segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O filho de mil homens, Valter Hugo Mãe, Alfaguara

O livro de Valter Hugo Mãe é assim como um doce, daqueles que a gente sabe que nos fazem doer os dentes, mas que só nos dá vontade de continuar a comer, então os dentes rangem e ai vocês sabem que fez efeito.
O livro de Valter Hugo Mãe é assim como um osso duro de roer, mas saboroso na sua salgada gordura, aquela que se entranha e nos vicia, que nos faz lambuzar, meter os dedos na boca.
O livro de Valter Hugo Mãe é tudo menos doce, mas também não é salgado. Não é paternalista, é bruto, duro e rebuscado. Mas é também frágil, simples, digno de um quadro. Ou vários. Uma uma ilustração, não, melhor duas, três... todas quantas somos incapazes de não sentir quanto certas palavras nos atacam, como pontadas de esforço e nos apertam o coração...
Valter Hugo Mãe reforça a dualidade da paternidade e da responsabilidade para com a cria. Ser pai é completar a metade que há em nós!? Mas ser pai é aceitar toda a dureza, a violência, a frieza, a tristeza e a incompreensão do mundo e ser-se capaz de transformá-la em amor, sem mágoa, sem problemas, sem trocos ou demasia, sem miudezas ou mesquinhice...
Amar, é simplesmente amar e o amor não escolhe, o amor não pede desculpa, o amor não olha à diferença, o amor é feito para ser incondicional, aliás, não é amor se não for incondicional!? Será esta a maior dúvida do autor!? Será esta a preocupação aquando da paternidade!?


A linguagem de Valter Hugo Mãe é única, a conjugação de palavras é, para além de genuína, é nefasta - é a palavra melhor que eu encontro. Os cenários, as acções, as ilações são igualmente nefasta, minam a nossa cabeça, sem nos deixar afastar ou esquecer este enredo, este emaranhado de espécies todas pescadas na mesma rede ;)

Não consigo deixar de transpor para aqui algumas passagens, simples e fugazes, mas tremendamente fulcrais à escrita e à essência das personagens, sacadas de um imaginário único, ou talvez dum esquecido e profundo Portugal.

Isaura:

"O pai perguntava: sangras. E ela respondia: não. A mãe dizia: se calhar não foi ao fundo. O pai perguntava: saem coisas. (...) A Maria dizia à Isaura que devia meter o dedo mais comprido e muito esticado. (...) A água ia levando o corpo da rapariga como se lavasse sonhos também. (...)

o velho Alfredo:

"(...) e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. (...) E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase há um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. (...) o caixão fechava-se como um livro." 

Antonino:

"Garantir que o rachavam a meio era quase como apostar entre si quem o faria e tomaria a glória de eliminar tal monstro."

a anã: 

"Um dia, a anã disse que ainda esperava por um cavalheiro com um grande coração. Todas as que a ouviram estagnaram, perplexas..."

Crisóstomo:

"Aos quarenta anos, o Crisóstomo deitou-se sobre a areia e inventou que estava ligado a todas as pequenas e grandes coisas do mundo, como se lhes pertencesse por igual e cada pedaço da matéria fosse uma extensão longínqua de si."

Só vos tenho a dizer, leiam - é extremamente bom!

Boas leituras

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