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terça-feira, 24 de junho de 2025

«Boulder» de Eva Baltasar :: Opinião





A força sísmica da escrita de Eva Baltasar em pouco mais de 120 páginas.

“Tinha vivido agarrada a uma certeza impalpável, protegida por três ou quatro coisas indispensáveis que me diferenciavam de uma marginal, de uma excluída. Precisava de enfrentar o vazio, sonhei-o ao ponto de fazer dele um mastro, o centro do meu equilíbrio onde me seguro, quando a vida se desmorona à minha volta. Vinha do nada, envenenada, e ansiava por terras uivantes.” 
«Boulder», de Eva Baltasar (segunda parte de uma trilogia iniciada com Permafrost) é a confirmação da maturidade literária da autora catalã que rapidamente tem conquistado leitores dentro e fora de Espanha, muito pela força sísmica da sua escrita. Nesta narrativa breve, mas intensa, acompanhamos a protagonista, metaforicamente apelidada de Boulder, num percurso emocional conturbado de desejo, amor e maternidade entre a fragmentação e a manutenção da sua identidade.
“Fumo mais do que nunca, mas fumar sozinha na noite é uma maneira de alimentar o feitiço, convoca o corpo desejado e fá-lo entrar pouco a pouco, até chegar às reservas de ar, até atingir a lembrança mais querida presa na caixa estanque do peito (…) Já nem fodemos. A Samsa não tem sexo, tem um estaleiro obstruído por um único (…) Um filtro finíssimo fecha-lhe a boca do desejo. Dela, nada resta, foi transformada.”
Sem dúvida que o desejo é vibrante, e mesmo quando o desejo fica latente e surge a tensão, essa latência é sempre sentida na linguagem, aliás, a linguagem é o ponto mais forte deste livro. Diria até que o maior magnetismo é conseguido pela forma como a narradora sente e domina as palavras. Pensa-as.

“A língua é, e será sempre, um território ocupado. (…) Só a língua pode fazer-nos pertencer a um lugar, para não nos perdermos. É um substrato que alimenta. (…) Encoraja-nos e adoece-nos, desorienta o nosso instinto animal, torna-nos humanos. (…) Mas também pode ser a mais tirânica. Somos responsáveis por cada palavra, não há expressões inocentes."

Aliás, é precisamente na linguagem que Boulder encontra a sua complexidade.

domingo, 23 de abril de 2023

«Atelier de Noite» de Ana Teresa Pereira – Opinião

“Não podemos pôr nada inteiro, mas no meio dos pedaços temos uma visão enovoada do que existia antes (…)”

Enovoada surge-nos uma mulher, Teresa, uma Agatha Christie que se reinventa, embora seja uma mulher cheia de pensamentos intermitentes e dúvidas. Ela foge, sem dizer muito bem do que foge. Talvez para um último amor, talvez para se reinventar e se amar a si mesma, uma última vez, por isso nos diz: “Há um tempo para as últimas coisas, o último relógio de pulso, a última gabardina, o último cão, o último amor. A última beleza intermitente. Por vezes é assim que penso naqueles onze dias. A última vez que fui bonita.”

Talvez um amor platónico. Sabemos que havia um homem; «nota-se na boca» diz-nos ela a determinada parte. Seria uma antiga paixão? Uma paixão sempre capaz de se reacender, como as boas histórias que «começam uma e outra vez, mesmo depois de já termos ido embora.”

Ficamos na dúvida, mas supomos que essa é claramente a intenção da autora, o seu traço característico, o de criar «alguém que pudesse habitar», reescrevendo-se como um poema cujos versos andam soltos e só se unem dançando. É preciso dançar, embalar e namoriscar a noite, pois «nada é seguro. Uma manhã podemos acordar num quarto de hotel, e não encontrarmos a nossa personagem». Há um medo em perder-se de si e não mais se encontrar ou encontrar-se sozinha, quebrada, já sem ninguém, já sem nada que a ponha inteira de novo.

«O Atelier de Noite» é um livro carregado de fragmentos e incertezas, mas que transparece uma preocupação: um medo enorme pela desordem do que pode ser o fim, quando se esgota o que a caracteriza e lhe dá sentido. As camadas.

É um romance que vive mais de forma do que enredo, é cheio de referências e fluxos de consciência, mais do que de uma história concreta, com princípio meio e fim, mas até nisso cruza bem com a personagem de Agatha Christie, que queria fugir desse registo, já que o policial, por norma, mesmo que enredado, negro e complexo, tem uma estrutura regrada, expectável e testada. Por isso, a ideia de Ana Teresa Pereira em cruzar um episódio verídico ainda sem uma explicação concreta (facto que eu desconhecia) com esta possibilidade também ela pouco nítida e que casa muito bem com o “desfecho”: o escritor escreve sempre a mesma história e de tanto escrevê-la haverá de acertar, quase como se isso corrigisse a vida 

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

«Crónica de um Vendedor de Sangue» de Yu Hua - Opinião


Comecei com bastante entusiasmo a leitura deste tão aclamado autor chinês, no entanto, rapidamente percebi que seria difícil manter a vontade em continuar.
Na narração dos acontecimentos é constante a repetição de ideias e é utilizado um tom quase infantil, apesar da dureza que envolve a vida dos personagens.

Faço uma pausa e vou ler sobre o autor e a sua obra, há motivos para que escreva assim, supostamente na sua língua de origem funcionará melhor e o próprio também pretende esse registo para que até o público mais jovem chegue aos seus romances e conheça o percurso político e sócio-económico da China.

Volto à leitura e sinto, o que parece ser uma necessidade, a de identificar muito bem cada personagem, cada fala, cada atitude, e por isso continua a repetição dos nomes dos personagens, que me cansaram desde as primeiras páginas. Apesar de também para isso existir explicação que se encontram nas notas de tradução. 

Avancei mais um pouco, queria ficar a conhecer essa realidade tão miserável que pautou o regime de Mao, mas a forma como as provações do povo são descritas e até as metáforas, em conversas muito simples entre Xu Sanguan e o tio ou a esposa continuaram a não me cativar e até a ilegalidade da venda do sangue não tornou a narrativa mais entusiasmante. 

Gostava de ter avançado na história dos filhos ou da esposa desafiante, pois pelo que leio, existem reviravoltas que dão rumo à história, tornando-a ainda mais negra, mas enquanto esperava e lia, mais exasperava.

«A mulher de He Xiaoyong saiu de casa, bateu com as mãos nas coxas e disse:
"Um descarada que roubou a semente de outro homem e agora vem aqui de nariz empinado."
Xu Yulan respondeu: "Dei à luz três rapazes de seguida, claro que venho de cabeça erguida."
A outra mulher disse: "Três filhos de pais diferentes, isso é orgulho para alguém?"
"Essas miúdas também não parecem ser filhas do mesmo pai."
"Só uma porca como tu é que estaria com homens diferentes."
"E tu, és diferente? Olha bem para o que tens dentro dessas cuecas, isso é uma mercearia, qualquer um pode entrar."»

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

«Departamento de Especulações» de Jenny Offill :: Opinião


"O que disse Ovídio: Se alguma vez fores apanhado, por muito bem que escondas, / Mesmo que seja numa noite clara, jura e rejura que é mentira. / Não te mostres demasiado servil, nem mais atencioso do que é devido, / pois com isso apenas lograrias afiançar a tua culpa. / Esgota-te se for necessário e demonstra na cama dela / que não poderias ser tão bom se acabasses de vir da cama de outra."

*

"Departamento de Especulações", de Jenny Offill, (Relógio de Água, 2015) é um livro arrebatador. E ao mesmo tempo uma chapada em diversos tons e de difíceis contornos. Ou seja, nem sempre percebemos se as palavras nos apanham em cheio, como os cinco dedos de uma mão ou se é apenas, um indicador esticado que nos cutuca o nariz, em jeito de empurrão mais subtil. 

O que é certo é que Offill não escreve sobre nada de novo: um homem, uma mulher, casam e fazem bebés, um dia o homem cansa-se ou sabe-se lá o quê, traia a mulher e a ela, tipicamente como é esperado, dispara em especulações, emoções, divagações e (talvez) separações. 

Simples básico banal. 
Nada mais errado! E é isso que faz do departamento de Jenny um departamento sem igual nesta empresa compartimentada que é a vida a dois.  

"A vida é igual a estrutura mais actividade."

"Os budistas dizem que há 121 estados de consciência. Desses, só três envolvem angústia ou sofrimento. A maior parte de nós passa o tempo a circular entre esses três estados."

Se a estrutura está em risco e a actividade é torturante, minada pelos círculos de angústia e de sofrimento, daí só poderia resultar uma narração conturbada, híbrida e fragmentária, de onde sobressai uma mulher que procura entender, sentir e se abrir ao que a vida tem, agora, para lhe oferecer.

"A invenção do barca representa também a invenção do naufrágio"

"Até ao século XVII, era geralmente admitido que os ímanes possuíam alma. De que outro modo podia um objecto atrair e repeli?" 


Com quantos sinónimos e de quantos antónimos se faz uma relação?
Atracção/traição. Amor/paixão. Cumplicidade/solidão. Desejo/ sexo. Intimidade/repulsa.
Há de tudo no inventário de Jenny Offill. Mas de tudo mesmo, abrindo assim o leque de pessoas que pode atingir. E atinge de certeza.

"O que disse Simone Weil: A atenção sem objecto é uma forma de oração superior."

"Uma experiência mental, proposta pelos estóicos. Se estás farto de tudo o que tens, imagina que o perdeste."

É difícil definir, é extremamente complexo de explicar, pois não é só de sentimentos, de desgosto ou desapego, da maternidade ou da complexidade da vida a dois, todo o livro é digno de ler e reler, de pensar nos diversos caminhos que nos aponta... até na profissão a narradora nos surpreende, ela aceita ser ghostwriter de um "quase astronauta" russo. 

"Minha Vera, Tua Mãe Já Sabe Usar Naftalina. É a mnemónica que lhe deram para recordar a ordem dos planetas."

Com uma separação digna de quem habita outro planeta, a esposa vai narrando e, ora se afasta, ora se aproxima, como se tivesse ao seu dispor um zoom que procura calibrar. 
Ela quer compreender, ela quer aceitar. Especula ensinamentos, palavras alheias, compara-se aos outros e olha para si, para ele, para o "nos". Há até quem diga que este livro é uma ode ao casamento.

*

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

«Pequenos fogos em todo o lado» de Celeste Ng - Opinião


Uma edição Relógio d’Água, 2017

*

Em Shaker Heights, Cleveland, o pacato subúrbio tem tudo para que a vida dos seus moradores corra às mil maravilhas. É verdade, é cliché, mas as vidas bem-sucedidas são por ali uma colecção digna de caderneta de cromos, artigo usual nos anos 90, precisamente a década em que decorre a acção.

Postas as peças em cima da mesa, o jogo começa do fim para o princípio, recuando a acção e o enredo para que o leitor consiga perceber como chegámos aquele fogo posto.
No entanto, há regras do jogo e a família Richardson cumpre-as à risca, tendo apenas um pequeno entrave, os filhos, ou pelo menos alguns deles. E é aí que os pequenos fogos alastram.

Outra peça menos fácil de encaixar no jogo é Mia, uma mãe solteira recém-chegada à "vila", com uma filha adolescente, Pearl; ambas vão criar laços fortes com os Richardsons, mas também desfazer o seu mundo idílico e cheio de máscaras, abrindo espaço a mais pequenos fogos. Mia é um enigma, um case-study, uma mulher misteriosa que desperta paixões.

"Concentrou-se na fotografia (...) Era uma fotografia de uma mulher, de costas para a câmara (...), um emaranhado de membros que, apercebeu-se a Sra Richardson com um choque, a fazia parecer uma enorme aranha. (...) acabou por se voltar para Mia com curiosidade. Nunca conhecera ninguém como ela. (...)
A Sra Richardson sempre levara uma existência ordeira e organizada. (...)Tinha sido educada para seguir regras, para acreditar que o funcionamento correcto do mundo dependia da sua obediência (...) E depois havia aquela Mia, uma mulher completamente diferente, (...) uma parte dela queria estudar Mia como se fosse uma antropóloga..."

Quem mais se sente perturbada por esta propagação incendiária é Elena Richardson, num misto de curiosidade e de medo avança pelo caos que teme poder instalar-se e procura saber mais do passado das recém-chegadas. Talvez Elena seja a personagem mais fascinante, porém a reviravolta na sua vida é expectável.

"Durante toda a vida, aprendera que a paixão, tal como o fogo, era uma coisa perigosa. Facilmente se descontrolava. Subia paredes e ultrapassava trincheiras. As mais pequenas centelhas saltavam e espalhavam-se (...) Era melhor controlar a sua centelha (...) Ou, se calhar, mantê-la cuidadosamente acesa (...) Cuidadosamente controlada. Domesticada. Feliz em cativeiro. A chave, pensou ela, era evitar a conflagração."

Pode o passado ser uma arma directamente apontada a nós e por isso ameaçador e condicionante?
Pode a queda das máscaras, tão acarinhadas, condicionar o futuro, abrindo caminhos sem retorno no quotidiano de uma família?
Pode, claro que pode. E é isso que Celeste Ng mostra neste seu «Pequenos fogos em todo o lado» dando várias dimensões às suas personagens e histórias de vida, num enredo cheio de camadas.

A velocidade inicial com que cheguei a bem mais de metade do livro quase o torna num típico page turner, estava cativada pela escrita e pelas camadas que a autora dá às dinâmicas criadas entre os adolescentes e as próprias mães, instigando curiosidade no leitor, tornando a leitura imparável; mais pelo ambiente de mistério do que pelas crises de adolescência.

 A aura daquele pedaço americano, já tão falado, era agora descrito de um jeito menos banal, ainda que pejado de referências dos anos 90, facto que tornou o livro tão próximo da minha adolescência. No entanto, a certa parte, ou por desconfiar do desfecho ou por lhe reconhecer semelhanças com algumas séries, desinteressei-me um pouco pela leitura. Ou então, por a certa parte já não querer mais viagens ao passado de Mia, queria sim o calor de cada momento tenso na ligação daquelas mulheres.

"(...), Mia deixou ficar a mão, como se fosse uma escultora a modelar os ombros de Pearl. (...) Há muito tempo que a filha não a deixava estão tão próxima. Os pais, pensou, aprendiam a sobreviver a tocarem cada vez menos nos filhos. Em bebé, Pearl, agarrava-se a ela; (...) à medida que foi crescendo, Pearl continuou a agarrar-se à perna da mãe, depois à cintura, depois à mão, (...) Agora que Pearl era uma adolescente, as carícias da filha tinham-se tornado raras - (...) - quando aquilo que mais queria no mundo era abraçar a filha com tanta força que as duas se fundissem e nunca mais pudessem ser separadas."

É curioso que agora ao escrever sobre este livro, relendo partes, tenha dado conta que realmente gostei mais dele agora do que no momento em que o terminei. É esta a magia dos livros. Só pode!

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

«MANAZURU» de Hiromi Kawakami - Opinião


"O meu marido desapareceu sem deixar rasto. Até hoje, não voltei a vê-lo."

O romance «Manazuru» podia assim encher-se com luto e o abandono, causado pela incerteza do desaparecimento de Rei. Mas não. Apesar de narrar um desaparecimento com mais de uma década, Kawakami, coloca Kei, a esposa, no centro desta narrativa, preenchendo-a de emoções e sensações, descritas em pequenos gestos do quotidiano. No entanto, o livro é igualmente um labirinto de duvidas, que substitui o ritmo ansioso e ofegante da incerteza por uma delicadeza estranha e cativante, que parece própria da cultura nipónica.

"A resposta não se fez esperar. Sim, estou ressentida! Sim, sinto rancor. (...) é qualquer coisa no mais fundo de mim própria, é todo o meu ser, o núcleo do meu corpo que tem ressentimento por esse marido que desapareceu sem dizer fosse o que fosse. 
(...) Qualquer coisa de que Seiji não se pode apoderar. Teria de ser Rei a fazê-lo. (...) Só o homem que ele era se podia apoderar. 
É o que explica, sem dúvida, que a minha mãe não gostasse dele.
(...) 
Ter-nos-emos reaproximado desde que voltámos a viver juntas? Três mulheres debaixo do mesmo tecto, três seres de carne. Aqui estão os seus corpos, como pequenas esferas que se se misturam. As três mulheres não têm o mesmo eixo, não têm o mesmo centro, não são superfícies lisas, estão aqui, cada uma delas, com a sua espessura própria."

«Manazuru» é um livro complexo que explora a geometria própria de cada corpo e do que lhe faz falta nas diferentes relações de proximidade. A relação mulher-homem, que ultrapassa a dimensão do casamento, primeiro com o aparecimento de uma criança, carne da sua carne, e depois, mais tarde, fruto da necessidade e do desejo, um corpo que pertence a outro alguém, um amante. E no meio disto tudo, o retomar a uma proximidade mais ancestral, o voltar ao corpo da mãe. 

"Quando nos vemos separados de um ser que nos acompanhou por muito tempo, só o efémero resta. Passar-se-ia, sem dúvida, a mesma coisa com Seiji. 
Fi-lo entrar no meu quarto. - Porque o meu corpo não te deseja! - expliquei-lhe e ele riu. - Mas eu, eu tenho uma certa vontade de estar contigo. (...)
Amo-o, tudo é frágil, e eis-nos separados. O amor não implica necessariamente a união."

Kei analisa o que gera proximidade, se amor, desejo, necessidade, afecto, toque, solidão, dependência, lugar, eixo, distância, medo, obrigação... E analisa-o face a quem lhe é próximo, a mãe, como lugar e casa para onde volta; a filha, Momo, que lhe sugou energia e afecto e a fez renegar às suas vontades de mulher esposa; ao marido que a possuía de forma desigual; ao amante, que na sua estranheza silenciosa, a aceitou e lhe devolveu um certo sentimento de pertença e ainda uma presença misteriosa que a acompanha para todo o lado. Essa coisa que se sobrepõe e se impôs a Kei, tal como as memórias e o vazio.

"Tudo se tornou vazio.
Murmuro de mim para mim, a sós comigo.
E todavia, havia qualquer coisa que se preparava já para preencher o vazio. Do mesmo modo que a água em que se dissolve o ágar-ágar não é realmente translúcida, porque, apesar de lavadas as algas das suas impurezas, as duas substâncias têm densidades diferentes e é necessário algum tempo para que uma e outra se misturem (...)"


*

Tradução: Miguel Serras Pereira 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

«As pessoas do drama» de H. G. Cancela :: Opinião


Convêm primeiro que tudo dizer que as narrativas criadas por Cancela atraem o leitor para um redemoinho de ideias e sensações, difíceis de explicar, seja enquanto se lê, seja já depois, quando se vai digerindo e relendo certas partes. Ou seja, julgo que Cancela escreve com o propósito de expor o leitor a uma certa angústia que se cruza com episódios de violência, emergindo o leitor na mesma experiência traumática em que desenvolve os seus personagens. Personagens esses que se confundem, seja no carácter, nas decisões ou nos dramas com os de outros seus livros, mais propriamente em «Impunidade». No entanto, este «As pessoas do drama» explora muito a arte de imitar a vida e ao mesmo tempo a dificuldade de vivê-la desapegada da imitação, da dissimulação e do uso, constante, de máscaras. 

"O palco imitava o mundo que imitava o palco sem se dar conta de que imitava uma caricatura de si mesmo. A incongruência era que a caricatura parecia mais espessa do que o ponto de partida."

Cancela explora, já como no anterior romance, a solidão, a condição do vazio, a transgressão e a expiação, a espiral destrutiva a que as escolhas conduzem, o pecado e a amoralidade; como que numa colecção de peças preciosas, que constroem personagens com preocupações próximas das de todos, mas com actos que apelam a uma certa repugnância e confusão. Repete-se o incesto. Insiste-se no percurso auto-destrutivo, que encena a humilhação e antecede-a, mas não a evita, antes pelo contrário, faz dela uma herança, quase uma tradição. Ainda assim, o poder que essa força exerce é de acumulação e não de aprendizagem. Os personagens caminham em paralelo com uma história que conhecem, mas seguem-na na mesma, como se o seu conteúdo interno não fosse forte o suficiente para contrariar o apelo exterior. 

É difícil perceber se será mesmo esta a menagem do enredo, há sempre algo que percebemos não ser dito. Partes que são explicada por metáforas que poderão ter diversas interpretações. O corpo talvez comparado à cidade; com heranças dos anos, que se deteriora e esconde detalhes decisivos que nos enviam mensagens que não sabemos descodificar. 

"À minha volta havia um mundo morto. Se tal era visível nas ruínas que construíam o coração da cidade, era-o de um modo menos evidentes, apesar de mais forte (...) elas surgiam-me como manifestação de um mundo em degradação. (...) Não era diferente do modo como o tempo se amalgamava, antepondo o efeito à causa, a punição ao crime, a redenção à culpa..."

Na parte central do enredo temos um homem que talvez possamos apontar como errático, que divaga entre a solidão, como parte integrante do seu ser, e a obsessão por uma mulher, uma actriz que descobre num filme. Laura, é uma personagem no lato sentido da palavra, a sua vida é uma amálgama de personagens que lhe toldam as decisões, anulando-lhe a vontade. Para decidir por ela temos o encenador, um homem que parece amá-la, mas que a humilha e oprime. Todo este composto formará mais que o típico triângulo amoroso. Todos eles são assombrados por memórias e por outras pessoas que já foram, para além do conhecimento que tentam ter de si próprios e a culpa que a isso está associada. Nesta parte central está também a tragédia grega e uma interpretação mais profunda de Antígona (a peça que traz Laura à cena) poderá dar mais camadas às interpretações que retiramos do enredo.

"Respondeu que sabia pouco de lama, mas compreendia a vedação, mesmo que não a víssemos, nunca deixava de haver alguma e talvez fosse preferível sermos nós próprios a construí-la."

Julgo que a culpa pode aqui representar uma enorme vedação, tal como a máscara a que a convivência com os outros obriga, mas mais ainda a que por vezes se vê reflectida no espelho, contribuindo mais para a dor do que para a felicidade. Porém, nem sei se se possa dizer que estes personagens fujam da dor ou persigam a felicidade, julgo que prefeririam partilhar o peso da culpa e a solidão que não se esgota. 

"Visto dali, não havia nomes, rotas, gente, talvez houvesse história, mas mesmo ela parecia incompatível com o que se avistava. (...) O que sobrava, o resíduo seco, seria ele próprio atirado para o charco. Talvez acabasse por o reabsorver, tornando possível repetir o processo e confundir experiência com conhecimento, sem pretender que houvesse a capacidade de aprender com os erros, pois entre ir e voltar, fazer e repetir, não restava mais do que uma grosseira tentativa de manipulação, uma comédia obscena na qual quem ri só ri para esconder a vergonha de si mesmo."

Sobra ainda a reflexão sobre o poder da manipulação e o quando dela compõe a vida, anulando inocência e esperança, encaminhando para o flagelo da decadência e o vazio criado por tantas incertezas. 


domingo, 4 de junho de 2017

Quem segue o Acordo Fotográfico?

A sério? Não conhecem?
Fiquem a conhecer AQUI ou no livro que agora saí pela mão da Relógio D'Água


Esta viagem de Sandra Barão Nobre começa em abril de 2013, quando chega a casa depois de um dia de trabalho e abre o mapa-mundo no chão da sua sala. A intenção inicial da criadora do site Acordo Fotográfico (uma homenagem ao ato de ler) era visitar os países de língua portuguesa ou as regiões do mundo onde ela ainda sobrevive, como Malaca, Macau e Goa. Mas, quando uma sua amiga decide participar na aventura, combinam explorar mais o sudeste asiático (em particular, países como Tailândia, Laos, Vietname e Camboja).
Quando Sandra Barão Nobre regressou a Portugal em finais de agosto de 2014, visitara catorze países e a sua vida mudara.
Os textos que fazem parte deste livro, fragmentos do diário, entrevistas e narrativas de viagem, foram escritos a propósito dos leitores que a autora conheceu durante este longo périplo e dos lugares onde esses encontros ocorreram.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Novidade Relógio de Água : "Breve História de Sete Assassinatos"

Marlon James foi o vencedor do Man Booker Prize 2015


A partir da tentativa de assassínio de Bob Marley, o autor jamaicano Marlon James propõe um romance tão ambicioso como inteligente.

«"Breve História de Sete Assassinatos" é uma obra-prima.» 
Chris Salewicz

«É como um remake de Tarantino de The Harder They Come, mas com uma banda sonora de Bob Marley e um guião de Oliver Stone e William Faulkner. (…) Épico em todos os sentidos da palavra.»
New York Times

Uma novidade com data de lançamento para dia 29 de Novembro da

segunda-feira, 21 de março de 2016

IMPUNIDADE de H. G. Cancela :: Opinião


Em «Impunidade», Cancela redesenhou o conceito de esplendor, retirou-lhe o brilho e a glória das coisas belas, mas carregou-o de obsceno e amoral, construindo um romance que esmaga e domina o leitor, deslumbrando-o.
Estrategicamente, o narrador traça um plano de expiação com o leitor envolvendo-o no relato despudorado e numa trama forte e sufocante, carregada de episódios sujos, violentos, amorais, numa espiral destrutiva, para a qual o leitor se sente puxado, mas igualmente enjoado e enojado por pertencer.

"O nós, ali, a primeira pessoa do plural, mal permitia ultrapassar a contradição dos termos perante o que enunciava. A constatação de uma solidão anterior a qualquer imagem da pertença ou do afecto. Porto de partida, ponto de chegada."

Errático, um homem, pai, irmão, pecador, narrador, portador do mal... entra em cena em busca de duas crianças, totalmente vítimas de abandono, deixadas num sufocante apartamento na já quente Sevilha, aos parcos cuidados de uma inconstante empregada, com um filho, Amir, que reúnem em si, flagelos sociais que entrarão em colisão com os flagelos destas estranhas relações familiares.
Errática também, melancólica, destruída, uma mulher, mãe, irmã e o objecto de desejo, é em si mesma a personificação do abandono, da dúvida, talvez da culpa, talvez da sumptuosidade.

"Aquilo éramos nós, sem espaço para dúvidas. Cada um sozinho diante do outro como se permanecesse imóvel perante si mesmo. Não no reflexo de um espelho, susceptível de produzir um mínimo de identidade (...) continuava a ser eu. Continuava a ser ela (...) Com a extensão da posse e da privação, distinta na carne, no género, na vontade."

Desde cedo se anunciam tragédias perante este elenco que nos fazem questionar se a violência pode aqui assumir o papel de personagem central, bem como se questiona se existe total ausência de amor e para que plano é remetida a culpa, a consciência e claro, a impunidade.

"Branca, pequena, a pele amarfanhada, dir-se-ia a personificação da culpa. Uma forma de culpa. Aquela que reverte não sobre a causa, mas sobre a consequência, atribuindo à vítima aquilo que o agente rejeitou para si mesmo. E ela própria recusando-se a aceitar, ou vendo-lhe negada, a língua com a qual talvez conseguisse acusar aqueles que a condenavam."

A insuportável destruição que os personagens causam ganha uma aura de introspeção com determinados parágrafos mais filosóficos, tentando um olhar que contorne a patologia aqui relatada. Mas "não há nada para dizer", a impunidade repete-se e pauta até ao fim este jogo de sobrevivência, num crescendo de violência como forma de camuflar a culpa.
É o desejo e a obsessão, o relato da obscenidade do corpo proibido do outro e o conflito constante, latente nas descrições pulsantes e duras no quão gráficas conseguem ser, trazendo até ao leitor um constante peso e um certo pulsar de nojo pelas personagens. Até mesmo quando da evocação do passado como causa do abandono e do terror em que a história se desenrola, continuamos a sentir censura e repulsa pelo irredutível do desfecho que simboliza a total desumanização de todas as personagens.

"Eu suponha conhecer o preço. Humilhação e abandono. Voltei-me para trás. Ele poderia morrer, eu poderia matá-lo, apagá-lo do mundo e da memória, mas ele continuaria a ter existido. Era essa existência que, desprovida de peso e de densidade, se transformava agora no estado definitivo."

É estranha a beleza que este romance encerra pois apesar de toda a violência e profanação, exerce enorme poder sobre o leitor, não lhe permitindo qualquer indiferença perante o individualismo desta impunidade, mas causando-lhe uma certa inércia, adormecendo-lhe a consciência, pois só assim partilhará o conforto da fuga juntamente com os personagens.

"(...) Talvez precisasse de espectadores, mas prescindia de aplausos."

*
Um livro RELÓGIO D'ÁGUA

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

«A Amiga Genial» Elena Ferrante :: Opinião

Fiquei com uma ideia agridoce e um sentir contraditório sobre este primeiro volume de «A Amiga Genial».
Lila e Lenú são quase como um boneco sempre em pé, funcionam num jogo do gato e do rato... no início da amizade, quase ainda sem o ser, ora uma se afastava ora outra se aproxima. É enigmática e chega a ser depressiva a dependência de uma e a independência de outra.

"Era um receio antigo, um receio que nunca me passara: o medo de que, perdendo bocados da vida dela, a minha perdesse intensidade e importância."

Estranha amizade que pauta, até ao fim, este primeiro livro, de uma tetralogia que pretende revelar a vida de ambas até ao desfecho, penso eu que assim seja, com que nos acenam no prólogo.

Gostei bastante da forma como Ferrante começa a desvelar a amizade, o capítulo da Infância, é realmente superior ao da Adolescência, já que os episódios são mais caricatos e adequados à idade das meninas ou então foram certos excertos da narrativa que me cativaram mais neste arranque.

"Também Lila a certa altura me parecera bonita. Geralmente, a bonita era eu. Ela, pelo contrário, era seca como uma anchova salgada, exalava um cheiro bravio, tinha uma cara comprida, estreita nas têmporas, apertada entre duas faixas de cabelo liso e negro. (...) Lila é mais bonita do que eu. Portanto, eu era a segunda em tudo. Fiz votos para que ninguém se apercebesse disso."

A dependência de Lenú e a procura constante de aceitação por parte de Lila, parece-me condicionante e sufocante, mas na infância, parece-me justificável, pois Lila emanava uma aura de guerrilha, fazendo frente às adversidades do bairro e da condição pobre de ambas, promovendo um certo crescimento às personagens, mais tarde na adolescência, cansou-me um pouco, queria vê-las crescer e ter outras preocupações. Ainda assim, a densidade dada a ambas é interessante se formos a pensar nas cenas dos próximos volumes.

"(...) ouvimos o ruído da destruição ao longo de vários dias: as árvores estremeciam, emanavam um cheiro a madeira fresca e a verdura, fendiam o ar, tombavam no chão depois de um longo resmalhar que parecia um suspiro, enquanto ele e os outros serravam, rachavam, extirpavam raízes que exalavam um odor a subterrâneo."

Foram momentos descritivos como este que me cativaram na escrita de Ferrante, mas a mesma não me agarrou de forma viciante, antes pelo contrário, por vezes fatigou-me, senti-me no meio de uma novela cheia de contornos e episódios meio infantis e repetitivos, no entanto, a autora é muito boa em avisar o leitor de que algo decisivo e modificador vai acontecer, como que nos preparando para uma reviravolta. Ainda assim não considero que tenham existido muitas reviravoltas, a amiga genial para mim foi sempre Lenú e minha suspeita inicial, mantêm-se até ao final, aliás, mesmos nas últimas páginas e justificando a minha ideia existem dois, três parágrafos brilhantes, daqueles que gostava de ter encontrado mais durante todo o livro.

"Nunca a tinha visto nua, envergonhei-me. (...) Nessa altura foi apenas uma tumultuosa sensação de inconveniência necessária (...) a violenta emoção que te domina, e por isso te obrigas a ficar, (...) sobre o pavimento irregular manchado de água, e agita-se-te o coração, inflamam-se-te as veias. (...) Tive sentimentos e pensamentos confusos (...)"

Fica também em aberto o prólogo enigmático «Apagar o rasto» que foca, desde o início, o sentido do leitor em anos mais avançados da vidas destas duas amigas, instigando-nos a persegui-las pelos quatro livros procurando o tumulto de uma idade mais madura, na espera por encontrar uma Ferrante mais cáustica e genial como aqueles parágrafos do capítulo 57.


domingo, 22 de março de 2015

"Os Lança-chamas", de Rachel Kushner :: Opinião

 Imagem de capa do Jornal Volsci (1980)

Não sei se fiquei fã de Reno, protagonista pseudo-feminista deste lança-chamas ou sequer de Rachel Kushner, já que experimentei sentimentos vários com a leitura deste livro difícil e com partes, para mim, a roçaram o entediantes. Kushner faz uma viagem a toda a velocidade por uma série de acontecimentos reais dos anos 70, viajando entre Nova Iorque, Milão e Roma, misturando-os com eventos pessoais das suas personagens, das muitas que compõem o espectro de amigos, paixões e conhecidos que acompanham Reno.

Reno, nome fictício dado à mulher motard que enche a acção deste relato, é-lho atribuído devido à referência a Reno, Nevada, local de proveniência e à sua vontade de correr nos desertos de sal - Bonneville Salt Flats - no Utah. As referências geográficas bem como as mecânicas são detalhas e descritivas, intensamente, e logo desde o começo o livro demonstra que a velocidade que poderia ter, perde-a aí, nesses momento de longa narrativa sem que nada aconteça e quando acontece é pouco marcante.

Após várias personagens serem introduzidas e percebermos o desejo de Reno se tornar uma artística reconhecida, caminho que poderia ser facilitado pelos contactos de Sandro Valera, a meu ver com uma história de vida mais intensa e interessante, e é pela descrição da sua vida familiar que ficamos a ter bons momentos de narração, quase turística, que nos transportam a Milão ou Roma. Sandro Valera é filho do magnata da borracha e também das Valera, motos cujo as imagens reais vão dar a referências do livro ou da Ducatti... fiquei na dúvida.
É entre Ronnie e Sandro que Reno retira algumas ilações sobre a juventude e o poder da idade, mas também do mundo da arte e da sua própria condição de ser mulher, no entanto ficam-se por breves frases, não mais.

"Tens o luxo do tempo. És nova. Os jovens estão a fazer qualquer coisa, mesmo quando não fazem nada. Uma mulher jovem é uma via. Tudo o que tem que fazer é existir." (pp.37)

"- Eu não tenho um salário, sou artista, não faço parte do sistema." (pp.101)

Oscilando entre a influência de Ronnie e Sandro, Reno (gostava mais que a tivessem intitulado de Valera!) vai descobrindo a arte e a política como forma de manifestação, como fuga às normas e uma forma revolucionária de viver os tempos já de si instáveis.
Gostei de a meio das descrições mecânicas de motos, escapes, corridas, aceleração, derrapagens, saber o slogan da Honda nos anos 70 que já dá uma perspectiva da própria mensagem da autora.

"A velocidade é um direito do homem."


A velocidade atingida por Reno na competição dos desertos de sal não corre como esperado e aquilo que parecia ser um dos eventos mais interessantes, que seria a volta dela às corridas para captar imagens de Land Art, rapidamente se perde e o leitor perde também a esperança de a "ver" correr novamente.
A partir daí a relação de Reno e Sandro estreita-se e temos uma incursão ao cerne da família italiana e a escrita volta a ter períodos que oscilam muito, tendo nas partes descritivas muita perda de tempo, pior, muitos dos intervenientes na acção também não lhe acrescentam nada, já que a maioria das conclusões a que Reno chega, consegue-as por ela mesma, o que faz perguntar se os outros estão ali só para as divagações e deambulações!?

"Fiquei muito tempo a seguir a lenta deriva das nuvens, grandes massas fofas tosquiadas a direito nas arestas inferiores como se estivessem a derreter num tabuleiro quente." (pp.13)
Um cenário quase sereno mas também onírico e meio delirante que julgo traçar um caminho que se percorre em todo o livro de Kushner.

O livro ganha uma nova vida com o capítulo da marcha sobre Roma e a fuga com Gianni e talvez seja com ele que a tão referida metonímia de Sandro ocorra. A fuga como metonímia da emancipação e aprendizagem de Reno.
Resta ainda pensar se a designação de Roma: Cidade Aberta será uma metonímia para algo.

Ficam também alguns registos musicais dos quais adorei descobrir Big Jay McNeely.



Não podia terminar sem dizer que descobri neste livro um nome fantástico para um cão, o Gorgonzola e depois ao pesquisar por fotos sobre da Marcha sobre Roma, pelo fotografo Larry Fink, dei com a Mostra Internacional de Fotografia de Roma e descobri esta foto irresistível.

Aqui fica a minha versão de um possível Gorgonzola.

Fonte: http://julietartmagazine.com/en/fotografia-festival-internazionale-di-roma/

Boas leituras. boa semana.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

De Bicicleta - Antologia de Textos

Mal vi este livro decidi logo comprar, não fosse eu um amante de bicicletas.... isto já se está a tornar num vício.

Neste livro encontrei alguns dos dos mais interessantes relatos literários sobre a bicicleta. São um género de crónicas publicados nos últimos cem anos, com imensos dados, muitos dos quais desconhecia por completo.

Alguns relatos chegam a ser motivacionais, daqueles em que nos apetece deixar o livro e agarrar na nossa bicicleta e pedalar por aí fora sem destino, sentir o ar na cara, e "voar" pelos campo fora, gozar da plena liberdade de ter connosco uma das invenções mais importantes de sempre (para mim é claro).

Esta antologia aproxima-nos da bicicleta, leva-nos a crer na perfeita simbiose entre Homem / Bicicleta,  "examinei-o com um olhar de águia, procurando descobrir qual dos dois (o homem ou a bicicleta) é que transportava o outro, e se se trataria mesmo de um homem  com a bicicleta às costas."

São ao todo vinte e dois autores reunidos num livro que tem como pano de fundo a bicicleta, mas não se enganem, nem todos são relatos de alegrias...
sim... que isto de pedalar tem que se lhe diga. Quem anda de bicicleta sofre, são as quedas, o esforço físico despendido para fazer a nossa locomoção, são os problemas mecânicos, entre outras...
"Isso permitiu-me comprovar que, embora estivesse todo estropiado, nessa altura ainda sentia um certo prazer em andar de bicicleta.... prendia as muletas, uma de cada lado, à barra superior do quadro; enganchava o pé da perna rígida...."

Adoro que se façam livros sobre este desporto, sobre este meio de locomoção que agora mais do que nunca toma outro fôlego, outra importância, e a ser um objecto de culto urbano, perdendo o medo e a deixar a vergonha em casa, para virem pedalar para a cidade ou de forma mais desportiva, entre amigos, com as famílias, como desporto, como passeio ou simplesmente como forma para chegar ao trabalho.

Hoje já se vê em Portugal as várias tribos de ciclistas que começam a apoderar-se dos espaços públicos para ter uma vida mais saudável e mostrar as suas potentes máquinas de pedalar...

Oiçam aqui, na voz de Carlos Vaz Marques, relatando o impacto e a importância do ciclismo.
Livro do Dia TSF, a 19/06/2012. Uma edição RELÓGIO D'ÁGUA.