na força do humor, pelo traço inocente da voz de Momo que a fronteira que segrega estas pessoas, a invisibilidade e o preconceito em que vivem, é denunciada.

Ainda assim, existem excepções, e ainda bem!

“Eu ia muitas vezes sentar-me na sala de espera do Doutor Katz, já que a Madame Rosa repetia que era um homem que fazia o bem, mas não senti nada. Talvez por não ter ficado tempo suficiente. Sei que há gente que faz o bem no mundo, mas não fazem isso a toda a hora e é preciso calhar no momento certo. (…) A Madame Rosa dizia que o Doutor Katz era a medicina geral, e é verdade que se via de tudo ali, judeus, claro, norte-africanos, para não dizer árabes, negros (…)”

«Uma vida à sua frente» denuncia e reflecte sobre temas que ainda hoje são discutidos, seja pela controvérsia, seja pela herança tóxica dos conflitos armados, do colonialismo ou outros que ainda têm muito de tabu, como é o caso da eutanásia.

“Não queria ouvir falar do hospital onde nos fazem morrer até ao fim, em vez de nos darem uma injecção. Dizia que, em França, estão contra a morte serena e que nos obrigam a viver enquanto ainda formos capazes de sofrer. A Madame Rosa tinha um pavor à tortura e dizia sempre que, quando tivesse que chegasse, far-se-ia abortar. (...) Vi logo que ela se tinha deteriorado mais na minha ausência e sobretudo em cima, na cabeça, onde ela estava pior do que nos outros sítios. (…) estava tão danificada que até os seus cabelos tinham parado de cair porque o mecanismo que os fazia cair tinha-se também deteriorado.”

É impossível ao leitor não sorrir, por vezes até rir à gargalhada com os termos inocentes de Momo, num humor afiado, quase cáustico, que dão toda uma outra dimensão ao que nos narra e a leveza com que revela preocupação pelo sentido da vida: “se quiserem a minha opinião, o tempo, é para os lados dos ladrões que temos de o ir procurar.”

Procurar o tempo junto dos ladrões, abortar alguém na velhice, “perder-se no seu interior” ou “ter uma cabeça que passeia” quase que retira seriedade aos assuntos, mas acrescenta uma sensibilidade enorme a uma criança que efectivamente é responsável por uma mulher idosa com demência e a quem, se pudesse, daria uma morte digna e como ela pretendia, enquanto ainda podia escolher.

“- Vão obrigar-me a viver, Momo. É o que fazem nos hospitais, têm leis para isso. Não quero viver mais do que o necessário. Há um limite, até para os judeus. (…) Não quero viver só porque a medicina o exige. (…)
Prometes?
- Khaïrem.
Quer dizer «juro» (…)
Eu teria prometido qualquer coisa à Madame Rosa para fazê-la feliz, porque mesmo quando se é muito velho a felicidade ainda pode ser útil (…).”

A felicidade mesmo que a conta gotas é sempre útil e dá-la, às vezes até sem a ter, é um acto de amor. E é preciso amar mesmo que seja num «buraco judeu». E Gary conseguiu um livro terno, não pelo que conta, mas pela forma como o faz, com um humor redentor.


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

«Terra Alta» de Javier Cercas :: Opinião


“(…) a lembrança mais nítida que Melchor guardava da sua infância era o ruído, um ruído tão ubíquo quanto persistente, que lhe parecia indistinguível do som habitual da realidade, como se esta carecesse do direito a existir sem o barulho dos tubos de escape, das buzinas dos carros, (…) sem gritos ébrios ou insultos aguerridos ou rixas de vândalos (…) um bairro tóxico.”

Diz-se que a realidade supera sempre a ficção e a vida de Melchor, aqui descrita sobriamente por Cercas, é a prova disso. Um menino destinado a ser um Rei Mago, que disso só herdou o nome, Melchor, cresce desamparado e crente nos males da sociedade. Maltratado, mas também capaz de maltratar é encarcerado e aí descobre o seu caminho, converter-se pelo poder da literatura, através de sucessivas leituras de Os Miseráveis.

«Da sociedade não recebera senão males. Os homens só lhe tocaram para o maltratar. Qualquer contacto que com eles teve significou uma ferida (…) de sofrimento em sofrimento, chegou à convicção de que a vida é uma guerra e de que, nessa guerra, ele era o vencido. E, não tendo outras armas para além do ódio, resolveu aguça-lo no presídio e levá-lo consigo à saída.»

Guiado por excertos que toma como guias orientadoras da sua vida, Melchor, um Javert secretamente virtuoso, decide dedicar a sua vida a sarar o ódio que asfixiou a sua juventude. No entanto, o aconselhado exílio na «Terra Alta» não lhe trará o sossego prometido. Ou duradouro. 
Por lá ainda pairam os fantasmas da Guerra Civil e a metralha de uma batalha sangrenta que contrastam com a beleza imponente e silenciosa do local (e as horas de leitura na biblioteca) mas não só o passado se imiscui na vida de Melchor como um acontecimento brutal altera o compasso da localidade: um crime sangrento que brutaliza o ramo mais antigo da família Adell; que como uma árvore enorme a tudo faz sombra.

“No ar paira um cheiro intenso a sangue, a carne torturada e a suplício, e uma sensação estranha, como se aquelas quatro paredes tivessem preservado os uivos do calvário a que assistiram; ao mesmo tempo, Melchor Julga sentir no ar do aposento – e talvez seja isto que mais o perturba – um certo aroma de exultação ou de euforia, alguma coisa para a qual não encontra palavras mas que, caso as encontrasse, poderia definir como o rasto festivo de um carnaval macabro, de um ritual demente, de um sacrifício humano desfrutado.”

Um crime que parece fruto de um ódio frio e destruidor, mas não indiscriminado, coloca Melchor num estado obsessivo. Em apneia, pela persistência quase tóxica, desassossegando o percurso que tem vindo a construir com Olga (e com os livros).

“(…) retirarem-se sem opor resistência, como se se rendessem diante daquele suicídio colectivo ou como se estivessem tão fartos da guerra como os seus inimigos e já não tivessem disposição para continuar a matar.”

Cercas é exímio nas descrições, no cortar o friso cronológico e suspender cada acção outra, história atrás de história, sabendo com toda a mestria selecionar, cirurgicamente, que eventos nos revela, por vezes telegraficamente, noutras num tom poético, capaz de colocar o leitor no cenário, seja no mais macabro ou em perseguição ou entre os lençóis com o casal que descobriu o prazer de ler em voz alta um para o outro.

«Aconteceu-lhe tudo o que podia acontecer-lhe. Sentiu tudo, sofreu tudo, experimentou tudo, suportou tudo, perdeu tudo, chorou tudo. No entanto, é um erro acreditar que a sorte se esgota e que se toca o fundo de alguma situação, qualquer que seja. Aquele que sabe isso vê em qualquer escuridão.”

Nessa escuridão pulsam sentimentos que moldam decisões auto-destruidoras, denunciando que as feridas não fecham na totalidade. E pior, alimentando desejos profundos de vingança e justiça. Porém,
mas a que preço e com que legitimidade? É sobre isso que Cercas questiona e reflecte neste seu primeiro policial.