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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

«As nossas almas na noite» de Kent Haruf - Opinião


A propósito da estreia do filme inspirado neste livro, lembrei-me de meter mãos à obra e escrever sobre esta leitura, ainda antes de ser influenciada pelo filme. 

Antes de mais, importa dizer que Addie e Louis são o espelho das segundas oportunidades, mas também do condicionamento que a família, por vezes, pode representar e isso foi o que mais me chocou, especialmente pelo fim. Eu queria algo mais radical. Quem sabe uma road trip, com dois velhos aventureiros, estrada fora, carro clássico e grandes músicas. Mas isto era eu a sonhar e provavelmente a fugir ao espírito dos livros que Kent Haruf constrói. Ou construía, pois infelizmente já partiu, pouco depois de terminar este livro. 

Haruf cria um ambiente no qual envolve a acção e os diálogos deste livro, tornando o leitor numa testemunha. A envolvência criada faz-nos sentir dentro da acção. O leitor está ali, na cama, com aqueles dois velhos, partilhando momentos que quebram a solidão um do outro e lhes recarregam as energias. Haruf dá ao leitor, ternura, emoção, esperança, diversão e algumas dúvidas. E é brilhante na forma como o faz, com tão poucas palavras, quase parecem ter sido escolhidas ao acaso, mas devem ter envolvido um trabalho milimétrico e cuidado, pois todas elas são incisivas, essenciais e simples.

"No exterior do quarto às escuras, o vento começou repentinamente a soprar, abriu a janela de par em par e enfunou as cortinas. A chuva não tardou a cair.
- É melhor ir fechar a janela. 
- Não a feches toda, Não cheira tão bem? Agora é adorável.
- Exactamente. 
Ele levantou-se, puxou a janela para baixo, mas não a fechou por completo, e voltou para a cama.
Ficaram deitados um ao lado do outro a ouvir a chuva."

São estes pequenos momentos, descritos de forma tão concisa mas penetrante, que brilham e dão seguimento às vidas aqui a descoberto e nada prontas a serem açambarcadas pelos erros e consequências das acções de outros. Mas Jamie, o filho de Addie, vai alterar o rumo de ambas estas vidas e isso deixou-me a pensar numa pergunta: farão os filhos adiar as vidas dos pais? 

"Tento convencer-me de que acredito nisto. Espero bem que esteja. Ela nunca conseguiu aquilo que pretendia de mim. Tinha uma certa ideia, uma noção de como a vida deveria ser, como devia ser o casamento, mas as coisas nunca foram assim connosco. Falhei-lhe neste sentido. Ela devia ter casado com outra pessoa.
- Estás outra vez a ser muito duro contigo - afirmou Addie. - Quem é que alguma vez alcança aquilo que pretende? Parece que isso não acontece à maior parte de nós, se é que acontece a alguém."

A proposta improvável de Addie a Louis talvez apanhe o leitor de surpresa, como o final me apanhou a mim, ou então sou eu que ainda acredito em finais aventureiros que curem as feridas que não saram ao longo da vida. 

*

Um livro ALFAGUARA.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Opinião "As nossas almas na noite"


Este título não me passou despercebido. Entre as noticias sobre o seu sucesso no Festival de Veneza, o facto de ser uma novidade Netflix (também conhecida como ferramenta principal do demónio das distracções) e ter à cabeça da história dois megas actores, acho que não havia mesmo maneira de a história me passar ao lado.
À semelhança de Kent Haruf, eu também sou uma grande apoiante das segundas oportunidades, dos romances perdidos no tempo, da crença que não existe idade limite para amar e das história sem fins convencionais.
Addie e Louis são prova disso mesmo.
E por isso, assim num ataque meio maníaco-saudosista de quem não lia nada desde meio de Agosto, devorei o "As nossas almas na noite" em dois bocadinhos.

Viúva e só, Addie ganha coragem de propor a Louis, igualmente viúvo, um acordo de companhia.
Melhor que passar noites em branco ou a ver as horas no relógio enquanto não se consegue adormecer, é ter a presença de outra pessoa ao nosso lado e cair no sono ao ritmo pausado da conversa de almofada. 
Alvo de falatório na cidade onde vivem, Addie e Louis criam, à margem das convenções sociais para um novo romance na terceira idade, uma ligação bonita, de apoio e compressão mútua. 
Uma história que vai revelando o passado ao longo do desenvolvimento do presente e do selar do futuro.
Mais que algumas coisas que dizem, talvez sejam os silêncios confortáveis que partilham entre si o ponto chave para este novo bem estar que encontram lado a lado. Esse silêncio é algo que sei que vou gostar de encontrar na adaptação deste "As nossas almas na noite" que é uma grande lição para novos e velhos, quer no que toca a nunca ser tarde para voltar a encontrar a paz e a felicidade nos nossos dias, quer pela ideia que Addie transmite.
"Disse-te que nunca mais queria viver daquela maneira....atenta às outras pessoas, àquilo em que elas pensam, àquilo em que acreditam. Acho que isso não é maneira de viver. Pelo menos para mim deixou de ser".
E eu concordo plenamente!

O livro é lançado dia 20, a sua adaptação estreia dia 29 na Netflix.


Uma novidade

NOTA: Agora acho que vou abrir os olhos à escrita de Kent Haruf. Andei à procura e só existe traduzido para português "Canto chão" que curiosamente é mencionado neste livro. Probabilidade de encontrar este livro? 
Pouca! 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Novidade Alfaguara :: "As nossas almas na noite"


As nossas almas na noite é uma pequena jóia literária: uma história breve, comovente, agridoce, mas inspiradora e bem-humorada, sobre as segundas oportunidades na vida, mesmo quando parece ser tarde demais. 

Em Holt, uma pequena cidade do Colorado, Addie Moore faz uma visita inesperada a Louis Waters, seu vizinho. Viúvos, às portas da velhice, ambos tentam acomodar-se a uma vida diferente, nas casas agora vazias. O mais difícil de suportar são as longas noites solitárias. Addie não está disposta a aceitar uma vida tão cinzenta, e então propõe a Louis que ele passe a dormir em sua casa, para ambos terem alguém com quem conversar à noite. Perante tão inesperado convite, Louis não tem opção senão aceitar. Pouco a pouco, Louis e Addie vão despindo a alma nessas noites, revivendo os sonhos da juventude, as doçuras e amarguras do casamento, as esperanças do passado, os medos do presente. Noite após noite, os dois estão cada vez mais certos de querer passar juntos o resto dos seus dias. Neste aclamado romance, que terminou poucos dias antes de morrer, Kent Haruf retrata com ternura e delicadeza as segundas oportunidades e a emoção de redescobrir os pequenos prazeres da vida que pode ganhar um novo sentido mesmo quando parece ser tarde demais.

As Nossas Almas na Noite, que estreia dia 29 no Netflix, com Jane Fonda e Robert Redford

Uma novidade