segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Opinião "O que fica somos nós"

Eu tenho uma certa e doentia preferência por romances que doem, por histórias impossíveis e por amores não correspondidos. 
Quando li que este "o que fica somos nós" era um encontro entre "Um dia" e "Viver depois de ti" sabia me iam arrancar pedacinhos do coração e não me enganei. 
Dei comigo a pensar "gostaria de ter escrito este livro". 


Lucy e Gabe conheceram-se num dia que ainda hoje me faz engolir em seco quando penso na data, 11 de setembro de 2001. O mundo mudou e consequentemente também todos nós mudámos. Para Lucy e Gabe foi o começo de algo arrebatador e honesto mas também o dia em que prometeram fazer os possíveis para deixar uma marca no mundo. Se para Lucy era mudar mentalidades das gerações futuras, para Gabe era mostrar a realidade ao mundo com as suas fotografias.
Mesmo quando tudo à nossa volta é um mar de rosas, há espinhos que mais tarde ou mais cedo acabam por nos ferir. Por vezes é o mundo que não nos deixa seguir o caminho que queremos e outras vezes somos nós que escolhemos um destino diferente e que não se mantém interligado com o da pessoa que mais amamos. 

A história de Lucy e Gabe é-nos contada pela voz de Lucy e isso aproxima-nos dela, quer pela dor que lhe reconhecemos quer pelas dúvidas que todos nós um dia já tivemos por mais perfeita que seja a nossa vida a determinado ponto. Quem nunca foi assaltada por um nome, um perfume ou a visão de alguém do passado? Quantos de nós temos uma pessoa nos nossos passados que ainda acampa no nosso coração e nos atormenta a alma? 

"Nunca senti que fosses meu no mesmo sentido em que o Darren o era...sempre me pareceu que pertencias a ti próprio e que te emprestava a mim quando te apetecia; nunca te possui completamente" 

Oh como eu gostei de ler esta história!
Passamos o livro a conhecer a sua história. O momento que se conheceram, o tempo que o fogo da sua paixão consumia todo o mundo em seu redor e os anos que passaram separados. Ao longo da leitura temos mil e uma ideias sobre o que se passou ou em que ponto estão agora. Queremos saber se eles algum dia voltam a ser o "nós" que internamente nunca deixaram de ser ou porque raio só ouvimos a voz de Lucy ao longo de todo o livro. E depois, se forem como eu, percebem tudo e fazem os possíveis para aguentar as lágrimas até ao final.

Este era daqueles livros que em filme resultava tãooooooooooooo bem :) 

Uma aposta

sábado, 11 de agosto de 2018

Opinião "Um Acordo Muito Sedutor"

Nem acredito que tive este livro na estante durante tanto tempo. Desculpa livrinho pelos 3 anos em que te ignorei :P
"Um acordo muito sedutor" é mesmo o tipo de leitura que me puxa para o modo leitura voraz que eu tanto aprecio. 


Louisa Stratton cresceu órfã. Quando os pais faleceram, ela tinha apenas quatro anos e desde esse momento todos os passos da sua vida foram controlados pela tia, que com punho de ferro comandou Louisa, a sua fortuna e Rosemont, a casa de família. E quando esse aperto afrouxou um pouco, Louisa não perdeu a oportunidade para agarrar a liberdade. Após uma viagem de um ano com apenas a sua fiel criada e amiga Kathleen por companhia, Louisa passeou, viveu, conduziu carros por caminhos perigosos e fugiu às responsabilidades mas pregou a maior mentira de todos os tempos, a que tinha conhecido e casado com o grande amor da sua vida, Maximilian Norwich. Agora no regresso a casa para solucionar de uma vez por todas os problemas que a afastaram, tem duas soluções: contar a verdade e ser considerada louca ou encontrar alguém que possa ser Maximilian por um mês 😃

 Charles Cooper é um capitão do exercício a quem os estilhaços da guerra feriram a alma e o corpo. Desde que regressou a Inglaterra, o único consolo que encontra é no esquecimento que uma gigantesca quantidade de gin lhe proporciona. Determinado em se manter afastado de tudo e todos, não é com bons olhos (ou olho, já que perdeu um na guerra) que vê a proposta da magnânima senhora Evensong, a proprietária da agência de recrutamento mais credível e respeitável do reino. Tudo o que Charles precisa de fazer, além de se manter sóbrio, é fingir ser o marido da herdeira Louisa Stratton no seu regresso a Rosemont. 

O que à primeira vista até parecia fácil, não o é, ou não fosse ela própria um caso especial e houvesse demasiada gente atrás da sua fortuna. A estadia em Rosemont é atribulada por mil e uma razões mas com especial ênfase no facto de alguém atentar contra a vida de Charles/Maximillian logo no primeiro dia e a atração entre o suposto casal começar quase que de imediato. Determinados em descobrir a verdade sobre o que se passa em Rosemont enquanto fingem ser marido e mulher em público mas andam secretamente a consumar o seu "casamento" em privado, Louisa e Charles criam um casal muito à frente do seu tempo, com uma dinâmica dentro e fora do quarto capaz de rivalizar com os grandes casais atormentados que temos conhecido em tantas histórias deste género. 
Separados têm as suas falhas, juntos são invencíveis.

Pena que não se tenha apostado mais nos livros desta autora. A série "Ladies Unlaced" tem mais três volumes e todos com uma mãozinha da Sra. Evensong

"Um Acordo Muito Sedutor" é um livro 

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Opinião "36 perguntas que me fizeram gostar de ti"

 
Qual foi a última vez que tiveram um encontro com um estranho?
Sei que na era da Internet, do Tinder e companhia isso é capaz de ser bem comum mas mesmo assim garanto que existem muitos de vós que responderam "nunca" ou "nem pensar" à minha pergunta.
Agora imaginem que são pessoas predispostas a responder a inquéritos, estudos de mercado e coisas do género. Achariam interessante o confronto de dois desconhecidos, escolhidos aleatoriamente, perante 36 perguntas feitas para se ficarem a conhecer melhor, quem sabe, até se apaixonarem?
Eu acho a experiência uma coisa curiosa e creio que por vezes encontramos mais facilidade em abrirmos a alma a um estranho, do que a quem nos conheceu toda a vida.

Hildy é a típica menina de boas famílias, voluntariosa por natureza que decide participar no estudo por puro "desporto", ou melhor, por interesse na área de psicologia. Quando descobre a temática fica um pouco de pé atrás, talvez por complicações amorosas passadas mas não hesita em avançar.
Já Paul chega desinteressado e pronto a despachar tudo num ápice, já que o incentivo à participação só é recebido no final.
O completo oposto a Hildy, que fala sem parar quanto mais nervosa está, Paul parece inicialmente arrogante e mais interessado em queimar o tempo do que ouvir a parceira no estudo mas quando o verniz entre ambos estala é que a coisa anima a valer.
Serão estas 36 perguntas suficientes para que os pólos opostos se atraíam?

Duas pessoas que caso se cruzassem na rua não olhariam uma para a outra com interesse, encontram nesta "experiência" o escrutínio que lhes permite olhar para si e para o outro com uma perspectiva diferente.
Um romance que me surpreendeu pela positiva e que me deixou a querer mais. Mais história, mais um livro, mais Paul e Hildy.

E vocês? Estão dispostas a sentar frente a frente com um desconhecido e responder honestamente a 36 perguntas que vos colocam a alma a nu?
Leiam o livro de Vicki Grant e confirmem isso mesmo. Eu dei por mim a responder às perguntas para mim própria e pensei no quanto deve ser um desafio olhar outra pessoa nos olhos e deixar sair cá para fora a verdade.

"36 perguntas que me fizeram gostar de ti" é um livro

Opinião da metade negra

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Opinião "Se eu tivesse um Duque"

Estes Duques da Desgraça são a minha perdição!
Depois do escandaloso duque de Harland e da falsa Lady Dorothea, em "Conquistar um Duque", temos a oportunidade de conhecer a verdadeira Thea e saber mais detalhes sobre o fugidio Duque de Osborne. 


 Educada para ser uma Lady refinada com as arestas todas limadas pela sua mãe a Condessa Beaumont, Dorothea tem sido sempre uma desilusão. Com duas temporadas repletas de gaffes e uma trapalhada de todo o tamanho no seu quase casamento com o Duque de Harland, Dorothea foi enviada para a Irlanda para casa de uma tia até ser novamente inserida na sociedade para aquela que será a sua última oportunidade. Determinada em passar despercebida e assim poder voltar à pacatez do campo onde pode sonhar com arte, em especial com a misteriosa vida da pintora Artemísia Gentileschi, Dorothea vê os seus intentos gorados quando numa tentativa de chamar a atenção do Duque de Orborne para os quadros da sua casa irlandesa, acaba no centro das atenções do primeiro baile da temporada e se torna a solteira mais desejada de Londres. Determinada em responsabilizar o culpado, nada mais nada menos que o libertino e fugidio Duque, Dorothea arrisca a sua reputação ao entrar nos aposentos ducais para exigir que este desfaça o mal que lhe fez ou compactue com a sua fuga para a Irlanda. O que ela mal sabe é que essa noite iria mudar o rumo da sua vida para sempre. O Duque não é apenas um homem indulgente e o ocioso. O sensacionalismo em volta dos seus casos amorosos é apenas um capote que encobre as suas actividades de justiceiro e a sua saga de vingança pela morte do irmão.

Da escura noite Londrina, de onde fugiram à pressa e descontentes com a companhia um do outro, até à costa da Irlanda onde colocam a nú a sua alma (e não só), Thea e Dalton (o Duque!) fazem deste "Se eu tivesse um Duque" uma magnífica continuação à série iniciada pela meia irmã dela e o melhor amigo dele. 

 "Desde que estejamos vivos, podemos mudar. Até sermos ossos a descansar numa cripta, temos o poder de moldar os nossos destinos" 

 E é com mestria, engenho, prazer e perdão que estes dois derrubam as barreiras que sempre os rodearam, quer tenham sido erigidas pela exigência da família, a sede de vingança ou a falta de confiança em si próprios. Adorei este Duque e Thea não lhe fica nada atrás. Adorei relembrar os quadros de Artemísia Gentileschi que como Thea, tive o prazer de observar durante muito tempo nas Uffizi em Florença. Curiosamente foi um livro que me levou lá. Quem diz que os livros não têm nada de interessante?!  

Estou bastante curiosa para saber o que se segue. Lorde Hatherly, está preparado para o seu escândalo amoroso?
Já estou a esfregar as mãos :D

Esta é uma novidade


terça-feira, 7 de agosto de 2018

Opiniao "A Ilha dos Segredos"

"Temos tendência para projectar o que queremos ver nas pessoas, ou o que achamos ser a verdade em relação a quem são"


Melhor que estar de férias é conseguir ler uma história que nos faz viajar para outro destino onde teríamos todo o gosto de ir e ficar lá perdida durante uns meses.
O encanto das ilhas gregas é-nos incutido ao longo de todo este romance, assim como a compreensão grega sobre os diversos tipos de amor, a devoção à família e a dualidade que o ser humano encontra quando o que mais deseja no mundo e o que deve fazer não coincidem.
 
Anna viveu a sua vida em Inglaterra e esta tem sido a sua casa desde sempre, no entanto, a ilha grega de onde o pai é natural e onde passou bons momentos da sua vida, ocupa um lugar especial no seu coração.
Quando a sua vida entra num momento montanha russa, em que o seu casamento sofre um abalo, a saudade da falecida mãe é insuportável e a necessidade de aproveitar tempo de qualidade com o pai é imperativa, Anna ruma à pequena ilha no mar Egeu para um verão repleto de horizontes a perder de vista, cheiros que a transportam para o passado e tempo que sobra para aproveitar a companhia do pai e dos familiares paternos.
No entanto o que Anna encontra é um verão com sabor à adolescência, repleto de noites ao som das ondas, dos cantares gregos e do tilintar de copos pela noite dentro.
É na ilha que irá igualmente encontrar alguma paz de espírito para voltar a desenhar pelo meio da natureza e sem querer, abrir uma janela para o passado, um conhecimento que a vai fazer colocar toda o seu passado em perspectiva e quem sabe moldar para sempre as decisões e a maneira como dá rumo à sua vida.

Uma lição sobre amor, família, herança cultural e o sentido que cada um dá à palavra "casa".
Mais que o sítio onde vivemos ou nascemos, "casa" pode assumir uma multitude se locais, caras ou momentos.
Poderá até ser um sentimento?


"A ilha dos segredos" é um romance de verão com a capacidade de nos fazer mergulhar de cabeça na leitura e esquecer a piscina que cintila à nossa frente.
Será que posso fechar os olhos aqui e abri-los de frente para o mar Egeu?
Esta descrição toda de sombras de limoeiros, noites quentes ao som de guitarras e copos, movimentos constantes do mar e o carácter grego só me deixou com mais vontade de ir à Grécia.
Posso ir umas semanas para uma destas ilhas no mar Egeu? Eu até aprendo um pouco de grego, não me importo.

Boas leituras
"A Ilha dos Segredos" é uma novidade

quarta-feira, 25 de julho de 2018

«O Executor» de Lars Kepler :: Opinião


A saga continua! Serão oito volumes e eu ainda tenho mais seis para me imiscuir no passado do detective Joona Linna. Em entrevista, a propósito de «O Executor» os autores referem o papel do passado, a profundidade dos assuntos e o compromisso com a leitura viciante. E neste vamos encontrar um tema polémico: a exportação de armas, os contratos entre governos e um dos negócios mais antigos do mundo, o tráfico.

Neste volume, o motivo que se aponta para as mortes está relacionado com o comercio ilegal de armas para zonas em conflito, países arrasados pela guerra e para os quais as leis internacionais proíbem exportar material bélico. Claro está, isso não se cumpre. É explorando esses contractos ilegais, esses pactos com o diabo, um negócio do qual nunca se sai ileso, que vamos seguindo viciados neste enredo e percebemos que a activista e pacifista Penélope Fernández é um alvo a abater. 

Este livro é também detalhado e muito completo para elucidar o leitor para a perícia com que os crimes podem ser executados, especialmente a forma como se suspeita do suicídio/assassinato de Carl Palmcrona. E isso é muito interessante.
Outro detalhe é como remete ao passado de diversos personagens para justificar as suas acções, traumas e preconceitos. Um dos que mais gostei foi de Saga Bauer e até nisso os autores estão atentos à actualidade e; como critica social descrevem as mulheres sempre em maior esforço e maior investimento para que lhes sejam valorizadas as suas competências, mostrando que os nórdicos também ainda têm ainda um caminho a percorrer no que respeita à igualdade de géneros. 

O drama dos refugiados, igualmente actual, também está presente neste volume, mais precisamente o drama do Darfur, as minorias étnicas e os massacres. E é bastante curioso que uma personagem como Penélope, com o passado de clausura que teve, ter como objectivo de vida estas missões humanitárias.

Melhor ainda é a correlação estabelecida ao longo de toda a história com a música e o compositor e violinista Niccolò Paganini. Uma obsessão que leva a um enredo paralelo (que daria bem um outro livro) e que ajudará a resolver os crimes. E com isto não estou a dar qualquer spoiler ;)

"O andamento é subitamente vertiginoso, prestíssimo. É divertido e belo e, ao mesmo tempo, entrecortado por repentinas mudanças de cordas e saltos arriscados entre as oitavas."

Tal como o livro da dupla Kepler!

*

Com este livro surge a referência para outro, um que uma das personagens lê: «O acidente» de Friedrich Dürrenmatt

sexta-feira, 20 de julho de 2018

«Fahrenheit 451» de Ray Bradbury - Opinião


Em 1953 o livro de Ray Bradbury foi publicado como um manifesto contra a censura e traçava um cenário diabólico, que à época parecia absurdo. Era afinal um aviso. O seu tom era premonitório e hoje choca pela semelhança com a realidade que temos, numa sociedade tão virada para os ecrãs e em constante estupidificação. 
O alerta era para a massificação da televisão e que as pessoas não estavam a perceber o quanto isso as tornava imbecis e desinteressadas do que realmente as rodeava. E pior é ver que mais de cinquenta anos depois a massificação continua e o cidadão vai empalidecendo atrás dos diversos tipos de ecrãs.
No entanto,  «Fahrenheit 451» é, acima de tudo, uma saga, uma viagem de redenção. Há uma reviravolta e uma conversão que ainda é possível: "vagabundos por fora e bibliotecas por dentro".

Da fogueira até aos homens-livro, conhecemos a reviravolta na cabeça de Montag, o bombeiro que incendeia livros: essas ameaças de luz aos cidadãos cinzentos, viciados em ecrãs e comprimidos. 
O prazer com que Montag exercia a sua profissão/missão é assustadora e percebe-se que é uma referência ligada ao passado recente de uma Europa entregue aos totalitarismos. A critica social é feroz e um espelho do que tem vindo a acontecer até aos dias de hoje:

"Depois, o cinema no início do século XX. A rádio. A televisão. As coisas começaram a ser em massa.
Montag permaneceu sentado, imóvel.
- E porque possuíam massa, tornaram-se mais simples. Outrora, os livros atraíram algumas pessoas, aqui e ali, um pouco por todo o lado. Pessoas que podiam dar-se ao luxo de serem diferentes. Havia espaço para isso no mundo. Mas depois o mundo encheu-se de olhos, de cotovelos e de bocas. A população duplicou, triplicou. Os filmes e a rádio, as revistas, os livros foram ficando todos ao mesmo nível, uma espécie de pudim pastoso (...)
- (...) Os livros ficam mais curtos. Condensações. Resumos. Tabloides. Tudo se orienta para a piada, o fim abrupto.
(...) Tudo digerido, resumido, digerido-resumido. Política? Uma coluna, duas frases, um título! E depois, tudo desaparece! A mente dos homens anda a tal velocidade neste carrossel movido pelas mãos dos editores, exploradores e radiodifusores que, nesse movimento centrífugo, se perde tudo o que seja pensamento, considerado desnecessário, uma perda de tempo!"

Até nesta digestão acelerada e ao sabor de interesses comerciais, este livro se aproxima dos dias de hoje. Cada avanço na narrativa quer chamar à atenção para o poder dos livros e da necessidade de abandonar a máscara social e a vida ao sabor de modas e tendências. Se actualmente "ser diferente" está na moda, a pergunta que fica é se essa diferença é genuína ou simplesmente provocada para uma integração no modelo ditado pelas maiorias. 

«Fahrenheit 451»  é um grito contra o status quo, é um abanão, abana a árvore e deita abaixo essa preguiça... a preguiça de questionar, de pensar. A sociedade distópica aqui relatada não questiona, não tem curiosidades, todos são egoístas e niilistas, aborrecidos e irresponsáveis. Controlam a raiva através de divertimentos tão bizarros e impunes como ir atropelar pessoas. Os livros aqui são símbolos para o livre pensamento, através do acto de ler, pensar, questionar e em última estância, criar e evoluir.

*
Uma edição SDE | Saída de Emergência


«O Hipnotista» - Lars Kepler :: Opinião


Publicado em 2010 pela Porto Editora, «O Hipnotista» inicia a saga do detective Joona Linna pela mão da dupla Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril, o casal por detrás do muito aclamado pseudónimo: Lars Kepler.
Aquando da publicação do último volume, «O Caçador», cujo a sinopse me cativou bastante, decidi-me a começar esta longa saga e ficar a conhecer esta dupla, donos de enredos psicológicos e sangrentos. 

«O Hipnotista» parte do mito grego, do deus Hipnos, cujo o nome significa «sono». Hipnos é irmão gémeo da morte e filho da noite da escuridão. Mas indica também que a hipnose remonta à medicina com a data de 1843, como um estado próximo do sono e, ao mesmo tempo, de extrema atenção e grande recetividade. 
Será com esta ambivalência que o leitor se depara durante todo o livro até perceber os motivos do crime inicial e de outros que são descobertos mais tarde. 

Também hipnotizado, o leitor segue com Erik Maria Bark, no frio anestesiante de uma noite nevada e desde logo se percebe que o hipnotista irá ceder e quebrar a promessa. Uma família foi violentamente assassinada, esquartejados, corpos despedaçados pela casa fora, uma carnificina digna de ajustes de contas entre cartéis de droga. 
Bark aceita a sugestão de Daniela e voltará a hipnotizar, mas com resultados que poderão entrar em conflito com o desenrolar da investigação a cargo de Joona Linna, ou pelo menos ele assim decide. Teimoso e persistente, Linna persegue uma investigação de contornos alucinantes, nomeadamente o rapaz que, vítima de inúmeras facadas, se encontrava vivo, contrariamente ao que era suposto.

"O comissário pensa na palavra sueca para «autópsia», obduktion, que vem do latim e que significa, originalmente, «cobrir, ocultar, envolver», quando, na realidade, o que se faz durante esse processo é precisamente o contrário."

Tal como numa investigação, recorra ela a um passado recente ou a um já bem enterrado.
O passado, tão útil a ocultar dramas, mas não a sarar feridas; vive precisamente disso: cobrir, ocultar, envolver e, influenciar o presente. Especialmente quando ocorre o rapto de Benjamin, filho de Erik Bark. É por certo o passado a persegui-lo!

"«O passado não está morto. O passado nem sequer passou», citando o escritor William Faulkner, referia-me a que cada pequena coisa que acontece a um ser humano o acompanha até ao presente. Todas as vivências influenciam (...) tratando-se de experiências traumáticas, o passado passa a ocupar todo o espaço do presente."

É precisamente dessas experiências traumáticas que a dupla Kepler se alimenta para tecer um thriller psicológico intenso e viciante, fazendo o leitor querer logo pegar no volume seguinte: «O Executor» de tão boa que é esta estreia.