sexta-feira, 14 de setembro de 2018

"UPA-LA, UPA, UPA, UPA-LA"

"UPA-LA, UPA, UPA, UPA-LA" ou «A nossa alegria chegou» é o regresso, esfuziante e fantasioso, de Alexandra Lucas Coelho ao romance.



Agarre neste livro e num pano de estampagem colorida, tire os chinelos de enfiar no dedo e siga pelo trilho mais isolado até à praia. Sinta o calor da areia a espalhar-se pelo dedos, a chegar aos tornozelos, deixe a brisa invadir-lhe o rosto. Encontre um pedaço de areia só para si e leia. Leia sem parar. A sensação que se tem com este livro é de que Alexandra Lucas Coelho (ALC) o escreveu de rompante, tal é a energia com que nos agarra e prende do princípio ou fim da leitura.

"- A história do mundo começou em Alendabar, contam os nativos!
O convidado está disposto a concordar, perante o que vê. Uma orla florejante bordeja o areal, extensíssimo. Num extremo da praia, a falésia negra, encostada a um vulcão. No outro, a foz do rio incandescente (...)
Valeu a pena contornar o planeta, pensa. Nem muros nem mastins, a selva será a melhor guarnição."

Alendabar é lugar imaginário, tem cheiros fauna e flora e, restos de uma língua perdida entre canoas e um povo que se balança nas redes suportadas pelas morambeiras. Povo esse que come as cinza dos seus mortos, misturada na polpa tenra e fresca das morambas, num ritual ao pé do rio que abriga os mitos dos seus deuses ancestrais.

"Há milénios que as morambeiras de Alendabar são o braço a camas de rede, guarida a barcos de pescador, além de tudo o que nelas pousa, mora, se come ou se bebe. (...)
Mais antigo, só o cacto flor de índigo...
(...)
Fantasia é quase fé. E um sexo exposto é deus."

A escrita escorreita e tão directa de ALC quase que ataca o leitor. Há coisas escritas de forma tão declarada, tão escarrapachada, que o leitor até precisa de as ler duas vezes para as perceber melhor, e percebeu, é claro que percebeu, mas é essa incidência, esse lado tão incisivo que abanam o leitor.

"Então Aurora parou de pensar nisso. Pensou que pensar nisso é que era um truque do mal para nos desorientar, até não acreditarmos em nada. E quando não acreditamos em nada o mal ganha. Não podemos esquecer quem é o verdadeiro inimigo. O bem não é um truque do mal. O bem é acreditar que o mal não levará tudo. O bem é a luta."

E sim, este é um livro de luta, de denúncia, do mal contra o bem, da inocência da idade, mas da pouca idade marcada pelos desaires da vida. Aurora, Ossi e Ira são três jovens em defesa desse bem, buscando o lugar próprio de cada um entre a tirana que escraviza e amedronta. Tá cá tudo, neste livro cheio de foco: política, escravidão - a mais velha de todos os tempos e a mais moderna, a poluição e a preocupação com o ambiente, as questões de género e de igualdade, a falta de ética da exploração animal e a violência inerente, a ganância e a demência dos tempos modernos; mas também o amor, o luto, a paixão, o sexo e o acreditar que a vida pode ser sempre mais.

"Não há nada mais vazio do que um ecrã negro de um computador. (...) e dentro desse espelho dorme a voz que Zu mais ouviu nos últimos anos. Como pode ter saudades de alguém sem corpo, sem coração? Se Jade existe, como pode não estar com ela agora? Se Jade não existe, que faz ele aqui, de computador aberto?
(...)
Jade é a bela adormecida deste tempo. Aquele que nem pode ser beijada."

Alendabar tem aura de mil e uma noites, onde o sultão é o leitor, entretido pelas histórias, não de uma bela condenada à morte, mas de três jovens que parecem viver uma aventuras de «Ali Baba e os 40 ladrões», não no deserto mongol, mas numa praia de «Lagoa Azul», ou não fosse os cabelos loiros de alguns dignos de um espectáculo exótico.

Nestes cabelos loiros, a história é tecida com outros fios e unida à de Atlas, por quem Felix e a mãe estão de luto. Por fios ainda mais imaginário, há a história de um convidado, Zu, que encerra em si os medos e as ansiedades do homem moderno, essencialmente em conflito consigo mesmo.

"O humano é esse primata, não o que fala, não o que pensa, mas o da planta do pé arqueada que imagina histórias, ri com elas, chora com elas. Só ele sabe como estar vivo é o grande buraco negro."

«O corpo dela e outras partes» de Carmen Maria Machado :: Opinião



Uma poderosa e desconcertante reflexão sobre o que é ser mulher,
desejar, amar, resistir, viver como mulher.

FINALISTA DO NATIONAL BOOK AWARD E UM DOS MELHORES LIVROS DO ANO:

Barnes & Noble * Book Riot * Boston Globe * Chicago Review of Books * Elle * Huffington Post * Kirkus Reviews * Library Journal * Los Angeles Times * New York Times * Paris Review * Publishers Weekly * Washington Post

Uma edição ALFAGUARA

*


As distinções e ovações quase falam sozinhas sobre a qualidade reconhecida à escrita de Carmen Maria Machado, mas a questão que se principal é:
O que é viver no corpo de uma mulher?
Talvez seja pesquisar muito e lutar por entender a body literacy que encerra cada corpo feminino. 

Carmen Maria Machado explora cada conto com imprevisibilidade e experimentalismo, tal como se percorresse um corpo com ânsia de o conhecer em todos os seus recantos. É assim que eu leio os seus contos.

A voz do corpo, a voz por vezes escondida ou recatada. O dar voz às mulheres, pelo seu corpo, pelos seus desejos, pelos seus anseios e preocupações e pelas suas metades. 
Carmen Maria Machado assume-se metade diva, metade bruxa. Eu diria antes: metade besta, metade bestial. 
É isso mesmo: ser mulher, é ser capaz de numa hora ser uma mulher bestial, e na seguinte uma besta. O mundo assim o obriga e nós mulheres também. 

Qual dessas metades é a mais ligadas à fantasia?
Tudo dependerá muito de cada uma e da realidade de cada quotidiano. E pelo que lemos do livro, do entendimento que se faz do corpo com que se vive. E se o aceitamos ou não. 

Assumir o corpo é  talvez a forma mais rápida de entender o lado selvagem que cada uma tem em si, é aceitar que o humor, as necessidades, as vontades, os sentimentos, as paixões, as falhas...  oscilam. Aceitar, é talvez a nossa maior força.

Pela objectiva, cada vez mais afinada, da crítica cultural-feminista o livro de Machado é um livro político, muito centrado nos temas de hoje, um livro que mistura a realidade com a fantasia, alertando para as caixas e caixinhas que determinam o território feminino, condicionado à masculinidade de uma linguagem espalhada pelo mundo fora.

Nos oito contos, para além de um experimentalismo constante (a meu ver!), destacamos a forma de narrar que cruza, por palavras da autora, meta-ficção, não-realismo, fantasia, horror e ficção-científica. Tudo unido por uma imaginação recheada de folclore, muito dele proveniente das origens cubanas de Machado. 
Os críticos têm dificuldade em catalogá-la, chegando até ao rótulo de erótico e pornográfico. 
No entanto, o que interessa é o resultado. Todo são contos surreais, abordando constantemente o desejo como um motor poderoso e pequenos padrões, nas personagens, que se repetem e se aproximam à realidade. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

«A Submissão» de Amy Waldman - Opinião



"Deixa-me fazer-te uma pergunta. Tu, com as tuas causas liberais, como reconcilias o teu apoio ao islão com o teu apoio aos direitos dos homossexuais, ao feminismo, quando vês como as mulheres, ou os homossexuais, ou as minorias, são tratados em tantos países muçulmano?
- O Khan não é esse tipo de muçulmano.
- Mas então tens uma medida pessoal... os muçulmanos «aceitáveis» são aqueles que concordam contigo."

Quem são os muçulmanos aceitáveis?
Quais são as causas e as minorias por quem é «aceitável» lutar após o 11 de Setembro?
Quem são os que têm direito a decidir sobre o memorial a erguer no ground zero?
A quem pertence a maior dor? Existem mortes mais importantes do que outras? 
Quem tem legitimidade para afirmar sentenças perante temas tão ambíguos como o significado da arte ou a profundidade da dor?

O debate é acesso e pejado de discórdias: as aceitáveis e as manipuladas pela ganância dos media, astutamente personificada por Alyssa Spier. Mohammad Khan tem uma presença ambígua, mas o estado em que se encontra Nova Iorque e a opinião pública também. O conflito tem início com uma fuga de informação e a pressão espalha-se aos mais variados intervenientes. O peso da herança cultural, a interpretação do islão, o significado da arte e a profundidade da dor são o centro deste livro. Ou seja, política. Mas política é também o papel dominante dos jornalistas, das associações, dos debates transformados em manifestações, as angariações e os grupos de suporte, um manancial de intervenientes que espelham uma América divida, com medo e altamente manipulada por muito ruído e pouco espaço à reflexão. 

"(...) temos pessoas a arrancarem os lenços da cabeça das nossas mulheres e os nossos jovens a radicalizarem-se em resposta, e quem pode censurá-los? Isto vai acabar mal. - Virou-se para Mo. - Você está a levar-nos para um mau final. Foi você, não os terroristas, quem sequestrou a nossa religião. Pelo menos os terroristas são crentes. Qual é a sua desculpa?"

O extremismo não está só nas acções, mas também na forma tão "preto no branco" de olhar a um assunto complexo. 
"Mo não tinha o eco - teológico, histórico e histérico - de Mohammad." 
O não entendimento a Khan, assume exposição máxima, negando-lhe qualquer pertença. Sem obter aceitação de nenhum dos lados, Mo é excluídos de uma América que não entende os seus intentos e é igualmente excluídos de uma religião que pede mais do que ele dá. Sobra-lhe a arquitectura para interpretar o que o rodeia.

"Há cinco dias que estava a jejuar. Ele era apenas um grão de areia, entre centenas de milhões de muçulmanos que observavam o Ramadão - (...). Ele via esse período como um edifício, medido de quarto crescente a quarto crescente, fazia de cada dia uma sala, medida do nascer ao pôr do sol. A refeição antes do nascer do dia era uma ombreira e, durante as horas de abstinência, a boca era como uma porta trancada. Mas estes eram os conceitos rebuscados de um arquiteto. A verdade era que não sabia por que motivo estava a fazê-lo..."

O impulso de privilegiar a tolerância e a importância da arte como resposta para a esperança perdida chocam com a própria vulnerabilidade de cada um e o pedido de segurança que é feito por todos. É com muita desta dualidade que todo o enredo se depara, explorando teorias da conspiração que parecem absurdas, mas que pautaram os jornais naquele período conturbado.

"Claire acendeu a televisão, curiosa por saber o que as classes histéricas pensavam disto.
- Num desenvolvimento potencialmente explosivo, o design do memorial pode, na verdade, ser o Paraíso dos mártires - informou com ar sério um apresentador da Fox News, antes de passar a palavra a um painel de especialistas no islão radical.
(...)
- Os restos mortais deles também estão naqueles terrenos. Ele desenhou um túmulo, um cemitério, para os terroristas, não para as suas vítimas. Certamente que sabia que, em árabe, a palavra para túmulo e jardim é a mesma. 
(...) «Jardim da Vitória» gritava o Post. O editorial de opinião do Wall Street Journal chamava ao design de Khan «um ataque à herança judaico-cristã da América (...) uma tentativa encoberta de islamização.», prosseguia o artigo."

A memória colectiva quer manter viva a memória de uma tragédia, mas a necessidade de se curvar perante necessidades tão particulares e outras tão patrióticas, torna impraticável o processo de luto, tornando-o num lugar barulhento e vazio das reflexões necessárias.

"- Lamento, mas um memorial não é um cemitério. É um símbolo nacional, um significante histórico, uma forma de garantir que qualquer pessoas que o visita... por mais ténue que seja a sua ligação em termos temporais ou geográficos com o ataque... compreende como foi, o que significou."


*

A melhor frase de todo o livro:

"A tristeza dele, demasiado grande para um corpo tão pequeno, era como uma sombra que não deixava crescer uma planta."

Opinião "A Vida Amorosa de Nathaniel P."

Outro dia contemplava a mega estante da metade negra quando ela começou a tirar livros da prateleira, a perguntar se já tinha lido este ou aquele livro. É de dizer que voltei com 4 ou 5 nos braços e este "A vida amorosa de Nathaniel P." foi um deles.
Livro do ano de não sei quantas publicações de renome e uma leitura que se revelou como uma tumultuosa e irritante viagem à mente masculina.

Honestamente desejei desistir uma mão cheia de vezes nas primeiras 40 páginas. 
Da última vez que pensei "não dá, não tenho paciência para vaguear na mente de um gajo intelectualóide e todo cheio de si" foi quando embalei e levei a leitura até ao fim.


Nate sempre quis escrever. Filho de uma família emigrante com sua dose de pretensão, Nate frequentou Harvard e algum tempo depois mudou-se para Nova Iorque. Sem um livro debaixo do braço e nem um contrato editorial na calha, Nate comeu nos primeiros tempos graças a pequenos trabalhos, opiniões e outra coisas pontuais para revistas mais ou menos conhecidas. No entanto, quando o conhecemos, o seu nome já se tornou sonante no meio editorial, tem um livro a sair dentro de alguns meses, é invejado por colegas e cobiçado pelas mulheres. 
Como uma personagem que imaginamos a caminhar pelas ruas de Brooklyn enquanto fala para o espectador, em close up para a câmara, Nate vai divagando sobre a sua pessoa, o seu trabalho, mas acima de tudo, sobre as mulheres da sua vida.

E se num momento conseguimos compreende-lo e ser complacentes com ele, no seguinte ele irrita-nos com a sua falta de tacto e incapacidade para ser honesto especialmente em relação ao seu mais recente emparelhamento. 

Por vezes aquilo que dizemos que queremos e aquilo que realmente gostamos de ter são coisas diferentes.
Nós sabemos, as relações não são fáceis. Ou será que deviam ser fáceis e se não o são, é porque não valem a pena?
"Por que raio é que as mulheres, por mais inteligentes, por mais independentes que fossem, revertiam inevitavelmente para este estamos de imbecilidade voluntária?"
Este Nate é um detector de defeitos e detalhes nefastos que minam a imagem da mulher à sua frente. Quando as coisas típicas de um namoro acontecem Ad infinitum (como ele salienta) e a rotina se instala no casal, é quando percebemos o momento em que Nate começa a sabotar as suas relações.

"Por norma os homens querem um motivo para terminar uma relação, enquanto as mulheres querem um motivo para a manter...é por isso que, depois, os homens olham para tudo o que estava mal na relação, para confirmar que fizeram bem em termina-la. As mulheres, por outro lado, voltam atrás e procuram aquilo que podia ter sido diferente, aquilo que podia ter feito com que as coisas funcionassem."
Este "A Vida Amorosa de Nathaniel P." parece ter sido escrito como se um agente infiltrado no cérebro masculino tivesse captado a essência dos pensamentos, desejos e receios dos homens para depois os vender ao sexo oposto. Adelle Waldman cria uma voz para Nate que, arrisco-me a mandar esta afirmação para a frente por falta de cultura e conhecimentos literários, se torna refrescante ao escancarar uma janela mal lavada e com pouca visibilidade para a mente masculina.

E agora, o que pensa a minha metade literária da minha opinião ao livro que ela me sugeriu?

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Opinião "O homem que pensei que eras"

Em todos estes anos de Efeito dos Livros, se há algo de que me posso orgulhar, é de ter consigo manter isto spoiler free!
Falar de "O homem que pensei que eras" sem dar a entender o que se passa mas transmitindo a dimensão da história, o remoinho sentido no peito durante a leitura e o momento em que tive de abandonar a piscina para não chorar na espreguiçadeira....

É complicado. Mas eu vou tentar!


Anna e Mark vivem na sua bolha de felicidade e matrimónio faz alguns anos. Em total sintonia um com o outro, é como uma grande chapada na cara de Anna o momento em que, ao final de um dia completamente normal, Mark chega a casa e com cara de enterro anuncia que acabou tudo, que vai embora para longe, que já não dá para ali ficar e que ela não vá atrás dele.
E nós pensamos
"O quê?? Não dá! Não pode ser! Não se entende?! Não se faz!!"
E entramos no estado de espírito "este gajo passou-se e isto é mais um caso do gajo que saiu para comprar tabaco e não voltou OU é algo mais?"

Acompanhamos Anna, que de coração apertado e completamente de rastos, enquanto confirma que não só ele desapareceu sem telemóvel, como se despediu e ninguém sabe como o encontrar.
Que segredos esconde Mark para necessitar eclipar-se da sua própria vida, abandonando a mulher, a casa e o emprego?
Quão longe terá Anna de ir para revelar uma parte da pessoa que mais ama no mundo e que julgava conhecer?
Será esta ruptura abrupta capaz de danificar o amor que Anna sente e que então era partilhado e valorizado por ambos?
"...tentarmos escudar-nos de sofrimentos e dores futuras isolando-nos do amor é só fazer mal a nós...e aos que nos rodeiam. Por isso, mais vale correr esse risco, porque a vida vai acontecer, quer queiramos quer não."
Vá, agora que já vos falei da historia, tenho se referir o como esta me abalou a harmonia veraneante em férias com leituras fofinhas. 
Dizer que me deprimiu era abusar mas senti-me como se Anna fosse aquela amiga que tem uma situação pesada a acontecer na sua vida e por isso temos de meter tudo em pausa na nossa e tentar ajudá-la. Ouvir os seus lamentos, dar apoio quando as forças lhe faltam, participar nas buscas e se tiver de ser, se o que ele tiver feito não tiver perdão, ser uma das que vai buscar o taco de beisebol e aponta às canelas do tipo.
No entanto, quando Anna começa a avançar na história vamos baixando o taco e levantando a mão para aparar as lágrimas que teimam brotar-nos dos olhos.
Perante uma questão destas ...
Como será que reagiamos?
Será egoísmo pensar no bem estar dos outros mesmo que repleto de ignorância e dor, ou devemos aceitar a mão que nos estendem e permitir que nos acompanhem?

"O homem que pensei que eras" é uma aposta

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Opinião "Um de nós mente"


Um jovem morre misteriosamente rodeado de quatro pessoas que, ainda sem saberem, têm todos os motivos para o querer ver desaparecer da face da terra.
  Antes do fatídico dia em que Simon morreu, ninguém se aproximava muito dele. Conhecido pela capacidade digna de Agente Secreto para descobrir segredos dos outros e o à vontade com que os divulgava no seu site "Má língua", Simon não era uma das pessoas mais amadas de Bayview High. Na realidade, distância era a medida que todo o corpo estudantil aplicava, não fosse algum dos seus dirty little secrets acabar publicado aos olhos de todos. 

Quando conhecemos o quarteto presente no momento chave da abertura deste livro não podemos deixar de nós rir pelo grupinho Breakfast Club mais típico de sempre... 
Bronwyn, o cérebro, a aluna dedicada, a filha perfeita e total cumpridora das regras. 
Cooper, o desportista, estrela em ascensão da equipa de basebol e menino lindo sulista cheio de boas maneiras. 
Nate, o ovelha negra, actualmente em liberdade condicional por vender droga e com um suporte familiar igual a zero. 
Addy, a menina bonita, com o cabelo e o namorado perfeito mas sem grande coisa na cabeça. 
Quem são realmente Bronwyn, Cooper, Nate e Addy além do estereótipo que representam?
Que etiquetas se colariam à sua imagem actual se o que escondem viesse a público?
 Numa dança das cadeiras onde todos têm segredos e ninguém é bem o que parece ser, quem é que não vai conseguir lugar no banco dos inocentes quando a música acabar ? 


E sabem, "Um de nós mente" começa a matar....mesmo!
Somos levados a descobrir cada camada da personalidade, do passado e presente dos diversos intervenientes que estavam no castigo desse dia, inclusive de Simon.
Ao longo da história a autora conseguiu que se apontasse o dedo a todos, sem excepção e quando finalmente perceberem vão concluir o mesmo que eu
"Estes putos são marados!"
Mas eu gosto de gente marada, por isso, adorei este livro.
"Um de nós mente" pode ter pitadinhas de Breakfast Club, Pretty Little Liars e outras histórias do género mas consegue prender o leitor pelos detalhes de cada personagem porque, assim como nos exemplos mencionados antes, há sempre uma personagem com quem simpatizamos mais.
Comigo foi o Nate.
Qual foi o vossa?

"Um de nós mente" é uma aposta

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Opinião "Noiva Até Sexta"

Livro lido na versão original em Fevereiro de 2017


Percebi que este "Noiva Até Sexta" de Catherine Bybee, que saiu em Agosto, é nada mais nada menos, que a história de Gwen e Neil que já devia ser sido lançada antes de outro que já saiu mas ooh well!
Aqui fica a mini opinião que escrevi na altura e que publico agora com o lançamento da versão portuguesa.

Gwen, a ingénua, a irmã do Duque, a "Princezinha", aquela que não sabe tomar conta dela própria e que é protegida por todos que a rodeiam. Enganam-se todos os que a julgam indefesa e tontinha.
Ao longo dos últimos dois livros, Gwen tem-nos vindo a conquistar e a derrubar a barreira que existe entre ela e Neil, o responsável pela segurança privada dos Harrison. Sabem aquele tipo durão, ex-fuzileiro e homem de poucas palavras? Esse mesmo!
Pode até parecer um pouco rápido a evolução do casal neste livro, especialmente se não têm feito a leitura por ordem mas há muito sentimento e te(n)são entre estes dois casmurros. Ela é uma desafiadora e ele um resistente.
Quanto tempo vão aguentar?
Será necessário uma questão de vida ou morte para os fazer avançar?
Ou era tudo uma questão de tempo para ela ficar noiva até sexta-feira?

Adoro esta série! Sabe tão bem reencontrar personagens que já conhecemos de livros anteriores.
Carter e Eliza lá estão felizes e contentes. Sam e Blake vivem a sua vidinha muito bem acompanhados com os seus rebentos e saltitam numa onda de felicidade que os leva ano a ano a renovar os seus votos. Se no ano anterior foi no Texas, onde sabemos que as coisas aqueceram bastante, este ano é em Aruba.
Gwen e Karen estão à frente da Alliance, mais focadas do que nunca em expandir a rede de clientes da agência, tanto que Karen acaba por garantir a data do seu primeiro casamento e divórcio (oh esta parte da história....pano para mangas!!)
Consequentemente Gwen acaba por ficar sozinha na casa da Agência e por mais vigilância que tenha, coisas estranhas começam a acontecer. Será algo relacionado com a Agência ou com eles directamente?
Neil não arrisca e quando uma ameaça do passado retorna, deixando Gwen no meio do fogo cruzado, ele move o mundo para salvar a vida da mulher que o tem vindo a conquistar lentamente a cada novo dia.
Mas será ele capaz de se salvar a si mesmo?
E a mulher que mexe tanto com a sua cabeça como com o seu coração?

O suspense foi bem desenvolvido, com situações que nos deixaram na pontinha da cadeira para saber se tudo corria bem e chegávamos bem ao final.

Oh Catherine como eu adoro os teus livros!

 "Noiva Até Sexta" é parte integrante da série Weekday Brides de Catherine Bybee, uma aposta
Relembro a opinião aos outros livros da série:

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Opinião "Parem todos os relógios"


São poucos os livros que ao longo do ano saltam entre as duas estantes que compõem o Efeito dos Livros. As nossas leituras são diferentes, sempre o foram. Depois há livros como “Parem todos os relógios”, uma sugestão da metade negra à colorida e que terminou com uma troca de ideias, questões e desejos de continuação, tudo num telefonema feita 2 minutos após ter terminado a leitura.
É bom encontrar livros que podemos partilhar com outras pessoas e ver que não fomos os únicos a ser consumidos pela história. A história da Tia Helena, como carinhosamente apelidei “Parem todos os relógios”, já chegou às minhas mãos com as notas e os cantos dobrados da mana mas preciso de abrir esta opinião com uma das frases que me fez sorrir:
 “Antes de Fabrizio, habituara-se a viver sem um homem a seu lado, certa de que, comparadas com as paixões da literatura, as que o mundo lhe oferecia eram mornas. E, porque acreditava no aviso do Livro do Apocalipse de que Deus vomita os tépidos, conformara-se com o seu destino de solteirona: não podendo ferver, preferia ser gelada”.
 Helena Remington viveu um grande amor, um daqueles proibidos e que queima tudo à sua volta tal é a intensidade com que arde. No entanto, os últimos 20 anos não foram capazes de apagar as memórias suspensas no tempo idílico que viveu com Frabrizio​​ mas a incapacidade de estar com o homem que sempre amou não fez da Tia Helena uma pessoa amargurada ou revoltada com o mundo. Filha de uma família de bem e mulher num tempo em que ter um homem como cabeça do agregado familiar era a única coisa lógica para se fazer com a vida de uma mulher, Helena mudou-se para a capital, exerceu a sua profissão com o mesmo fervor que sempre dedicou às coisas que a interessavam e foi um pilar na vida de outro personagem que conhecemos neste livro, o seu sobrinho-neto Carlos. 
Uma narrativa que nos apanha logo com a entrada com um mistério, que desenvolve maravilhosamente a trama de cada personagem e que nos faz saltar entre momentos chave que se passam ao longo de décadas, este "Parem todos os relógios" faz-me pensar no quanto os segredos nos podem consumir ou fazer manter a sanidade.

Eu já o sugeri a uma mão cheia de amigos. Agora venho reforçar a minha sugestão a quem por aqui passa.
Aproveito para deixar a opinião da mana, que foi quem me sugeriu a leitura.

Boas leituras !

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Opinião "O que fica somos nós"

Eu tenho uma certa e doentia preferência por romances que doem, por histórias impossíveis e por amores não correspondidos. 
Quando li que este "o que fica somos nós" era um encontro entre "Um dia" e "Viver depois de ti" sabia me iam arrancar pedacinhos do coração e não me enganei. 
Dei comigo a pensar "gostaria de ter escrito este livro". 


Lucy e Gabe conheceram-se num dia que ainda hoje me faz engolir em seco quando penso na data, 11 de setembro de 2001. O mundo mudou e consequentemente também todos nós mudámos. Para Lucy e Gabe foi o começo de algo arrebatador e honesto mas também o dia em que prometeram fazer os possíveis para deixar uma marca no mundo. Se para Lucy era mudar mentalidades das gerações futuras, para Gabe era mostrar a realidade ao mundo com as suas fotografias.
Mesmo quando tudo à nossa volta é um mar de rosas, há espinhos que mais tarde ou mais cedo acabam por nos ferir. Por vezes é o mundo que não nos deixa seguir o caminho que queremos e outras vezes somos nós que escolhemos um destino diferente e que não se mantém interligado com o da pessoa que mais amamos. 

A história de Lucy e Gabe é-nos contada pela voz de Lucy e isso aproxima-nos dela, quer pela dor que lhe reconhecemos quer pelas dúvidas que todos nós um dia já tivemos por mais perfeita que seja a nossa vida a determinado ponto. Quem nunca foi assaltada por um nome, um perfume ou a visão de alguém do passado? Quantos de nós temos uma pessoa nos nossos passados que ainda acampa no nosso coração e nos atormenta a alma? 

"Nunca senti que fosses meu no mesmo sentido em que o Darren o era...sempre me pareceu que pertencias a ti próprio e que te emprestava a mim quando te apetecia; nunca te possui completamente" 

Oh como eu gostei de ler esta história!
Passamos o livro a conhecer a sua história. O momento que se conheceram, o tempo que o fogo da sua paixão consumia todo o mundo em seu redor e os anos que passaram separados. Ao longo da leitura temos mil e uma ideias sobre o que se passou ou em que ponto estão agora. Queremos saber se eles algum dia voltam a ser o "nós" que internamente nunca deixaram de ser ou porque raio só ouvimos a voz de Lucy ao longo de todo o livro. E depois, se forem como eu, percebem tudo e fazem os possíveis para aguentar as lágrimas até ao final.

Este era daqueles livros que em filme resultava tãooooooooooooo bem :) 

Uma aposta