segunda-feira, 26 de agosto de 2019

«Tudo Aquilo Que Não Lembro» de Jonas Hassen Khemiri - Opinião


"O vizinho estica a cabeça, olha por cima da sebe e pergunta‑me quem sou e o que estou aqui a fazer."

É assim que arranca esta narrativa fragmentada, para a qual a capa faz todo o sentido. Um escritor anda em busca de conhecer Samuel, um homem que morrer num trágico acidente. Acidente ou suicídio. Quanto mais ele entrevista e conversa, mais o leitor se pergunta: o que é que estou aqui a fazer? Pergunta essa que vai continuando sem resposta. Bem como conhecermos Samuel ou as outras personagens. 

“Quem decide o que é importante e o que é supérfluo? Quanto a mim, quantos mais pormenores te dou, mais pormenores ficam por contar.” Diz a certa parte uma das raparigas que gostava de estar com Samuel, referindo não por o conhecer muito bem, mas que gostava dele pelo efeito que despertava nela. Porém, os detalhes mais interessantes são sobre assuntos avulso que nada têm propriamente que ver com Samuel ou o seu desaparecimento. Ou a certa parte o assunto da imigração e dos refugiados, mas mais importante situações de mulheres vítimas de violência doméstica; dando-nos a perceber que essa realidade em Estocolmo é semelhante à de cá.

"As chamadas continuaram. Eu traduzia para mães que precisavam de saber o porquê de os seus pedidos de apoio terem sido recusados. Haviam homens que queriam recorrer de condenações por agressão. (...) Havia mulheres que contavam que, quando ele guiava bêbedo, ele não as deixava pôr o cinto de segurança; quando eu repetia a comida, ele obrigava-me a comer a comida do gato; (...)Havia mulheres que contavam que ele tinha uma rotina, (...), punha depois determinada canção a tocar e assobiava a melodia ao mesmo tempo que procurava as luvas. (...) Os homens eram advogados de Jämtland, atletas vencedores de medalhas de triatlo (...) os homens era vendedores de fruta sírios, violinistas belgas, alcoólicos de Skäne. Mas os homens não tinham importância nenhuma. (...) Eu queria era ajudar as mulheres." 

Foi Laide, a paixão de Samuel, a mulher jovem que se interessa e quer marcar a diferença junto destas pessoas, que me despertou mais interesse, ainda assim é tudo sempre dito por outros, sem acção directa entre as personagens, ou seja, a interacção está toda no passado, recorrendo à memória; há uma ausência de acontecimentos que ultrapassem o encontro para a breve entrevista com o escritor e isso torna-se cansativo, repetitivo. Mesmos alguns acrescentos que são ditos ou deixados a adivinhar sobre Samuel não me motivaram para terminar o livro, senti que a mais de meio livro lido não estava ligada a nada.