quarta-feira, 11 de outubro de 2017

«as coisas que perdemos no fogo» de Mariana Enriquez :: Opinião


"Vi-a quando estava prestes a atravessar a avenida. Estava no meio de um monte de lixo, abandonada sobre as raízes de uma árvore. (...) 
Peguei nela com as duas mãos, para não a desmontar. A caveira não tinha mandíbula nem dentes (...)
(...)
Comprei à Vera umas luzes decorativas, dessas que servem para enfeitar árvores de Natal. Não podia continuar a vê-la sem olhos, ou melhor dizendo, com os olhos mortos,e, por isso, decidi que dentro das órbitas vazias brilhariam luzinhas. Como são coloridas, vão mudando, e um dia a Vera terá olhos vermelhos, noutro dia serão verdes, e ainda outro, azuis."

Se já se riu, não se habitue. 
Se por acaso se espantou, não se renda.
Se só se arrepiou, aviso desde já que se arrepiará mais e repetidamente. 

Mariana Enriquez especializou-se na arte de bem combinar palavras para arrepiar o leitor, mas mesmo assim ser capaz de o viciar no macabro e no sórdido que, conto a conto, o vai envenenando para perder a fé nas pessoas.

O excerto pertence ao conto "Nada de carne sobre nós", que foi o primeiro e talvez o único a fazer-me rir, no entanto, todos os outros contos traçam histórias macabras e de um horror e bizarria bem mais malévolos que este. Ainda assim, Enriquez é capaz de satirizar e dar um tom humorístico ao que escreve, o que revela e eleva ainda mais a violência e o diabólico de cada acontecimento. 

Em "Fim de Ano", por exemplo, vamos seguindo aqueles dias de aulas quase como se estivéssemos na sala, assistindo, pacíficos, aliás, como toda a turma e, sentimo-nos a pertencer a um grupo de sanguessuga que espera, avidamente, mais sangue e drama ... E como se não bastasse uma, no final, somos varridos por duas adolescentes que sofrem da mesma patologia e com uma só frase a autora é capaz de nos derrubar. 

Derrubar-nos com os finais acontece em vários contos, quase como se nada preparasse o leitor para aquele embate, mas pior embate é ouvir a autora, com quem estive, estivemos, à conversa na Feira do Livro de Lisboa deste ano, e ouvi-la dizer que esta é uma Buenos Aires que existe e nem tão assim escondida, o que nos arrepia, seja com o primeiro conto ou com o último, que, se pensarmos bem são tudo formas medonhas de morrer e seguir vivendo.

"Quando o sol caiu, a mulher eleita dirigiu-se para o fogo. Lentamente. Silvina pensou que a rapariga se ia arrepender, porque estava a chorar. Tinha escolhido uma canção para a sua cerimónia (...). A mulher entrou no fogo como quem entra numa piscina, atirou-se, num mergulho convito: não havia dúvida que o fazia de livre vontade. (...)"

*
Um livro QUETZAL

Novidade CAMINHO :: "Quando as girafas baixam o pescoço"


A mulher gorda gosta de comprar jacintos, o desempregado sonha com um prato de goulash e há duas irmãs que andam a costurar linhas complicadas entre elas. De vez em quando, nos intervalos dos barulhos da cidade, ouve-se pelas paredes uma música de Brel, rosas a crescer ou um programa sobre a vida animal – como é que a cabeça das girafas não rebenta se está tão longe do coração? Em comum, entre os pés que fazem barulho em cima da cabeça e os pés que incomodam quem está em baixo, só a gaiola de cimento onde se tentam arrumar as vidinhas e, ainda assim, aquela vontade de ser pássaro.

Sandro William Junqueira continua a construir, agora em altura, um território literário de desconfortos e pulsões que estava ainda por cartografar, e volta à ficção com um livro feito de penas e betão.

Uma novidade

Novidade Edições ASA :: "Irmãs de Sangue"


Quénia, 1957. Durante a infância, três meninas de meios sociais muito diferentes tornam-se irmãs de sangue: a irlandesa Sara Mackay, a africânder Hanna van der Beer e a britânica Camilla Broughton Smith juram que nada nem ninguém quebrará o laço que as une. Mas o que o futuro lhes reserva vai pôr à prova os seus sonhos e certezas.
Separadas pela distância e pelas obrigações familiares, as três jovens são atiradas para um mundo de interesses em conflito. Camilla alcança o sucesso como modelo na animada Londres da década de 1960; Sarah Mackay é enviada para a universidade na sua Irlanda natal, uma experiência penosa que apenas fortalece a sua determinação de voltar para África; e a família de Hannah Van der Beer esforça-se para manter a fazenda que os seus antepassados africânderes erigiram na viragem do século. Os seus laços serão constantemente postos à prova e, a par do exotismo de África, a sua amizade será pano de fundo para interesses amorosos cruzados e promessas quebradas.

Uma reedição ASA

Novidade Editorial Presença :: "Desapareceram"

Um thriller de suspense sobre a luta desesperada de uma mãe para encontrar os seus filhos...


Audra anseia chegar à Califórnia.
Finalmente arranjou coragem para fugir do marido que a maltrata, podendo assim proporcionar a si e aos seus dois filhos um novo começo. Juntamente com Sean e Louise, atravessa o país, por estradas secundárias, discretamente e com toda a cautela para não chamar a atenção.
Quando um inquietante xerife a manda parar em pleno deserto do Arizona, Audra faz tudo para se manter calma e esconder o nervosismo. Tem mesmo de o fazer. Mas, ao revistar a carrinha de Audra, o xerife tira da bagageira um saco com marijuana que ela nunca tinha visto e o seu estado de nervos transforma -se em pânico. Ela julga que aconteceu o pior.
Mas está enganada. O pior ainda está para vir.

Com um ritmo de tirar o fôlego e de um suspense implacável, Desapareceram... é um thriller perfeito sobre a luta de uma mulher contra o mal inimaginável para salvar o que há de mais importante na sua vida. Chocante até à última página.


Uma novidade

Novidade Topseller :: "Noite Cega"


Na pequena aldeia islandesa de Siglufjördur, o jovem polícia Ari Thór Arason procura refúgio do seu passado e dos horrores que nele se escondem. Apesar do isolamento da aldeia, acessível apenas por um pequeno túnel nas montanhas, mantém uma relação difícil com os aldeões, que o acham estranho. Exausto, e com a sua vida privada a intrometer-se no trabalho, Ari Thór mete baixa.

Com Ari Thór ausente, o polícia que o substitui, e seu único colega, é assassinado à queima-roupa, a meio da noite, numa casa deserta. Cabe agora a Ari Thór deslindar um caso que rapidamente se torna muito mais complicado do que parecia: a comunidade fecha-se, a política local dificulta tudo, e o novo presidente da Câmara envolve-se no caso muito além da sua função.

A investigação vai levar Ari Thór até bem longe da aldeia. O que terá a ala psiquiátrica de um hospital em Reiquiavique a ver com este crime? O que será que todos em Siglufjördur estão a tentar esconder? E conseguirá Ari Thór aguentar uma investigação tão exigente?

Uma novidade

Novidade Elsinore :: "Um dos Nossos"

«Parece que era a tempestade que nos estava a caçar.»


E depois de nos mudarmos para o Novo México, ele falava disto sempre que alguma coisa resultava e, também, quando não resultava.
Depois de um divórcio difícil e amargo, a guerra foi, finalmente, ganha e os filhos entregues à guarda do pai. Assim, o pai e os dois rapazes, um com doze anos, o outro um pouco mais velho, partem do Kansas em direção ao Novo México, com a esperança de recomeçar uma nova vida em conjunto: só os três, unidos por uma profunda lealdade.
Entretanto, os rapazes vão para a escola, jogam basquetebol, fazem amigos. O pai, por seu turno, fica em casa a fumar charutos baratos. Com o passar do tempo, aquilo que era apenas um comportamento excêntrico ? o olhar fixo e vazio, os barulhos noturnos, a visita de figuras de natureza duvidosa ? torna-se uma espiral violenta e errática que arrasta os dois rapazes para uma realidade feita de drogas, medo e solidão.

Oscilando entre a claustrofobia de uma família em ruínas e as falsas promessas de uma vida normal, Um dos Nossos é uma estreia literária brilhante e aclamada, «um retrato pungente e trágico tanto das alegrias como das limitações do amor», um livro que revela a face brutal do crescimento e da perda da inocência.

Uma novidade

Novidade Alfaguara :: "O teu rosto amanhã (II)"


O segundo volume da obra-prima de Javier Marías um dos autores de língua espanhola mais consagrados e lidos em todo o mundo, já distinguido com mais de vinte prémios internacionais e apontado como um forte candidato ao Premio Nobel de Literatura.

Em Dança e sonho Marías deslumbra-nos uma vez mais com a sua prosa inquietante e leva-nos a meditar sobre a natureza humana. 
Uma trama inteligentemente urdida, um mistério cirurgicamente manipulado, uma narrativa fascinante que é também um convite a olhar para dentro de nós.


Uma novidade

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Novidade Topseller :: "Sinais de Vida"

Para sobreviver a um assassino, é preciso ter um instinto assassino.


Há dez anos, Quincy Carpenter, uma estudante universitária, foi a única sobrevivente de uma terrível chacina numa cabana onde passava o fim de semana com amigos. A partir desse momento, começou a fazer parte de um grupo ao qual ninguém queria pertencer: as Últimas Vítimas.

Desse grupo fazem também parte Lisa Milner, que perdeu nove amigas esfaqueadas na residência universitária onde vivia, e Samantha Boyd, que enfrentou um assassino no hotel onde trabalhava. As três raparigas foram as únicas sobreviventes de três hediondos massacres e sempre se mantiveram  afastadas, procurando superar os seus traumas. Mas, quando Lisa aparece morta na banheira de sua casa, Samantha procura  Quincy e força-a a reviver o passado, que até ali permanecera recalcado.

Quincy percebe, então, que se quiser saber o verdadeiro motivo por que Samantha a procurou e, ao mesmo tempo, afastar a polícia e os jornalistas que não a deixam em paz, terá de se lembrar do que aconteceu na cabana, naquela noite traumática.
Mas recuperar a memória pode revelar muito mais do que ela gostaria.

Uma novidade

Novidade Gradiva :: "Sinal de Vida"


Um observatório astronómico capta uma estranha emissão vinda do espaço na frequência dos 1,42 megahertz. Um sinal de vida. O governo americano e a ONU são imediatamente informados.

Um objeto dirige-se à Terra. 

A NASA prepara com urgência uma missão espacial internacional para ir ao encontro da nave desconhecida. Tomás Noronha, o maior criptanalista do mundo, é recrutado para a equipa de astronautas. 

Começa assim a mais invulgar aventura do grande herói das letras portuguesas modernas, uma história de cortar a respiração que nos leva ao coração do maior mistério do universo. Será a vida um acidente ou resultará de um desígnio? Estaremos sós ou seremos um entre milhões de mundos habitados? 

A existência é um acaso ou tem um propósito? 

Sinal de Vida traz-nos José Rodrigues dos Santos, o escritor favorito dos portugueses, no apogeu das suas extraordinárias capacidades narrativas. Um romance empolgante que, pelo fio de uma intriga intensa e absorvente, nos interpela sobre a vida, o seu objetivo e o nosso lugar no universo.

Uma novidade

Opinião "11 Escândalos para prender o coração de um Duque"

Oh Sarah, Sarah....
porque me fazes sempre sentir que reencontro uma família alargada nestas personagens espectaculares que crias?
Se adorei "10 segredos para ser seduzida por um Lorde" e "9 regras a quebrar para o conquistar", este novo livro não ficou nada atrás e faz com que continuemos escravas dos números.


"11 Escândalos para prender o coração de um Duque" mostra-nos um par improvável, uma prova de que os opostos se atraem.
Se de um lado temos um homem cuja reputação imaculada é o seu maior trunfo, do outro temos uma mulher que é seguida por o escândalo onde quer que vá .
Será que os opostos realmente se atraem ou o que se diz e faz não é realmente o que se sente?

Tivemos o (des)prazer de conhecer e reencontrar Simon Pearson, Duque de Leighton, em diversas vezes ao longo das histórias de St John e Isabel e de Gabriel e Callie.
Um emproado, arrogante e desdenhoso homem que foi criado desde berço para seguir os bons costumes, exigir o decoro que a sua posição requer e manter ao largo todo e qualquer potencial escândalo que arruine a sua reputação ou a da sua família.
Mas há um momento em que vemos Simon e não o Duque que toda a sociedade conhece. E garanto-vos que esses momentos são espectaculares, especialmente na presença de Juliana.

Ainda nos livros anteriores, a fortaleza Leighton sofre o seu maior ataque quando uma bela e exótica italiana se cruza no caminho de Simon e ele ousa ceder à tentação, ao desejo e à paixão só para mais tarde perceber que a sua mulher mistério é a última que ele não poderá ter, e que acima de tudo ele não poderá desejar.
Assim como acontece com Simon, conhecemos Juliana Fiori das histórias dos seus meios irmãos. Um furacão vindo do Sul que arrebatou os mexericos de toda a Londres e que não consegue deixar de levantar ondas à sua volta.
E se for preciso agitar oceanos para ter atenção de Simon, assim será.
Determinada em lhe provar que a frieza com que leva os seus dias já não é suficiente para que seja feliz, Juliana desafia Simon. 2 semanas é tudo o que pede e o que recebe é uma dúzia de escândalos e uma grande história para contar.

Uma luta entre o dever e o desejo, repleta de momentos escandalosamente emocionantes e que nos fazem pensar que Sarah Maclean sabe realmente o que faz. 

É difícil reger a nossa vida pelas exigências de um nome, uma posição ou pelo que outros esperam de nós. 
Assim como não será nada fácil viver na sombra das más decisões que os nossos familiares tomaram.
E Juliana e Simon provam-nos que mesmo quando tudo corre mal, mesmo que acabamos nas bocas do mundo, tudo vale a pena se for por amor e pela nossa felicidade.

Raios, estes livros tornam-me uma sentimentalona!

Uma novidade

Novidade Elsinore :: "Lenine 2017"

«A resposta à eterna pergunta da esquerda, "o que teria acontecido se Lenine tivesse vivido mais dez anos em plena saúde e conseguido depor Estaline?",não é tão clara como pode parecer.»


A originalidade e importância de Lenine enquanto líder revolucionário estão muitas vezes associadas ao momento da tomada do poder na Rússia, em Outubro de 1917.
No entanto, neste seu mais recente e original livro, ?i?ek argumenta que a verdadeira grandeza do líder soviético deve ser antes compreendida analisando os últimos dois anos da sua vida: anos que legaram uma herança ainda válida para o pensamento político de hoje. Durante esses anos, a Rússia encontrava-se numa encruzilhada: depois de sobreviver a invasões, embargos e a uma terrível guerra civil, assim como a tensões e revoltas internas, o Estado encontrava-se exausto, isolado e sem uma direção definida
para contrapor ao evidente recuo do sonho de uma revolução global. É neste momento, segundo ?i?ek, que Lenine se irá revelar enquanto verdadeiro estadista, líder e pensador, com a lucidez e a coragem de se adaptar a uma nova ordem mundial.


Cem anos após a Revolução Soviética e num momento em que o mundo se encontra diante de novas e perigosas lutas pelo poder, ?i?ek demonstra como é urgente e necessário recuperar o exemplo que Lenine deixou como legado nos últimos anos da sua vida.

Uma novidade

Novidade Topseller :: "A Livraria dos Destino"

No mundo da Nightingale Books serve-se romance e a cura para um coração partido. Este é o sítio onde as melhores histórias não se encontram apenas nas páginas dos livros, mas nas vidas dos que por lá passam.


Depois da morte do pai, Emilia regressa a Peasebrook para gerir a velha livraria da família, Nightingale Books – o sonho de qualquer bibliófilo e um refúgio para os moradores desta pequena vila. Mas agora que está responsável pelo seu futuro, Emilia terá de afastar potenciais compradores, ao mesmo tempo que tenta cumprir o último desejo do pai.

Uma livraria extraordinária com pessoas extraordinárias...

Desde a mulher que a visita há anos, ao recém-divorciado que tenta reaproximar-se do filho, e ainda a tímida chef de cozinha que se apaixona na secção de culinária... há algo de magnético neste sítio. Até Emilia sente as forças da livraria a conspirarem por si quando se cruza com um homem a quem não consegue ficar indiferente.

Com todos a depender dela, conseguirá Emilia encontrar um destino feliz para a livraria e os seus leitores? No mundo da Nightingale Books serve-se romance e a cura para um coração partido. Este é o sítio onde as melhores histórias não se encontram apenas nas páginas dos livros, mas nas vidas dos que por lá passam. 

UMA NOVIDADE

Novidade Bertrand :: "O Novo Aluno"


Chegado à sua quarta escola em seis anos, Osei Kokote, filho de um diplomata, sabe que precisa de um aliado se quiser sobreviver ao primeiro dia de aulas. É uma sorte dar-se tão bem com Dee, a rapariga mais popular da escola. Mas há um colega que não suporta aquela relação: Ian decide destruir a amizade entre o rapaz negro e a menina de ouro. Chegados ao fim do dia, a escola e os seus principais atores (professores e alunos) nunca mais serão os mesmos. A tragédia de Otelo é transportada para o recreio de uma escola suburbana de Washington nos anos 70, onde os miúdos se apaixonam e desapaixonam antes da hora de almoço e praticam um racismo casual que vem de casa e dos professores. 

Tracy Chevalier cria um fortíssimo drama de amizades despedaçadas pelo ciúme, pelo bullying e pela traição. «Um exercício fascinante.» 
Washington Post 

«A improvisação brilhantemente intensa e arrebatadora de Chevalier expõe a malícia e a tragédia do racismo, do sexismo, do ciúme e do medo.» 
Booklist 

«Chevalier usa com inteligência a oportunidade de tecer uma história que comenta o racismo na América.» 
Publishers Weekly

UMA NOVIDADE

Novidade Cultura Editora :: "Onde Cantam os Grilos"


Formiga foi deixado nos degraus da casa da Quinta do Lago, ainda bebé, e desde então que nunca de lá saiu. O mistério da sua chegada são apenas mais algumas linhas acrescentadas à longa história da Quinta e que a assombra de lendas e maldições. São muitos os infortúnios das várias gerações dos Vaz, uma fonte inesgotável de mistérios fascinantes para a imaginação do rapazinho deslumbrado pela vida da família que venera com uma curiosidade atrapalhada. Formiga corre e trepa a árvores, empoleira-se em ramos, faz-se invisível, inventa um pouco de tudo para conseguir acompanhar conversas, ouvir mais uma palavra.

Mas o último segredo que ele descobre revela-se demasiado grande para a curiosidade bem-intencionada de uma criança, e um erro põem fim à sua infância. Uma história doce e desengonçada, contada na voz de um adulto que fala pela criança que foi um dia.

Uma novidade

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

«Lanzarote» de Michel Houellebecq :: Opinião



Imaginemos cactos. Aqueles arbustos ou árvores, consoante o género, com mais ou menos picos, com ou sem flor, erectos ou ramificados, tortos ou inclinados... não sei... pensemos em cactos desde o início para não pensarmos em outro tipo de espécimes erectos, já que o narrador é o Houellebecq e eu não me apetece imaginá-lo nu. 

Com este pequeno livro, quase literatura de viagens, consegui redimir-me e voltar às leituras desde autor. Esse sim, recheado de picos, com certeza na língua, pois parece que nada lhe fica por dizer, ultrapasse ou não o politicamente correcto. Parte na qual, devo concordar, às vezes já enjoa e existem coisas que precisam ser ditas. E Houellebecq não perdoa!

Passando estes parágrafos introdutórios convêm ainda dizer que este pequeno livro é a prova de que mesmo os mais cínicos, espinhosos e do contra, merecem e têm férias. Mal seria se assim não fosse!
Por isso, temos em mãos mais de cinquenta páginas de humor, entre paisagem árida, reflexões cáusticas, banhos de mar e algumas cenas de sexo em grupo. Que mais para ter umas boas férias!? 
Companhia? Isso o narrador também terá. Rudy é o companheiro para uns copos e o que permite a viragem da acção e da reflexão durante estas merecidas férias no início do ano 2000. 

O sentido da vida, especialmente na viragem do século, está na ordem do dia, mas não se espere uma reflexão muito exaustiva. Afinal é um período de férias e “Podemos viver sem esperar nada da vida?”é a pergunta chave deste relato. Se não esperarmos nada, pelo menos que se usufrua de sexo, em qualidade e quantidade. 

"Eu penetrava-a profundamente, devagar e depois depressa. Pam acariciava-lhe os seios. (...)
Empenhou-se com uma tal sensibilidade que Barbara e eu gozámos exactamente ao mesmo tempo...
Fiquei exausto e dirigi-me para a cama suplementar - na realidade, a cama de criança - enquanto Pam e Barbara continuavam a masturbar-se e a lamber-se uma à outra na cama de casal. Eu estava nu e feliz. Sabia que ia dormir muito bem."

A aventura na ilha termina, mas os registos de férias ou o traço critico e hedonista do autor não. Avançamos por outras reflexões e mais sexo. Perguntando até que limite o autor pretende chocar o leitor ou apenas dar-lhe outras formas de observar a realidade. Será? 
Se com a leitura de «Extensão do domínio da luta» eu fiquei desinteressada das suas palavras, com este registo mais sardónico, mas no qual até lhe encontro um certo sentido, já fico mais curiosa com a tão falada obra «Submissão». 

*

Um livro ALFAGUARA

domingo, 8 de outubro de 2017

Opinião "Um mais Um - A Fórmula da Felicidade"



Faz dias que acabei a leitura de "Um mais Um" e ainda não consegui colocar por palavras o quanto me senti bem na companhia de Jess, Ed, Nicky, Tanzie e Norman (mesmo com a flatulência canina que eu sei ser terrível).
A sinopse deixou-me com aquela impressão de que estas personagens peculiares iriam causar impacto em mim e que depois de terminado o livro, uma parte deles ficariam comigo. A leitura confirmou exactamente isso, que esta mãe assoberbada, este riquinho umbiguista mas especial, esta filha com cérebro de ouro, este enteado/filho com problemas comuns mas pensamentos invulgares e o este gigante peludo iam todos encostar-se a mim, prensar-me com as suas crises e loucuras para depois me arrastarem por quilometros no banco de trás de um carro sobrelotado para uma aventura capaz de mudar uma vida ou arruina-la para sempre.


A empatia com Jess, para mim, foi imediata. A necessidade de contrabalançar vários trabalhos com a educação e sobrevivência da filha e enteado não é tarefa fácil mas Jess passou os últimos anos a fazer malabarismo desde que o (ex)marido precisou de um tempo para recuperar (não vou tecer comentários e impropérios sobre esta personagem) e nunca mais voltou. 
Incapaz de baixar os braços perante os miúdos, Jess faz das tripas coração para nunca quebrar, para apoiar os seus em tudo.
Por isso, quando surge a oportunidade de uma educação melhor para Tanzie, o crânio da matemática lá de casa, Jess não hesita em arriscar o pouco que tem para que a filha posso ter tudo o que merece.
E se é com a família que podemos sempre contar, é bom saber que um completo estranho, numa onda de favores em cadeia e consciência pesada, pode ser a ajuda que nos faltava para atingirmos os nossos objectivos ou abrirmos os olhos para uma nova realidade.

Nota: Pensamento da Jess, algures lá mais para a frente no livro:
"Um desgosto de amor era um luxo demasiado caro para uma mãe sozinha"


Ed Nicholls é a personagem a quem inicialmente tive vontade de dar uns calduços por ser tão burro mas que mais para o fim, já só me apetecia abraçar. Empresário na City, Ed vive no seu mundo onde casas, carros e dinheiro não são problema. Já as mulheres...ui, nisso Ed não tem muita sorte, ou como se diz, tem dedo podre.
Separado de uma e enganado por outra, Ed vê-se carregado de problemas e é durante o afastamento de Londres que a sua história se cruza com uma família capaz de lhe dizer das boas e ainda lhe dar uma grande lição de vida.
Ed cai de paraquedas na vida dos Thomas e sobrevive por pouco à viagem inesperada que se propõem fazer num estranho e inconsciente acto de bondade.



Pelas estradas secundárias da Escócia, onde não falta muito para eu andar, vivemos uma história que nos tem muito para ensinar, especialmente no que toca à compaixão e à complexidade da família, do amor e da adolescência. 

"Posso não encaixar perfeitamente na minha família como vocês encaixam na vossa, tal como uma pequena fila de tacos redondos colocados em buracos perfeitamente redondos. Na nossa família tivemos de aparar os nossos tacos e os nossos buracos porque todos eles perteciam a outro lugar e estão, por isso mesmo, meio encravados e tortos.
Mais aí é que está. Eu percebi uma coisa...

Afinal eu pertenço a algum lugar.
Sinto que afinal é a eles que pertenço"


Jojo Moyes apanhou-me com "Viver depois de ti" e tão rapidamente não me larga. Que venha o próximo livro da autora e que nos traga personagens tão humanas e credíveis como estas. Até o cromo do ex marido!



"Um mais Um" é uma aposta

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

«Teoria Geral do Esquecimento» de José Eduardo Agualusa :: Opinião


"Deus inventou a música para que os pobres pudessem ser felizes."

*

Não é por falta de livros publicados de José Eduardo Agualusa que eu não o leio mais vezes. Aliás, enquanto lia este livro fabuloso perguntava-me por que motivo espero eu tanto tempo para voltar a autores que me são tão queridos!? Um esquecimento imperdoável!

No entanto, no esquecimento não cairá, com toda a certeza, esta teoria e estas pessoas que, durante uns dias coabitam com o leitor. A vida de Ludo e a forma como o leitor a vai lendo, bota no topo da lista a esperança e não a desgraça. Aliás, Agualusa consegue escrever de coisas tristas com palavras bunitas ;) e dar à história um toque musical e quente como Angola será. 

É como se a necessidade de ver beleza ou fabricá-la seja a melhor arma contra a violência, o esquecimento, o erro, a solidão ou uma qualquer crise. É que neste livro há disso tudo e mais, mas eu parece que só lhe senti o ritmo, o calor, as palavras bonitas, a criatividade e a forma quase inocente de lutar por uma vida melhor. 

"Pequeno Soba conseguiu fugir da cadeia, escondendo-se dentro de um caixão, episódio burlesco, a merecer, adiante, narrativa dilatada. Uma vez no exterior passou à clandestinidade. Todavia, ao invés de se refugiar nalgum quarto escuro (...), optou pela situação oposta. Aquilo que todos vêem, deixa de ser visto, filosofava. Passou, assim, a circular pelas ruas (...)"

"Aquilo que todos vêem, deixa de ser visto..." Talvez seja essa a grande teoria que justifique grande parte da cegueira que nos atropela a todos, mesmo que para questões diferentes. E sabendo que Ludo, para se refugiar de outras clandestinidades e medos, ergue uma parede em frente à porta da rua, deixa em muito o leitor a pensar, com que outras formas de nos barricar saímos na mesma à rua? Será que por vezes todos nós não somos um pouco invisíveis e assinamos um atestado de invisibilidade a tantas coisas e pessoas para as quais não estamos sensibilizados!?

Não sei se me faço entender, mas o livro levanta imensas questões, mesmo que pairem na cabeça de cada um de forma diferente:

"Quem olhasse para o prédio, de um outro edifício com altura semelhante, veria um caixote movendo-se, debruçando-se, voltando a recolher-se.
Nuvens cercavam a cidade, como alforrecas.
A Ludo lembravam alforrecas.
As pessoas não vêem nas nuvens o desenho que elas têm, que não é nenhum, ou que são todos, pois a cada momento se altera. 
Vêem aquilo que o coração anseia. 
Não vos agrada a palavra coração?
Escolham outra: alma, inconsciente, fantasia (...)"

Creio que se percebe pelo excerto o que quero dizer sobre entendermos ou questionarmos conforme as nossas preocupações ou anseios; falhas ou curiosidades; equívocos ou conhecimentos... 

"fantasma morreu esta noite. tudo agora é inútil.
O olhar dele me acarinhava, me explicava e me sustinha."

Quem ampara e alimenta a nossa existência?
De que forma as alterações políticas de um país alimentam e envenenam cada um de nós?
E perante as adversidades da vida, quem esquece quem? Somos nós que vamos esquecendo o mundo ou é o mundo que nos engole e nos substitui?

As questões são transversais e universais, bem como algumas personagens nas obras de Agualusa, seja a Osga ou Monte ou a procura por justificações que se desvanecem na cegueira e no esquecimento das grandes economias mundiais. 

"Tudo o que é sólido se desmancha no ar, murmurou Monte, pensando em Marx, e pensando, como Marx, não em aviões, mas no sistema capitalista, que ali em Angola, prosperando como bolor entre as ruínas, vinha já apodrecendo tudo, corrompendo tudo, e, dessa forma, engendrando o próprio fim."

Engendrando fins, mas deixando pontas soltas; moldando violências em poesias e ritmos musicais;  sussurrando pequenas esperanças e riquezas escondidas, José Eduardo Agualusa tem livros que falam de tudo e dos quais somos incapazes de dizer, com determinação, do que falam em concreto. O melhor mesmo é lê-lo e cada um interpretar aquilo que o seu inconsciente mais pede. 

"Vão para o Paraíso as pessoas de quem os outros mais sentem a falta. O Paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros."




terça-feira, 3 de outubro de 2017

Novidade Editorial Presença :: "Aquela Luz"

Do autor de "Por treze razões" e "Antes do Futuro" chega um novo livro YA com o selo Editorial Presença.


Sierra quer compreendê-lo. Caleb anseia por se redimir. Juntos, podem encontrar o verdadeiro amor se tiverem coragem para o aceitar. Sierra vive no Oregon, onde os pais possuem uma plantação de pinheiros. Quando chega o inverno, a família muda-se para a Califórnia para vender as árvores durante a época natalícia. Sierra tem assim duas vidas: uma no Oregon e outra na Califórnia. Estar numa vida significa deixar a outra, mas isso pouco lhe importa até que um dia, perto do Natal, conhece Caleb, e uma vida eclipsa a outra. 

Caleb não é o rapaz perfeito. Uns anos antes cometeu um erro muito grave e ainda está a pagar por isso. Mas Sierra consegue ver para além do passado de Caleb e está determinada a ajudá-lo a encontrar o perdão e a redenção. Um clima de suspeitas, preconceito e desaprovação surge em torno deles, e Caleb e Sierra não conseguem deixar de se interrogar se o amor é realmente suficiente para ultrapassar todos os obstáculos...

Uma novidade
Para mais informações, visitem o site Editorial Presença

Novidade Porto Editora :: "A Carne"


Numa noite, Soledad contrata um gigolô para que a acompanhe a um espetáculo de ópera, um ardil, na verdade, que não é mais do que uma tentativa de provocação a um ex-amante.

No entanto, um violento e imprevisível incidente alterará por completo o curso daquela noite e marcará o início, entre ambos, de uma relação vulcânica, inquietante, e talvez perigosa. Ela tem sessenta anos; o gigolô, trinta e dois. Começa o jogo…

A narração desta aventura irá mesclar-se com as histórias dos escritores malditos da exposição que Soledad se encontra a preparar para a Biblioteca Nacional - e ser maldito é «desejarmos ser como os outros mas não conseguirmos, querer que nos amem mas só causarmos medo, talvez riso, não suportarmos a vida e, sobretudo, não nos suportarmos a nós próprios».
Como a própria Soledad, talvez?

Devorar ou ser devorado: A Carne é um romance audaz e surpreendente, o mais livre e pessoal de todos os que Rosa Montero já escreveu, que nos fala do passar dos anos, do medo da morte, da necessidade de amar e da gloriosa tirania do sexo. Tudo através da voz de uma eterna sedutora, apanhada de surpresa pelo seu próprio envelhecimento.

Uma novidade

«A Estrada Subterrânea» de Colson Whitehead :: Opinião



Bastante aclamado pela crítica e vencedor do Pulitzer de Ficção, Whitehead cria um romance quase onírico, onde cruza os caminhos da escravatura com os dos defensores da abolição, criando um corredor subterrâneo que pode levar à luz e à liberdade, até lá, lemos e torcemos para que os planos dêem certo e que a luta tenha outro fim que não a morte às mãos dos caçadores de escravos ou o tronco e o chicote. 

"A música parou. O círculo quebrou-se. Por vezes há um escravo que se perde num remoinho de libertação. Embalado nos súbitos devaneios da ondulação ou ao desvendar de mistérios de um sonho ao romper da manhã. 
(...) o grito do capataz, o chamamento para o trabalho, a sombra do patrão, a recordação de que ela só é um ser humano durante um breve momento da eternidade da sua servidão."

É dessa eternidade subjugada ao todo-poderoso algodão, que ansiamos que Cora consiga um destino melhor que aquele, a que a sua condição de escrava negra e mulher, lhe confere como herança.

"Quando se chega a esta idade, tanto se pode ter noventa e oito como cento e oito. A única coisa que o mundo ainda pode ter para nos mostrar serão as mais recentes encarnações da crueldade."

Face à crueldade e à desumanidade que foram os tempos da escravatura, o que aqui se relata é também a esperança e as tentativas de chegar a solo abolicionista e não mais a propósito poderia surgir uma frase que li algures enquanto lia este «A estrada subterrânea»: "Se pudesses falar, que segredos contarias?"
Não são palavras de Colson Whitehead, mas resumem de forma muito concreta e sucinta a essência deste livro e igualmente a obscura capacidade de fazermos mal uns aos outros, ora por medo, ora por ganância. 

"A cidade de Nova Iorque era uma fábrica de sentimentos contra a escravatura. (...) Argumentavam que Nova Iorque era um estado livre e que, como por magia, qualquer pessoa de cor se tornava livre assim que pisasse os limites do território.
(...)
Enquanto Ridgeway esperava pelos contrabandistas nas docas, ancoravam navios magníficos vindos da Europa que descarregavam os passageiros. Traziam tudo o que possuíam nuns sacos e vinham meio famintos. Fosse como fosse, pareciam tão desafortunados como os pretos. (...) Esse fluxo branco e sujo sem lugar para onde ir senão para fora. Para sul, para oeste. Eram as mesmas leis que regiam o lixo e as pessoas. As sarjetas da cidade transbordavam de desperdícios e rejeitados... mas o tempo encarregar-se-ia de arranjar lugar para toda esta confusão."

Como se pode perceber pelo excerto, «A Estrada Subterrânea» não é só sobre escravatura, plantações a sul, negros açoitados e brancos endinheirados. É acima de tudo sobre a condição humana, arriscaria eu a dizer, condição essa num traço transversal que se estende até hoje. É o Homem que tanto cresce como é esmagado, na tentativa de acompanhar as leis de uma sociedade que avança supostamente na direcção certa.

"(...) A única coisa que os tipos negros não tinham construídos era a árvore. Deus encarregara-se dela, para que a cidade se curvasse às mãos do Diabo. 
Não admirava que os brancos vagueassem pelo parque à medida que ia ficando cada vez mais escuro, pensou Cora (...) eles também eram fantasmas, apanhados entre dois mundos: o da realidade dos seus crimes e aquele no qual lhes seria vedada a entrada precisamente por esses mesmos crimes."

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Um livro ALFAGUARA.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Novidade Alma dos Livros :: "A Sombra da Noite"

Podes esconder o teu passado mas não lhe podes escapar


Numa noite quente de verão, a inspetora-chefe Erika Foster é chamada à cena de um crime. A vítima, um médico, é encontrada asfixiada na cama. Tem os pulsos amarrados e os olhos parecem querer saltar-lhe das órbitas através do saco de plástico transparente que lhe cobre a cabeça e o sufocou. Alguns dias mais tarde, outra vítima é encontrada exatamente nas mesmas circunstâncias. À medida que Erika e a sua equipa intensificam as investigações deparam-se com um assassino em série inteligente e calculista - que persegue e sabe tudo sobre as vítimas antes de escolher o momento certo para atacar. 

As vítimas são homens solteiros, com uma vida muito reservada e um passado envolto em segredo. Porém, podem não ser as únicas pessoas a ser observadas... Erika começa a receber mensagens enigmáticas e a sua própria vida corre perigo. Ela tudo fará para desvendar o mistério que rodeia estes crimes, ainda que isso signifique arriscar a sua carreira na polícia. Imperdível!

Uma novidade

«Raparigas Mortas» de Selva Almada :: Opinião


"Quando eu era pequena, adorava ir ao cemitério. Nas tardes soalheiras, nos domingos de inverno, com sacos de crisântemos ou dálias, flores que o avó plantava no seu jardim com o único objectivo de enfeitar as sepulturas dos nossos mortos.
(...)
Havia sobretudo dois túmulos que me causavam fascínio e espanto, um sentimento romântico, obscuro, que uma menina de sete ou oito anos não conseguia perceber."

Não é assim que começa o livro, mas bem que podia que podia ser. É que o que se segue torna-se igualmente mórbido e soturno. A obsessão revelada nestas páginas tem mais intensidade que muitos policiais e thrillers psicológicos, tal é a profundidade com que se procuram detalhes e mais informações para perceber os crimes contra estas mulheres. 

"No tarô nunca aparece sequer o rasto de Sarita, viva ou morta. É a única das três que nunca fala. A Senhora diz que sente que Sarita está viva ou, pelo menos, esteve viva até há pouco tempo. (...) Mas por outro lado, eu digo que se eu nunca sonhei com ela é porque continua viva. Se estivesse morta, teria voltado em sonhos para se despedir."

É entre crenças, cartas e adivinhações que por vezes pensamos estar dentro de um romance mais negro e onírico, apelando a seres esotéricos e a espiritualidades, tão ao bom jeito e tradição da América Latina, no entanto, «Raparigas Mortas» não é um romance. Nem tão pouco um policial. Mas também não é apenas um livro de não ficção, não é um texto panfletário e reivindicativo, de apelo e consciencialização, contra a violência que tantas mulheres sofrem. Não, não é nada disto, mas é um pouco de cada uma destas coisas, criando um registo próprio, por vezes quase alucinante, que baralha e desnorteia o leitor. 

"Recordo as fotos que vi de María Luisa. A que o irmão me mostrou do seu corpo na morgue, inchado, enlameado, com partes do rosto comidas pelos pássaros. E outras duas que vi no processo.
Uma também é do seu corpo, no sítio onde a encontraram. Está tirada a uma certa distância, é uma fotografia a preto e branco. Vê-se o corpo de uma mulher a flutuar na água. Faz-me lembrar o quadro de John Millais, o de Ofélia morta. Como a personagem de Hamlet, María Luisa jaz de barriga para cima."

Leio este parágrafo e a minha cabeça dispara para a voz quase gutural de Nick Cave e a fragilidade de Kylie Minogue naquele cenário que me fez lembrar a imagem descrita por Selva Almada, já que a sua escrita consegue ser frágil e até bela e descrever o horror e a impunidade. 

"(...)
Tão decididas a ignorá-lo que deverá ter sido uma surpresa a mão no ombro de Rosa, por trás, fazendo-a girar, com os olhos avermelhados de Juan como que a suplicar de novo, a mesma mão atraindo-a para si, a outra cravando-lhe o punhal, ela a cair, os dois a cair sobre o passeio, ele apunhalando uma e outra vez, a mãe dela a gritar, a correr à procura de ajuda. Rosa a olhar para ele fixamente, ainda sem entender. Demorando a morrer. Ele em cima dela metendo e tirando a faca. Ela debaixo dele como na cama da pensão. Ele todo salpicado de sangue. Não aguentando o olhar dos olhos claros de Rosa, Juan abriu-lhe a garganta de lado a lado. (...)"

Que mais se pode transcrever para mostrar que este livro é um grito que se levanta e clama por todas estas vítimas e outras mais, espalhadas mundo fora. Mulheres que morrem apenas por serem mulheres. Mulheres que morrem às mãos de namorados e maridos violentos ou apenas homens ao acaso que julgam que as mulheres são para ser subjugadas às suas vontade, anulando-lhes as vontades próprias. Anulando-lhes a vida. É narrando esse horror e a impunidade desses crimes que Selva Almada dá vida a estas mulheres.

"Talvez seja essa a tua missão: juntar os ossos das raparigas, montá-las, dar-lhes voz e depois deixá-las correr livremente até onde tiverem de ir."

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Um livro DOM QUIXOTE

Novidade Editorial Presença :: " A Minha Prima Rachel"


Sem sequer nunca se terem encontrado, Philip odeia Rachel, com quem Ambrose, seu primo, casou durante uma estadia em Itália. e quando este lhe escreve e lhe transmite a suspeita de que a mulher o quer envenenar, Philip não sente quaisquer dúvidas. 

Ambrose morre em circunstâncias pouco claras e Philip jura vingar a sua morte. Semanas depois, Rachel visita-o na sua propriedade da Cornualha, e a animosidade que Philip sentia por ela vai dando lugar a um fascínio incontrolável. Quem é Rachel afinal? Uma mulher realmente apaixonada? Ou movida por interesses pessoais? 

Daphne du Maurier confirma nesta obra o seu enorme talento para escrever histórias com uma grande riqueza narrativa, suspense e intriga permanentes e uma apurada caracterização das personagens. Um romance clássico, cativante, com uma escrita belíssima.

Uma novidade

Para mais informações, visitem a página Editorial Presença.

Opinião "O Jardim das Borboletas"

Ele deu-lhes asas mas a última coisa que conseguiam fazer era voar em liberdade.


Quem não ficou curiosa com a leitura da sinopse de "O Jardim das Borboletas"?
"Arrepiante", foi o meu primeiro pensamento e "Mas que raio!" foi o mais recorrente ao longo da leitura.
Raptadas, marcadas e eternizadas como animais numa exposiçao delicada? 
Que conceito espectacular!! (desculpem o momento macabro!)
O quão horroroso deve ser não ter mão no nosso destino?
O quão horroroso deve ser estar às mãos de um louco?
Mas no entanto, o quão horroroso é não lutar pela nossa vida?
Se o nosso destino é morrer, porque não morrer a tentar ser livre?

Andei à luta com a minha opinião sobre este livro. Confesso que gostei bastante de o ler mas não consegui tirar do canto da minha mente aquele pensamento "porque é que esta gente não luta? Porque é que esta gente não foge? Prefiro morrer a lutar do que esperar que alguém decida que o meu tempo acabou!!"
Diz um filme que eu vi faz muitos anos que "uma vida vivida com medo é uma vida vivida pela metade" e o medo paralizante de uma morte assustadora é a única razão que encontro para a "existência" deste jardim
​Mas venham comigo e fiquem a conhecer "O Jardim das Borboletas" que sei que um dia será adaptado​ com laivos arrepiantes ao grande écra, tantos que vou conseguir esquecer aquilo que me fez frangir o nariz à historia das borboletas.

Dizem que a beleza é efémera e assim é a vida das Borboletas.
O tempo entre o casulo e dia em que mostram em todo o esplendor as suas asas é curto e para as habitantes d'O Jardim, o tempo de vida depende de demasiados factores porque as borboletas são criaturas frágeis e facilmente....destruidas.
Menos Maya. Maya parece ser uma sobrevivente. Assim nos é apresentada quando a vemos diante de dois agentes do FBI que a confrontam com os acontecimentos que os levaram ali.
Raparigas resgatadas, outras tantas mortas, um jardim secreto e uma história macabra. 
Mas que papel tem Maya em tudo isto?
Que ligação tem ao Jardineiro? 
Que segredos esconde uma pessoa que nem o seu nome quer revelar?

É através das palavras de Maya que vamos conhecendo a sua história, num tom estoico e por vezes insensível devido à vida que teve mas que nos permite criar alguma ligação com ela. Na realidade, por mais assustador que seja o que nos relata, queremos que no fim ela seja apenas e só uma vitima. Se ela for algo mais, a coisa ainda se torna mais assustadora.
Como se o facto de haver um louco que rapta, tatua e embalsama raparigas não fosse arrepiante o suficiente. E curiosamente, para mim, são os detalhes, o macabrismo dos que lhes acontecia que faz a historia valer a pena mas depois há coisas que para mim falharam. A humanização do Jardineiro, a propriedade onde o jardim se encontra, a falta de reacção das Borboletas.
Eu queria mais, eu precisava de algo mais. 
Mas talvez sejam as minhas expectativas que estragaram uma história sofrida e assustadoramente arrepiante que nos faz pensar que há por ai espalhadas no mundo pessoas loucas o suficiente para criar algo assim. Nunca mais vou olhar para as borboletas da mesma maneira, acreditem no que vos digo e elas coitadas não tem culpa nenhuma.


Entretanto o Goodreads diz-me que a equipa do FBI Hanoverian-Eddison-Ramirez tem mais história para nos dar num segundo e terceiro livro.
Será que também vamos ficar a conhecer o "Roses of May" e o "The Summer children"?

"O Jardim das Borboletas" é uma aposta

domingo, 1 de outubro de 2017

Novidade Alma dos Livros :: "Dieta Sem Glúten"

O guia fundamental sobre a doença celíaca, a alergia ao trigo e a sensibilidade ao glúten


O Dr. Alessio Fasano, especialista mundial em distúrbios relacionados com glúten e doença celíaca, apresenta o guia essencial para um estilo de vida sem glúten e descreve como milhões de pessoas podem viver melhor sem esta proteína. Durante séculos, o pão foi conhecido como «o pilar da vida». Porém, para milhões de pessoas afetadas por distúrbios relacionados com o glúten, o consumo desta proteína complexa encontrada no trigo, no centeio e na cevada pode ser perigoso para a sua saúde. Num inquérito recente apresentado pela Scientific American, mais de 30% dos americanos relataram ter desejado reduzir ou eliminar o glúten das suas dietas. Distinguindo factos científicos de mitos, Dieta Sem Glúten explica os últimos procedimentos de diagnóstico, investigações e recomendações de tratamento e dieta, ajudando os leitores a fazer as melhores escolhas para si e para as suas famílias.

Este livro inovador e autêntico é de valor inestimável para os recém-diagnosticados, para aqueles que já lidam com problemas relacionados com o glúten e para qualquer pessoa que ache que pode ter um problema relacionado com o glúten. «Numa época em que uma alimentação sem glúten se tornou a panaceia para o alívio dos sintomas de um grande número de problemas clínicos (gastrointesti¬nais, neurológicos e inflamatórios), é extremamente necessária uma informação assente em factos, tanto para o público como para o médico, para que se possa decidir adequadamente quando é que essa substância deve ser retirada da dieta. Este livro, escrito por um dos especialistas mundiais em glúten e doença celíaca, fornece as provas objetivas adequadas para tomarmos essa decisão.» Dr. W. Allan Walker, diretor da Divisão de Nutrição da Escola Médica de Harvard.

Uma novidade