segunda-feira, 26 de agosto de 2019

«Crónica de um Vendedor de Sangue» de Yu Hua - Opinião


Comecei com bastante entusiasmo a leitura deste tão aclamado autor chinês, no entanto, rapidamente percebi que seria difícil manter a vontade em continuar.
Na narração dos acontecimentos é constante a repetição de ideias e é utilizado um tom quase infantil, apesar da dureza que envolve a vida dos personagens.

Faço uma pausa e vou ler sobre o autor e a sua obra, há motivos para que escreva assim, supostamente na sua língua de origem funcionará melhor e o próprio também pretende esse registo para que até o público mais jovem chegue aos seus romances e conheça o percurso político e sócio-económico da China.

Volto à leitura e sinto, o que parece ser uma necessidade, a de identificar muito bem cada personagem, cada fala, cada atitude, e por isso continua a repetição dos nomes dos personagens, que me cansaram desde as primeiras páginas. Apesar de também para isso existir explicação que se encontram nas notas de tradução. 

Avancei mais um pouco, queria ficar a conhecer essa realidade tão miserável que pautou o regime de Mao, mas a forma como as provações do povo são descritas e até as metáforas, em conversas muito simples entre Xu Sanguan e o tio ou a esposa continuaram a não me cativar e até a ilegalidade da venda do sangue não tornou a narrativa mais entusiasmante. 

Gostava de ter avançado na história dos filhos ou da esposa desafiante, pois pelo que leio, existem reviravoltas que dão rumo à história, tornando-a ainda mais negra, mas enquanto esperava e lia, mais exasperava.

«A mulher de He Xiaoyong saiu de casa, bateu com as mãos nas coxas e disse:
"Um descarada que roubou a semente de outro homem e agora vem aqui de nariz empinado."
Xu Yulan respondeu: "Dei à luz três rapazes de seguida, claro que venho de cabeça erguida."
A outra mulher disse: "Três filhos de pais diferentes, isso é orgulho para alguém?"
"Essas miúdas também não parecem ser filhas do mesmo pai."
"Só uma porca como tu é que estaria com homens diferentes."
"E tu, és diferente? Olha bem para o que tens dentro dessas cuecas, isso é uma mercearia, qualquer um pode entrar."»