quinta-feira, 18 de abril de 2019

«Princípio de Karenina» de Afonso Cruz :: Opinião



O princípio de Karenina ou a imperfeição que é querer medir a felicidade. 


"A imperfeição salvar-me-ia com igual intensidade e na mesma medida com que me faria sofrer"

É nesta medida dúbia, tendo na imperfeição a salvação, que um homem narra a sua história, numa longa carta de apresentação, à filha que não viu crescer. Explicando-lhe "uma orientação invisível e subtil das nossas vidas através dos afectos", mas também o drama de ter medo do desconhecido e como isso limita o tamanho do mundo; mundo esse sempre estrangeiro como o das mulheres que mais amou.

Essa aversão ao estrangeiro, as costas voltadas ao infinito que é uma janela aberta e toda as fronteiras que mais parecem muralhas, são heranças que cedo sabemos lhe terem ficado do pai. Heranças angustiantes, marcadas por sentimentos fortes que o sufocaram durante décadas. 

"Lembro-me muito bem dessa refeição em que o Dr. Vala disse à mesa que as batatas vinham da América do Sul. As emoções, positivas ou negativas, são uma máquina de impressão. Todos os acontecimentos tendem a desvanecer-se, mas a emoção grava-os na pedra da realidade, da nossa realidade (...) O cheiro das batatas cozidas estragava-me o nariz, (...). Olhei de soslaio para o meu pai, tentando perscrutar alguma reacção sua que confirmasse aquilo que eu acabara de perceber, a imoralidade de certa comida que mastigávamos e engolíamos (...)
- O que é que se passa? O menino está pálido.
Estava, efectivamente. Como se enfia na boca uma coisa de tão longe, com um oceano pelo meio, como se mastiga aquela distância toda?"

É essa distância, difícil de mastigar e, mais ainda de engolir, que o assombrou a vida inteira. Vida essa falsamente protegida pela imponência dos muros da moralidade, pregada entre gerações como estandarte contra o Mal.

"Um herói ou um santo só existe se confrontado com o Mal, só existe depois de emergir ileso da barbárie, e eu queria ser um santo como os que ouvia na missa e admirava nos nichos de pedra e nos frescos da igreja."

Para além dos santos, também a mãe vivia encerrada nesses nichos. Temente, ausente e de poucas palavras, constantemente esmagada entre a forte personalidade do marido e "a necessária encenação social que nos mantém coesos enquanto comunidade".

São entre estas personagens e outras pontuais que vamos conhecendo a história deste homem e de uma mulher vinda de geografias longínquas. Conhecemos-lhe o amor e os medos e questionamos atitudes de decisões de quem esteve mais perto de uma felicidade maior e a deixou fugir. Será mesmo assim? 
Este, como todos os livros de Afonso Cruz, faz-nos olhar para dentro. São frases pequenas, que parecem simples e que nos arrebatam, puxando-nos para dentro, numa tentativa de perceber mais o que metemos para fora. 
E a certa altura, numa conversa entre miúdos, concluímos que onde não há flores há caminho E que o medo nos pode fazer coxos da cabeça, deformando-nos. E que mesmo deformados encontramos um atalho para a vida.




sexta-feira, 12 de abril de 2019

O Arquipélago do Cão» de Philippe Claudel - Opinião


Um livro SEXTANTE

Pode este arquipélago usar a intensidade sufocante da ilha para se tornar num bom thriller? Philippe Claudel diz que sim e afirma ainda que a investigação atravessa toda a narrativa, não para se desvendar o crime, mas para revelar a mesquinhez e a passividade que altera os homens bons em seres medíocres e corruptos. 

"A morte dos três jovens negros não ocorrera na ilha. O mar abandonara-os na costa como se fossem madeiras que flutuavam. Ninguém os conhecia e as suas vidas de outrora nunca tinham tido qualquer contacto com as vidas dos habitantes da ilha. Só a morte os fizera cruzarem-se, mas isso não era uma razão suficientemente forte para que o quotidiano dos vivos fosse afectado." 

"O Cão está ali (...). Preparado para retalhar a imensidão azul-cobalto, longa e pálida, que o mapa cobre de números, que indicam as profundidades (...). As suas mandíbulas são duas ilhas encurvadas, a sua língua também, e os seus dentes, uns pontiagudos, outros maciços, outros afiados como punhais. (...) A vida na ilha provém do vulcão (...) Chamam-lhe o Brau. O nome tem uma sonoridade bárbara (...)"

«O arquipélago do cão» serve-se da parábola para figurar a actualidade da emigração e apontar o dedo à inércia de uma Europa envelhecida. O autor avisa-nos e coloca-nos naquele local, afirmando que fazemos parte dele. No entanto, a solidão árida e típica da ilha, envolta no odor a peixe e na miscelânea de cheiros de um vulcão adormecido pode não ter esse impacto no leitor.

O Cão, desumanizado pelas estações agrestes e pela emigração, simboliza uma comunidade de pessoas que estão conformadas e acomodadas à vida que levam, por isso, o autarca, o padre, a velha professora e os pescadores encarnam mais do que uma personagem, eles são o espelho das camadas da sociedade. Serem anónimos é o que lhes confere transversalidade, para que o leitor encontre semelhantes e desvende as metáforas inerentes às suas palavras, descrições e atitudes. 

"- Que querem que vos diga? Pensam que porque sou padre sei mais do que os senhores? (...) Se me fizessem perguntas sobre abelhas, poderia responder-lhes (...) - Aprendi muito com elas e o milagre do mel continua a deslumbrar-me. Se Deus existe está no mel! Foi isso que descobri em sessenta e nove anos de vida e cinquenta de sacerdócio. (...)
A religião cansava-o. Havia quem pensasse que ele próprio já não acreditava muito nela. Continuava a fingir, para não abandonar as suas últimas ovelhas, que, porém, chocara um dia durante o sermão, ao dizer-lhes que Deus partira, num regime de pré-reforma. (...) Está num processo de cessação progressiva de actividade. E a culpa é nossa."

Sempre a culpa. A tragédia grega envolta em culpa cristã. E se até Deus rescinde que sobra àquela comunidade? Um apelo à consciência? Ou um elemento que os venha espicaçar? ... sob a aparência de funcionário dos correios dormita uma moreia... e o que virá ela caçar com o seu olfacto apurado?

quarta-feira, 10 de abril de 2019

«Até ao fim do mundo» de Maria Semple :: Opinião


"Numa colina de Seattle, de onde se avistam ferry boats a deslizarem como caracóis na água, uma mãe peculiar, Bernadette Fox, evita conflitos e batalhas de melgas, que ela esmagaria só com um esgar e o seu toque de insólito. Com isso e com cartazes gigantes que deslizam em avalanches de lama.
INSÓLITO?
A maioria dos acontecimentos deste livro são insólitos e excêntricos!
A EXCENTRICIDADE cai aqui nas páginas deste livro como chuva, que tipicamente, cai em Seattle.

Mas passemos ao enredo. Bernadette comanda este show de marionetas peculiares. Manjula, a secretária virtual, sediada algures na Índia está encarrega de organizar uma viagem idealizada por Balakrishna ou Bee, a filha de Berdanette e do guru da Microsoft. Juntos, em família, eles pretendem chegar à Antártida, mas antes há que desmistificar o tumultuoso Estreito de Drake que já existe entre eles.
Isto tudo sem esquecer o naipe de estarolas que é a comissão de pais do Colégio Galer Street, especialmente com Soo-Lin Lee-Segal e Audrey Griffin, as melgas de eleição. 

Bernadette é louca? Talvez.
A sua filha é excêntrica? Pois claro. Vá lá ser-se de outra forma com uma mãe destas.
Bernadette é genial? Isso é de certeza. E o projecto Vinte Milhas (que gostava de perceber se existe!) é uma ideia maravilhosa e genial.

«Até ao fim do mundo» é uma leitura obrigatória? Não é, mas devia!
E o título também devia ter respeitado o original. «Para onde foste Bernadette?» é o enredo mais presente, já que esta mãe tem mais do que uma fuga em curso. Eu sei que a Antártida pode ser o fim do mundo, mas a viagem desta família começa dentro de casa, nas dinâmicas familiares e nas suas fugas excêntricas, mas iguais a tantas outras.

Se o enredo é estranho? Totalmente. Tal como a organização das vozes que o narram e o tipo de texto que usam, desde e-mail's a relatórios. Mas é tudo muito bom e faz uso da excentricidade da melhor forma possível. Maria Semple tem o dom da criatividade e suga o leitor para esta história louca e imparável. E sem esquecer um roteiro musical que acompanham mãe e filha, que estava a passar por uma fase «Abbey Road». 

"Quando começou «Here comes the sun», o que é que aconteceu? Não, o sol não apareceu, mas a mãe abriu-se num sorriso como o sol a trespassar as nuvens. Sabem como nas primeiras notas daquela canção há algo na guitarra do George que é tão cheio de esperança? Era como se, quando a mãe cantou, também ela estivesse cheia de esperança. Até acertou nas palmas irregulares durante o solo de guitarra (...) Por isso, quando chegou àquele medley fabuloso, a mãe e eu cantámos a acompanhar «You never give me your money» e depois «Sun King», que a mãe sabia, mesmo a parte em espanhol, e ela nem sequer sabe espanhol (...)


terça-feira, 2 de abril de 2019

Dia internacional do livro infantil


ilustração de Abigail Ascenso


DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL - 2 DE ABRIL
A 2 de abril, comemora-se o nascimento de Hans Christian Andersen e foi a partir de 1967 que este dia ganhou o título de Dia Internacional do Livro Infantil, inicialmente a sua comemoração era responsabilidade do IBBY Internacional, mas mais tarde foi alargada a as instituições que queiram chamar a atenção para a importância da leitura e dos livros para a infância, como é o caso da nossa DGLAB
Para celebrar o Dia Internacional do Livro Infantil em 2019, a DGLAB convidou a ilustradora Abigail Ascenso, vencedora de uma Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração do ano passado, para ser a autora da imagem do cartaz. 
Sobre a ilustradora:
Abigail Ascenso nasceu em 1979, em Leiria. Licenciada em Design de Comunicação/Arte Gráfica pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, fundou em 2003, com Fedra Santos, o atelier Furtacores Design e Comunicação, onde tem desenvolvido trabalho nas áreas de design gráfico, fotografia e ilustração infantil. Tem realizado exposições individuais de ilustração infantil e participado em colectivas de pintura. Com o livro Gaspar, o dedo diferente (texto de Ana Luísa Amaral), participou na mostra «100 Livros para o Futuro» promovida pela DGLAB na Feira do Livro Infantil de Bolonha em 2012. Ilustrou já mais de uma dezena de livros para os mais novos. Em 2018 recebeu uma das duas Menções Especiais do Prémio Nacional de Ilustração com o livro “A Noite”, com texto de Manuel António Pina.
Todos os anos é nomeado um país responsável pela mensagem e cartaz internacionais e em 2019 ficou a cargo da Lituânia, o texto e o cartaz são do escritor e ilustrador Kęstutis Kasparavičius. A tradução é de Maria Carlos Loureiro, directora dos serviços da DGLAB e que traduziu recentemente «Depois do Divórcio» da Nobel da Literatura Grazia Deledda (Sibila Publicações). 

OS LIVROS CONVIDAM A UMA PAUSA 

“Tenho pressa! … Não tenho tempo!... Adeus!...” Eis aqui expressões que ouvimos quase todos os dias, provavelmente não apenas na Lituânia, no coração da Europa, mas um pouco por todo o mundo. E também com frequência se ouve dizer que vivemos numa época de excesso de informação, de pressa, de aceleração. Mas quando pegamos num livro, sentimo-nos logo diferentes. É como se os livros tivessem uma característica maravilhosa: ajudam-nos a relaxar. 

Abrimos um livro, mergulhamos nas suas profundezas tranquilas, e esquecemos o medo de que tudo passe ao nosso lado a uma velocidade vertiginosa, não nos permitindo ver o que quer que seja. O livro faz-nos acreditar que podemos abandonar as tarefas aparentemente urgentes. Nele, tudo se passa calma e silenciosamente, segundo uma ordem pré definida
Será porque as suas páginas são numeradas, e porque o virar das folhas, uma após outra, produz um murmúrio tão calmo, tão leve? 

Num livro, aquilo que é já passado encontra-se docemente com o que está ainda por chegar. 
O mundo do livro é um mundo aberto; nele, a realidade convive com a fantasia e com a imaginação. E às vezes não sabemos bem onde observámos - se no livro, se na vida - a beleza dos pingos de neve que escorrem do telhado da casa, ou do musgo que cobre a cerca do vizinho. 

Terá sido no livro ou na vida que provámos as bagas silvestres e percebemos que, apesar de bonitas, são igualmente amargas? E foi no livro ou na vida que um dia te deitaste na relva, ou te sentaste depois, de pernas cruzadas, contemplando o movimento das nuvens que atravessam o céu? 

Os livros ensinam-nos a abrandar, ensinam-nos a observar; os livros convidam-nos, obrigam-nos quase a estar sentados. Sentamo-nos para ler um livro, poisamo-lo numa mesa ou nos joelhos – é ou não assim?! E será que nunca sentiram outro milagre? É que quando leem um livro, ele também vos lê. Sim, os livros também sabem ler. Leem a vossa testa, as sobrancelhas, os cantos dos lábios, que sobem, que descem, mas sobretudo, claro, leem os vossos olhos. E através dos olhos, eles veem… bem, todos sabemos o que eles veem! 

Tenho a certeza de que os livros poisados nos vossos joelhos não se aborrecem nem um minuto. É que quem lê – seja criança ou adulto -, é só por isso muito mais interessante do que aquele que resiste a pegar num livro, que está sempre com pressa e nunca se senta, e jamais tem tempo de observar seja o que for à sua volta. 

No Dia Internacional do Livro Infantil, o meu maior desejo é que existam livros interessantes para os leitores - e leitores interessantes para os livros. Kęstutis Kasparavičius (Trad. Maria Carlos Loureiro)

terça-feira, 19 de março de 2019

«Numa casca de noz» de Ian McEwan - Opinião

"O útero, ou este útero, não é um lugar tão mau quanto isso; assemelha-se ao túmulo, «agradável e privado», num dos poemas favoritos do meu pai.
Eu sei. Os sarcasmos não ficam bem a um nascituro."


Um nascituro "de pernas para o ar dentro de uma mulher" é o narrador deste relato ácido, peculiar e humorístico. O narrador-feto tem uma presença omnipresente e um lugar privilegiado garantindo-lhe saber dos acontecimentos em primeiríssima mão. McEwan consegue, com descrições brilhantes das personagens e de alguns acontecimentos, envolver o leitor nesta massa insólita e alimentar a sua curiosidade, apesar do tem banal do adultério.

"(...) Ouvi dizer uma vez e registei: um parolo de cérebro embotado. As minhas perspectivas tornam-se sombrias. A existência dele impede as minhas legítimas reivindicações a uma vida feliz ao cuidado dos dois progenitores. (...) 
E o Claude, como uma mosca volante (...) Nem sequer é um oportunista colorido, nem apresenta o mais leve indício do patife sorridente, (...) insípido para além da invenção, e de uma banalidade tão requintadamente trabalhada como os arabescos da Mesquita Azul."

Juntamente com Claude, Trudy a desleal, é a mãe deste narrador e congeminam um crime passional: matar John, marido, irmão e pai deste narrador ainda por nascer. 
Sim, leu bem, tal como em «Hamlet»  A mãe tem um caso com o cunhado, o irmão do marido. Tudo nesta noz tem traços de tragédia clássica. Aliás, o marido, é um poeta falhado, um ser envolto em neblinas de tristeza que declama o seu amor sob a forma antiquada de um soneto. Por outro lado, Claude, é um palerma, um parolo, um néscio, podendo-lhe ser atribuído título de bobo da corte.

Mas voltemos ao narrador, já que tudo à sua volta é caótico, desde os planos a que assiste à casa imunda onde a mãe e o tio habitam ou o seu mundo amniótico bem regado a copos de vinho que facilmente passam o ponto da degustação e podcasts sombrios que o vão educando para o estado do mundo.

"Todas as fontes concordam que a casa é imunda. Só lugares-comuns a definem bem: delapidada, a descascar-se, a desmoronar-se. A geada por vezes gela e torna rígidas as cortinas do Inverno; com as grandes chuvadas, os esgotos, como bancos de confiança, devolvem os depósitos com juros (...9"

Melhor que o argumento é a maneira como McEwan o expõem ao leitor. É brilhante a acidez e humor negro com que o descreve, deixando o adultério e até o crime para segundo plano, conferindo ao narrador preocupações existenciais e avaliações criticas do que o rodeia.

"Portanto, estamos sozinhos, todos nós, até eu, cada um a percorrer uma estrada deserta, transportando ao ombro, numa trouxa atada a um pau, os esquemas e os diagramas para um progresso inconsciente.
É um peso excessivo para suportar, demasiado sinistro para ser verdade. Porque havia o mundo de ser apresentar sob uma forma tão dura?"

O narrador é requintado e pejado de carácter, é um ser critico, mordaz e necessariamente dramático:
"Que me envenenem ao teu lado em vez de me entregarem em qualquer sítio
Típica auto-complacência de terceiro trimestre (...) Se a hipocrisia é o único preço, compro a vida burguesa e considero o preço barato. (...) e o meu direito é ao amor de uma mãe e é absoluto. Não vou dar aval às suas maquinações de abandono. O exilado não serei eu, mas ela. Vou atá-la com esta corda fina, pressioná-la, no dia do meu nascimento, com o olhar atordoado de recém-nascido e um lamento de gaivota solitária para lhe arpoar o coração."

Esta visão ampliada da realidade, proporcionada pela membrana reveladora é constantemente conseguida com ironia e erudição, ou não fosse a linguagem de McEwan o melhor deste romance ao conseguir dar a este personagem-narrador-feto-provocador camadas e camadas e personalidade.

"Nem toda a gente sabe o que é ter o pénis do rival do nosso pai a centímetros do nariz. Nesta última fase, deviam pensar em mim e conter-se. Se não em nome do parecer clínico, pelo menos por cortesia. Fecho os olhos, cerro as gengivas, apoio-me às paredes uterinas. (...) a cada movimento de êmbolo, receio que ele vá investir, perfurar o meu cérebro de ossos tenros e semear nos meus pensamentos a sua essência, a nata transbordante da sua banalidade. (...)
Como um sapo a copular, ele cola-se-lhe às costas. Em cima dela, agora dentro dela, e bem fundo. É muito pouco o que da minha mãe traiçoeira me separa do pretenso assassino do meu pai."



segunda-feira, 18 de março de 2019

«A Última Ceia» de Nuno Nepomuceno :: Opinião


"Os italianos chavamam-lhe Il Cenacolo. (...)
Todos a conheciam como A Última Ceia
(...)
Apesar do restauro recente, o estado de degradação não só era considerável, como notório. Partes do desenho inicial do desenho de Leonardo estavam desaparecidas, outras simplesmente tinham sido eliminadas, mas, quando a luz na sala diminuiu ligeiramente, provavelmente devido a uma nuvem que passava lá fora, Sofia deu por si maravilhada.
Pálidas carícias de cor, na sua maioria em tons pastel, ganharam vida perante si. Depois da entrada triunfal em Jerusalém, Jesus reuniu os apóstolos para uma refeição e previu, entre outras coisas, que um deles iria traí-lo. As grandes figuras dos discípulos agruparam-se à sua volta em conjuntos de retórica. Revoltados, gesticularam e argumentaram com uma emotividade nunca antes representada, escutados ao longe pelas montanhas que os espiavam através das janelas entreabertas."


Uma obra de arte icónica, um roubo que supera interesses monetários e uma história de amor fugaz repintam esta última ceia num tom enigmático e conferem-lhe um acabamento de thriller sofisticado. As descrições bem conseguidas e uma escrita que cativa pelo ritmo que impõe, conduz o leitor por uma viagem entre ruas, igrejas, galerias e obras de arte, como se ele próprio viajasse por Itália. E o leitor escolherá: ou vive intensamente a paixão recente entre Giancarlo Baresi e Sofia Conti, especulando as intenções de cada um ou se preocupa em desvendar a motivação por detrás do roubo de tal peça gigantesca e de valor incalculável. Independentemente da escolha, o leitor é sempre acompanhado por bons momentos literários, navegando ao longo de diversos períodos da História, tal como acontece nos últimos dois livros de Nuno Nepomuceno: «A célula adormecida» e «Pecados Santos». 

"Mas a arte é um conceito poderoso (...)
O povo hebraico achou a escultura de um bezerro de ouro tão impressionante, que resolveu venerá-lo tanto como a Deus. Luís XVI perdeu o trono devido, em parte, aos gastos excessivos que fez em quadros (...)
»A arte mão é um animal exótico que se guarde em cativeiro para que possamos admirá-lo todos os dias (...)"

A religião está sempre presente nos últimos livros de Nepomuceno, se bem que neste há um salto, cruzando religião e arte, tornando os crimes mais passionais, conferindo um tom airoso para falar do Cristianismo. Outro detalhe sempre bem conseguido é a forma como o autor aprofunda a vida dos personagens que se repetem e vêm pintalgando as três narrativas. Vemo-los surgir em cada um dos livros sempre com mais detalhes, como se cada um deles fosse um quadro em constante restauro, é assim no caso de Afonso (e de Diana), permitindo ao leitor acompanhar aquela história e os fantasmas que ficam adormecidos e, a quem que não leu os livros anteriores, a querer lê-los para entender determinadas acções dos personagens. 

Outro pormenor que tem marcado estas leituras são os relatos dos crimes ou das cenas de violência e é interessante ver como um autor evolui e com muito menos descrições consegue transmitir violência, pavor, angústia e medo, sem perder humor ou a capacidade de permitir ao leitor várias sensações numa só passagem. 

"O Tamisa serpenteava no meio dos edifícios vitorianos, mas eram os arranha-céus que mais se destacavam. O sempre ácido humor britânico batizara-os bem. Os ingleses chamavam-lhes The Gherkin - O Pepino -, The Cheesegrater - O ralador de queijo -, The Razor - A lâmina de barbear (...)
Antes de começar a falar, Richard lançou um último vislumbre aos arranha-céus. Curioso, era exactamente assim que se sentia, como um aperitivo cortado em pedaços e pronto a ser servido grelhado para o italiano degustar."


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terça-feira, 12 de março de 2019

«o escuro que te ilumina» de José Riço Direitinho - opinião


Tenho, necessariamente, de pessoalizar este meu texto sobre o mais recente livro de Riço Direitinho. Sou fã do autor e sigo muitas vezes sugestões de leitura comentadas por ele no Público. Por isso, e por ser fã do fabuloso breviário; só podia correr a comprar e, a ler, este novo livro perante o lançamento tanto alarido se fez. 
No entanto, ao lê-lo fui ficando escurecida com o que me esperava, página atrás de página. O tom encantatório que eu queria reencontrar, apenas me chegava por referências do autor e não pelas suas palavras.
Agora, volvidos mais de seis meses da sua leitura e por motivo deste texto, releio partes, umas ao acaso, outros marcadas e descubro-lhe uns traços que captaram a minha atenção e me puxam para o reler na íntegra.

*

O narrador, homem de meia idade e professor universitário, entediado com a rotina da vida, decide espiar a vizinhança e com os segredos dos outros expiar os seus males. Entretanto vai tecendo um diário e mina-o de referências e citações de outros autores. Se inicialmente me pareceu um exagero, agora em releitura acho-o um detalhe obrigatório para a personagem. Ossos do ofício!

"Contrariando o que disse Herr Nietzsche:
Não são os abismos que só por si nos atraem, são os nossos próprios precipícios que se iluminam com a visão desses outros abismos: dos teus."

Nesses abismos, ficamos logo a saber, existe um alvo: uma mulher, ser observado e desejado, para quem o narrador se dirige: escrevo como se me lesses. (...)
"Ficaram-me os olhos em ti na primeira vez que te vi (...) 
Não sei como exprimir a ideia.
Fui-te construindo: como quem constrói com objectos soltos uma infância que a vida fez esquecer (...)"

Desenamorado da vida, o professor avança compulsivamente com o telescópio e o acto de espiar rapidamente o ultrapassa. 

"As vidas dos outros, olhadas com distância, sempre me interessaram (...) interessam-me como histórias: matéria bruta: acasos. Não me prendem por aquilo que contam, mas pelo que possam esconder: (...) como algo que está ali diante de nós e que não se revela a um olhar distraído: que temos de descobrir: como deve acontecer nas boas histórias."

“O espaço doméstico, esse ringue de silêncios pactuados e de lutas mudas, pode ser o território mais difícil de habitar: mas é talvez dos poucos a que sabemos poder sempre voltar, e é isso que, de uma forma ou de outra, nos conforta e sobretudo nos protege.”

Eu não sei se Riço Direitinho consegue essa tal boa história, mas consegue escamotear as intenções do personagem que mais adiante no relato podem surpreender o leitor. Fugindo desse ringue doméstico e de forma tão ao acaso e quase natural, a vida evolui para a devassidão. 

"É verdade que, depois de termos deixado calcificar a vida (assim como acontece com as torneiras que já não abrem nem fecham, só pingam durante a noite - não, isto não é uma irónica metáfora sobre o sexo conjugal), precisamos quase sempre de um estímulo para ressuscitar."

Contrariando essa calcificação da vida, o professor ressuscita fantasias sexuais que compulsivamente segue, com bazófia e profusão, trazendo constantes descrições de cenas de sexo explícito para a narrativa.  

"A transgressão, mais do que libertar, conduz ao desejo: a fantasia é sempre um acto transgressor, necessário para todas as almas que acreditam - que acreditam no que quer que seja."

Se o personagem transgride fá-lo em plena consciência e coragem. Pode não a ter para a sua fantasia mais concreta: ela, a desejada, mas o abismo profundo da solidão revela-lhe lugares e noites de plurais onde se pode abandonar à libertinagem que Lisboa lhe oferecer e a partir daí detalha um guia com direito a códigos de conduta, dress code e localizações gps. 

"Há nas verdadeiras almas atormentadas um desespero existencial que passa para o sexo (...)"

E é isso, temos aqui uma alma atormentada e não se lhe conhecem mais motivos do que um amor angelical e platónico e umas quantas críticas à sua forma física, erotizando-lhe apenas a inteligência. No entanto, para além da solidão também o sexo é embutido na rotina: sexo desenfreado como catarse para esbater a solidão nos breves segundos de um orgasmo.

As repetidas jogadas sexuais, algumas roçando o ridículo (como a aluna que pede: “Foda-me o cu, professor! E vá declamando um soneto de Bocage." - que professor faz) tornam-se o «pão nosso de cada dia» e o relato vai perdendo intensidade. Repete-se o sexo explícito mas cheio de metáforas, a critica social é mordaz e inteligente, mas o que mais fica é que o sexo tanto exibe o mais moderno de cada um, como esconde medos, fracassos e o peso do envelhecimento.