sábado, 31 de julho de 2021

GARRA - Contos de Cecelia Ahern - Opinião


«Garra» pode ser sobre a mulher que foi à boleia, subiu uma montanha, mas desceu ao fundo de si mesma e engolida pelo chão encontrou mais mulheres lá em baixo, tantas delas na escuridão que mesmo vestidas com o fato da vergonha, descobriram que partilhar aligeira o espartilho que a todas sufoca já que todas falavam mulher, antes ainda de terem um nome ou um destino. No entanto, não falará dos flagelos mais gritantes ou até dos grotescos que assombram milhares de mulheres pelo mundo fora.

É certo que importa muito a singularidade do caminho, relatando a experiência feminina, conseguindo seguidores para a causa feminista, mas mesmo que essa experiência seja peculiar e até alucinada na forma de contar, como Cecelia Ahern encontrou para relatar estas histórias, como aquela que ficava na prateleira enquanto era alimentada por um pato ou tantas outras que semeavam plantios inteiros de dúvidas ou outras que devolviam e trocavam de maridos, para aceitarem a necessidade de tolerar e viver nos sapatos do outros. Mas o que se precisam é de mais pessoas a se colocarem no lugar de tantas outras mulheres que são limitadas, discriminadas, humilhadas, violentadas e silenciadas, só por serem mulheres. Essa realidade mais negra teimou em não estar nestas garras.

Apesar das histórias que se expandem em tantas áreas da vida e outras tantas metáforas, fica a sensação de vivências que não são necessariamente ou ferozmente femininas. Talvez lhe falte relatos de sobrevivência tipicamente feminina, por exemplo no mundo do trabalho questões tão práticas, mas tão escondidas como a higiene menstrual ou até a própria discriminação associada a essa condição só feminina. Não estranhar a minha repetição de feminina!
Porém há um conto sobre a chegada ao topo de uma montanha que é uma metáfora muito boa para a competição tóxica que existe, desnecessariamente, entre mulheres e que ao mesmo tempo revela falta de conhecimento e investimento individual. É uma boa chamada de atenção.

Existe ainda, uma sensibilização ligeira para a igualdade pelo caminho da empatia, conhecimento e partilha que são precisos de ambos os lados, seja no diálogo de mulher para mulher, sejam entre homens ou como é óbvio entre homens e mulheres, sem que esteja em causa que um lado saia vencedor, pois se superarmos os constrangimentos, a união criará uma mistura astuta e elevada da qual o todo sairá beneficiado, seja o todo de apenas uma e cada mulher, um núcleo familiar, um ambiente empresarial ou um grupo de amigas. No entanto, não é um livro para abanar estruturas, chocando-as com as desigualdades gritantes e violentas que afectam a maior parte da Humanidade, num flagelo que persiste ao longos dos séculos. 


sexta-feira, 30 de julho de 2021

Opinião "Margo" de Tarryn Fisher

A Margo caiu-me no colo. Não me recordo deste livro ter sido publicado cá mas sei que a Tarryn Fisher é amiga da Colleen Hoover. E oh well, diz-me com quem andas e eu saberei o quanto és atrofiada da cabeça. E adivinhem lá, não me enganei.

Embora goste da capa, creio que pela sinopse não comprava o livro. Acho que dá demasiado e eu gosto que se dê um dedo, não o braço todo. Pior, acho que se dá o braço errado mas isso é outra conversa e eu sou pouco de dar spoilers.

Conhecemos Margo na sua existência transparente. Nascida numa casa que parece consumir quem lá habita, Margo escapa pelas divisões onde a presença de uma mãe negligente não chega, encaixa-se nos cantos onde a luz que acompanha os visitantes noturnos da mãe não brilha e alimenta a sua vida com doces, tal é o fraco acompanhamento que teve desde tenra idade. Por esse motivo, embora passe despercebida em termos de personalidade, sente que toda a gente vê a miúda feia e gorda da casa problemática.

Ao ambiente com que cresceu dentro de casa, junta-se o bairro que a vê passarinhar diariamente mas que é por si só um mal do qual se diz que quem lá nasce não consegue escapar. Bone, nos lados menos bons de Seattle, é um daqueles sítios em que se contam pelos dedos de uma mão às pessoas que se safam. Margo é uma delas, pelo menos até uma certa altura.

Sob existência atormentada desta jovem, está uma alma boa, altruísta, que se preocupa mas que também tem sempre um pé atrás, principalmente perante as injustiças visto que é, desde sempre, alvo de uma bem grave. Essa negligência é o que inicia o pontinho escuro que habita no seu ser e é dai que cresce a escuridão que a dor, a injustiça e a raiva vão alimentando. 

Quantas injustiças teríamos de presenciar na nossa vida para sentirmos ceder a camada que nos exige justiça?

Será que sob determinada pressão todos nós, independente da força da nossa espinha, cederíamos?

Margo muda sob os nossos olhos e com ela a nossa resposta, ou pelo menos a nossa bussola moral, face às perguntas acima colocadas.

Se é uma obra da literatura? Claro que não mas é uma história que mexe connosco, que consumimos num ápice porque precisamos de saber como acaba, que nos faz pensar no mal que fazemos e no quanto, todos os dias, tantos saem impunes.

Margo tem um cadinho de todos nós, especialmente aquele lado que não colocamos livremente e sem julgamentos à superfície.

Recomendo a leitura, tão escaldante como aqueles dias de verão com leituras à beira mar/piscina.

E o melhor de tudo, está a 5€ na wook! 

sexta-feira, 9 de julho de 2021

«A cor do hibisco» de Chimamanda Ngozi Adichie :: Opinião


Porque os afectos não têm horário e a vida deve galgar os muros da religião e das tradições e encontrar no calor das relações humanas o pilar para crescer em amor e segurança. É essa a maior mensagem de «A cor do hibisco», sem esquecer o peso das tradições como identidade, superando pesos maiores deixados pela colonização.

Seguimos esta família aprisionada nos horários rígidos de um pai que nas palavras da tia Ifeoma, é um produto fidedigno da colonização e que na sua total evangelização condena o tribalismo e a tradição pagã e não admitirá aos filhos, Kambili e Jaja ou à mulher Beatrice, quaisquer desvios ímpios.
O desrespeito é punido sempre!
A ordem e o silêncio sepulcral são para ser mantidos num ambiente doméstico entregue à oração, ao agradecimento e ao falar apenas com propósito. Por isso, quando por motivos santos, os horários das crianças ficam entregue à tia Ifeoma e ao seu sorriso resplandecente, a vida só poderá mudar.

Adichie escreve ainda sobre personagens para quem as possibilidades se abrem com um sorriso e a vida flui pelo poder da liberdade e do amor que não sufoca nem espezinha. É nas mulheres interpretadas por Kambili, Amaka, Ifeoma e Beatrice que nos mostra a resiliência feminina em diferentes perspectivas e nas mais variadas fases da vida.
Kambili no tríptico rígido de ser temente a Deus, boa filha e estudante de mérito, desabrocha para a puberdade, precisando vencer o silêncio e o medo que a sufoca e humilha.
~
"O inhame cozido e os legumes picantes recusaram-se a descer-me pela garganta abaixo; ficaram-me colados à boca como crianças agarras as mãos das mães à entrada da creche."
"Eu queria sorrir, mas não fui capaz. Os meus lábios e as minhas bochechas estavam petrificados, congelados, imunes ao calor que me fazia escorrer suor pelas faces abaixo. Estava demasiado ciente dos olhos dele postos em mim"

Amaka mostra à prima Kambili a amizade, a paixão e o amar-se a si mesma, mostrando que os sentimentos são para ser vividos sem restrições e que para chorar ninguém precisa esconder-se.

Beatrice, mãe, mulher e irmã, que na sua pequenez silenciosa se faz invisível, encerra em si segredos de muita violência e um medo paralisante que a cala mas não cega perante a realidade injusta em que vivem.

E claro, a tia Ifeoma, um pináculo de energia, resistência e sobrevivência, um modelo no que toca ao quebrar de padrões, sendo a força motriz das outras, é com o seu riso audível que quebra barreiras da frieza e alimenta a união possível daquela família, diminuindo o medo que limita os sobrinhos e sendo a única que confronta Eugene:

"-Ifukwa gi! És como uma mosca que segue um cadáver às cegas para dentro da sepultura."


É no alimentar dessa injustiça encontramos Eugene, a mosca a Ifeoma se refere, ele é o pai de família que castiga e justifica as suas acções aberrantes, julgando-se o mais justo dos justos, expiando os pecados por uma interpretação enviesada das escrituras, aterrorizando a sua família. No entanto, a mestria com que Adichie o descreve não chega a permitir uma total demonização deste homem, no seu lado bom ele é um omelora, o que zela pela comunidade, ainda assim ficamos a pensar se o cadáver é a religião ou a Nigéria. E é nos diálogos entre irmãos que vemos o lado político e social que também pauta a escrita da autora.

Toda a narrativa está contextualizada pelo catolicismo, o ambiente socio-político e a própria natureza, pesados e poeirentos como os ventos quentes do harmatão e do próprio golpe de estado, ainda assim, a gastronomia, os cheiros, as plantas coloridas, os tecidos, a música e a luta que vai surgindo por vários tipos de independência, iluminam todo o enredo.

As descrições ricas e peculiares são um dos traços que melhor caracterizam a escrita de Chimanda Ngozi Adichie que ao caracterizar as suas personagens as expõe por comparação ao que as envolve, assim podemos observar o medo no vento que tudo arrasta e emporcalha, os sentimentos que despertam como a comida picante que rebenta na boca ou certas descobertas que chegam com a força das chuvas e tudo limpam e abrem caminho à renovação.

"A tarde desfilou pela minha mente (...) eu tinha sorriso, corrido, rido. O meu peito parecia cheio de qualquer coisa tipo espuma de banho. Leve. A leveza era tão doce que a saboreei na língua, a doçura de um caju bem maduro, amarelo-vivo."


domingo, 30 de maio de 2021

«A Cadela», de Pilar Quintana :: Opinião


Pilar Quintana, autora conceituada na cena literária colombiana e na América Latina em geral, vencedora do Prémio Alfaguara 2021 com o romance «Os abismos», vê a sua obra começar a ser publicada em Portugal com o romance «A Cadela» romance finalista do National Book Award 2020. 

E que romance!


"A magia deste romance reside na capacidade de abordar questões importantes enquanto parece estar sempre a falar de outras coisas. Que questões são essas?
Violência, solidão, resiliência, crueldade. Os livros de Pilar Quintana maravilham-nos com a sua prosa desassombrada, acutilante e poderosa."                   Juan Gabriel Vasquez

 

Antes de tudo o que esta obra encerra e das feridas que pode deixar abertas, importa qualificar de grandiosa a capacidade da autora dizer tanto em tão poucas palavras. Abanar tantos fantasmas como o da culpa, dos sonhos perdidos, do desespero ou da solidão, mesmo com tão parcos parágrafos sobre o passado. Quintana descreve, tantos os seus personagens como as suas acções, de forma crua, serena e firmes nas suas emoções, arrastando-os para uma travessia contra a corrente. As vidas pequenas, mas enormes no sofrimento fazem-se ainda maiores quando dispersas pela natureza que se agiganta e os engole, tal qual os problemas eternos da natureza humana.

"(...) sentia que a vida era como um canal e que lhe tinha calhado ter de o atravessar com os pés enterrados na lama e a água pela cintura, completamente sozinha, num corpo que não lhe dava filhos e que só servia para partir coisas."

No cimo de um morro, uma barraca de gente pobre sobrevive às enchentes, sejam as dos rios ou as das intempéries emocionais de Damaris que em dias de humidade, "tanta que um peixe poderia manter-se vivo fora de água", alimenta com amor, gota a gota, uma cadela.

É essa mesma mulher, muitas vezes a sentir que se arrasta pelos dias, num silêncio apenas entrecortado pelo latir dos cães ou os sons da floresta que os podia engolir, que o seu corpo seco e pesado contrasta com a natureza que se renova em ciclos, que brota vida, mas que ela lembra como um burburinho choroso, digno de lamento. 

"Era uma noite de chuva intensa, mas estava calor (...) a sala pejada de melgas (...) Damaris, torturada pelos bichos, embrulhou-se da cabeça aos pés num lençol e deixou-se estar a ouvir a chuva, um zunzum contínuo que era como gente a rezar num velório."

Desconsolada e com os dias como os de um velório, o leitor acompanha, numa leitura sôfrega, a vida de Damaris e Rogélio, o marido, num avançar em crescendo que só pode terminar em tragédia, embora o leitor possa seguir enganado quase toda a narrativa. 


domingo, 18 de abril de 2021

«O que contamos ao vento» de Laura Imai Messina :: Opinião




"Yui tinha humores, tendia um pouco para a melancolia, como se tivesse sido concebida inclinada e resvalar fizesse parte da sua natureza."

Nessa sua natureza, Yui levava uma vida oca cheia de horas opacas, em que o amanhã enquanto princípio, era algo que não existia. E foi mais ou menos com essa sentença que Yiu e Takeshi estabeleceram contacto, depois de muita perda nas vidas de ambos, e como processo de cura, começaram a frequentar Bell Gardia, aguardando um certo serenar das respostas trazidas pelo vento.

No entanto, e por a cura ser um processo longo, as viagens de carro entre Tóquio e o telefone do vento, são uma forma de se conhecerem e conciliarem gostos e cumplicidades.

"Longas viagens de carro, horas intermináveis de condução, melodias de fundo, gargalhadas e silêncios confortáveis, verdadeiros haikus visuais para mais tarde recordar e que reforçavam os nervos e os músculos do coração."

O que é dito nas entrelinhas coloca-nos muitas questões sobre temas sensíveis, como a morte por doença, acidente, catástrofe natural ou até mesmo por suicídio, e aí sem evasivas ou desculpas, se afirma que o suicídio tem o rosto dos que lhe sobram, ainda assim é mais sobre luto e superação do que a morte, embora não esconda as ideias que pairam naquelas cabeças em dias mais negros. 

"Takeshi convenceu se de que era por causa dos sobreviventes, dos que ficavam, que a morte tinha, de facto, um rosto. Sem eles, a morte seria apenas uma palavra feia. Feia, mas no fundo, inofensiva."

O luto é o enxertar dos dias com estratégias de superação, como o homem da moldura, que nos dá uma metáfora para a forma como podemos ficar a ver a vida depois de partirem aqueles que mais amamos, uma constante recordação, retalhos de uma vida que só se vive por memórias: momentos emoldurados e espartilhados num rectângulo do tempo. Ou então, uma constante necessidade de fragmentar, aceitando e catalogando breves acontecimentos, emoldurados de felicidade, pequenos momentos felizes que não invalidam nem fazem esquecer o quadro maior da dor e do luto.

Ainda assim, tudo é dito com delicadeza e até doçura, como se com esses ingredientes pudéssemos amparar melhor a dor e aceitar que a perda nos deixa amarfanhados e desajeitados para aceitar novos sentimentos de pertença e dedicação. É preciso voltarmos a deixar que nos abracem, é preciso aceitar e deixar entrar novamente o amor.

"We need four hugs a day for survival, eight hugs a day for maintenance and we need twelve hugs a day for growth."                                  
                                                                                                    Virginia Satir

«O que contamos ao vento», de Laura Imai Messina, tem um enredo que nos enche de lugares, música e pensamentos, muito além do que é narrado e, se o amor é como a terapia, na qual é preciso acreditar para que funcione, um telefone ligado a nenhuma linha ou até um livro com muitas perguntas, podem igualmente dar respostas ou abrir a mente em outra direcção. Basta acreditarmos! E julgo ser essa a premissa principal deste relato: o poder de acreditar e sentir, muda tudo. Muda-nos.

Ao longo da leitura fui compilando uma lista de músicas, a maioria consta no livro, outras vieram por acréscimo, como aquela que mais pano de fundo a esta leitura:





terça-feira, 30 de março de 2021

«A única história» de Julian Barnes :: Opinião


Se o romance for uma escada sem degraus é uma rampa ascendente ou descendente? E onde nos leva?

Julian Barnes escreve-nos uma história de amor que começa de forma arrebatadora, pois nenhum deles sabia estar disponível para amar; Casey Paul pela tenra idade e alguma inocência e Susana por achar que na sua idade, já não amaria mais. No entanto, este amor, que dura décadas, é encarado de forma diferente para cada um deles e até para uma terceira pessoa que pode ser qualquer um deles caso se ponha a olhar de fora para aquela relação, uma relação que marcará a reputação de ambos na pacata vila do clube de ténis.

"Compreender o amor é para mais tarde, compreender o amor raia o sentido prático, compreender o amor é para quando o coração arrefece. O amante, extasiado, não quer compreender o amor, quer experimentá-lo, sentir a intensidade e o olhar sobre as coisas, o acelerar da vida, o egocentrismo totalmente justificado, o desaforo lúbrico, a prosa alegre (...)"

E julgo que o livro pretende precisamente isso: compreender o amor, fazer um balanço de como arrefeceu a relação e o peso que daí resultou. No entanto, falta-nos, faltou-me a mim, a perspectiva de Susan, ela é uma presença apagada, uma presença ausente, cujo a dependência do álcool a tornou numa presença corrosiva e falhada, deixando o leitor na dúvida sobre o peso da culpa dentro desta relação, seja a de Susan, seja a de Casey Paul, fazendo o leitor questionar sobre que mais existia dependência. 

"(...) não vi o pânico que estava dentro dela. como podia adivinhar? Pensei que era só dentro de mim. Vejo, já tarde, que ele está em toda a gente, é condição da nossa mortalidade. Temos códigos de conduta para o dissipar e reduzir, anedotas e rotinas e tantas formas de alheamento e diversão, mas há pânico e desordem à espera de irromper em todos nós (...)"

Ficamos a pensar na verdade e no lado pelo qual é narrado essa verdade, juntamente com a culpa e uma tristeza crónica, presente em quase tudo o que é narrado nas entrelinhas deste amor. Tal como os períodos bons e de euforia, que afirma ter existido, este relato, caótico e ao sabor da memória, dá-se mais aos momentos chave em que "o tronco racha a direito até ao veio" ou seja, os momentos em que a perda da inocência causou ruptura e crescimento, um confronto com a realidade, como as considerações do sexo triste:

"Sexo triste é ela estar drogada com um comprimido para animar, mas eu pensar que, se a foder, posso animá-la um pouco mais. Sexo triste é eu estar tão desesperado e a situação tão sensível à pré-história, tão agressiva e o próprio equilíbrio da alma tão incerto (...) Sexo triste é sentir que estou a perder o contacto com ela e ela comigo, mas que essa é uma maneira de dizermos um ao outro que a ligação ainda lá está, (...) que nenhum de nós desiste (...) Então descubro que insistir na ligação é o mesmo que prolongar a dor."

E a dor, essa dor tão intensa e corrosiva, que mesmo diminuindo tanto as expectativas deste amor, torna o que aqui é narrado numa leitura em sofreguidão mas sem saber muito bem do que realmente se gosta ou do porquê de nos sentirmos tão apegados a esta única história.
Faz-nos pensar se parte desta "única história" não é para além do amor, ou seja, a própria culpa e o pânico aliado à idade e ao medo, quando se ouve muito alto o "ranger das dobradiças".

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

“Manual de sobrevivência de um escritor”, de João Tordo :: Opinião


Auster, Melville, Rilke, Mishima, Pessoa, Kafka, Tolstói, Dostoiévski, Levi, Camus, Javier Cercas, Javier Marias, John Cheever, Ian McEwan, Raymond Carver, Joyce, Philiph Roth, S. King, Denis Johnson, Bolaño ou Baudelaire... 

"Sem todos estes nomes, não me teria tornado escritor. Sem a companhia de todos eles, sem a companhia dos mortos. Por isso, concluo que um escritor é uma estranha e improvável mistura de tradição colectiva e patologia individual, de uma ferida aberta, muito particular, e do caminho que outros, antes de si, lograram explorar e que ele vai percorrendo com paciência e humildade.

"A literatura nasce de uma necessidade quase atómica de ordenar aquilo que surge catastrófico, de reunir num volume a fragmentada experiência humana."

"Os Malaquias" de Andrea del Fuego - Opinião

 


Creio que o leitor aterra em "Os Malaquias" tal com o raio lhes entra pela casa e lhes esturrica a hipótese de serem uma família com princípio, meio e fim. 
A família está em risco tal como a localidade rural Serra Morena que, em bagunça, é um espelho líquido do progresso, ou seja, a modernidade chegou em forma de água devido a uma barragem que surgiu numas terras ali próximas.

Seja pelo progresso seja pela fatalidade que lhes aconteceu, os três irmãos Malaquias são separados e ganham sortes diferentes, às mãos dos interesses alheios mais diversos e assim passarão a próxima década - que se atravessa nos olhos do leitor como outro relâmpago, já que a autora tem a capacidade de num parágrafo narrar a história de uma família e em três ou quatro páginas trilhar uma década como quem corre uma maratona. E fá-lo de forma muito concisa e quase cirúrgica, escolhendo palavra a palavra e uma ordem muito peculiar para que todas as imagens ganhem uma vivacidade determinante e assim possamos ligar-nos às personagens. Ou não. Pois tal cirurgia causa uma certa estranheza.

"Júlia (...) recebia cuidados para não perder o viço dos doces de vitrine."

Mais peculiar ainda é termos outras presenças ou estruturas nesta narrativa que têm tanto viço como os vivos e contribuem tanto ou mais para o curso da história.

"Geraldina Passos morreu no começo do verão, mas enterrar o corpo não apagou a figura. Restou uma espécie de memória, que mesmo minúscula e transparente tinha uma estrutura, permanecia organizada e material. Circulava como o pó de uma penteadeira não encerada, a respiração de alguém a faria levitar."

E levitamos!
Muitas vezes perdidos, outras perplexos com a raridade com que a autora conjuga certas palavras. 

"(...) Nico deu por exata uma surdez parcial, sequela do trovão. Ele ainda se refrigerava debaixo da Lua mesmo adulto (...). Absorvia luz feito bebê sorve o leite da mãe, fortalecendo as vértebras, transformando galhos de cálcio em toras de madeira nobre."


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

«Fica comigo» de Ayòbámi Adébáyo :: Opinião

 


Uma mulher cheia de coisas impactantes dentro de si, e usar o "cheia" não é inocente, despoja-se de anos de vida em comum e regressa a si desfeita como um laço que a vida afrouxou ao longo de anos de sofrimento às mãos das exigências feitas às mulheres: a obrigação de ter um filho e tendo-o, saber mantê-lo vivo, senão, substituí-lo por outro. Dito assim parece frio e é precisamente dessa forma que a escrita de Adébáyo nos faz crer que a sociedade nigeriana o exige às suas mulheres. O casamento pressupõe descendência, dois não são uma família e se uma mulher não chegar, outras mais lhe deverão suceder. Se a mulher não tem escolha, o homem também não.

"As coisas que importam estão dentro de mim, trancadas no meu peito como num túmulo, um sítio onde tudo pode permanecer, o meu cofre do tesouro em forma de caixão."
Neste livro de Ayòbámi Adébáyo não ter um filho é estar em guerra e ter esse mesmo filho é ter um escudo para essa guerra. Na história de Yejide e Akin e em certa parte de Dotun, descobrimos que essa guerra tem raízes ancestrais e trata-se com mesinhas e rezas, e oprime as mulheres de forma esmagadora, mas é igualmente nefasta para os homens com problemas que não podem sequer ser mencionados como problema.
Este livro ganha ainda mais intensidade por dar voz ao marido e os capítulos na sua voz antecipam segredos ao leitor, muito antes de se adivinharem para a restante família e revelam uma angústia e um desnorte face à sua posição na sociedade e na família, uma desordem maior que ele.
"E é verdade, ou meia verdade, mas ainda assim verdade. Além disso, que seria do amor sem as meias verdades, sem as versões melhores de nós próprios que exibimos como se fossem as únicas possíveis?"
As tradições da Nigéria, os presságios entre os dois lados da família, as meias verdades entre um casal, a guerra civil como pano de fundo, tudo contribui para que esses filhos, tido ou mortos, se tornem num elemento quase distópico, elevando a culpa a patamares que resvalam para o abismo, não sem antes de um desfile de culpa que tortura e bombardeia homens e mulheres. E este casal afunda-se, dia após dia numa dor silenciosa, numa ansiedade aflitiva que os leva a tomar atitudes que ao nossos olhos parecem incompreensíveis e de outros tempos.
"Durante o nosso primeiro ano de casados, sonhei muitas vezes com os estudantes mortos. Costumava vê-los estirados no asfalto, numa fila interminável, todos vestidos com calças de ganga azuis e justas. A Yejide estava sempre de pé do outro lado dos corpos. Eu tentava chegar até ela mas havia demasiados corpos no caminho."
Havia demasiados corpos no caminho é uma frase que faz todo sentido na história deste casal e que cedo surge no enredo mas o leitor não tenho noção de que corpos são esses. Mais pesados que esses corpos são a culpa, a mentira, o segredo e as vontades da família.

"Lá em baixo estava tudo em silêncio. O Silêncio era uma presença que estendia o braço e me dava murros na barriga (...) Tinha a certeza que as mãos (...) me tinham imprimido na pele marcas que brilhavam sub a lâmpada fluorescente que iluminava o nosso quarto, para que o meu marido as visse, marcas que nenhum banho que eu tomasse apagaria."

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

«O Cardeal» de Nuno Nepomuceno

Neste novo regresso de Afonso Catalão, mas também de Adam Immanuel, a trama de «A Morte do Papa» ganha continuação neste «O Cardeal», alimentando novos enredos que desembocam em crimes que ganham inspiração em mais factos reais, tal como os episódios nos meandros dos conclaves polémicos.

As areias movediças que são os escândalos da Santa Sé e dos seus supostos santos padres são novamente expostas às mais actuais, mas já batidas, criticas. A religião católica está em crise e já não é surpresa! A violência, a homossexualidade, os conclaves tendenciosos e certas ocultações de verdades, ou apenas meias-verdades, fazem novamente parte do enredo e aqui separa-se pouco do livro anterior.

Ainda assim, o livro é rico em detalhes e descrições que pretendem relembrar o leitor dos episódios dos livros anteriores, posicioná-lo geograficamente desde Lisboa, Cambridge ou o Vaticano e esclarecer muito bem quem é quem, mas senti que isso atrasa mais o enredo do que lhe imprime o ritmo habitual de um thriller, especialmente até atingirmos a segunda parte, ou o topo, e nesse aspecto compreendo a escolha do autor, que nas palavras de Andy Andrews nos avisa logo que a subida vai ser mais lenta e menos recheada de novidades. 

"Todos desejam atingir o pico, mas não há qualquer crescimento no topo de uma montanha. É no vale, onde nos esforçamos arduamente por progredir pela relva luxuriante e pelo solo rico, que aprendemos e nos tornamos capazes de atingir o nosso novo cume."

Este aviso também dá uma perspectiva mais humana e mais terrena às decisões dos personagens, e isso é visível nas fragilidades que vários personagens apresentam, como é o caso de Catalão que acusa uma maior dependência da família e sente a pressão dos seus fantasmas. Porém, isso não os diminui em nada, mostra é ao leitor as diferentes preocupações com decisões mais ou menos estratégicas e isso também é dito, quase de forma profética, logo muito no início, com a fábula sobre o burro e a moral que decidiu retirar da história:

"É quando todos os outros estão a olhar para o lado que devemos desferir o nosso ataque."

Moral essa que pode ter várias interpretações face a alguns eventos que ocorrem com certas personagens.

Um detalhe em que «O Cardeal» difere dos anteriores, é intensificando a dimensão mais humana que o autor dá à maioria das suas personagens, explorando esses vales em que cada um caminha e os picos dos quais é tão fácil tombar; carregando menos na violência e nitidez dos cenários dos crimes como aconteceu em «Pecados Santos» e diminuindo o lado histórico e interpretativo das religiões, como em «A Célula Adormecida» (o meu favorito), no entanto, não deixa de fora o simbolismo associado a muitos aspectos da religião, a actualidade que fervilha com polémicas e alguma critica social. 

Ainda assim, sente-se saudades de um enredo onde se sofra junto com as personagens ou se vibre com o ritmo do enredo, como senti com os títulos anteriormente citados. Ou então todo um novo elenco e outra paisagem para vermos mais um salto na carreira do autor.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

«O outro lado do adeus» de Ann Hood - Opinião

 


Gosto de livros sobre livros, cujo o enredo se desenvolve em torno de outros livros e por eles os personagens vivem outra dimensão das suas dores, perdas, ansiedades, lutos, desamores e claro, a redenção, o perdão e a descoberta de um outro caminho possível, tanta vez revelado pelos livros.

" Partiremos agora, para que este momento
permaneça uma memória perfeita...
Deixa que esta seja a nossa canção e pensa
em mim sempre que a ouvires."
                                                                                                Uma árvore cresce em Brooklyn, Betty Smith

Ann Hood junta as suas personagens em torno de uma selecção de livros que mensalmente são alvo de discussão numa comunidade de leitores que reúne de forma peculiar e corre atrás do simbolismo escondido em muitos livros.

Os participantes são desde cedo apresentados numa reunião de início de ano, onde Ava entra por ter pedido à sua amiga Catie para participar, como forma de espairecer as ideias e os dias depois do marido a ter trocado pela activista do tricot, de onde surge uma imagem muito adequada ao enredo que é o facto do marido ter um para-choques fofo envolto em lã, como que aplacando e diminuindo o impacto do que pudesse vir na direcção dele.

Os livros e as personagens vão se completando à medida que o grupo vai reunindo mês a mês e cada uma das partes do livro abre com citações da obra a debater, umas mais clássicas do que outras. O maior mistério gira em torno de um livro raro que acompanha todo o enredo e faz Ava regressar ao passado em busca de respostas que julgava há muito respondidas. E que ainda gritam por mais respostas com o surgimento de Hank, um polícia que na década de 70 esteve relacionado à sua família por motivos mais profundos dos que Ava sabia.

"Hank não lhe respondeu. Recostou-se na sua cadeira e aguardou. Há muito tempo que aprendera que, ao interrogar alguém, as pessoas falavam mais se ele ficasse calado. As pessoas não conseguem suportar o silêncio; têm de o preencher."

É já quase no final esta consideração por parte desta personagem secundária, mas reflecte muito bem a dificuldade e o peso do silêncio que acompanha o enredo. Ainda assim é um livro leve e fluído que nos desperta para tantos outros livros e é pena que alguns deles, referidos no início, não tenham tido mais  destaque. E tal como se pretende, dentro do género, tem um encadeamento das acções que vicia o leitor em querer saber sempre mais tornando a leitura compulsiva.

domingo, 27 de dezembro de 2020

«Margarida Espantada» de Rodrigo Guedes de Carvalho - Opinião


"Joana Ofélia julga que a irmã estará possuída desde sempre por aquilo que Hannah Arendt descreve como sendo o problema circular do amor - maior do que o prazer da conquista do objecto desejado é o pavor de o perder. (...) é enfrentar a ameaça constante. (...) o seu medo do que acontece a seguir, o horror expectante do que acontece a seguir. Um medo que não vêem que é, desde sempre e para sempre, o futuro a roubar-lhes o presente."

Rodrigo Guedes de Carvalho compõe um romance precisamente sobre o pavor. A dimensão do pavor até aquele mais insuportável; o da perda que se concretiza, uma perda maior que qualquer passado ou presente, a perda que põe fim a qualquer futuro: a morte.

"Cortas as correntes e libertas-te, cortas as raízes e morres."
Nas raízes que se perdem, uma atrás da outra e uma outra seguinte, agigantam a dor e o silêncio que tudo quebram e diminuem quem sofre e não vê já nada que lhe amenize a dor. 
Todos os personagens deste «Margarida Espantada» sofrem as suas dores numa solidão escolhida depois de se habituarem à solidão que lhes foi imposta. Pois apesar de a família Duval ser grande, o espaço que os envolve é maior ainda e tensão entre eles aumenta-o mais. A família Duval tem uma frieza que lhes é inerente e rosna baixinho entre eles, num conflito constante, mas com actos de violência à porta fechada. No entanto, "a desconfortável beleza de certas dores" esconde uma resiliência e até um entendimento entre os irmãos Duval que poderão ora espantar, ora confundir o leitor e isso será o melhor (ou mais esperançoso) desta narrativa, tudo o resto, é dor, aspereza e um nevoeiro espesso que entrecorta os acontecimentos, impactando-os.

"O cenário que mais aterrorizava Manuel Afonso, a histórica dimensão da frieza do pai, um mal disfarçado desprezo (...) Manuel Afonso sente dele um inaudível tenso rosnar. Um desdém. 
(...) percebe, como nunca, que assiste a uma batalha antiga, porque o pai e a mãe, suados, ofegantes, olhos inchados num desprezo, parecem organizados numa coreografia.
(...) Entendeu de uma só vez. Viu-se como as primeiras testemunhas dos testes nucleares que, apesar de avisadas e dos óculos de protecção, arregalam muito os olhos quando a bomba explode."

*

Opiniões a livros de Rodrigo Guedes de Carvalho:

«O Pianista de hotel»

 


 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

«As três vidas» de João Tordo - Opinião



Sou fã dos enredos emaranhados construídos por João Tordo. A prodigiosa imaginação do autor cativa-me constantemente. A sua escrita embrenha-nos num sem fim de eventos que nos embalam, viciando-nos nas personagens, por norma todas elas indecisas, misteriosas e até sombrias, criando uma névoa que os envolve num ambiente suspeito, como se todas as vidas fossem possuídas por enigmáticos acontecimentos que anulam a banalidade dos dias rotineiros e idênticos entre pares. Tordo explora os enredos, enche-os de referências, mistura-os com factos reais e atravessa frisos cronológicos inteiros, não para baralhar o leitor, mas para o agarrar até à última página.

E neste «As três vidas» não é excepção.
"(...) a possibilidade do fracasso era a receita do sucesso. Quanto mais vezes o andarilho na corda bamba ameaçasse a queda, desequilibrando-se, (...) mais empatia o espectador sentia por ele. A perfeição não era perfeita, por assim dizer; a perfeição era andar no limite do imperfeito, e essa, sim, era a autêntica arte."

O isolamento e o mistério em torno da Quinta do Tempo, juntamente com o seu mentor Millhouse Pascal e a sua actividade ultra-secreta são o conjunto perfeito para pôr a vida do narrador na corda bamba, fazendo-o aspirar não pela perfeição, mas pela existência simples e pacata de outrora. No entanto, a literatura e o amor, puxam o protagonista para uma espiral de contradições que lhe atravessam a vida por várias décadas e é navegando nesse friso do tempo e de lugares insólitos que vamos acompanhando o narrar dessas memórias até ao tempo presente.

"Mais tarde, pensei se haveria, na verdade, alguma espécie de estranho engenho dentro da cabeça de um homem que o impedisse, a partir de certa altura em que já nada espera, quando aprendeu a aceitar a derrota, de conseguir reconhecer aquilo sem que lhe parecera, em tempos, que não podia viver. Ansiamos por esse momento de felicidade; ele surge (...) e, de repente, não acreditamos nele, por estarmos tão acostumados à sua irrevogável ausência."

Se a felicidade, essa busca incessante for em si mesma uma vida, podemos considerar que o perdão e o aceitar do passado são outra, mas o que podemos esperar de uma terceira vida? Uma vida já plena de aceitação e suas rotinas sem as quais tememos definhar? 

Habitam sempre os romances de João Tordo inúmeras questões taciturnas e considerações melancólicas que põe os personagens à deriva e por vezes também o leitor.

"É impossível, a partir de um certo ponto, esconder o passado ou aquilo que fomos. Fica impresso nos nossos traços como uma cicatriz invisível, a denúncia de uma duplicidade insuportável para os outros e para nós próprios."

*

Outros lidos de João Tordo lidos e comentados por mim aqui no blogue:

"Biografia Involuntária dos Amantes" 



quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

«A floresta do mal" de M. J. Arlidge - Opinião

 


"- Como é que se está a sair?
Apesar de, regra geral, ela não apressar um colega de profissão, Graham Ross estava a revelar-se invulgarmente lento. Ela gostava de desenvolver um trabalho meticuloso, recordando a toda a gente que o Diabo estava sempre nos detalhes, mas, na opinião dela, ele vagueava desnecessariamente ..."

Cruzei-me assim meio ao acaso com este livro e. lembrei-me de não lhe ter dedicado um texto aqui no blogue. E eu sei porquê e este excerto não foi escolhido ao acaso, já que este oitavo volume da saga de Helen Grace desiludiu-me. Não por estar mal escrito, antes pelo contrário, ou mal engendrado como os thrillers a que M. J. Arlidge já nos habitou. Nada disso. Eu é que não gostei das infindáveis suspeitas, dos muitos temas (que estão na moda) sem que se foque numa verdadeira motivação para mais esta ronda de assassinatos em série. A meu ver, Arlidge dispersou bastante, vagueou desnecessariamente... 
E talvez canse o leitor com o levantar de tantos véus. 

No entanto, como page turner que é, tão bem alimentados por capítulos curtos e que deixam o leitor em suspenso, assume-se viciante como os anteriores, mas menos macabro, menos focado e com uma Helen a surpreender por se render (e mais não digo) e isso foi outra coisa pela qual eu não esperava e nem queria para a personagem.  Ainda assim, este autor consegue sempre arrepiar-me pela frieza com que consegue transmitir as sensações dos assassinos. 

"Quando se aproximava das suas presas, quando elas se sentiam exaustas, desesperadas, o tempo parecia abrandar. Conseguia interiorizar todos os detalhes - a angústia nos seus olhos, o sangue na sua pele, as unhas sujas, quando tentavam tocar-lhe, suplicantes. Os segundos pareciam estender-se - era como se visse as setas em câmara lenta, a libertarem-se das suas amarras e a precipitarem-se no ar, antes de se cravarem nas suas presas. Eram esses os momentos que saboreava - o choque o rosto deles, enquanto se esvaía deles o fluído vital. 

*

Opiniões à saga de M. J. Arlidge:


    UM, DÓ, LI, TÁ...



                        






quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

«A contraluz» de Rachel Cusk - Opinião


 

"Perde-se tanto, observou ele, no naufrágio. O que permanece são fragmentos e, se não nos segurarmos a eles, o mar também o leva."

Neste primeiro volume da trilogia de Faye, Cusk pode em certa parte narrar um naufrágio, ou vários. E o mar talvez seja metáfora para o tempo. Esse instrumento que dizem, na literatura e não só, curar tudo. 
Como mar ou como tempo, funcionam também algumas viagens, distâncias que nos mantêm em apneia face a alguns problemas ou pessoas, sentimentos e memórias. E Faye está em viagem à Grécia. Mas nessas viagens, quando nos cruzamos com outros parece existir uma necessidade de nos explicarmos, relatando contradições, como que se as viagens fossem uma busca por respostas. E não será por acaso que Beckett é referência tanto no início como no final do livro. Há aqui uma busca pelo sentido?

O que buscam estas pessoas, incluindo Faye, a narradora? Revelar-se por antidescrição, assumindo-se o contrário daquilo que os outros descrevem e contam das suas vidas? Vendo nas vidas que se resumem diante dos seus olhos, "polos opostos", conclusões daquilo que a sua não é?

"É como passarmos por uma casa onde vivemos em tempos: o facto de ela ainda existir, tão concreta, faz com que tudo o que aconteceu desde então pareça de alguma forma forma insubstancial (...)
É como se não se conseguisse inteiramente recordar do que o conduzira em primeiro lugar até às palavras (...). 
(...) apercebo-me que não faz sentido nenhum tentar regressar a esse lugar (...) a vida leva-nos numa direcção e nós afastamo-nos noutra, como se estivéssemos a discordar do nosso próprio destino (...)"

Dentro destas reflexões surgem, nas entrelinhas, comentários ou sugestões sobre como escrever determinados episódios, dando-lhes o enfase e a perspectiva necessárias para que ganhem mais personalidade, ou não fosse a narradora, uma escritora a braços com um curso de escrita, motivo pelo qual está na Grécia, onde uma das aulas se assume como o capítulo mais desafiante e viciante para o leitor que quase se sente transportado para dentro daquela aula, querendo participar. 

Nos vários encontros que tem, seja com o vizinho de voo, velhos amigos e outros escritores ou alunos, vão existindo diversas considerações, onde a realidade se mistura com a ficção, analisando vidas que se cruzam com os livros, numa constante interpretação e resignificação dos acontecimentos. E se cruzarmos fragmentos desses discursos dispersos talvez possamos evitar o naufrágio.

"No meu romance, a personagem encontra-se dividida (...). Tudo o que ela deseja para a sua vida é ser integrada, ser uma coisa só, e não uma sucessão infinita de oposições que a baralham (...)
(...) Não há ninguém com quem ela possa falar, ninguém a quem possa contar (...) retoma ele, (...). O livro é claramente sobre ela própria, afirma. (...) Os escritores precisam de se ocultar (...) do mesmo modo que as carraças precisam se ocultar no pelo de um animal: quanto mais profundamente se enfiarem, melhor."

"Ela até conseguiu infetar o romance, embora talvez o romance nos esteja agora a infetar em retaliação, e por isso esperamos das nossas vidas o mesmo que nos habituamos a esperar dos nossos livros: mas essa noção de vida como uma progressão é algo pelo qual já não tenho desejo."

Será isso ou apenas "a capacidade humana para a autoilusão"?


quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

«Homens e Bichos», de Axel Munthe - Opinião

 


Em boa hora me cruzei com este velhinho exemplar, habilmente traduzido com esmero por António Sérgio, trazendo até ao leitor as curtas narrativas de Axel Munthe que revelam um humanismo enorme ao narrar "inconsoláveis resignações" em relatos simples e belos, porém pesados, que denunciam a fome, a luta contra a doença e uma pobreza que esmaga e até humilha. Em quase todos os contos há preocupação, compaixão e cuidado para com os animais, tornando-os elementos centrais como vemos logo em "Para os que gostam de música".

Para além de valorizar e pedir que não se maltratem os pobres, os doentes, os imigrantes, Munthe pede, de forma subtil, atenção às mulheres, mães, irmãs, cuidadoras e gentis, com quem a sociedade é injuriosa e injusta.

"A caridade pública não a ajudaria, porque era estrangeira, e a caridade particular não desceria até ela. deveria escolher entre a miséria e a rua; escolheria a miséria, por amor da criança. Era certíssimo que a Sociedade lhe não daria prémio por tal escolha, por isso a virtude jejua e gela (...)"

Munthe também não esquece a Natureza, tão enaltecida em " O Monte Branco, Rei das Montanhas" que nos conduz num périplo pleno de atmosfera estival até ao peso imponente e belo do perpétuo inverno montanhoso. 

"O trilho que tomávamos era cada vez mais íngreme, e iam rareando progressivamente as filas de guardas de mantos verdes que vinham participando da nossa escalada. (...).
Sentia-se bem que a algidez da morte ia penetrando progressivamente por todas as veias da montanha, e que o coração da mãe Natureza afrouxava também o seu pulsar (...).
E eis-me de rosto com o Rei das Montanhas (...) um esplendor indizível (...). Nenhum eco dos vales se elevava até ali, a perturbar o seu altivo repouso."

Repouso pede também o autor para os animais. De "Ménagerie" ao "Um grito no ermo", denuncia a forma como são tratados, revelando tristeza pelas agruras e sofrimento de uma vida enjaulada ou votada ao abandono. A sua escrita expõe e denuncia, clamando por respeito pelos animais como prova de um desenvolvimento maior que nos separa do lado primitivo e selvagem. 

"Têm os focinhos lívidos de frio, quando dão saltos para aquecerem um pouco, riem os gaiatos trocistamente e param os transeuntes, para os desfrutar - para chacotearem desses pobres, inconscientes palhaços, que servem ali para atrair o público ao espectáculo da tortura dos seus irmãos na miséria."

E no entanto, também confessa, a crueldade da meninice "(...) reconheço nódoas de sangue nos dedos delgados da criança de outrora, que vieram a enferrujar-se em nódoas de pejo nas recordações de infância do homem de hoje. Humilha-me a ideia  de que matei (...)"

Em "Os cães de Capri", revela um lado mais político e crítico, mas não esquece de homenagear a doce transição entre estações do ano e as suas tradições e afazeres tão necessários.
A medicina e a sua condição de médico, bem como a religião ou a Morte são também temas nos seus relatos, numa suma de preocupações que revelam a sua humildade e sensibilidade. 

"Quando assim nos estendemos sobre o chão relvoso, a observar esse mundo, acabamos sempre por nos sentir pequenos. 
Por fim, parece-me que não passo de uma formiguinha débil, afanosa com o peso de uma carga incómoda, numa mata sem trilhos." 


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

«Em tudo havia beleza» de Manuel Vilas - Opinião

 


"Oxalá fosse possível medir a dor humana com números e não com palavras incertas. (...) Todo o homem acaba, mais dia, menos dia, por enfrentar a insignificância da sua passagem pelo mundo. Há seres humanos capazes de o suportar, eu jamais o suportarei."

Vilas afirma desde a primeira página essa dificuldade junto com a dor que tem a braços, no meio do desvanecimento geral de todas as coisas. Para organizar essa dor e ruína emocional, faz este balanço entre a importância de recordar passados e homenagear os nossos mais queridos. Cobre-se de um pranto que verte no romance, o choro que outrora afogou na bebida, são páginas e páginas dessa busca incessante pela alegria e satisfação de olhar para o futuro sem estar aterrorizado pelas pazes pendentes com o passado.

"Pois o passado tem para quase todos os seres humanos a concretude de uma personagem de romance."

E nessa concretude de sacralizar e entender a dor, Vilas acrescenta: "A dor não é de todo um entrave à alegria, tal como eu entendo a dor, pois para mim está vinculada à intensificação da consciência. O sofrimento é uma consciência expandida."

Por isso mesmo, «Em tudo havia beleza» é um romance expansivo e até caótico, onde Vilas pretende entender o que foi acontecendo na sua família e simultaneamente em Espanha, colmatando a comunicação que faltou enquanto os pais eram vivos, quando foi casado ou tinha os filhos mais debaixo da sua asa. 

O registo é confessional, chega a parecer vulgar e até indiscreto, imiscuindo-se no leitor, mas talvez seja a forma de expiar a culpa, de matar demónios, de deixar um testamento dos seus pensamento mais privados, sufocados no homem da gravata falsa, amarrada a um pescoço falso, uma gravata humilhada de nó triste, condenada a um amarelo esbatido, cansado, preguiçoso.

"Um divórcio desperta a culpabilidade, porque a culpa é um exercício de relevo, é relevo sobre terra lisa. A vida de um ser humano é a construção de relevos que a morte e o tempo acabarão por alisar."

É nessa construção de relevos que se insere este romance. É uma luta contra o desamparo e o desmoronamento da ternura, negando terreno à desmemória e apelando à melancolia. Relembrar pausadamente, mesmo que com o pensamento em rodopio, respeitando a nossa individualidade que começa com o saber e conhecer a nossa história que começou na vontade dos nossos pais em nos dar vida. 

"Ter alguém à nossa espera algures é o único sentido da vida, e o único êxito."

No entanto, esse único sentido não tem sentido único e por vezes no relato caótico, entre saltos cronológicos e alguma revolta, existem contradições onde o narrador se desdiz das anteriores afirmações muito determinadas e até moralistas que acabam por se esbater na culpa e no nervosismo de um enorme vazio de quem questiona e contempla tudo. 

"O meu coração parece uma árvore negra cheia de pássaros amarelos que guincham e perfuram a minha carne como num martírio. Entendo o martírio: o martírio é arrancarmos a carne para estarmos mais nus; o martírio é um desejo de nudez catastrófica."



sábado, 28 de novembro de 2020

“Uma Pequena Sorte” de Claudia Piñeiro :: Opinião

 


"A noite passada sonhei que regressava a Temperley." 
Podia começar assim esta narrativa que está povoada de regressos, mas não. Claudia Piñeiro escolhe a Nobel, Alice Munro, para introduzir o leitor à dor aguda, mais tarde crónica, que não matará, mas povoará para sempre as vidas bafejadas por pequenas sortes.

"(...)E aprenderás alguns truques para a aliviar ou suprimir, tentando não destruir o que só à custa de todo este sofrimento obteve."                                     
Alice Munro, «As crianças ficam»
                                                                                                                            
María Elena Pujol, hoje Mary Lohan, vive duas vidas separadas por uma tragédia que desde cedo se anuncia. A sua vida silenciosa oscila entre compassos do melancólico Oblivion e uma energia prestes a explodir como em Libertango de Piazzolla. 

"Eu estive muito tempo calada, sinto-me confortável no silêncio (...). A ausência de palavras enunciadas é um habitat que conheço desde sempre, o meu estado natural (...) E sinto-me desconfortável a falar do clima sem motivo (...). Talvez seja essa a verdadeira origem da minha disfonia crónica: a obrigação social de ir contra o meu estado natural de silêncio."

O silêncio tornou-se o seu lugar favorito, uma condição apropriada para a dor despojada e eterna que sente. Uma dor habitava por um palco vazio, escuro e infinito, num tempo expandido sem mais palavras do que aquelas que se repetem na sua memória e na caligrafia que reescreve uma história mas não lhe altera o fim. 

"No entanto, estive sempre atenta, alerta, receosa de que um dia pudesse converter-me noutra coisa e fazer-lhe mal. Uma mulher obscura, como a minha mãe (...) mas também não se concretizou. (...) Mas a vida pôs aquela circunstância no meu caminho (...) não alcancei a nota necessária. (...). A maternidade está cheia de pequenos fracassos."

A vida está cheia de pequenos fracassos, como também de pequenas sortes, coisas tão banais como o lugar que nos calha no avião ou a pessoa que se sente ao nosso lado. Ou conhecermos alguém numa festa, onde nem sequer era suposto estarmos. Pequenos detalhes que alteram o rumo dos nossos dias. 

"O tempo ensina-nos que não existe só uma definição para o amor. (...) muitas vezes uma pessoa não se apaixona pelo outro, e sim por si mesmo apaixonado. Ou pelo que implica estar apaixonado (...) Uma pessoa quer estar apaixonada, e então está. Estávamos. "

“Uma Pequena Sorte” de Claudia Piñeiro funciona muito bem como thriller, tendo como base um drama familiar que se cruza com muitas referências que exploram dor, solidão, desespero, infortúnio e até suicídio, sabendo que do outro lado da moeda estão, família, maternidade, paixão, tango, livros e sorte. 

Agradou-me também ideias transversais que se cruzam com outras leituras recentes, quando Piñeiro refere a ideia de nos apaixonarmos pela ideia de estarmos apaixonados e não pela pessoa, recordando-me «Apneia» que explora a ideia de não amarmos a pessoa, mas a imagem com que ficamos por termos tal relação; ou ainda a ligação com «Olive Kitteridge» quando se aborda o suicídio como uma morte dedicada. 


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

“Olive Kitteridge” de Elizabeth Strout :: Opinião

 «Olive Kitteridge» valeu um Pulitzer a Elizabeth Strout e valeu recentemente à HBO uma série fabulosa. 

                                    

A narrativa, dispersa por mais de uma dezena de contos, cruza vários personagens, todos eles residentes numa vila costeira, meio idílica, onde todos se cruzam mais ou menos de perto com Olive ao longo de mais de 25 anos e é dessa forma que vai surgindo, peça a peça, a imagem da temível professora do liceu, da educação que deu ao seu filho e da sua relação com Henry, o marido gentil e dedicado, que é também o farmacêutico da vila.

"Lembrou-se novamente de John Berryman. Salva-nos de espingardas e suicídios paternos [...] Misericórdia! [...] não primas o gatilho senão, a minha vida toda, sofrerei pela tua ira. (...) não, Kevin não suportava a ideia de uma criança descobrir o que ele próprio descobrira: que a sua mãe sentira uma necessidade tão grande e tão urgente de devorar a vida, que deixara as portas dos armários todos da cozinha salpicados com restos da sua corporeidade."

A escrita é cativante, mas dolorosa, retratando solidão e desamparo, mas também a incompreensão da vida quando olhada em retrospectiva e quando a única saída parece estar no cano de uma espingarda que porá fim à angústia e nos devolverá para junto dos que mais amamos. Podemos até dizer que o suicídio é um fio condutor entre histórias, um motor bizarro que mantem alguns deles em andamento.

O cruzamento de desespero sufocado e silencioso com da crueza como é descrita Olive, contracena brutalmente com a interpretação feita por Frances McDormand. E talvez seja isso que faz toda a diferença, agigantando a Olive que imaginámos conto atrás de conto.

Ler este livro e logo de seguida assistir aos quatro episódios que compõe a série é como que dar continuidade ao enredo ou uma maior consistência a algumas cenas que ficam a pairar na cabeça do leitor, quando também nós fomos alvo dessa esponja húmida de tinta.

"Depois disso, foi como uma pintura a esponja, como se alguém tivesse encostado uma esponja húmida de tinta a escorrer no interior da sua mente e só mesmo o que a esponja pontou, umas quantas manchas aqui e acolá, tivesse retido aquilo de que ela se lembra do resto dessa noite."

Os sentimentos e as emoções, tal como a memória, estão manchados e fragmentados, perdidos no meio de uma depressão longa, mas são o que mais surpreendem em Olive, ela não é simpática ou amável, mas é empática e observadora, conseguindo por vezes ajudar em situações limite, ela ama e é frágil, mesmo quando todos a julgam forte e insensível e parte dessa transformação é redentora e convocam no leitor um profundo apreço pela personagem. 

"(...) O céu estava cinzento e pesado. Olive sentiu uma perturbação diferente das outras vezes. Provinha de Christopher, sim. Mas ela parecia presa entre as pinças de um remorso intratável. Um embaraço profundo e pessoal inundou-a, (...) Foi a vergonha que lhe fustigou a alma, como os limpa-pára-brisas diante de si: dois grandes dedos negros e compridos, inexoráveis e rítmicos no seu castigo."

O que fustiga o leitor, tanto no livro como na série é a angústia da depressão e uma franqueza fria, desapegada, que parecem estar inevitavelmente de mãos dadas, e talvez por isso, mais para o final da sua vida Olive pondere a culpa e a vergonha. Vai até mais longe e pensa em castigo e isso abre um fosso enorme sobre a compreensão e aceitação da doença e da coragem que é precisa para viver. 


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

«APNEIA» de Tânia Ganho ::Opinião



"«Trazei-me uma espada», ordenou Salomão, na Bíblia, para resolver a contenda entre duas mães que reclamavam o direito a uma criança. «Cortai o menino vivo em dois», disse o rei, «e dai a cada uma a sua metade.» Adriana perguntava-se se, algum dia, algum deles voltaria a ser inteiro." 


«Apneia» é um mergulho profundo no mar bravo da batalha desumana e desequilibrada em que se pode tornar um divórcio e consequente processo de custódia, tornando as crianças em alvos e meros números que constam em processos judiciais. Vidas perdidas nas burocracias complexas de um sistema desajustado e minado por uma surdez prepotente.


"Os homens-inquisidores lembravam-lhe Alessandro: esmiuçavam, chafurdavam e não se contentavam com silêncios, respostas sucintas. Não compreendiam que ela preferia manter as caixas fechadas, as portas trancadas, a vida devidamente etiquetada e arrumada.
Isolou-se, tornou-se um eremita,/ abrindo a porta apenas/ para uns quantos animais especiais"
Anne Sexton, «The Witch's Life»

Adriana socorre-se muitas vezes das palavras de Anne Sexton para com essa poesia confessional denunciar o quanto se sente dilacerada e vive pela metade uma vida em sobressalto. É mulher e mãe no limiar das suas forças, lutando para pôr fim a uma relação abusiva e violenta com Alessandro. No entanto, o divórcio ardiloso, por parte do marido pode ditar uma vida órfã do filho Edoardo, tornando-a numa pessoa ainda mais despedaçada.


"Tinha noção de que chegava ao psicólogo com o coração cosido no avesso do pulso e não havia ética nem lei que o fizesse voltar para dentro do peito."


Adriana dá corpo a uma montanha de sentimentos e ao anunciar de uma tragédia que é todo o processo aqui descrito, alertando para a realidade tenebrosa que vivem as vítimas de violência doméstica e os seus filhos. Apanhados num jogo emocional enorme, onde a manipulação é proporcional ao grau de violência e a uma solidão em crescendo. E o divórcio litigioso apenas surge como mais uma colecção de distúrbios, desconfianças e descrença num sistema, também aqui denunciado, seja com a cena escabrosa do advogado como o lado perverso de certas leis.


"(...) Eram dois bichos solitários, mas as suas solidões tinham formado uma família. E assim como Edoardo continuava a traçar o pai, a mãe e o filho, quando o enésimo psicólogo lhe pedia para desenhar uma família (....)


Antes da consulta, a psicóloga convocou Adriana e interrogou-a. Refez a sua vida?», perguntou, e ela fixou-a, cansada, lembrando-se de uma frase de Meg Wolitzer: «As relações eram um luxo concebido para pessoas cujo as vidas não estavam em crise.» Não, nem lhe parecia provável, mas o uso do verbo «refazer» interpelou-a.”


Refazer tornou-se uma palavra tão importante como superar. Ambas faziam parte da cura e da busca incessante pela normalidade, onde o trauma não fizesse ruído e o medo e a dor fossem devidamente desarmadilhados.


“Quanto mais lia a poesia de Anne Sexton e de Sylvia Plath, maior era o seu desejo de explorar também a escrita, a par com a pintura (…). Queria abordar o seu sentimento de impotência (…)
Uma das qualidades da pintura de Paulo Rego que a atraía era a expressão dos pesadelos íntimos. Em resposta à pergunta «porque pinta?», Paula Rego respondera: «Para dar rosto ao medo.»


Dar rosto ao medo e voz às vítimas foi o que conseguiu a autora, Tânia Ganho, com um relato que chega a ser chocante, trazendo para o leitor o peso da revolta e da humilhação. Expõe assim, o sofrimento atroz que se esconde em infinitas páginas de processos que se arrastam ao longo de anos, aumentando o sufoco e a impotência em que vivem as vítimas.

Tânia Ganho teceu, meticulosamente, um romance imponente sobre a violência conjugal e parental, sem esquecer de o dosear com um breve amor simples e descomplicado que cabia numa cama estreita, algures numa ilha isolada e pelas pinceladas de arte e literatura que distraem e nutrem o leitor. E até com isso passa uma mensagem, a de que a violência e a alienação parental são transversais a todas as camadas sociais.