quarta-feira, 3 de julho de 2019

“Alma e os mistérios da vida”, de Luísa Castel-Branco - Opinião


A minha mãe pede-me um livro e é assim que chego até este «Alma». Cheguei e fiquei até ao fim e não sei bem porquê, pois é uma leitura completamente fora das minhas escolhas, mas achei que um país mergulhado nas trevas da ditadura desse uma boa personagem, mas o país não se revela e a ditadura também não. São poucas as linhas que o descrevem, tal como a personagem que dá nome ao romance. Alma é uma personagem quase invisível, descrita pelas palavras dos outros e é a vida dos outros que vamos seguindo. 

"A sala estava à cunha e nem uma mosca zumbia, o ara estava pesado e peganhento. Com umas voz de cana rachada, tão fina como o bigode, o senhor inspector, sujeito atarracado, que tinha semelhança com o retrato do grande presidente, o Salvador da Nação, cujo o rosto presidia a todas as aulas numa moldura escrupulosamente limpa, procedeu à leitura das folhas de exame..."

Esta descrição, quase nas primeiras páginas, dão-nos o ambiente do Portugal de 70, mas o restante escrutinio passa rapidamente para as vidas de um leque amplo de personagens tapando a vida propriamente dita de Alma. No entanto, o tom em que o povo é descrito retrata muito bem a portugalidade da época e alguns traços que ainda hoje persistem.

"No Inverno, escondidas atrás das cortinas, espreitavam como gato castrados, e assim podiam recitar de cor a lista de quem tinha ido ao confessionário nos últimos anos..."

"(...) mesmo depois da Revolução, e durante uma época em que o ódio era o estrume das terras..."

Em parte, este romance alimenta-se muito desse estrume inerente à alma humana, uma estranha necessidade de dificultar a vida alheia, especialmente nesta época e essencialmente as vidas femininas, entregues aos caprichos das heranças de família e as falsas cortesias de homens que não as queriam, mas as precisavam desposar. Assim, as almas que povoam este livros estão entregues ao sofrimento. Seja ele por amor, ódio ou devoção.

"(...) e uma vez mais agradeceu ao bom Deus nunca lhe ter dado a conhecer o amor ou a paixão, livrando-o assim de ser barro nas mãos do destino."

Fruto da época, o medo também assume destaque: "O medo não morre de idade nem é passível de se perder nas brumas das memórias". Sentir medo, incutir medo, ter fé por ter medo... 

Existem, em certas passagens, descrições bem conseguidas das personagens, mas falta muito para ser um livro apetecível de ler e com um enredo bem entrelaçado.

"Tinha os olhos descaídos, como que prontos a tombar em cima da mesa ou de qualquer outra coisa, a todo o momento. Quando era criança, até que lhe emprestava um certo ar encantador, mas quando cresceu o rosto acabaria por descair como os seus olhos (...). Recordava um buldogue em poisio, um animal enroscado em si mesmo, cheio de pregas e mais pregas."



domingo, 19 de maio de 2019

Opinião "Acredita em mim"

Tenho andado distante dos livros. Se 2018 terminou com poucas leituras, estes primeiros meses de 2019 têm sido um deserto desprovido de oásis literários. Não tenho tido vontade, tempo ou cabeça. Tudo o que tenho começado a ler, fica pelo caminho. Pior, nem para livros me apetece olhar. Sinto que os estou a trair e faço os possíveis para que não reparem em mim quando passo os meus momentos de lazer a ver séries na Netflix mesmo em frente à estante. Vá, eu sei que os livros não me estão a julgar por ser uma má leitora MAS EU SIM.


Quando este "Acredita em Mim" me tocou à campainha eu andava a acalentar uma leitura que me submerge-se ao espírito "nem vou sair daqui para comer". Em 2017 JP Delaney fez de mim cativa com a leitura de "A Rapariga de Antes" e dei comigo a tecer enredos imaginários enquanto me deliciava com a loucura que foi visitar o Nº 1 de Folgate Street. Este "Acredita em mim" levou-me mais longe, levou-me a não conseguir acreditar nos meus próprios pensamentos e nos caminhos que o enredo me fez tecer mentalmente.
Dei por mim a pensar que por momentos estava tão perdida com o Claire, tão ludibriada com o enredo que não sabia bem quem dizia a verdade.
Acho que devia ter lido um romance e não um thriller que me entrou pela cabeça a dentro ao ponto de acordar a pensar na personagem e na resposta à pergunta "mas quem é o culpado?"
Mas ainda bem que o li porque terminei com o pensamento "Em livros que se matam pessoas, ressuscitam-se leitores"

Conhecemos Claire, uma actriz inglesa a viver em Nova Iorque que, por entre aulas de representação e uma carreira que teima em não arrancar, vai ganhando dinheiro para a renda com um esquema ludibrioso e pouco legal. Claire, na sua qualidade de mulher bonita e actriz versátil, representa o papel de sedutora perante um homem casado de modo a leva-lo a incriminar-se por infidelidade, o que garante à esposa e à empresa de advogados para o qual trabalha munições suficientes para avançar com divórcio. 
Mas o filme sobre a volátil mas carismática actriz a sobreviver na selva nova iorquina muda de género quando o seu mais recente alvo não sucumbe aos seus encantos e Claire se vê drasticamente arrastada para um caso de homicídio onde tão rápido lhe apontam o dedo com lhe pedem ajuda para encontrar o culpado.

"Sou só eu que faço isto - que sinto que estou constantemente a ver-me no filme da minha própria vida? Quando o pergunto a amigo, a maioria diz-me que sim sou só eu. Mas devem estar a mentir. Porque outra razão quereria alguém ser actor senão para poder editar a realidade"

Repleto de enganos, dramas, mentiras, macabrices ou simplesmente paranóia, este "Acredita em mim" pode ser um daqueles que se adora ou odeia. As reviravoltas, o "é e não é", são interessantes mas não nos deixam confiar em ninguém, pior, não nos deixam simpatizar com ninguém.
Logo de início li uma frase que me deixou a pensar e me acompanhou durante toda a leitura. 
"Quando as pessoas começam a pensar que têm o direito de procurar a sua felicidade em detrimento das normas sociais, acaba-se com um pequeno mas crescente número nas margens, pessoas que não entendem por que razão não haverão de satisfazer também os seus instintos mais negros e predatórios"

Acho que todos os leitores de thrillers e policiais têm de ter algo dark para lerem com tanta facilidade estas histórias, para conseguirem encontrar caminhos alternativos que o autor não seguiu.
Na realidade acabamos por nos meter na pele das personagens, exactamente como Claire.

"Representar não é fingir nem fazer-se passar por. Representar é fazer"
E é com esta frase que vos deixo, espero eu, com vontade de pegar no novo livro de JP Delaney. 
Este "Acredita em mim" requer um exercício de confiança. 
Abram o livro e deixem-se cair lá dentro.

PS: prometo voltar às leituras e às opinião mais completas e interessantes de se lerem.

"Acredita em mim" é uma novidade

quinta-feira, 18 de abril de 2019

«Princípio de Karenina» de Afonso Cruz :: Opinião



O princípio de Karenina ou a imperfeição que é querer medir a felicidade. 


"A imperfeição salvar-me-ia com igual intensidade e na mesma medida com que me faria sofrer"

É nesta medida dúbia, tendo na imperfeição a salvação, que um homem narra a sua história, numa longa carta de apresentação, à filha que não viu crescer. Explicando-lhe "uma orientação invisível e subtil das nossas vidas através dos afectos", mas também o drama de ter medo do desconhecido e como isso limita o tamanho do mundo; mundo esse sempre estrangeiro como o das mulheres que mais amou.

Essa aversão ao estrangeiro, as costas voltadas ao infinito que é uma janela aberta e toda as fronteiras que mais parecem muralhas, são heranças que cedo sabemos lhe terem ficado do pai. Heranças angustiantes, marcadas por sentimentos fortes que o sufocaram durante décadas. 

"Lembro-me muito bem dessa refeição em que o Dr. Vala disse à mesa que as batatas vinham da América do Sul. As emoções, positivas ou negativas, são uma máquina de impressão. Todos os acontecimentos tendem a desvanecer-se, mas a emoção grava-os na pedra da realidade, da nossa realidade (...) O cheiro das batatas cozidas estragava-me o nariz, (...). Olhei de soslaio para o meu pai, tentando perscrutar alguma reacção sua que confirmasse aquilo que eu acabara de perceber, a imoralidade de certa comida que mastigávamos e engolíamos (...)
- O que é que se passa? O menino está pálido.
Estava, efectivamente. Como se enfia na boca uma coisa de tão longe, com um oceano pelo meio, como se mastiga aquela distância toda?"

É essa distância, difícil de mastigar e, mais ainda de engolir, que o assombrou a vida inteira. Vida essa falsamente protegida pela imponência dos muros da moralidade, pregada entre gerações como estandarte contra o Mal.

"Um herói ou um santo só existe se confrontado com o Mal, só existe depois de emergir ileso da barbárie, e eu queria ser um santo como os que ouvia na missa e admirava nos nichos de pedra e nos frescos da igreja."

Para além dos santos, também a mãe vivia encerrada nesses nichos. Temente, ausente e de poucas palavras, constantemente esmagada entre a forte personalidade do marido e "a necessária encenação social que nos mantém coesos enquanto comunidade".

São entre estas personagens e outras pontuais que vamos conhecendo a história deste homem e de uma mulher vinda de geografias longínquas. Conhecemos-lhe o amor e os medos e questionamos atitudes de decisões de quem esteve mais perto de uma felicidade maior e a deixou fugir. Será mesmo assim? 
Este, como todos os livros de Afonso Cruz, faz-nos olhar para dentro. São frases pequenas, que parecem simples e que nos arrebatam, puxando-nos para dentro, numa tentativa de perceber mais o que metemos para fora. 
E a certa altura, numa conversa entre miúdos, concluímos que onde não há flores há caminho E que o medo nos pode fazer coxos da cabeça, deformando-nos. E que mesmo deformados encontramos um atalho para a vida.




sexta-feira, 12 de abril de 2019

O Arquipélago do Cão» de Philippe Claudel - Opinião


Um livro SEXTANTE

Pode este arquipélago usar a intensidade sufocante da ilha para se tornar num bom thriller? Philippe Claudel diz que sim e afirma ainda que a investigação atravessa toda a narrativa, não para se desvendar o crime, mas para revelar a mesquinhez e a passividade que altera os homens bons em seres medíocres e corruptos. 

"A morte dos três jovens negros não ocorrera na ilha. O mar abandonara-os na costa como se fossem madeiras que flutuavam. Ninguém os conhecia e as suas vidas de outrora nunca tinham tido qualquer contacto com as vidas dos habitantes da ilha. Só a morte os fizera cruzarem-se, mas isso não era uma razão suficientemente forte para que o quotidiano dos vivos fosse afectado." 

"O Cão está ali (...). Preparado para retalhar a imensidão azul-cobalto, longa e pálida, que o mapa cobre de números, que indicam as profundidades (...). As suas mandíbulas são duas ilhas encurvadas, a sua língua também, e os seus dentes, uns pontiagudos, outros maciços, outros afiados como punhais. (...) A vida na ilha provém do vulcão (...) Chamam-lhe o Brau. O nome tem uma sonoridade bárbara (...)"

«O arquipélago do cão» serve-se da parábola para figurar a actualidade da emigração e apontar o dedo à inércia de uma Europa envelhecida. O autor avisa-nos e coloca-nos naquele local, afirmando que fazemos parte dele. No entanto, a solidão árida e típica da ilha, envolta no odor a peixe e na miscelânea de cheiros de um vulcão adormecido pode não ter esse impacto no leitor.

O Cão, desumanizado pelas estações agrestes e pela emigração, simboliza uma comunidade de pessoas que estão conformadas e acomodadas à vida que levam, por isso, o autarca, o padre, a velha professora e os pescadores encarnam mais do que uma personagem, eles são o espelho das camadas da sociedade. Serem anónimos é o que lhes confere transversalidade, para que o leitor encontre semelhantes e desvende as metáforas inerentes às suas palavras, descrições e atitudes. 

"- Que querem que vos diga? Pensam que porque sou padre sei mais do que os senhores? (...) Se me fizessem perguntas sobre abelhas, poderia responder-lhes (...) - Aprendi muito com elas e o milagre do mel continua a deslumbrar-me. Se Deus existe está no mel! Foi isso que descobri em sessenta e nove anos de vida e cinquenta de sacerdócio. (...)
A religião cansava-o. Havia quem pensasse que ele próprio já não acreditava muito nela. Continuava a fingir, para não abandonar as suas últimas ovelhas, que, porém, chocara um dia durante o sermão, ao dizer-lhes que Deus partira, num regime de pré-reforma. (...) Está num processo de cessação progressiva de actividade. E a culpa é nossa."

Sempre a culpa. A tragédia grega envolta em culpa cristã. E se até Deus rescinde que sobra àquela comunidade? Um apelo à consciência? Ou um elemento que os venha espicaçar? ... sob a aparência de funcionário dos correios dormita uma moreia... e o que virá ela caçar com o seu olfacto apurado?

quarta-feira, 10 de abril de 2019

«Até ao fim do mundo» de Maria Semple :: Opinião


"Numa colina de Seattle, de onde se avistam ferry boats a deslizarem como caracóis na água, uma mãe peculiar, Bernadette Fox, evita conflitos e batalhas de melgas, que ela esmagaria só com um esgar e o seu toque de insólito. Com isso e com cartazes gigantes que deslizam em avalanches de lama.
INSÓLITO?
A maioria dos acontecimentos deste livro são insólitos e excêntricos!
A EXCENTRICIDADE cai aqui nas páginas deste livro como chuva, que tipicamente, cai em Seattle.

Mas passemos ao enredo. Bernadette comanda este show de marionetas peculiares. Manjula, a secretária virtual, sediada algures na Índia está encarrega de organizar uma viagem idealizada por Balakrishna ou Bee, a filha de Berdanette e do guru da Microsoft. Juntos, em família, eles pretendem chegar à Antártida, mas antes há que desmistificar o tumultuoso Estreito de Drake que já existe entre eles.
Isto tudo sem esquecer o naipe de estarolas que é a comissão de pais do Colégio Galer Street, especialmente com Soo-Lin Lee-Segal e Audrey Griffin, as melgas de eleição. 

Bernadette é louca? Talvez.
A sua filha é excêntrica? Pois claro. Vá lá ser-se de outra forma com uma mãe destas.
Bernadette é genial? Isso é de certeza. E o projecto Vinte Milhas (que gostava de perceber se existe!) é uma ideia maravilhosa e genial.

«Até ao fim do mundo» é uma leitura obrigatória? Não é, mas devia!
E o título também devia ter respeitado o original. «Para onde foste Bernadette?» é o enredo mais presente, já que esta mãe tem mais do que uma fuga em curso. Eu sei que a Antártida pode ser o fim do mundo, mas a viagem desta família começa dentro de casa, nas dinâmicas familiares e nas suas fugas excêntricas, mas iguais a tantas outras.

Se o enredo é estranho? Totalmente. Tal como a organização das vozes que o narram e o tipo de texto que usam, desde e-mail's a relatórios. Mas é tudo muito bom e faz uso da excentricidade da melhor forma possível. Maria Semple tem o dom da criatividade e suga o leitor para esta história louca e imparável. E sem esquecer um roteiro musical que acompanham mãe e filha, que estava a passar por uma fase «Abbey Road». 

"Quando começou «Here comes the sun», o que é que aconteceu? Não, o sol não apareceu, mas a mãe abriu-se num sorriso como o sol a trespassar as nuvens. Sabem como nas primeiras notas daquela canção há algo na guitarra do George que é tão cheio de esperança? Era como se, quando a mãe cantou, também ela estivesse cheia de esperança. Até acertou nas palmas irregulares durante o solo de guitarra (...) Por isso, quando chegou àquele medley fabuloso, a mãe e eu cantámos a acompanhar «You never give me your money» e depois «Sun King», que a mãe sabia, mesmo a parte em espanhol, e ela nem sequer sabe espanhol (...)


terça-feira, 2 de abril de 2019

Dia internacional do livro infantil


ilustração de Abigail Ascenso


DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL - 2 DE ABRIL
A 2 de abril, comemora-se o nascimento de Hans Christian Andersen e foi a partir de 1967 que este dia ganhou o título de Dia Internacional do Livro Infantil, inicialmente a sua comemoração era responsabilidade do IBBY Internacional, mas mais tarde foi alargada a as instituições que queiram chamar a atenção para a importância da leitura e dos livros para a infância, como é o caso da nossa DGLAB
Para celebrar o Dia Internacional do Livro Infantil em 2019, a DGLAB convidou a ilustradora Abigail Ascenso, vencedora de uma Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração do ano passado, para ser a autora da imagem do cartaz. 
Sobre a ilustradora:
Abigail Ascenso nasceu em 1979, em Leiria. Licenciada em Design de Comunicação/Arte Gráfica pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, fundou em 2003, com Fedra Santos, o atelier Furtacores Design e Comunicação, onde tem desenvolvido trabalho nas áreas de design gráfico, fotografia e ilustração infantil. Tem realizado exposições individuais de ilustração infantil e participado em colectivas de pintura. Com o livro Gaspar, o dedo diferente (texto de Ana Luísa Amaral), participou na mostra «100 Livros para o Futuro» promovida pela DGLAB na Feira do Livro Infantil de Bolonha em 2012. Ilustrou já mais de uma dezena de livros para os mais novos. Em 2018 recebeu uma das duas Menções Especiais do Prémio Nacional de Ilustração com o livro “A Noite”, com texto de Manuel António Pina.
Todos os anos é nomeado um país responsável pela mensagem e cartaz internacionais e em 2019 ficou a cargo da Lituânia, o texto e o cartaz são do escritor e ilustrador Kęstutis Kasparavičius. A tradução é de Maria Carlos Loureiro, directora dos serviços da DGLAB e que traduziu recentemente «Depois do Divórcio» da Nobel da Literatura Grazia Deledda (Sibila Publicações). 

OS LIVROS CONVIDAM A UMA PAUSA 

“Tenho pressa! … Não tenho tempo!... Adeus!...” Eis aqui expressões que ouvimos quase todos os dias, provavelmente não apenas na Lituânia, no coração da Europa, mas um pouco por todo o mundo. E também com frequência se ouve dizer que vivemos numa época de excesso de informação, de pressa, de aceleração. Mas quando pegamos num livro, sentimo-nos logo diferentes. É como se os livros tivessem uma característica maravilhosa: ajudam-nos a relaxar. 

Abrimos um livro, mergulhamos nas suas profundezas tranquilas, e esquecemos o medo de que tudo passe ao nosso lado a uma velocidade vertiginosa, não nos permitindo ver o que quer que seja. O livro faz-nos acreditar que podemos abandonar as tarefas aparentemente urgentes. Nele, tudo se passa calma e silenciosamente, segundo uma ordem pré definida
Será porque as suas páginas são numeradas, e porque o virar das folhas, uma após outra, produz um murmúrio tão calmo, tão leve? 

Num livro, aquilo que é já passado encontra-se docemente com o que está ainda por chegar. 
O mundo do livro é um mundo aberto; nele, a realidade convive com a fantasia e com a imaginação. E às vezes não sabemos bem onde observámos - se no livro, se na vida - a beleza dos pingos de neve que escorrem do telhado da casa, ou do musgo que cobre a cerca do vizinho. 

Terá sido no livro ou na vida que provámos as bagas silvestres e percebemos que, apesar de bonitas, são igualmente amargas? E foi no livro ou na vida que um dia te deitaste na relva, ou te sentaste depois, de pernas cruzadas, contemplando o movimento das nuvens que atravessam o céu? 

Os livros ensinam-nos a abrandar, ensinam-nos a observar; os livros convidam-nos, obrigam-nos quase a estar sentados. Sentamo-nos para ler um livro, poisamo-lo numa mesa ou nos joelhos – é ou não assim?! E será que nunca sentiram outro milagre? É que quando leem um livro, ele também vos lê. Sim, os livros também sabem ler. Leem a vossa testa, as sobrancelhas, os cantos dos lábios, que sobem, que descem, mas sobretudo, claro, leem os vossos olhos. E através dos olhos, eles veem… bem, todos sabemos o que eles veem! 

Tenho a certeza de que os livros poisados nos vossos joelhos não se aborrecem nem um minuto. É que quem lê – seja criança ou adulto -, é só por isso muito mais interessante do que aquele que resiste a pegar num livro, que está sempre com pressa e nunca se senta, e jamais tem tempo de observar seja o que for à sua volta. 

No Dia Internacional do Livro Infantil, o meu maior desejo é que existam livros interessantes para os leitores - e leitores interessantes para os livros. Kęstutis Kasparavičius (Trad. Maria Carlos Loureiro)

terça-feira, 19 de março de 2019

«Numa casca de noz» de Ian McEwan - Opinião

"O útero, ou este útero, não é um lugar tão mau quanto isso; assemelha-se ao túmulo, «agradável e privado», num dos poemas favoritos do meu pai.
Eu sei. Os sarcasmos não ficam bem a um nascituro."


Um nascituro "de pernas para o ar dentro de uma mulher" é o narrador deste relato ácido, peculiar e humorístico. O narrador-feto tem uma presença omnipresente e um lugar privilegiado garantindo-lhe saber dos acontecimentos em primeiríssima mão. McEwan consegue, com descrições brilhantes das personagens e de alguns acontecimentos, envolver o leitor nesta massa insólita e alimentar a sua curiosidade, apesar do tem banal do adultério.

"(...) Ouvi dizer uma vez e registei: um parolo de cérebro embotado. As minhas perspectivas tornam-se sombrias. A existência dele impede as minhas legítimas reivindicações a uma vida feliz ao cuidado dos dois progenitores. (...) 
E o Claude, como uma mosca volante (...) Nem sequer é um oportunista colorido, nem apresenta o mais leve indício do patife sorridente, (...) insípido para além da invenção, e de uma banalidade tão requintadamente trabalhada como os arabescos da Mesquita Azul."

Juntamente com Claude, Trudy a desleal, é a mãe deste narrador e congeminam um crime passional: matar John, marido, irmão e pai deste narrador ainda por nascer. 
Sim, leu bem, tal como em «Hamlet»  A mãe tem um caso com o cunhado, o irmão do marido. Tudo nesta noz tem traços de tragédia clássica. Aliás, o marido, é um poeta falhado, um ser envolto em neblinas de tristeza que declama o seu amor sob a forma antiquada de um soneto. Por outro lado, Claude, é um palerma, um parolo, um néscio, podendo-lhe ser atribuído título de bobo da corte.

Mas voltemos ao narrador, já que tudo à sua volta é caótico, desde os planos a que assiste à casa imunda onde a mãe e o tio habitam ou o seu mundo amniótico bem regado a copos de vinho que facilmente passam o ponto da degustação e podcasts sombrios que o vão educando para o estado do mundo.

"Todas as fontes concordam que a casa é imunda. Só lugares-comuns a definem bem: delapidada, a descascar-se, a desmoronar-se. A geada por vezes gela e torna rígidas as cortinas do Inverno; com as grandes chuvadas, os esgotos, como bancos de confiança, devolvem os depósitos com juros (...9"

Melhor que o argumento é a maneira como McEwan o expõem ao leitor. É brilhante a acidez e humor negro com que o descreve, deixando o adultério e até o crime para segundo plano, conferindo ao narrador preocupações existenciais e avaliações criticas do que o rodeia.

"Portanto, estamos sozinhos, todos nós, até eu, cada um a percorrer uma estrada deserta, transportando ao ombro, numa trouxa atada a um pau, os esquemas e os diagramas para um progresso inconsciente.
É um peso excessivo para suportar, demasiado sinistro para ser verdade. Porque havia o mundo de ser apresentar sob uma forma tão dura?"

O narrador é requintado e pejado de carácter, é um ser critico, mordaz e necessariamente dramático:
"Que me envenenem ao teu lado em vez de me entregarem em qualquer sítio
Típica auto-complacência de terceiro trimestre (...) Se a hipocrisia é o único preço, compro a vida burguesa e considero o preço barato. (...) e o meu direito é ao amor de uma mãe e é absoluto. Não vou dar aval às suas maquinações de abandono. O exilado não serei eu, mas ela. Vou atá-la com esta corda fina, pressioná-la, no dia do meu nascimento, com o olhar atordoado de recém-nascido e um lamento de gaivota solitária para lhe arpoar o coração."

Esta visão ampliada da realidade, proporcionada pela membrana reveladora é constantemente conseguida com ironia e erudição, ou não fosse a linguagem de McEwan o melhor deste romance ao conseguir dar a este personagem-narrador-feto-provocador camadas e camadas e personalidade.

"Nem toda a gente sabe o que é ter o pénis do rival do nosso pai a centímetros do nariz. Nesta última fase, deviam pensar em mim e conter-se. Se não em nome do parecer clínico, pelo menos por cortesia. Fecho os olhos, cerro as gengivas, apoio-me às paredes uterinas. (...) a cada movimento de êmbolo, receio que ele vá investir, perfurar o meu cérebro de ossos tenros e semear nos meus pensamentos a sua essência, a nata transbordante da sua banalidade. (...)
Como um sapo a copular, ele cola-se-lhe às costas. Em cima dela, agora dentro dela, e bem fundo. É muito pouco o que da minha mãe traiçoeira me separa do pretenso assassino do meu pai."