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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Opinião :: "A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert"

Leitura de férias de Verão 2013 

29. Gostaria de o ensinar a escrever, Marcus, não para que saiba escrever, mas para vir a ser escritor. Porque escrever livros não vale nada; toda a gente sabe escrever, mas nem todos são escritores.
- E como sabemos que somos escritores, Harry?
- Ninguém sabe se é escritor. São os outros que lho dizem.


Pego neste mesmo excerto e exerço o meu direito como pessoa com opinião própria e leitora para afirmar o seguinte:
"Joel Dicker é um escritor, um magnifico escritor que me prendeu ao longo do livro com esta história de intriga, onde nem tudo é o que parece e constatamos que toda a gente tem um lado mais escuro, este depende sempre do ponto de vista em que é observado e de quem o vê."

"A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert" é sem duvida um livro que se lê num ápice (mesmo com as quase 700 páginas). Somos simplesmente impelidos pelo desejo de ver esclarecido o mistério:
"Quem matou Nola Kellergan?"

É Markus Goldman, escritor com um único livro publicado que se tornou Best Seller e que agora atravessa um mar de páginas em branco na sua criatividade, que vai iniciar as buscas por conta própria de modo a ilibar o seu amigo e mentor, Harry Quebert. Este foi formalmente acusado da morte de Nola, 30 anos após o seu desaparecimento, quando mandava plantar hortenses em sua memória no terreno à volta de sua casa.
De uma coisa sabemos que Harry não é inocente. Em 1975 teve um romance, platónico ou não, com um jovem de 15 anos. Para começar, isso não joga a seu favor. Pelo menos, mesmo no meu jeito turvo de ver as coisas, nada de mal aconteceu entre os dois. Tudo o resto, todos os outros detalhes sobre Nola, sobre a pequena vila de Aurora e os diversos segredos dos seus habitantes são-nos apresentados ao longo da leitura.
E cada revelação, cada reviravolta, deixou-me ora de boca aberta ou com a folha suspensa a meio virar de página com curiosidade de saber se iria acertar no que se seguia ou que nova descoberta iria ler nas próximas linhas que mudava por completo o rumo da história.
Para mim, que leio poucos livros do género, já fico muito satisfeita quando um crime e a sua investigação me prendem de maneira que até sonho com isso e penso no livro mesmo quando não estou a ler. Sei que quem "come" livros atrás de livros deste género não ficou particularmente agradado com a história de Joel Dicker mas para principiantes como eu este livro é uma óptima história e consiste num bom desafio.
Principiantes que não se assustem com 700 páginas (valem todas a pena).

"Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter acabado de ler"

Duas pequenas notas negativas sobre o livro: 
1º - A referência a Robert Cochonou, entusiasta da volta a França. Ora sendo este um livro centrado na cultura e realidade americanas, acho a referencia uma gaffe. Os americanos, desculpem-me o estereotipo, centro mais na suas vedetas, mesmo as mais efemeras para sequer conhecerem ou considerarem um elemento relacionado com outro país ou envento, como é o caso da volta à França em bicicleta. Joel, nascido na Suiça, deve ver essa expressão como algo comum.
2º As conversas de Markus com a mãe ao telefone - completamente desnecessárias, forçadas até. Fazia lembrar uma comédia com o Ben Stiller em que o querido filho judeu, trintão e bom partido não encontra uma mulher para relacionamento sério.

No entanto, não querem saber quem matou Nola Kellergan?!
A minha metade literária também já desvendou o mistério, vejam a sua opinião aqui.

Boas leituras!!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

"A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert" de Joel Dicker - Opinião

"A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert" que bem se podia chamar "Quem matou Nola Kellergan?" é o mais recente romance policial de Joel Dicker.


O page turner "A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert" (Edição portuguesa pela Alfaguara/Objectiva) catapultou o autor de 27 anos para a ribalta, fazendo jus à profecia com que começa o seu livro: "Toda a gente falava do livro" E a verdade é que falam mesmo. Com vendas a ascender um milhão de exemplares, eis o livro que destronou "As Cinquenta Sombras de Grey" e que foi negociado por valores superiores aos do Harry Potter e, na opinião dos media, um caso para destronar também, "Inferno" de Dan Brown.

"Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter acabado de ler"

Os críticos reconhecem-lhe traços de Nobokov, de Jonathan Frazen e até Woody Allen ou Philipe Roth. Eu reconheço-lhe uma intriga excepcional, muito bem emparelhada, com capítulos de mestre, páginas e páginas que nos deixam em suspenso, um crime talvez maior que o amor ou talvez seja melhor dizer que o maior crime foi mesmo: amar.

São quase 700 páginas que passam num ápice e que nos envolvem em cada personagem, fazendo-nos por vezes perder o fio à meada, preocupando-nos mais com o que é revelado sobre cada pessoa, do que realmente resolver o mistério de "Quem matou Nola Kellergan?"

"(...) toda a gente sabe escrever, mas nem todos são escritores.
- E como sabemos que somos escritores, Harry?
- Ninguém sabe se é escritor. São os outros que lho dizem."

E creio que a opinião pública e entendida neste tipo de "casos" já disse. Já fez saber que a meta a que aspirava Marcus Goldman é agora a etiqueta de Joel Dicker.

Este romance com traços de policial é um livro dentro de um livro que fala sobre outro livro. Passo a explicar. Temos um livro em mãos "A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert" que nos começa a revelar a pesarosa situação de Marcus Goldman, escritor best seller que tem, necessariamente, que produzir um novo livro. Ora crise de página branca instalada, Marcus parte em busca de auxílio, em busca de uma opinião de mestre. Em tempos foi aluno de outro escritor best seller, agora caído em esquecimento. Harry Quebert, conhecido pelas "As Origens do Mal" volta à ribalta, mas por ser acusado do homícidio de Nola Kellergan, quase 30 anos depois do desaparecimento da jovem.

Não querendo aproveitar-se da situação, mas sentido um dever como amigo, Goldman parte em busca da verdade e indo ele auxiliar Quebert. A sua investigação informal trará à luz do dia segredos e episódios há muito enterrados, mas não esquecidos. É a partir daqui que tudo se complica e se enreda e as reviravoltas são constantes e algumas complexas até.

Se encararmos o livro, sobre como escrever um livro, talvez este seja um manual, grande, complexo, teórico, rebuscado, mas um muito bom exemplar!

Em suma, é um trabalho meticuloso, é um livro com excelente capacidade critica, mas igualmente com elevada tendência para a introspecção. O autor ora nos faz olhar para o mundo e o estado da sociedade actual, como nos pede para olharmos para dentro. É também um enredo com elevado sentido de humor, que nos arranca algumas gargalhadas (talvez do melhor, a "A América é o paraíso do pénis" pág. 91/92), no entanto, não apreciei os diálogos maternais e exagerados entre Marcus e a mãe. Talvez seja o único detalhe negativo.

"- Sabe o que é um editor? É um escritor falhado cujo o pai tinha dinheiro suficiente para poder apropriar-se do talento dos outros."

Vejo o livro como uma manta de retalhos, um emaranhado complexo de traços, de características, de personalidades, de motivos e de cores... no entanto, depois de terminada, faz todo o sentido no seu conjunto. É assim o excelente livro de Joel Dicker.


Saibam mais do autor aqui
Partilho também um artigo do SOL que gostei bastante de ler e aprendi o conceito de page turner