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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

"O Meu Irmão" - Afonso Reis Cabral - Opinião

"As montanhas davam para o rio como paredes mal apontadas, sem a precisão que assinala o toque do homem. Naquela zona o homem ainda não existia."

Em que momento o homem nasce quando o interpretamos como homem?
Nasce na nossa relação com o outro? Nasce quando brota a nossa capacidade de amar? Ou quando somos capazes de actos altruístas, nobres, actos que revelam sentimentos, amor, compaixão, dedicação e amor ao próximo? O que nos humaniza? A família e o amor que nos ensinam e que antes nos mostram e nos fazem sentir?

Em "O Meu Irmão", obra vencedora do Prémio Leya de 2014, Afonso Reis Cabral leva-nos a sentir a mão pesada que o impacto da deficiência tem na estrutura de uma família e consequentemente num elemento específico. Caberá ao leitor tirar mais conclusões, mas acredito que sempre, sempre as retirará consoante os seus próprios ensinamentos e experiências de vida.

A deficiência não é aqui apaziguada ou romantizada. Nem o desapego é visto com horror ou como mero acto vil, julgo que nas entrelinhas o narrador, que já "fala" em duas vozes, se prenuncia numa terceira, quando deixa subentendida uma mensagem de amor... ou falta dele!?

O narrador, o irmão de Miguel, o portador de trissomia 21, nunca é nomeado, nunca se lhe conhece o nome ou características mais pessoais ou que promovam o apego e compreensão dos seus actos. Antes pelo contrário. As narrações mais diminuídas (quando lerem, entenderão), fazem dele isso mesmo, um ser reduzido, pela mágoa, pelo cinismo e pelos comentários mais nefastos ainda deixam a entender uma outra camada, uma maior misantropia .

"Quer dizer, não é dormir nem estar acordado. Sinto o corpo estendido na cama à espera do impulso para me levantar, mas ele não surge. Quero manter-me neste entretanto até ter coragem para começar o dia."

E é nesse entretanto, vago, vazio, desprovido de vivacidade e amor que o narrador desenvolve a sua vida por duas décadas, até ao culminar do reencontro com o irmão Miguel. É logo nesse início, nesse reatar dessa chama que antevemos o sentimento de posse. A presença de um sentimento nefasto que deixa adivinhar um cenário árido. Árido e exigente como o Tojal e arredores.

"Ponte da Telhe é uma farpa humana nas costelas do monte."

Há um dom na escrita que Afonso Reis Cabral traz até nós. A mim fez-me lembrar a aridez por vezes relatada por Valter Hugo Mãe, um cenário agreste mas cativante, que chama a si as almas mais desertas. E é um pouco disso que vemos na chegada do irmão e de Miguel ou na partida até de Quim.

"Mas por vezes parecia-me muito claro que um irmão tem pouco espaço na vida de um irmão (...)"

Que espaço ocupa a presença de um irmão deficiente e que buracos de inveja, pânico e desamor abrem nos corações dos outros, tão próximos mas igualmente afastados, pelas necessidades do outro.

"Eu nascera inteligente e perfeito, ele nascera inimputável e incompleto (...) um de nós conquistara o centro da vida e o outro não."

Sem dúvida que este é um romance notável para abanar estruturas e nos deixar a pensar, o tema da deficiência não é novo, mas resta perceber de que deficiência se trata aqui!?

"Viver sem retribuir é inútil."

Resta-me ainda dizer que este não é um romance negro, a não ser que o queiramos ver só por esse prisma, há relatos que demonstram o amor e a dedicação, de quem dá tudo, porque só sabe ser assim. No entanto, a síndrome T21 é repleta de momentos violentos e exigentes, para o portador e para a família e julgo que este livro é exímio em relatar isso.


Esta leitura teve o apoio, LEYA.
Siga mais sobre o livro e o autor, em: www.facebook.com/premioleya.omeuirmao 

2 comentários :

Isaura Pereira disse...

Olá!

Já li várias opiniões deste livro e nenhuma delas consensual!

Acho que vou ter mesmo de ler o livro!

Beijinhos e boas leituras!

EfeitoCris disse...

É um bom exercício mental a leitura deste "O Meu Irmão"
Recomenda-se