domingo, 18 de abril de 2021

«O que contamos ao vento» de Laura Imai Messina :: Opinião




"Yui tinha humores, tendia um pouco para a melancolia, como se tivesse sido concebida inclinada e resvalar fizesse parte da sua natureza."

Nessa sua natureza, Yui levava uma vida oca cheia de horas opacas, em que o amanhã enquanto princípio, era algo que não existia. E foi mais ou menos com essa sentença que Yiu e Takeshi estabeleceram contacto, depois de muita perda nas vidas de ambos, e como processo de cura, começaram a frequentar Bell Gardia, aguardando um certo serenar das respostas trazidas pelo vento.

No entanto, e por a cura ser um processo longo, as viagens de carro entre Tóquio e o telefone do vento, são uma forma de se conhecerem e conciliarem gostos e cumplicidades.

"Longas viagens de carro, horas intermináveis de condução, melodias de fundo, gargalhadas e silêncios confortáveis, verdadeiros haikus visuais para mais tarde recordar e que reforçavam os nervos e os músculos do coração."

O que é dito nas entrelinhas coloca-nos muitas questões sobre temas sensíveis, como a morte por doença, acidente, catástrofe natural ou até mesmo por suicídio, e aí sem evasivas ou desculpas, se afirma que o suicídio tem o rosto dos que lhe sobram, ainda assim é mais sobre luto e superação do que a morte, embora não esconda as ideias que pairam naquelas cabeças em dias mais negros. 

"Takeshi convenceu se de que era por causa dos sobreviventes, dos que ficavam, que a morte tinha, de facto, um rosto. Sem eles, a morte seria apenas uma palavra feia. Feia, mas no fundo, inofensiva."

O luto é o enxertar dos dias com estratégias de superação, como o homem da moldura, que nos dá uma metáfora para a forma como podemos ficar a ver a vida depois de partirem aqueles que mais amamos, uma constante recordação, retalhos de uma vida que só se vive por memórias: momentos emoldurados e espartilhados num rectângulo do tempo. Ou então, uma constante necessidade de fragmentar, aceitando e catalogando breves acontecimentos, emoldurados de felicidade, pequenos momentos felizes que não invalidam nem fazem esquecer o quadro maior da dor e do luto.

Ainda assim, tudo é dito com delicadeza e até doçura, como se com esses ingredientes pudéssemos amparar melhor a dor e aceitar que a perda nos deixa amarfanhados e desajeitados para aceitar novos sentimentos de pertença e dedicação. É preciso voltarmos a deixar que nos abracem, é preciso aceitar e deixar entrar novamente o amor.

"We need four hugs a day for survival, eight hugs a day for maintenance and we need twelve hugs a day for growth."                                  
                                                                                                    Virginia Satir

«O que contamos ao vento», de Laura Imai Messina, tem um enredo que nos enche de lugares, música e pensamentos, muito além do que é narrado e, se o amor é como a terapia, na qual é preciso acreditar para que funcione, um telefone ligado a nenhuma linha ou até um livro com muitas perguntas, podem igualmente dar respostas ou abrir a mente em outra direcção. Basta acreditarmos! E julgo ser essa a premissa principal deste relato: o poder de acreditar e sentir, muda tudo. Muda-nos.

Ao longo da leitura fui compilando uma lista de músicas, a maioria consta no livro, outras vieram por acréscimo, como aquela que mais pano de fundo a esta leitura:





terça-feira, 30 de março de 2021

«A única história» de Julian Barnes :: Opinião


Se o romance for uma escada sem degraus é uma rampa ascendente ou descendente? E onde nos leva?

Julian Barnes escreve-nos uma história de amor que começa de forma arrebatadora, pois nenhum deles sabia estar disponível para amar; Casey Paul pela tenra idade e alguma inocência e Susana por achar que na sua idade, já não amaria mais. No entanto, este amor, que dura décadas, é encarado de forma diferente para cada um deles e até para uma terceira pessoa que pode ser qualquer um deles caso se ponha a olhar de fora para aquela relação, uma relação que marcará a reputação de ambos na pacata vila do clube de ténis.

"Compreender o amor é para mais tarde, compreender o amor raia o sentido prático, compreender o amor é para quando o coração arrefece. O amante, extasiado, não quer compreender o amor, quer experimentá-lo, sentir a intensidade e o olhar sobre as coisas, o acelerar da vida, o egocentrismo totalmente justificado, o desaforo lúbrico, a prosa alegre (...)"

E julgo que o livro pretende precisamente isso: compreender o amor, fazer um balanço de como arrefeceu a relação e o peso que daí resultou. No entanto, falta-nos, faltou-me a mim, a perspectiva de Susan, ela é uma presença apagada, uma presença ausente, cujo a dependência do álcool a tornou numa presença corrosiva e falhada, deixando o leitor na dúvida sobre o peso da culpa dentro desta relação, seja a de Susan, seja a de Casey Paul, fazendo o leitor questionar sobre que mais existia dependência. 

"(...) não vi o pânico que estava dentro dela. como podia adivinhar? Pensei que era só dentro de mim. Vejo, já tarde, que ele está em toda a gente, é condição da nossa mortalidade. Temos códigos de conduta para o dissipar e reduzir, anedotas e rotinas e tantas formas de alheamento e diversão, mas há pânico e desordem à espera de irromper em todos nós (...)"

Ficamos a pensar na verdade e no lado pelo qual é narrado essa verdade, juntamente com a culpa e uma tristeza crónica, presente em quase tudo o que é narrado nas entrelinhas deste amor. Tal como os períodos bons e de euforia, que afirma ter existido, este relato, caótico e ao sabor da memória, dá-se mais aos momentos chave em que "o tronco racha a direito até ao veio" ou seja, os momentos em que a perda da inocência causou ruptura e crescimento, um confronto com a realidade, como as considerações do sexo triste:

"Sexo triste é ela estar drogada com um comprimido para animar, mas eu pensar que, se a foder, posso animá-la um pouco mais. Sexo triste é eu estar tão desesperado e a situação tão sensível à pré-história, tão agressiva e o próprio equilíbrio da alma tão incerto (...) Sexo triste é sentir que estou a perder o contacto com ela e ela comigo, mas que essa é uma maneira de dizermos um ao outro que a ligação ainda lá está, (...) que nenhum de nós desiste (...) Então descubro que insistir na ligação é o mesmo que prolongar a dor."

E a dor, essa dor tão intensa e corrosiva, que mesmo diminuindo tanto as expectativas deste amor, torna o que aqui é narrado numa leitura em sofreguidão mas sem saber muito bem do que realmente se gosta ou do porquê de nos sentirmos tão apegados a esta única história.
Faz-nos pensar se parte desta "única história" não é para além do amor, ou seja, a própria culpa e o pânico aliado à idade e ao medo, quando se ouve muito alto o "ranger das dobradiças".

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

“Manual de sobrevivência de um escritor”, de João Tordo :: Opinião


Auster, Melville, Rilke, Mishima, Pessoa, Kafka, Tolstói, Dostoiévski, Levi, Camus, Javier Cercas, Javier Marias, John Cheever, Ian McEwan, Raymond Carver, Joyce, Philiph Roth, S. King, Denis Johnson, Bolaño ou Baudelaire... 

"Sem todos estes nomes, não me teria tornado escritor. Sem a companhia de todos eles, sem a companhia dos mortos. Por isso, concluo que um escritor é uma estranha e improvável mistura de tradição colectiva e patologia individual, de uma ferida aberta, muito particular, e do caminho que outros, antes de si, lograram explorar e que ele vai percorrendo com paciência e humildade.

"A literatura nasce de uma necessidade quase atómica de ordenar aquilo que surge catastrófico, de reunir num volume a fragmentada experiência humana."

"Os Malaquias" de Andrea del Fuego - Opinião

 


Creio que o leitor aterra em "Os Malaquias" tal com o raio lhes entra pela casa e lhes esturrica a hipótese de serem uma família com princípio, meio e fim. 
A família está em risco tal como a localidade rural Serra Morena que, em bagunça, é um espelho líquido do progresso, ou seja, a modernidade chegou em forma de água devido a uma barragem que surgiu numas terras ali próximas.

Seja pelo progresso seja pela fatalidade que lhes aconteceu, os três irmãos Malaquias são separados e ganham sortes diferentes, às mãos dos interesses alheios mais diversos e assim passarão a próxima década - que se atravessa nos olhos do leitor como outro relâmpago, já que a autora tem a capacidade de num parágrafo narrar a história de uma família e em três ou quatro páginas trilhar uma década como quem corre uma maratona. E fá-lo de forma muito concisa e quase cirúrgica, escolhendo palavra a palavra e uma ordem muito peculiar para que todas as imagens ganhem uma vivacidade determinante e assim possamos ligar-nos às personagens. Ou não. Pois tal cirurgia causa uma certa estranheza.

"Júlia (...) recebia cuidados para não perder o viço dos doces de vitrine."

Mais peculiar ainda é termos outras presenças ou estruturas nesta narrativa que têm tanto viço como os vivos e contribuem tanto ou mais para o curso da história.

"Geraldina Passos morreu no começo do verão, mas enterrar o corpo não apagou a figura. Restou uma espécie de memória, que mesmo minúscula e transparente tinha uma estrutura, permanecia organizada e material. Circulava como o pó de uma penteadeira não encerada, a respiração de alguém a faria levitar."

E levitamos!
Muitas vezes perdidos, outras perplexos com a raridade com que a autora conjuga certas palavras. 

"(...) Nico deu por exata uma surdez parcial, sequela do trovão. Ele ainda se refrigerava debaixo da Lua mesmo adulto (...). Absorvia luz feito bebê sorve o leite da mãe, fortalecendo as vértebras, transformando galhos de cálcio em toras de madeira nobre."


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

«Fica comigo» de Ayòbámi Adébáyo :: Opinião

 


Uma mulher cheia de coisas impactantes dentro de si, e usar o "cheia" não é inocente, despoja-se de anos de vida em comum e regressa a si desfeita como um laço que a vida afrouxou ao longo de anos de sofrimento às mãos das exigências feitas às mulheres: a obrigação de ter um filho e tendo-o, saber mantê-lo vivo, senão, substituí-lo por outro. Dito assim parece frio e é precisamente dessa forma que a escrita de Adébáyo nos faz crer que a sociedade nigeriana o exige às suas mulheres. O casamento pressupõe descendência, dois não são uma família e se uma mulher não chegar, outras mais lhe deverão suceder. Se a mulher não tem escolha, o homem também não.

"As coisas que importam estão dentro de mim, trancadas no meu peito como num túmulo, um sítio onde tudo pode permanecer, o meu cofre do tesouro em forma de caixão."
Neste livro de Ayòbámi Adébáyo não ter um filho é estar em guerra e ter esse mesmo filho é ter um escudo para essa guerra. Na história de Yejide e Akin e em certa parte de Dotun, descobrimos que essa guerra tem raízes ancestrais e trata-se com mesinhas e rezas, e oprime as mulheres de forma esmagadora, mas é igualmente nefasta para os homens com problemas que não podem sequer ser mencionados como problema.
Este livro ganha ainda mais intensidade por dar voz ao marido e os capítulos na sua voz antecipam segredos ao leitor, muito antes de se adivinharem para a restante família e revelam uma angústia e um desnorte face à sua posição na sociedade e na família, uma desordem maior que ele.
"E é verdade, ou meia verdade, mas ainda assim verdade. Além disso, que seria do amor sem as meias verdades, sem as versões melhores de nós próprios que exibimos como se fossem as únicas possíveis?"
As tradições da Nigéria, os presságios entre os dois lados da família, as meias verdades entre um casal, a guerra civil como pano de fundo, tudo contribui para que esses filhos, tido ou mortos, se tornem num elemento quase distópico, elevando a culpa a patamares que resvalam para o abismo, não sem antes de um desfile de culpa que tortura e bombardeia homens e mulheres. E este casal afunda-se, dia após dia numa dor silenciosa, numa ansiedade aflitiva que os leva a tomar atitudes que ao nossos olhos parecem incompreensíveis e de outros tempos.
"Durante o nosso primeiro ano de casados, sonhei muitas vezes com os estudantes mortos. Costumava vê-los estirados no asfalto, numa fila interminável, todos vestidos com calças de ganga azuis e justas. A Yejide estava sempre de pé do outro lado dos corpos. Eu tentava chegar até ela mas havia demasiados corpos no caminho."
Havia demasiados corpos no caminho é uma frase que faz todo sentido na história deste casal e que cedo surge no enredo mas o leitor não tenho noção de que corpos são esses. Mais pesados que esses corpos são a culpa, a mentira, o segredo e as vontades da família.

"Lá em baixo estava tudo em silêncio. O Silêncio era uma presença que estendia o braço e me dava murros na barriga (...) Tinha a certeza que as mãos (...) me tinham imprimido na pele marcas que brilhavam sub a lâmpada fluorescente que iluminava o nosso quarto, para que o meu marido as visse, marcas que nenhum banho que eu tomasse apagaria."

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

«O Cardeal» de Nuno Nepomuceno

Neste novo regresso de Afonso Catalão, mas também de Adam Immanuel, a trama de «A Morte do Papa» ganha continuação neste «O Cardeal», alimentando novos enredos que desembocam em crimes que ganham inspiração em mais factos reais, tal como os episódios nos meandros dos conclaves polémicos.

As areias movediças que são os escândalos da Santa Sé e dos seus supostos santos padres são novamente expostas às mais actuais, mas já batidas, criticas. A religião católica está em crise e já não é surpresa! A violência, a homossexualidade, os conclaves tendenciosos e certas ocultações de verdades, ou apenas meias-verdades, fazem novamente parte do enredo e aqui separa-se pouco do livro anterior.

Ainda assim, o livro é rico em detalhes e descrições que pretendem relembrar o leitor dos episódios dos livros anteriores, posicioná-lo geograficamente desde Lisboa, Cambridge ou o Vaticano e esclarecer muito bem quem é quem, mas senti que isso atrasa mais o enredo do que lhe imprime o ritmo habitual de um thriller, especialmente até atingirmos a segunda parte, ou o topo, e nesse aspecto compreendo a escolha do autor, que nas palavras de Andy Andrews nos avisa logo que a subida vai ser mais lenta e menos recheada de novidades. 

"Todos desejam atingir o pico, mas não há qualquer crescimento no topo de uma montanha. É no vale, onde nos esforçamos arduamente por progredir pela relva luxuriante e pelo solo rico, que aprendemos e nos tornamos capazes de atingir o nosso novo cume."

Este aviso também dá uma perspectiva mais humana e mais terrena às decisões dos personagens, e isso é visível nas fragilidades que vários personagens apresentam, como é o caso de Catalão que acusa uma maior dependência da família e sente a pressão dos seus fantasmas. Porém, isso não os diminui em nada, mostra é ao leitor as diferentes preocupações com decisões mais ou menos estratégicas e isso também é dito, quase de forma profética, logo muito no início, com a fábula sobre o burro e a moral que decidiu retirar da história:

"É quando todos os outros estão a olhar para o lado que devemos desferir o nosso ataque."

Moral essa que pode ter várias interpretações face a alguns eventos que ocorrem com certas personagens.

Um detalhe em que «O Cardeal» difere dos anteriores, é intensificando a dimensão mais humana que o autor dá à maioria das suas personagens, explorando esses vales em que cada um caminha e os picos dos quais é tão fácil tombar; carregando menos na violência e nitidez dos cenários dos crimes como aconteceu em «Pecados Santos» e diminuindo o lado histórico e interpretativo das religiões, como em «A Célula Adormecida» (o meu favorito), no entanto, não deixa de fora o simbolismo associado a muitos aspectos da religião, a actualidade que fervilha com polémicas e alguma critica social. 

Ainda assim, sente-se saudades de um enredo onde se sofra junto com as personagens ou se vibre com o ritmo do enredo, como senti com os títulos anteriormente citados. Ou então todo um novo elenco e outra paisagem para vermos mais um salto na carreira do autor.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

«O outro lado do adeus» de Ann Hood - Opinião

 


Gosto de livros sobre livros, cujo o enredo se desenvolve em torno de outros livros e por eles os personagens vivem outra dimensão das suas dores, perdas, ansiedades, lutos, desamores e claro, a redenção, o perdão e a descoberta de um outro caminho possível, tanta vez revelado pelos livros.

" Partiremos agora, para que este momento
permaneça uma memória perfeita...
Deixa que esta seja a nossa canção e pensa
em mim sempre que a ouvires."
                                                                                                Uma árvore cresce em Brooklyn, Betty Smith

Ann Hood junta as suas personagens em torno de uma selecção de livros que mensalmente são alvo de discussão numa comunidade de leitores que reúne de forma peculiar e corre atrás do simbolismo escondido em muitos livros.

Os participantes são desde cedo apresentados numa reunião de início de ano, onde Ava entra por ter pedido à sua amiga Catie para participar, como forma de espairecer as ideias e os dias depois do marido a ter trocado pela activista do tricot, de onde surge uma imagem muito adequada ao enredo que é o facto do marido ter um para-choques fofo envolto em lã, como que aplacando e diminuindo o impacto do que pudesse vir na direcção dele.

Os livros e as personagens vão se completando à medida que o grupo vai reunindo mês a mês e cada uma das partes do livro abre com citações da obra a debater, umas mais clássicas do que outras. O maior mistério gira em torno de um livro raro que acompanha todo o enredo e faz Ava regressar ao passado em busca de respostas que julgava há muito respondidas. E que ainda gritam por mais respostas com o surgimento de Hank, um polícia que na década de 70 esteve relacionado à sua família por motivos mais profundos dos que Ava sabia.

"Hank não lhe respondeu. Recostou-se na sua cadeira e aguardou. Há muito tempo que aprendera que, ao interrogar alguém, as pessoas falavam mais se ele ficasse calado. As pessoas não conseguem suportar o silêncio; têm de o preencher."

É já quase no final esta consideração por parte desta personagem secundária, mas reflecte muito bem a dificuldade e o peso do silêncio que acompanha o enredo. Ainda assim é um livro leve e fluído que nos desperta para tantos outros livros e é pena que alguns deles, referidos no início, não tenham tido mais  destaque. E tal como se pretende, dentro do género, tem um encadeamento das acções que vicia o leitor em querer saber sempre mais tornando a leitura compulsiva.

domingo, 27 de dezembro de 2020

«Margarida Espantada» de Rodrigo Guedes de Carvalho - Opinião


"Joana Ofélia julga que a irmã estará possuída desde sempre por aquilo que Hannah Arendt descreve como sendo o problema circular do amor - maior do que o prazer da conquista do objecto desejado é o pavor de o perder. (...) é enfrentar a ameaça constante. (...) o seu medo do que acontece a seguir, o horror expectante do que acontece a seguir. Um medo que não vêem que é, desde sempre e para sempre, o futuro a roubar-lhes o presente."

Rodrigo Guedes de Carvalho compõe um romance precisamente sobre o pavor. A dimensão do pavor até aquele mais insuportável; o da perda que se concretiza, uma perda maior que qualquer passado ou presente, a perda que põe fim a qualquer futuro: a morte.

"Cortas as correntes e libertas-te, cortas as raízes e morres."
Nas raízes que se perdem, uma atrás da outra e uma outra seguinte, agigantam a dor e o silêncio que tudo quebram e diminuem quem sofre e não vê já nada que lhe amenize a dor. 
Todos os personagens deste «Margarida Espantada» sofrem as suas dores numa solidão escolhida depois de se habituarem à solidão que lhes foi imposta. Pois apesar de a família Duval ser grande, o espaço que os envolve é maior ainda e tensão entre eles aumenta-o mais. A família Duval tem uma frieza que lhes é inerente e rosna baixinho entre eles, num conflito constante, mas com actos de violência à porta fechada. No entanto, "a desconfortável beleza de certas dores" esconde uma resiliência e até um entendimento entre os irmãos Duval que poderão ora espantar, ora confundir o leitor e isso será o melhor (ou mais esperançoso) desta narrativa, tudo o resto, é dor, aspereza e um nevoeiro espesso que entrecorta os acontecimentos, impactando-os.

"O cenário que mais aterrorizava Manuel Afonso, a histórica dimensão da frieza do pai, um mal disfarçado desprezo (...) Manuel Afonso sente dele um inaudível tenso rosnar. Um desdém. 
(...) percebe, como nunca, que assiste a uma batalha antiga, porque o pai e a mãe, suados, ofegantes, olhos inchados num desprezo, parecem organizados numa coreografia.
(...) Entendeu de uma só vez. Viu-se como as primeiras testemunhas dos testes nucleares que, apesar de avisadas e dos óculos de protecção, arregalam muito os olhos quando a bomba explode."

*

Opiniões a livros de Rodrigo Guedes de Carvalho:

«O Pianista de hotel»

 


 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

«As três vidas» de João Tordo - Opinião



Sou fã dos enredos emaranhados construídos por João Tordo. A prodigiosa imaginação do autor cativa-me constantemente. A sua escrita embrenha-nos num sem fim de eventos que nos embalam, viciando-nos nas personagens, por norma todas elas indecisas, misteriosas e até sombrias, criando uma névoa que os envolve num ambiente suspeito, como se todas as vidas fossem possuídas por enigmáticos acontecimentos que anulam a banalidade dos dias rotineiros e idênticos entre pares. Tordo explora os enredos, enche-os de referências, mistura-os com factos reais e atravessa frisos cronológicos inteiros, não para baralhar o leitor, mas para o agarrar até à última página.

E neste «As três vidas» não é excepção.
"(...) a possibilidade do fracasso era a receita do sucesso. Quanto mais vezes o andarilho na corda bamba ameaçasse a queda, desequilibrando-se, (...) mais empatia o espectador sentia por ele. A perfeição não era perfeita, por assim dizer; a perfeição era andar no limite do imperfeito, e essa, sim, era a autêntica arte."

O isolamento e o mistério em torno da Quinta do Tempo, juntamente com o seu mentor Millhouse Pascal e a sua actividade ultra-secreta são o conjunto perfeito para pôr a vida do narrador na corda bamba, fazendo-o aspirar não pela perfeição, mas pela existência simples e pacata de outrora. No entanto, a literatura e o amor, puxam o protagonista para uma espiral de contradições que lhe atravessam a vida por várias décadas e é navegando nesse friso do tempo e de lugares insólitos que vamos acompanhando o narrar dessas memórias até ao tempo presente.

"Mais tarde, pensei se haveria, na verdade, alguma espécie de estranho engenho dentro da cabeça de um homem que o impedisse, a partir de certa altura em que já nada espera, quando aprendeu a aceitar a derrota, de conseguir reconhecer aquilo sem que lhe parecera, em tempos, que não podia viver. Ansiamos por esse momento de felicidade; ele surge (...) e, de repente, não acreditamos nele, por estarmos tão acostumados à sua irrevogável ausência."

Se a felicidade, essa busca incessante for em si mesma uma vida, podemos considerar que o perdão e o aceitar do passado são outra, mas o que podemos esperar de uma terceira vida? Uma vida já plena de aceitação e suas rotinas sem as quais tememos definhar? 

Habitam sempre os romances de João Tordo inúmeras questões taciturnas e considerações melancólicas que põe os personagens à deriva e por vezes também o leitor.

"É impossível, a partir de um certo ponto, esconder o passado ou aquilo que fomos. Fica impresso nos nossos traços como uma cicatriz invisível, a denúncia de uma duplicidade insuportável para os outros e para nós próprios."

*

Outros lidos de João Tordo lidos e comentados por mim aqui no blogue:

"Biografia Involuntária dos Amantes" 



quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

«A floresta do mal" de M. J. Arlidge - Opinião

 


"- Como é que se está a sair?
Apesar de, regra geral, ela não apressar um colega de profissão, Graham Ross estava a revelar-se invulgarmente lento. Ela gostava de desenvolver um trabalho meticuloso, recordando a toda a gente que o Diabo estava sempre nos detalhes, mas, na opinião dela, ele vagueava desnecessariamente ..."

Cruzei-me assim meio ao acaso com este livro e. lembrei-me de não lhe ter dedicado um texto aqui no blogue. E eu sei porquê e este excerto não foi escolhido ao acaso, já que este oitavo volume da saga de Helen Grace desiludiu-me. Não por estar mal escrito, antes pelo contrário, ou mal engendrado como os thrillers a que M. J. Arlidge já nos habitou. Nada disso. Eu é que não gostei das infindáveis suspeitas, dos muitos temas (que estão na moda) sem que se foque numa verdadeira motivação para mais esta ronda de assassinatos em série. A meu ver, Arlidge dispersou bastante, vagueou desnecessariamente... 
E talvez canse o leitor com o levantar de tantos véus. 

No entanto, como page turner que é, tão bem alimentados por capítulos curtos e que deixam o leitor em suspenso, assume-se viciante como os anteriores, mas menos macabro, menos focado e com uma Helen a surpreender por se render (e mais não digo) e isso foi outra coisa pela qual eu não esperava e nem queria para a personagem.  Ainda assim, este autor consegue sempre arrepiar-me pela frieza com que consegue transmitir as sensações dos assassinos. 

"Quando se aproximava das suas presas, quando elas se sentiam exaustas, desesperadas, o tempo parecia abrandar. Conseguia interiorizar todos os detalhes - a angústia nos seus olhos, o sangue na sua pele, as unhas sujas, quando tentavam tocar-lhe, suplicantes. Os segundos pareciam estender-se - era como se visse as setas em câmara lenta, a libertarem-se das suas amarras e a precipitarem-se no ar, antes de se cravarem nas suas presas. Eram esses os momentos que saboreava - o choque o rosto deles, enquanto se esvaía deles o fluído vital. 

*

Opiniões à saga de M. J. Arlidge:


    UM, DÓ, LI, TÁ...



                        






quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

«A contraluz» de Rachel Cusk - Opinião


 

"Perde-se tanto, observou ele, no naufrágio. O que permanece são fragmentos e, se não nos segurarmos a eles, o mar também o leva."

Neste primeiro volume da trilogia de Faye, Cusk pode em certa parte narrar um naufrágio, ou vários. E o mar talvez seja metáfora para o tempo. Esse instrumento que dizem, na literatura e não só, curar tudo. 
Como mar ou como tempo, funcionam também algumas viagens, distâncias que nos mantêm em apneia face a alguns problemas ou pessoas, sentimentos e memórias. E Faye está em viagem à Grécia. Mas nessas viagens, quando nos cruzamos com outros parece existir uma necessidade de nos explicarmos, relatando contradições, como que se as viagens fossem uma busca por respostas. E não será por acaso que Beckett é referência tanto no início como no final do livro. Há aqui uma busca pelo sentido?

O que buscam estas pessoas, incluindo Faye, a narradora? Revelar-se por antidescrição, assumindo-se o contrário daquilo que os outros descrevem e contam das suas vidas? Vendo nas vidas que se resumem diante dos seus olhos, "polos opostos", conclusões daquilo que a sua não é?

"É como passarmos por uma casa onde vivemos em tempos: o facto de ela ainda existir, tão concreta, faz com que tudo o que aconteceu desde então pareça de alguma forma forma insubstancial (...)
É como se não se conseguisse inteiramente recordar do que o conduzira em primeiro lugar até às palavras (...). 
(...) apercebo-me que não faz sentido nenhum tentar regressar a esse lugar (...) a vida leva-nos numa direcção e nós afastamo-nos noutra, como se estivéssemos a discordar do nosso próprio destino (...)"

Dentro destas reflexões surgem, nas entrelinhas, comentários ou sugestões sobre como escrever determinados episódios, dando-lhes o enfase e a perspectiva necessárias para que ganhem mais personalidade, ou não fosse a narradora, uma escritora a braços com um curso de escrita, motivo pelo qual está na Grécia, onde uma das aulas se assume como o capítulo mais desafiante e viciante para o leitor que quase se sente transportado para dentro daquela aula, querendo participar. 

Nos vários encontros que tem, seja com o vizinho de voo, velhos amigos e outros escritores ou alunos, vão existindo diversas considerações, onde a realidade se mistura com a ficção, analisando vidas que se cruzam com os livros, numa constante interpretação e resignificação dos acontecimentos. E se cruzarmos fragmentos desses discursos dispersos talvez possamos evitar o naufrágio.

"No meu romance, a personagem encontra-se dividida (...). Tudo o que ela deseja para a sua vida é ser integrada, ser uma coisa só, e não uma sucessão infinita de oposições que a baralham (...)
(...) Não há ninguém com quem ela possa falar, ninguém a quem possa contar (...) retoma ele, (...). O livro é claramente sobre ela própria, afirma. (...) Os escritores precisam de se ocultar (...) do mesmo modo que as carraças precisam se ocultar no pelo de um animal: quanto mais profundamente se enfiarem, melhor."

"Ela até conseguiu infetar o romance, embora talvez o romance nos esteja agora a infetar em retaliação, e por isso esperamos das nossas vidas o mesmo que nos habituamos a esperar dos nossos livros: mas essa noção de vida como uma progressão é algo pelo qual já não tenho desejo."

Será isso ou apenas "a capacidade humana para a autoilusão"?


quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

«Homens e Bichos», de Axel Munthe - Opinião

 


Em boa hora me cruzei com este velhinho exemplar, habilmente traduzido com esmero por António Sérgio, trazendo até ao leitor as curtas narrativas de Axel Munthe que revelam um humanismo enorme ao narrar "inconsoláveis resignações" em relatos simples e belos, porém pesados, que denunciam a fome, a luta contra a doença e uma pobreza que esmaga e até humilha. Em quase todos os contos há preocupação, compaixão e cuidado para com os animais, tornando-os elementos centrais como vemos logo em "Para os que gostam de música".

Para além de valorizar e pedir que não se maltratem os pobres, os doentes, os imigrantes, Munthe pede, de forma subtil, atenção às mulheres, mães, irmãs, cuidadoras e gentis, com quem a sociedade é injuriosa e injusta.

"A caridade pública não a ajudaria, porque era estrangeira, e a caridade particular não desceria até ela. deveria escolher entre a miséria e a rua; escolheria a miséria, por amor da criança. Era certíssimo que a Sociedade lhe não daria prémio por tal escolha, por isso a virtude jejua e gela (...)"

Munthe também não esquece a Natureza, tão enaltecida em " O Monte Branco, Rei das Montanhas" que nos conduz num périplo pleno de atmosfera estival até ao peso imponente e belo do perpétuo inverno montanhoso. 

"O trilho que tomávamos era cada vez mais íngreme, e iam rareando progressivamente as filas de guardas de mantos verdes que vinham participando da nossa escalada. (...).
Sentia-se bem que a algidez da morte ia penetrando progressivamente por todas as veias da montanha, e que o coração da mãe Natureza afrouxava também o seu pulsar (...).
E eis-me de rosto com o Rei das Montanhas (...) um esplendor indizível (...). Nenhum eco dos vales se elevava até ali, a perturbar o seu altivo repouso."

Repouso pede também o autor para os animais. De "Ménagerie" ao "Um grito no ermo", denuncia a forma como são tratados, revelando tristeza pelas agruras e sofrimento de uma vida enjaulada ou votada ao abandono. A sua escrita expõe e denuncia, clamando por respeito pelos animais como prova de um desenvolvimento maior que nos separa do lado primitivo e selvagem. 

"Têm os focinhos lívidos de frio, quando dão saltos para aquecerem um pouco, riem os gaiatos trocistamente e param os transeuntes, para os desfrutar - para chacotearem desses pobres, inconscientes palhaços, que servem ali para atrair o público ao espectáculo da tortura dos seus irmãos na miséria."

E no entanto, também confessa, a crueldade da meninice "(...) reconheço nódoas de sangue nos dedos delgados da criança de outrora, que vieram a enferrujar-se em nódoas de pejo nas recordações de infância do homem de hoje. Humilha-me a ideia  de que matei (...)"

Em "Os cães de Capri", revela um lado mais político e crítico, mas não esquece de homenagear a doce transição entre estações do ano e as suas tradições e afazeres tão necessários.
A medicina e a sua condição de médico, bem como a religião ou a Morte são também temas nos seus relatos, numa suma de preocupações que revelam a sua humildade e sensibilidade. 

"Quando assim nos estendemos sobre o chão relvoso, a observar esse mundo, acabamos sempre por nos sentir pequenos. 
Por fim, parece-me que não passo de uma formiguinha débil, afanosa com o peso de uma carga incómoda, numa mata sem trilhos." 


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

«Em tudo havia beleza» de Manuel Vilas - Opinião

 


"Oxalá fosse possível medir a dor humana com números e não com palavras incertas. (...) Todo o homem acaba, mais dia, menos dia, por enfrentar a insignificância da sua passagem pelo mundo. Há seres humanos capazes de o suportar, eu jamais o suportarei."

Vilas afirma desde a primeira página essa dificuldade junto com a dor que tem a braços, no meio do desvanecimento geral de todas as coisas. Para organizar essa dor e ruína emocional, faz este balanço entre a importância de recordar passados e homenagear os nossos mais queridos. Cobre-se de um pranto que verte no romance, o choro que outrora afogou na bebida, são páginas e páginas dessa busca incessante pela alegria e satisfação de olhar para o futuro sem estar aterrorizado pelas pazes pendentes com o passado.

"Pois o passado tem para quase todos os seres humanos a concretude de uma personagem de romance."

E nessa concretude de sacralizar e entender a dor, Vilas acrescenta: "A dor não é de todo um entrave à alegria, tal como eu entendo a dor, pois para mim está vinculada à intensificação da consciência. O sofrimento é uma consciência expandida."

Por isso mesmo, «Em tudo havia beleza» é um romance expansivo e até caótico, onde Vilas pretende entender o que foi acontecendo na sua família e simultaneamente em Espanha, colmatando a comunicação que faltou enquanto os pais eram vivos, quando foi casado ou tinha os filhos mais debaixo da sua asa. 

O registo é confessional, chega a parecer vulgar e até indiscreto, imiscuindo-se no leitor, mas talvez seja a forma de expiar a culpa, de matar demónios, de deixar um testamento dos seus pensamento mais privados, sufocados no homem da gravata falsa, amarrada a um pescoço falso, uma gravata humilhada de nó triste, condenada a um amarelo esbatido, cansado, preguiçoso.

"Um divórcio desperta a culpabilidade, porque a culpa é um exercício de relevo, é relevo sobre terra lisa. A vida de um ser humano é a construção de relevos que a morte e o tempo acabarão por alisar."

É nessa construção de relevos que se insere este romance. É uma luta contra o desamparo e o desmoronamento da ternura, negando terreno à desmemória e apelando à melancolia. Relembrar pausadamente, mesmo que com o pensamento em rodopio, respeitando a nossa individualidade que começa com o saber e conhecer a nossa história que começou na vontade dos nossos pais em nos dar vida. 

"Ter alguém à nossa espera algures é o único sentido da vida, e o único êxito."

No entanto, esse único sentido não tem sentido único e por vezes no relato caótico, entre saltos cronológicos e alguma revolta, existem contradições onde o narrador se desdiz das anteriores afirmações muito determinadas e até moralistas que acabam por se esbater na culpa e no nervosismo de um enorme vazio de quem questiona e contempla tudo. 

"O meu coração parece uma árvore negra cheia de pássaros amarelos que guincham e perfuram a minha carne como num martírio. Entendo o martírio: o martírio é arrancarmos a carne para estarmos mais nus; o martírio é um desejo de nudez catastrófica."



sábado, 28 de novembro de 2020

“Uma Pequena Sorte” de Claudia Piñeiro :: Opinião

 


"A noite passada sonhei que regressava a Temperley." 
Podia começar assim esta narrativa que está povoada de regressos, mas não. Claudia Piñeiro escolhe a Nobel, Alice Munro, para introduzir o leitor à dor aguda, mais tarde crónica, que não matará, mas povoará para sempre as vidas bafejadas por pequenas sortes.

"(...)E aprenderás alguns truques para a aliviar ou suprimir, tentando não destruir o que só à custa de todo este sofrimento obteve."                                     
Alice Munro, «As crianças ficam»
                                                                                                                            
María Elena Pujol, hoje Mary Lohan, vive duas vidas separadas por uma tragédia que desde cedo se anuncia. A sua vida silenciosa oscila entre compassos do melancólico Oblivion e uma energia prestes a explodir como em Libertango de Piazzolla. 

"Eu estive muito tempo calada, sinto-me confortável no silêncio (...). A ausência de palavras enunciadas é um habitat que conheço desde sempre, o meu estado natural (...) E sinto-me desconfortável a falar do clima sem motivo (...). Talvez seja essa a verdadeira origem da minha disfonia crónica: a obrigação social de ir contra o meu estado natural de silêncio."

O silêncio tornou-se o seu lugar favorito, uma condição apropriada para a dor despojada e eterna que sente. Uma dor habitava por um palco vazio, escuro e infinito, num tempo expandido sem mais palavras do que aquelas que se repetem na sua memória e na caligrafia que reescreve uma história mas não lhe altera o fim. 

"No entanto, estive sempre atenta, alerta, receosa de que um dia pudesse converter-me noutra coisa e fazer-lhe mal. Uma mulher obscura, como a minha mãe (...) mas também não se concretizou. (...) Mas a vida pôs aquela circunstância no meu caminho (...) não alcancei a nota necessária. (...). A maternidade está cheia de pequenos fracassos."

A vida está cheia de pequenos fracassos, como também de pequenas sortes, coisas tão banais como o lugar que nos calha no avião ou a pessoa que se sente ao nosso lado. Ou conhecermos alguém numa festa, onde nem sequer era suposto estarmos. Pequenos detalhes que alteram o rumo dos nossos dias. 

"O tempo ensina-nos que não existe só uma definição para o amor. (...) muitas vezes uma pessoa não se apaixona pelo outro, e sim por si mesmo apaixonado. Ou pelo que implica estar apaixonado (...) Uma pessoa quer estar apaixonada, e então está. Estávamos. "

“Uma Pequena Sorte” de Claudia Piñeiro funciona muito bem como thriller, tendo como base um drama familiar que se cruza com muitas referências que exploram dor, solidão, desespero, infortúnio e até suicídio, sabendo que do outro lado da moeda estão, família, maternidade, paixão, tango, livros e sorte. 

Agradou-me também ideias transversais que se cruzam com outras leituras recentes, quando Piñeiro refere a ideia de nos apaixonarmos pela ideia de estarmos apaixonados e não pela pessoa, recordando-me «Apneia» que explora a ideia de não amarmos a pessoa, mas a imagem com que ficamos por termos tal relação; ou ainda a ligação com «Olive Kitteridge» quando se aborda o suicídio como uma morte dedicada. 


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

“Olive Kitteridge” de Elizabeth Strout :: Opinião

 «Olive Kitteridge» valeu um Pulitzer a Elizabeth Strout e valeu recentemente à HBO uma série fabulosa. 

                                    

A narrativa, dispersa por mais de uma dezena de contos, cruza vários personagens, todos eles residentes numa vila costeira, meio idílica, onde todos se cruzam mais ou menos de perto com Olive ao longo de mais de 25 anos e é dessa forma que vai surgindo, peça a peça, a imagem da temível professora do liceu, da educação que deu ao seu filho e da sua relação com Henry, o marido gentil e dedicado, que é também o farmacêutico da vila.

"Lembrou-se novamente de John Berryman. Salva-nos de espingardas e suicídios paternos [...] Misericórdia! [...] não primas o gatilho senão, a minha vida toda, sofrerei pela tua ira. (...) não, Kevin não suportava a ideia de uma criança descobrir o que ele próprio descobrira: que a sua mãe sentira uma necessidade tão grande e tão urgente de devorar a vida, que deixara as portas dos armários todos da cozinha salpicados com restos da sua corporeidade."

A escrita é cativante, mas dolorosa, retratando solidão e desamparo, mas também a incompreensão da vida quando olhada em retrospectiva e quando a única saída parece estar no cano de uma espingarda que porá fim à angústia e nos devolverá para junto dos que mais amamos. Podemos até dizer que o suicídio é um fio condutor entre histórias, um motor bizarro que mantem alguns deles em andamento.

O cruzamento de desespero sufocado e silencioso com da crueza como é descrita Olive, contracena brutalmente com a interpretação feita por Frances McDormand. E talvez seja isso que faz toda a diferença, agigantando a Olive que imaginámos conto atrás de conto.

Ler este livro e logo de seguida assistir aos quatro episódios que compõe a série é como que dar continuidade ao enredo ou uma maior consistência a algumas cenas que ficam a pairar na cabeça do leitor, quando também nós fomos alvo dessa esponja húmida de tinta.

"Depois disso, foi como uma pintura a esponja, como se alguém tivesse encostado uma esponja húmida de tinta a escorrer no interior da sua mente e só mesmo o que a esponja pontou, umas quantas manchas aqui e acolá, tivesse retido aquilo de que ela se lembra do resto dessa noite."

Os sentimentos e as emoções, tal como a memória, estão manchados e fragmentados, perdidos no meio de uma depressão longa, mas são o que mais surpreendem em Olive, ela não é simpática ou amável, mas é empática e observadora, conseguindo por vezes ajudar em situações limite, ela ama e é frágil, mesmo quando todos a julgam forte e insensível e parte dessa transformação é redentora e convocam no leitor um profundo apreço pela personagem. 

"(...) O céu estava cinzento e pesado. Olive sentiu uma perturbação diferente das outras vezes. Provinha de Christopher, sim. Mas ela parecia presa entre as pinças de um remorso intratável. Um embaraço profundo e pessoal inundou-a, (...) Foi a vergonha que lhe fustigou a alma, como os limpa-pára-brisas diante de si: dois grandes dedos negros e compridos, inexoráveis e rítmicos no seu castigo."

O que fustiga o leitor, tanto no livro como na série é a angústia da depressão e uma franqueza fria, desapegada, que parecem estar inevitavelmente de mãos dadas, e talvez por isso, mais para o final da sua vida Olive pondere a culpa e a vergonha. Vai até mais longe e pensa em castigo e isso abre um fosso enorme sobre a compreensão e aceitação da doença e da coragem que é precisa para viver. 


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

«APNEIA» de Tânia Ganho ::Opinião



"«Trazei-me uma espada», ordenou Salomão, na Bíblia, para resolver a contenda entre duas mães que reclamavam o direito a uma criança. «Cortai o menino vivo em dois», disse o rei, «e dai a cada uma a sua metade.» Adriana perguntava-se se, algum dia, algum deles voltaria a ser inteiro." 


«Apneia» é um mergulho profundo no mar bravo da batalha desumana e desequilibrada em que se pode tornar um divórcio e consequente processo de custódia, tornando as crianças em alvos e meros números que constam em processos judiciais. Vidas perdidas nas burocracias complexas de um sistema desajustado e minado por uma surdez prepotente.


"Os homens-inquisidores lembravam-lhe Alessandro: esmiuçavam, chafurdavam e não se contentavam com silêncios, respostas sucintas. Não compreendiam que ela preferia manter as caixas fechadas, as portas trancadas, a vida devidamente etiquetada e arrumada.
Isolou-se, tornou-se um eremita,/ abrindo a porta apenas/ para uns quantos animais especiais"
Anne Sexton, «The Witch's Life»

Adriana socorre-se muitas vezes das palavras de Anne Sexton para com essa poesia confessional denunciar o quanto se sente dilacerada e vive pela metade uma vida em sobressalto. É mulher e mãe no limiar das suas forças, lutando para pôr fim a uma relação abusiva e violenta com Alessandro. No entanto, o divórcio ardiloso, por parte do marido pode ditar uma vida órfã do filho Edoardo, tornando-a numa pessoa ainda mais despedaçada.


"Tinha noção de que chegava ao psicólogo com o coração cosido no avesso do pulso e não havia ética nem lei que o fizesse voltar para dentro do peito."


Adriana dá corpo a uma montanha de sentimentos e ao anunciar de uma tragédia que é todo o processo aqui descrito, alertando para a realidade tenebrosa que vivem as vítimas de violência doméstica e os seus filhos. Apanhados num jogo emocional enorme, onde a manipulação é proporcional ao grau de violência e a uma solidão em crescendo. E o divórcio litigioso apenas surge como mais uma colecção de distúrbios, desconfianças e descrença num sistema, também aqui denunciado, seja com a cena escabrosa do advogado como o lado perverso de certas leis.


"(...) Eram dois bichos solitários, mas as suas solidões tinham formado uma família. E assim como Edoardo continuava a traçar o pai, a mãe e o filho, quando o enésimo psicólogo lhe pedia para desenhar uma família (....)


Antes da consulta, a psicóloga convocou Adriana e interrogou-a. Refez a sua vida?», perguntou, e ela fixou-a, cansada, lembrando-se de uma frase de Meg Wolitzer: «As relações eram um luxo concebido para pessoas cujo as vidas não estavam em crise.» Não, nem lhe parecia provável, mas o uso do verbo «refazer» interpelou-a.”


Refazer tornou-se uma palavra tão importante como superar. Ambas faziam parte da cura e da busca incessante pela normalidade, onde o trauma não fizesse ruído e o medo e a dor fossem devidamente desarmadilhados.


“Quanto mais lia a poesia de Anne Sexton e de Sylvia Plath, maior era o seu desejo de explorar também a escrita, a par com a pintura (…). Queria abordar o seu sentimento de impotência (…)
Uma das qualidades da pintura de Paulo Rego que a atraía era a expressão dos pesadelos íntimos. Em resposta à pergunta «porque pinta?», Paula Rego respondera: «Para dar rosto ao medo.»


Dar rosto ao medo e voz às vítimas foi o que conseguiu a autora, Tânia Ganho, com um relato que chega a ser chocante, trazendo para o leitor o peso da revolta e da humilhação. Expõe assim, o sofrimento atroz que se esconde em infinitas páginas de processos que se arrastam ao longo de anos, aumentando o sufoco e a impotência em que vivem as vítimas.

Tânia Ganho teceu, meticulosamente, um romance imponente sobre a violência conjugal e parental, sem esquecer de o dosear com um breve amor simples e descomplicado que cabia numa cama estreita, algures numa ilha isolada e pelas pinceladas de arte e literatura que distraem e nutrem o leitor. E até com isso passa uma mensagem, a de que a violência e a alienação parental são transversais a todas as camadas sociais.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

«Bartleby, o Escrivão» de Herman Melville :: Opinião

 


Não sei se Bartleby é a personificação do ócio, da letargia ou do respeito pelos seus limites e vagareza peculiar ou se o relato de Melville é um apelo à passividade e à desaceleração, já nos idos de 1853, mas o que é que certo é que este pequeno tratado da inutilidade essencial, como disse Borges, releva uma ironia enorme cada vez que o personagem diz: "prefiro não fazer."

Apesar da aspereza com que certos colegas o julgam, Nippers, Turkey e Ginger Nut são personagens aos quais já nos habituámos e fez-me pensar na velha expressão:"cócó, ranheta e facada", levando um pouco ao extremo o quanto a noção de grupo pode influenciar as equipas e a tomada de decisão. No entanto, um personagem maior, é o próprio narrador e patrão, pois há nele, como que uma admiração e curiosidade, ao analisar e descrever o quão Bartleby é uma surpresa e até digno de contemplação. Ainda assim, o peso do trabalho, a repetição e o aborrecimento não são por ele analisadas, mas sim a tentativa de adivinhar e escrutinar o carácter e o futuro de Bartleby.

Essa curiosidade pauta todo o conto, bem como a ideia de deixar o destino entregue nas mãos do acaso, negando constantemente continuar a pertencer a uma engrenagem que despersonifica. Tudo ganha uma nova perspetiva mais para perto do final e um arrebatamento maior ainda num quase posfácio, dando a sugestão de uma falha na comunicação, fruto da má gestão, de linhas trocadas ou simplesmente por atraso na volta do correio. E talvez surja no leitor uma revolta, uma epifania, um desejo de também ele dizer "prefiro não fazer", mas mais cedo, muito mais cedo ainda. 

«Bartleby, o Escrivão» será sem dúvida um texto intemporal, pejado de interpretações e resignificados, expandindo consoante seja a busca de quem o lê. 

*

«O atribulado Caminho para a Felicidade» de Isabel Losada - Opinião

 


O mote é simples e concreto: ser absurdamente feliz. No entanto, é absurdo! Não o querer ser feliz, mas ser ab-sur-da-men-te feliz, o que parece logo uma felicidade sem limites e tal caminho só pode ser atribulado e é por isso que a autora, Isabel Losada, regressa com este relato, dando assim continuação ao peculiar: «Quero ser absurdamente feliz" 

"- A verdade é o exacto oposto daquilo em que acreditamos. Pensem nisso."

Pode ser uma fazer muito traiçoeira quando se anda em busca de um guru, uma cura, uma luz ou som pacificador ou um toque mágico com poderes curativos, tudo o que nos traga paz real, felicidade. Ou seja, se dizemos a nós mesmos que estamos infelizes, será a verdade o oposto disso mesmo?

Ou andamos a fazer as questões erradas?

Aprendendo a formular melhor as suas dúvidas ou a espraiar e redirecionar as vibrações e energias, Losada recorrer a um sem fim de práticas e de mestres: meditação, palestras motivacionais, Feng Shui e Bazi, o PNL de Antony Robbins ou a Risoterapia de Patch Adams, até ao culminar da alucinação com ayahuasca no Peru, a autora leva-nos a uma viagem atribulada, mas holística e imensa e que nos desperta para um leque variado de formas de terapia. Isto sem esquecer, os livros e os filmes, de onde destaco:«Norwegian Wood» de Murakami ou o multipremiado «Juno», produzido por John Malkovich.

"Sinto-me muitíssimo em paz depois deste tempo com Mooji. Estou revigorada (...). Voltei a pendurar no quarto a imagem da onde gigante (...). Quando olho para ela, lembro-me de Mooji a dizer que, quando tiramos a mente do caminho, conseguimos viver com a consciência de que não somos apenas uma onda, mas todo o oceano."

Mesmo assim, sentir-se um oceano não foi suficiente para Losada, foi preciso tomar um atalho para observar melhor a sua consciência, serenar a sua mente hiperactiva e claro, satisfazer a sua curiosidade pelos rituais xamânicos de cura e partir à aventura imersiva no elixir peruano.

Mas o que eu mesmo gostei neste livro, foi de andar de volta de algumas referências e regressar a Murakami quando a certa parte: "- O sofrimento é uma atitude, reflecte a forma como uma determinadas pessoa vive a sua experiência (...) A dor não precisa ser sofrimento. (...) para descrever uma corrida de resistência."

E esse regresso a Murakami, fez-me pensar numa frase atribuída a Carlos Drummond de Andrade: "Envelhecer é inevitável, ficar velho é opcional." e entre pesquisas e frases lá se volta novamente para a literatura:

"Já sofri por muitas coisas na minha vida, 
mas a maioria delas nunca existiu."
                                                                                     Mark Twain


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Opinião "Uncommon Type / Papéis Diferentes" - Tom Hanks

Vamos lá falar do primeiro livro do espectacular e adorável Tom Hanks. Até à data do lançamento deste livro, eu ignorava que ele escrevia. Tinha ideia que ele já tinha sido responsável por guiões de filmes em que entrou ou produziu mas nem sabia quais. O que também não sabia é que ele coleciona máquinas de escrever e que em 2014 lançou uma app (Hanx Writer) que simula a experiência de escrever nas ditas. Se eu dei por mim a encolher os ombros perante a ideia, o mesmo não aconteceu a imensa gente que até tornou a app num pequeno sucesso pela altura do seu lançamento. 
E agora vocês perguntam “mas o que é que isto tem a ver?” e eu respondo com a sinopse.

SINOPSE
Um romance febril e divertido entre dois melhores amigos. Um veterano da II Guerra Mundial cura as suas cicatrizes físicas e emocionais. Um ator de segunda categoria que é atirado para o estrelato e de repente encontra-se no meio de uma estreia tempestuosa. Um colunista do jornal de uma pequena cidade com perspetivas do mundo moderno bastante antiquadas. Uma mulher a adaptar-se à sua vida no novo bairro depois do divórcio. Quatro amigos que vão à Lua e voltam numa nave construída no quintal das traseiras. Um surfista adolescente que tropeça na vida secreta do próprio pai.
Estas são apenas algumas personagens e enredos que Tom Hanks cria no seu primeiro livro de ficção, uma recolha de histórias que explora com grande ternura, humor e perspicácia a condição humana e algumas das suas particularidades. Todas têm uma coisa em comum: uma máquina de escrever desempenha um papel em cada história, umas vezes menor, outras vezes fulcral. Para muitos, as máquinas de escrever representam uma perícia e beleza cada vez mais difíceis de encontrar. Hanks alcança-as facilmente.

Como eu nunca leio sinopses dos livros que quero ler apenas por causa do autor, só percebi quando abri o livro que todos os contos deste “Uncommon Type” (Pápeis Diferentes em Portugal) têm como personagem uma máquina de escrever, embora num registo “never the bridge, always the bridesmaid”, esta peça não ocupa um foco central, é em muitos casos um detalhe tão ínfimo que mal damos por ele. Confesso que até cheguei ao fim de um dos contos e não me lembrava de ter visto referência mas vá, eu sou distraída :) 
Como a sinopse menciona e muito bem, os contos são do mais diverso possível. Há uns que nos prendem e nos deixam tristes por já terem terminado, outros que nos fazem sorrir por qualquer semelhança a algo que conhecemos mas depois há aqueles dos quais não guardamos grande coisa, excepto mais um modelo de uma máquina de escrever antiga, algumas delas bem bonitas. No entanto, o que levamos do livro é que o Mr. Hanks consegue transpor para o papel um pouco daquele calor que emana e que me faz gostar dele. Desafio-vos a não ouvir a voz dele na vossa cabeça quando começam a ler.
Em suma, posso dizer que gostei da experiência mas só fiquei fã de uma mão cheia de contos.
Se os seus dotes de escrita são brilhantes? 
Não sou juiz para ditar a sentença do “fica-te pelos filmes” mas posso afirmar que “Uncommon type” conseguiu despertar em mim o saudosismo por um meio antigo e no qual ainda tive oportunidade de bater umas teclas em miúda, sem compreender sequer a engenharia e mestria que aqueles monstros das letras possuíam.
Talvez contos não sejam bem a minha praia, eu que gosto abrir um livro e levar tudo a eito. Próxima vez que um livro de contos me chegue às mãos, vou optar por torná-lo um companheiro de mesa de cabeceira, para ler num regime “um conto por dia não sabe o bem que lhe fazia”.