segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

PASSATEMPO 1 -- "Natal vegan e saudável"


PASSATEMPO 1 

"Natal vegan e saudável" em parceria com Um Curso em Sabores


Oferta de 2 livros com mais de 250 receitas vegan: 

sopas e entradas; molhos, marinadas e temperos 
saladas, massas e quiches
sumos e smoothies 
veggie burgers 
indiano e mexicano
superalimentos
doces e sobremesas 

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REGRAS PARA PARTICIPAR
Siga o link para o post no facebook 


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O passatempo decorre até ao final do dia 16/12/2018.
Os livros serão enviados por Um Curso em Sabores.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

«O Poder» de Naomi Alderman - Opinião



«O Poder» parte do pressuposto de inversão do poder institucionalizado, ou seja, a transferência do poder dos homens para as mulheres. Mas não só. As mulheres têm uma energia electrizante, capaz de alterar o significado mais alargado que atribuímos ao poder. «O Poder» que aqui lhes brota das mãos, talvez metáfora para a forma como Jesus fazia milagres, é uma força extrema capaz de torturar, invocando uma dor excruciante capaz de levar à morte. 

Esta força devastadora, como todas as forças, abre possibilidades para os seus detentores, que abençoados por esse poder podem praticar o bem e atribuir papeis mais justos ou decidir-se pelo mal e provocar uma reviravolta total na natureza das coisas. E é precisamente essa reviravolta e inversão que é o mote do livro. O poder total está do lado feminino e também anos de revolta e desigualdade, resta saber se o Mal, antes de erradicar a desigualdade, irá antes provocar um certo caos e violência, às vezes necessárias para despertar mentalidades. 

"A forma do poder é sempre a mesma; tem a forma de uma árvore. Das raízes às pontas, o tronco central ramificando-se e voltando a ramificar-se, alastrando sempre com dedos cada vez mais finos e exploradores."

A forma como esta distopia é desenvolvida e o recurso que faz a algumas imagens, levou-me a pensar em outros livros. Acho-o inseparável do «A história de uma serva» de Margaret Atwood (os traidores de género ou os homens necessitarem de uma guardiã feminina), quase um livro-resposta, vingando a submissão a que as mulheres são expostas como servas. Mas o lado que remete ao ancestral, à origem de certas gravuras que vão sendo reveladas, fez-me pensar em «A Fenda» de Doris Lessing, livro esse cheio de feminismo e de como as mulheres devem ter sempre papeis decisivos. 

Claro que todo o enredo é uma típica luta entre o Bem e o Mal e o livro assume essa luta de forma muito actual e cinematográfica recorrendo para isso a personagens bastante jovens e de diferentes meios sociais. Facilmente conquistará uma adaptação para série televisiva. No entanto e talvez pelo tom juvenil ou por estar constantemente a ligá-lo a outras referências tive dificuldade em apreciar a leitura e em acabá-lo. As gravuras e o lado de possibilidade histórica tribal captaram a minha atenção, mas o enredo em si não. Deverá ser um livro bastante interessante e desafiante para ser lido pelos mais jovens e até em contexto escolar.


«Salvação» de Ana Cristina Silva - Opinião


"Não grito menos, talvez grite mais baixinho, não choro menos, mas talvez as minhas lágrimas se tenham tornado menos silenciosas. Pela aritmética passaram seis meses desde a morte de Sofia, pelas minhas contas não passou nem um dia."

"Salvação" é um livro de recolhimento na morte e de superação pela escrita. Ou do processo de criação de personagens com as quais se reconstrói um sentido para a perda, o luto, mas também o perdão.

"Eu e David Negro recolhemo-nos na morte da mulher amada e tornámo-nos um só. Esta absorção de um no outro explica que tenha conseguido escrever um capítulo num único mês como se a minha personagem tivesse pegado na minha mão e redigisse por mim as frases."

Colonizado pela dor, o narrador deste livro dedica-se a preencher os seus dias com a escrita de um romance, um novo livro imposto pelo mulher que acabou de falecer, um pedido feito estratégia para que ele supere o luto.
Dividido em pouco mais de doze meses, acompanhamos os capítulos de "O Livro", escrito também sobre o luto e a perda de uma filha, onde o protagonista David Negro expõe as suas mágoas, memórias e reflexões. Ao mesmo tempo, em capítulos que são as fases de luto do narrador, vamos sabendo mais da sua vida com Sofia e do seu dia-a-dia lutando pela superação.

"Desde que a minha mulher morreu o meu luto tornou-se num dilúvio que não deixa espaço para mais nada. A dor não é um local iluminado (...) Mas neste momento, sinto que a jornada de David Negro se transforma num dever que vai para além do pedido de Sofia, ainda que esse percurso não esteja, nem nunca possa estar, separador dela. Até porque é minha intenção apontar o dedo ao deus a que ela tanto rezou e aprisioná-lo numa rede de acusações."

No longo corredor que é o luto e no qual não é possível passar a correr, o narrador embrenha-se numa complexa rede de memórias, no sofrimento e na culpa, sem esquecer acusações e dúvidas, onde Deus tem um papel decisivo, mas a História e o seu curso também. A forma como "O Livro" percorre séculos, o rumo dos eventos chega até aos actuais e as inquietações ancestrais são equiparadas às de hoje: as crises de fé e de valores e as consequências no ser humano. E assim, desta forma, Ana Cristina Silva cava ainda mais fundo o fosso do abandono e da culpa, retratando muito bem o lado emotivo dessa pressão psicológica.

"Continuo a falar com a minha mulher, mas lentamente a morte de Sofia vai deixando de ser a medida de todas as coisas. (...)
Se a dor tivesse assas e batesse, diria que o seu movimento se foi tornando mais suave (...) Porém, o sofrimento do luto não voa, apenas pulsa por dentro (...) tanto assim que só vivo para me afundar na memória dos tempos felizes."

Se retirássemos os capítulos que dizem respeito à escrita de "O Livro", a maneira como a autora relata a perda e a dor é de tal forma emotiva e insistente que traz o leitor para o sofrimento do narrador, tornando a leitura quase aflitiva. E quero com isto dizer que é extraordinária essa capacidade, pois não acho que caia na repetição, mas sim aumentando a densidade psicológica do personagem.

"(...) Em cada intervenção, ele alcança um novo patamar de profundidade, frases empolgadas, quase poéticas - como se existisse uma estética da morte - (...)"

Também seguindo uma estética da morte, associada à própria estética de fé e crença, "O Livro" transforma-se num romance histórico que denuncia e relembra o fanatismo religioso do século XVII e o liga aos eventos violentos actuais para os quais o próprio escritor se sensibiliza quando o luto lhe permita se ligar novamente à realidade que o rodeia: a morte no espectro do fanatismo jihadista.

"Há um momento em que tenho o mais absurdo dos pensamentos: talvez estivesse a ver repetidamente o mesmo grupo de pessoas a sofrer o mesmo atentado (...) Como se aquelas pessoas não tivessem individualidade, como se se tivessem convertido num borrão desfocado de um ecrã, como se a morte se tivesse tornado uma banalidade."



quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

«Jogos de raiva» de Rodrigo Guedes de Carvalho :: Opinião



Rodrigo Guedes de Carvalho escreve como quem atalha pelo mato. Muitas frases curtas como passos decididos mas que a falta de trilho obriga a recuar e a escolher outro sítio onde pisar. Repetem-se palavras, gestos, passos. Nessas insistências, uns quantos arranhões, dilacerando aqui e ali as pernas com que quer percorrer o resto do caminho. A mata é densa e os obstáculos exigem esforço e persistência. A mente, entregue mais aos pensamentos do que ao que palmilha, avança e reage, conforme o que o terreno pede. E se isto for metáfora suficiente para descrever, pela rama, a escrita do autor, não é suficiente para explicar o tamanho do enredo e das personagens deste livro.

"É tão difícil resistir quando nos elogiam, quando nos querem tudo o que em nós é inteligente e desconfiado se verga por vezes à cauda do pavão."

«Jogos de raiva» fala do mundo inteiro visto da janela jornalística deste externo ocidental, na mesma medida gigantesca que cava fundo um fosso familiar. Raiva, ódio, desenraizamento, memórias ou a incerteza de todas as mudanças e falsidades actuais, são apenas alguns dos grandes motes deste livro; e a forma como esses temas se transformam em sentimentos e nos entram pela casa adentro também. 
O romance expõe um olhar crítico e ácido denunciando como a actualidade afecta e condiciona e claro, molda a vida familiar. Isso tudo sem esquecer a equação complexa que é a vida por si só e o peso do passado. 

"Dividido por secções, para melhor organização do consumidor, o jornalismo só tem verdadeiramente uma área, que engole o mundo inteiro: nós. (...) 
O jornalismo, na verdade, não é realmente necessário para que o mundo gire e progrida, (...) nós viveríamos sem ele. (...) O jornalismo é só um espelho na parede, não é o cimento que sustém a casa. (...) O jornalismo não é água ou comida ou abrigo ou medicamentos. Só existe porque queremos saber do resto de nós. Somos animal de grupo. Queremos espelho e o jornalismo pendura-se à nossa frente."

As reflexões presentes no livro podem ser interpretadas à luz do tema específico ou como metáfora alargada a várias áreas da vida familiar e em sociedade. O tom crítico nunca se perde, bem como a tensão e o enigma em torno da família Sereno: "O problema dos segredos é que não são biodegradáveis. Não desaparecem só porque os amarramos a uma pedra pesada e os lançamos ao rio." 

Também muito presente no livro, são as referências constantes a Virginia Woolf, Oscar Wilde ou Tim Burton, talvez como pedras-de-toque para reforçar a qualidade e o sentido das revelações que conferem reviravoltas na vida das personagens. Ou para aferir a necessidade das obras de artes na nossa vida. Farão falta as pinturas, os livros, a música ou filmes? Fará falta o livro «O Fantoche» que Francisco Sereno irrompe a escrever? 
São essas reviravoltas que podem estar imiscuídas nas brechas que o jornalismo tem e onde esconde meias verdades, ou nas redes sociais, cheias de zonas cinzentas que dificultam a divisão entre o bem e o mal ou na relação entre pai e filho, que discutem como se a vida não fosse finita e o fim não chegasse de forma inesperada.

O inesperado acontece várias vezes ao longo do livro, com pequenos retornos ao passado, precipitando o leitor em conclusões que saberá logo a seguir serem erradas. E esse é um jogo ainda maior que Rodrigo Guedes de Carvalho estabelece com os seus leitores. Joga com perspicácia, aguçando a curiosidade do leitor. No entanto, existe uma passagem, quase logo ao início que espelha muito bem o que o autor engendrou para este livro: "Há uma brutal exigência na psiquiatria e são poucos os que a antevêem quando se decidem pelo ramo. Ser, entre todos, um curador de almas. Vestir uma túnica e abrir os braços. Deixai vir a mim os depressivos, os dementes e esquizofrénicos, os ansiosos e os bipolares. Pretende-se do que resgata almas um primado de razão rodeado por irrazoáveis."

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

«Se esta rua falasse» de James Baldwin :: Opinião

Alfaguara, 2018


Com mais de 40 anos desde a publicação original, «Se esta rua falasse» (1974) é a primeira obra de James Baldwin (1924-1987) a ser publicada em Portugal, um ano depois de termos tido a possibilidade de assistir ao documentário "Eu Não Sou o Teu Negro" e a obra do autor ganhou projecção bem como os temas por ele abordados: o racismo e a complexidade das classes sociais, juntamente com questões de homossexualidade. 

"A mente é como um objecto que apanha pó. O objecto não sabe, tal como a mente não sabe, por que razão o que se agarra a ele se agarra a ele. Mas, quando algo te atinge, não desaparece..."

A crítica refere-se a este livro como um romance-manifesto, expondo a injustiça, o racismo e a desesperança de uma família negra quando um dos seus é preso injustamente. Falsamente acusado de violação, Fonny é encarcerado e a sua namorada adolescente, Tish, descobre estar grávida. A prisão separa-os e impede-os de prosseguir as suas vidas. No entanto, há mais a separá-los, o racismo e a discriminação social numa Nova Iorque da década de 70 que talvez pudesse ser a de hoje e isso confere ao romance a intemporalidade dos grandes livros, seja por esse ambiente social ou pelo eterno enredo amoroso de amor incondicional.

"Acho que deve ser raro duas pessoas conseguirem rir e fazer amor ao mesmo tempo, fazer amor porque riem, rirem porque estão a fazer amor. O amor e o riso vêm do mesmo lugar: mas poucas pessoas lá chegam."

Ambas as famílias lutam, cada uma à sua maneira e com os seus próprios demónios, para entender a seu papel na sociedade, na família e até na segregação mascarada de tolerância e integração igualitária, no entanto, a acusação e a dificuldade de defender Fonny prova-lhes que a luta pelos Direitos Civis está na ordem do dia. Tal como hoje continua e é denunciada por movimentos como Black Lives Matter, para os quais o nome do autor tem sido chamado, especialmente depois da adapatação de alguns dos seus textos para o cinema.

No entanto, Baldwin não expõe, de maneira usual, o tema do racismo, interessa-lhe antes expor a magnitude da família e demonstrar a igualdade dessa forma; nos relacionamentos que todos estabelecemos, nos pensamentos e memórias ou preocupações que todos temos; fazendo um retrato do íntimo , semelhante a qualquer um de nós, independentemente de cor, origem ou patamar social.

"Pais e filhos são uma coisa. Pais e filhas, outra.
Não adianta tentar compreender este mistério, tão longe de ser simples como de ser seguro. Não sabemos o suficiente sobre nós mesmos. Acho que é melhor sabermos que não sabemos, porque assim podemos crescer com o mistério, à medida que o mistério cresce dentro de nós. Mas, por estes dias, toda a gente sabe tudo, e é por isso que tanta gente anda tão perdida."

Outra particularidade de Baldwin é o tom da sua escrita, de um encadeamento de frases simples e reduzidas, rapidamente saem parágrafos introspectivos, nos quais facilmente lemos a actualidade da sua escrita: "(...) e a chave para a ilusão é a cumplicidade. O mundo vê o que deseja ver ou, quando as coisas não estão a correr bem, o que lhe dissermos para ver: não quer saber quem, nem o quê, nem porquê."

O que torna mesmo pertinente a publicação de autores como este, é a densidade psicológica da sua escrita. Através de uma linguagem acessível a todos, contribuí para a compreensão do outro, mostrando a pressão psicológica inerente ao ser humano que luta por ser aceite e por se compreender a si mesmo.

"As pessoas fazem-nos pagar pelo aspecto que temos, que é também o aspecto que julgamos ter, e o que o tempo inscreve num rosto humano é o registo desse choque frontal."


sábado, 1 de dezembro de 2018

Opinião "Um dia em Dezembro"

Imaginem uma sala cheia com todas as pessoas que já passaram pela vossa vida. Pensem naquela pessoa, sim aquele tipo especial, aquele que nunca esqueceram, o vosso calcanhar de Aquiles, a vossa pedra no sapato, a primeira cara ou nome que sem controlo vos surge na mente quando confrontados com a ideia do "de sempre e para sempre". Lembram-se do dia em que se conheceram? Lembram-se do dia em que perceberam que nunca iam deixar de gostar dessa pessoa? 
Pois, é assim este "Um dia em Dezembro"



Corria 2008 a passos cansados para o Natal quando Laurie vislumbrou na paragem do autocarro aquele que a fez acreditar que o amor à primeira vista não acontece só nos filmes. A indecisão do momento "vai não vai" fez com que os seus caminhos seguissem sentidos diferentes e foram precisos 12 longos meses de procura por toda a cidade de Londres para encontrar O Rapaz do Autocarro. Onde precisamente ? Com o braço à volta da mais do que amiga quase que irmã de Laurie, a espectacular Sarah.
Ninguém merece!

Num voto de silêncio comum e crente de que o outro não se recorda daquele instante fugaz mas marcante, Jack e Laurie tornam-se conhecidos, amigos, confidentes mas marcam sempre a traço forte a linha limite que não poderiam nunca ultrapassar até ao dia em que a vida os faz baixar a guarda e admitir que aquele momento existiu e que por muito que aconteça ele não desapareceu com os anos, por mais que eles passem.

"Caminhas ao de leve pela vida, mas deixas pegadas profundas que outras pessoas têm dificuldade de preencher"

(Opah lembrou-me o Love, Rosie!)

Uma década de evolução pessoal, de amor, de dor, de lições de vida, de infelicidade e também de grandes alegrias.
Este livro conseguiu agarrar-me com força ao ponto de me esquecer do sono e seguir com a leitura noite dentro.
Tem uma característica que me agrada muito, a escrita tem um cunho humorístico muito bom, especialmente nos momentos contados pelo ponto de vista de Laurie.
Oh e como eu adoro romances de natal. Não sou louca pela quadra mas gosto bastante de histórias que se passam nesta altura, que o diga a Netflix e os filmes natalícios que gosto bastante de ver. Este era perfeito para isso 😍
É verdade que este livro não se passa exclusivamente no natal, na realidade, talvez apele ao meu gosto inexplicável por romances impossíveis, aos amores e desamores que se prolongam ao longo de anos....mas vocês já sabem isso, os meus livros preferidos são sempre assim.

Por falar nisso, ando com tantaaaa vontade de reler "Um dia" :)
Um dia...até lá, vamos lendo as novidades.
Que me dizem desta?

Deixo-vos com música.


It weighs heavier on one's heart 
I could tell right from the start that 
Sweet ones are hard to come across 
Well, there is more than meets the eyes 
Heart like yours is rare to find 
Someone else's gain will be my loss


Uma novidade

domingo, 25 de novembro de 2018

Opinião "O Castigo dos Ignorantes"


"O Castigo dos Ignorantes" vem dar continuidade à série da Riskmord e às peripécias da vida de Sebastian Bergman, principalmente agora que sabemos a sua relação a Vanja e o seu conhecimento sobre Billy. Mas este caso é ainda melhor do que os desenvolvimentos nas histórias pessoais dos membros da equipa. Vamos lá falar de "O Castigo dos Ignorantes".



Num mundo em que se dá demasiado tempo de antena a gente acéfala e sem qualquer conteúdo inteligente, como se chama atenção para a cultura, a inteligência e os verdadeiros valores?
Segundo este "O Castigo dos Ignorantes" é preciso entrar a matar e separar o trigo do joio.

O novo caso atribuído à equipa de Torkel Hoglund apresenta-nos dois participantes de reality shows, pseudo famosos, cuja atenção e visibilidade recebida lhes garantiu um encontro imediato com um assassino que tem um método bastante peculiar de avaliar se as suas vítimas merecem ou não continuar a viver. Menos de um terço de respostas certas num teste de cultura  geral e a sua vida esvai-se tão rápido como a sua fama. 
Mas de quem é a culpa da massificação desta cultura superficial e sem conteúdo?
A culpa é destas pessoas que ganham visibilidade com coisas sem interesse ou das pessoas que as seguem e imitam?
Como apontar culpados quando parece que todo o mundo segue o mesmo padrão? O quão alto terá o assassino de ir para transmitir a sua mensagem?
Qual será " O castigo dos ignorantes"?

Curiosamente, eu que até simpatizo com o pensamento que damos demasiada visibilidade à futilidade e tornamos famosos gente que não tem propriamente algo de interessante a transmitir, não passava no teste do assassino. Raios e eu nem me considero inteiramente burra. 
Pior...nunca pensei concordar, em determinados pontos, com um assassino mas neste livro comigo a pensar "oh pah, ele tem uma certa lógica" :O
Acho que devia só ler romances para não me aperceber de coisas assustadoras sobre a minha pessoa.
Este livro, que já é o quinto da série, tornou-se um dos meus preferidos quer pelo caso quer pelos desenvolvimentos na história de cada um deles. Especialmente de Billy! Quem leu o último sabe que as coisas não ficaram simples mas a coisa só vai escalar a partir daí!
E depois de um desfecho do caso que nos fez ficar suspensos na pontinha do sofá, este livro termina mesmo ao género da reação "Ohhhh shit, agora é que vai ser!"
Que venha o próximo!


Relembro a opinião aos anteriores livros da série


Opinião Segredos Obscuros . ElsaR e EfeitoCris

Opinião O Discípulo . ElsaR

Opinião ao "O Homem Ausente"


Opinião ao "A Menina Silenciosa"

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

"O Que Perdemos" de Zinzi Clemmons :: Opinião


Se perder rimasse com desenraizamento, talvez Thandi tivesse lugar numa geografia concreta, fosse ela africana ou americana. Mas não. Não encaixa. O mais certo é não encaixar em lado nenhum. Thandi não é completamente negra para combinar com a sua carapinha na África do Sul, mas também não é branca o suficiente para encaixar numa Pensilvânia onde é vista como imigrante, estrangeira, africana, preta... 
Por isso, Thandi remeteu-se à geografia familiar, ao sentir-se segura no amparo da sua mãe. E por isso mesmo, «Tudo o que perdemos» é um relato íntimo, fragmentado e desconexo, revelando a vulnerabilidade de uma mulher à procura de uma nova âncora, alimentada por um misto de emoções.

"Nasci no momento em que o Apartheid morria. (...) Nasci na América, a minha mãe, em Joanesburgo e o meu pai, em Nova Iorque. (...)
- A tua mãe era incontornável - contou-me o meu pai. (...)
A minha mãe aproximava-se dos outros de forma agressiva. Era extremamente obstinada e cáustica. (...) As raízes da minha mãe eram fortes e profundas; os seus relacionamentos, resilientes; as amizades sobreviviam a décadas, oceanos e cortes. (...)"

Durante os primeiros capítulos conhecemos esta mãe arrebatadora e firme, mas também os sentimentos, medos e preocupações de Thandi, muitos deles ocultos para a família, sejam sobre a África do Sul, o bairro na Pensilvânia ou outras miudezas da vida do dia a dia.

"Tenho pensado muitas vezes que ser mulher negra de pede clara é como ser uma pessoa bem vestida que também é sem abrigo."

O feitio da mãe e as regras por ela ditadas como mandamentos, formataram-lhe o olhar e o pensamento. O que a mãe trouxe em si de uma África segregada ou a forma como se moldou a uma  América igualmente violenta, influenciou por completo, a forma de Thandi olhar ao mundo. No entanto, faltava ainda que essas regras se redefinissem à medida dos dias e da idade. E antes disso, a doença levou-a. 
A morte da mãe abriu um fosso, buraco esse que não se encherá apenas de coisas simples ou fúteis e muitos dos capítulos são prova disso; relatos dos remendos e das tábuas de salvação, tudo soluções provisórias.

"O meu amor é amável. Não é dado a raiva. É ponderado, bem-disposto e puro. (...) No circuito da minha vida, ele é o chão. Equilibra-me, permite que eu flua num ritmo regular. (...)
Muitas vezes dou comigo, quando discutimos por causa da conta, quando ele mastiga ruidosamente ou se ri na parte errada de um filme, não a perguntar se dou feliz, mas se a minha mãe o aprovaria."

Com a história e o crescimento de Thandi cruzam-se acontecimentos que mudam África, seja a do Sul ou todo um continente colossal; bem como factos incontornáveis que moldam a América, ainda assim o isolamento e as divagações pautam os dias de Thandi. 

"A minha teoria é que o isolamento cria um sentimento de assombração."

Dizer que a maternidade vai alterar o curso deste livro não surpreende; ela é todo o motor destes sentimentos e indecisões que transitam em Thandi. Aliás, a maternidade é o que congestiona o trânsito interno da personagem, portanto era de esperar que o mesmo a descongestionasse, Thandi é mãe, mas o sentimento de pena não a abandona.

"Perder é mesmo assim, uma coisa completa e irreversível."