domingo, 29 de setembro de 2019

«Uma Questão de Conveniência» de Sayaka Murata - Opinião


«Dentro da pequena caixa iluminada que é a loja, sinto a manhã fluir com normalidade. Do lado de fora dos vidros reluzentes e sem uma única dedada, vejo as pessoas caminharem apressadas. Mais um dia que começa. É esta a hora a que o mundo acorda e todas as suas engrenagens se põem a girar. Também eu estou em movimento, como uma dessas engrenagens. Sou uma peça no mecanismo do mundo (...).
Naquele momento, e pela primeira vez, eu fazia parte da humanidade. Acabo de nascer, pensei. Aquele dia marcou sem dúvida o meu começo como peça do mecanismo do mundo."

Keiko Kurukura é uma peça na engrenagem do mundo do trabalho, mas mais do que isso é, no seu entendimento, o trabalho que define e convenciona toda a sua existência. No manual de funcionamento e de regras de atendimento da loja de conveniência ela descobriu um manual para a vida. Entre stocks de ramen e oniguiris, umas quantas vénias e muitos Irasshaimasê, Keiko vai-se definindo como pessoa, seja na tentativa de estabelecer amizades, seja no corresponder ao que é socialmente aceite e pedido às mulheres. No entanto, a loja de conveniência não é um local conveniente para se continuar década após década a trabalhar. Que tipo de vida ira Keiko conseguir? Que homem quererá casar com ela? Estas perguntam não atormentam Keiko, mas são motivo de conversa entre conhecidos e familiares, que a analisam e criticam directamente na sua cara, mostrando-lhe que não corresponde ao padrão de sociedade para uma mulher japonesa da sua idade. 

"Os olhos de quem despreza uma coisa são particularmente fascinantes. Às vezes escondem o medo de ouvir argumentos contrários. Outras, trazem o brilho agressivo de quem desafia (...). Noutros casos, quando o desprezo é inconsciente, os globos oculares parecem cobertos por uma película, envoltos no prazer extasiante que o sentimento de superioridade provoca nas pessoas."

São estas breves análises que conferem transversalidade ao texto de Murata. Ela não retrata só a sociedade japonesa ou o mundo do trabalho nipónico. Como também não caracteriza só o socialmente aceitável para as mulheres lá do outro lado do globo. Não, nada disso. Murata consegue em poucas linhas e por vezes num tom quase adolescente caracterizar o mundo e a forma ancestral como ainda se olham certas situações. E prova ainda, que a normalidade ou o ser-se ajustado à realidade são coisas tão difíceis de definir quanto cada individuo per si.

"O padrão do mundo é rígido e os corpos estranhos são eliminados sem alarde. O seres humanos fora do padrão acabam por ser ajustados e corrigidos. 
Esse é o motivo que me faz pensar que preciso de me curar. Se não o fizer, serei dispensada pelas pessoas normais..." 

O mais interesse de todo o livro é fazer-nos pensar precisamente no que são pessoas normais ou no que é aceite como normalidade.


sábado, 21 de setembro de 2019

«O que fica somos nós», Jill Santopolo :: Opinião



“Durante anos senti-me culpada. Culpada de nos termos beijado a primeira vez enquanto a cidade ardia, culpada por ter sido capaz de me perder em ti naquele momento. Mas, mais tarde, compreendi que não éramos os únicos. As pessoas confessaram-me, em sussurros, que tiveram sexo naquele dia. Que fizeram um filho. Que ficaram noivos. Que disseram «amo-te» pela primeira vez. Há alguma coisa na morte que faz as pessoas quererem viver. Naquele dia queríamos viver, e não nos culpo por isso. Deixei de nos culpar.”

Este romance de Jill Santopolo está cheio de culpa e ambiguidades e talvez seja isso que o torna tão plausível.
É a culpa por não se ter o condão de adivinhar qual é o destino de cada um e de uma vida a dois.

Lucy, Gabe e Darren compõem um enredo cheio de encontros e desencontros e até um certo abandono. São vidas cheias, mas ao mesmo tempo vazias, vidas em função de outras vidas; de objectivos, de sonhos, de certezas. Certezas que a vida se encarrega de abalar e baralhar.
Mas mais do que tudo, e como não podia deixar de ser, há aqui um amor absorvente, vivido numa medida maior e com contornos de tragédia. Lucy e Gabe conheceram-se a 11 de Setembro de 2001. Ainda assim, e que por mais que se amem, anos a fio, são pessoas diferentes e seguem - separados - vidas independentes.

"(...) sempre me pareceu que pertencias a ti próprio e que te emprestavas a mim quando te apetecia; nunca te possui completamente"

Mas quem possuí quem, se por vezes é tão difícil possuirmo-nos a nós mesmo!? É nessa dificuldade que Lucy avança com a sua vida e conhece Darren. E toda essa parte mais cor de rosa foi deliciosa de ler, tem detalhes muito bem conseguidos e cenas muito reais. No entanto, o que incomoda (e não sei se essa é a palavra certa) é percebermos que toda a narração é dirigida a Gabe, como se Lucy lhe relatasse a sua vida, numa carta sem fim, anos e anos seguidos.
Gabe é um fantasma maior e assombra todas as outras coisas: a maternidade, a carreira, o casamento ou a família que parece estável e completa.

"Vemos tudo através do filtro dos nossos desejos e arrependimentos, das nossas esperanças e medos."

Para além dos filtros e dos arrependimentos em que o livro nos faz pensar, leva-nos igualmente a reflectir na forma como as relações nascem e se desmoronam, e o difícil que é encontrar o equilíbrio.

Foi uma boa leitura e recomenda-se, seja para leitores apaixonados ou corações despedaçados.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

«Voar no Quarto Escuro» de Márcia Balsas :: Opinião



"Há mais calma na sinfonia de uma casa abandonada, do que no silêncio familiar do medo."

No desempoeirar de memórias e com personagens decididas a pisar no passado, Balsas leva-nos a diversos quartos escuros, mas talvez nenhum nos prepare para as bofetadas, mesmo às claras, que nos vai dando durante a leitura. 

"Os primeiros tempos de tratamento foram duros: sempre atordoada, um nó no pensamento, a cabeça vazia como se uma equipa de limpeza lhe tivesse esfregado o crânio por dentro. A brilhar como uma pista de gelo. Deixou deixou de ser ela. Se calhar por isso, tudo melhorou na sua vida. (...), e nada lhe tirava o sono à noite."

Com uma escrita seca e acutilante, dá-nos cenários muito transparentes enquanto nos envolve num labirinto de sentimentos e emoções de mulheres, cheias de pessoas que lhes passeiam por dentro e que se cruzam nas arestas vivas e tóxicas do mundo do trabalho. 

Há cenas bastante bem conseguidas, sejam no escritório - sempre com um humor retorcido; seja a reforma de sexo entre Adelaide e Jorge ou a barricada de livros entre este mesmo casal. As angústias de Ema ou a violência contra Eduarda. São imagens que perduram na cabeça do leitor pela caracterização inteligente que adensam cada personagem. 

"(...)um bebé sozinho, fechado numa caixa, rodeado de velas. (...) nenhuma da família da defunta. «Defunta.» A palavra a bailar-lhe na cabeça. Como se chama a um bebé morto antes de nascer? (...)
Agora estava tudo acabado, tudo debaixo de uma carpete verde, fofa. (...)
«Branco não!», recusa Ema perentória, a quem os caixões para bebés lembravam bolos de noiva mal acabados."

Em todas as mulheres é fácil reconhecer traços que se confundem com os nossos ou que outrora já pautaram as nossas vidas. Como Beatriz, que na erosão dos dias vê a sua angústia, tristeza e solidão aumentadas, mas retratadas pela autora de forma muito privada, no entanto, quando se revelam os seus textos, já mais para o final, a metáfora usada dá toda uma outra dimensão à solidão, ao medo e às diferentes prisões que permanecem em toda a narrativa.

"Procrastinação. (...) Envergonha-se das coisas que lhe ocorrem, materialismos que não a definem, só a atormentam por definirem o mundo. (...)
Dar tempo ao tempo, conceito obsoleto. Toda a ansiedade é destrutiva."

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva - Opinião


«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva é um livro necessário essencialmente para recordar a maldade inerente à polícia política do Antigo Regime, mas mais do que tudo expor a maldade no feminino, daí que a PIDE venha na imagem da agente Leninha. No entanto, para deixar maior marca no leitor a autora precisava de ter sido mais crua, fosse com as descrições das personagens, fosse com as longas noites de tortura. Ainda assim é um documento importante e interessante para se pensar a perseguição política e a humilhação a que tantos homens e mulheres foram sujeitados. Em certas partes, a linguagem com um leve toque poético não lhe cai mal, mas distraí o leitor do importante: a violência, o ódio, a injustiça e o clima de medo. 

"Como represália, gritaram-lhe que fizesse a estátua: «Agora vais fazer de Cristo». Um dos agentes riu-se e os outros pegaram-lhe nos braços. Laura sentiu um calafrio, uma horrível sensação causada pelo toque das mãos suadas na sua pele. Bastavam poucas horas naquela posição para ficar rígida como um cadáver. (...) 
As noites pertenciam às agentes femininas que as impediam de dormir. (...) - Leninha, Odete ou Lourdes - ia batendo com  moeda debaixo da mesa. Aquele ruído tinha o som de um trovão numa penumbra de profundo silêncio."

Há um constante duelo entre Laura e a agente, no entanto, a narrativa segue um outro rumo a partir do momento em entra mais na vida de Leninha e vemos que a sua luta é muito anterior à PIDE e percebemos que o caminho da violência lhe era adivinhável. 
"No dia em que Salazar foi a Setúbal e beijou Maria Helena na testa, o seu pai deu uma tareia à mulher."

Nestas descrições de época, retratando as décadas de ditadura e a necessidade de deixar muitas palavras rentes à boca que conhecemos o outro lado, o de Laura, a jovem a quem é dada a oportunidade de vir para Lisboa estudar Direito e por aqui, anos mais tarde, entra-se na luta e na resistência estudantil, mas também com Laura, Ana Cristina Silva coloca-nos a pensar na sobrevivência e na superação do trauma. Se é que é possível e como, com que limitações.

“A vigilância praticada pelos agentes da PIDE era um serviço de Estado Português. O seu propósito secreto era o de que as pessoas deixassem de ter pensamentos para se transformarem numa frágil teia de espírito permeável ao terror.”

Quase no final, o palrar patriótico e a justificação pela lealdade e cumprimento de ordens, juntamente com nenhuma procura por redenção ou perdão, intensifica os traços psicológicos da personagem ligando-a à enorme desumanização de todos os regimes. 


«Crónica de um Vendedor de Sangue» de Yu Hua - Opinião


Comecei com bastante entusiasmo a leitura deste tão aclamado autor chinês, no entanto, rapidamente percebi que seria difícil manter a vontade em continuar.
Na narração dos acontecimentos é constante a repetição de ideias e é utilizado um tom quase infantil, apesar da dureza que envolve a vida dos personagens.

Faço uma pausa e vou ler sobre o autor e a sua obra, há motivos para que escreva assim, supostamente na sua língua de origem funcionará melhor e o próprio também pretende esse registo para que até o público mais jovem chegue aos seus romances e conheça o percurso político e sócio-económico da China.

Volto à leitura e sinto, o que parece ser uma necessidade, a de identificar muito bem cada personagem, cada fala, cada atitude, e por isso continua a repetição dos nomes dos personagens, que me cansaram desde as primeiras páginas. Apesar de também para isso existir explicação que se encontram nas notas de tradução. 

Avancei mais um pouco, queria ficar a conhecer essa realidade tão miserável que pautou o regime de Mao, mas a forma como as provações do povo são descritas e até as metáforas, em conversas muito simples entre Xu Sanguan e o tio ou a esposa continuaram a não me cativar e até a ilegalidade da venda do sangue não tornou a narrativa mais entusiasmante. 

Gostava de ter avançado na história dos filhos ou da esposa desafiante, pois pelo que leio, existem reviravoltas que dão rumo à história, tornando-a ainda mais negra, mas enquanto esperava e lia, mais exasperava.

«A mulher de He Xiaoyong saiu de casa, bateu com as mãos nas coxas e disse:
"Um descarada que roubou a semente de outro homem e agora vem aqui de nariz empinado."
Xu Yulan respondeu: "Dei à luz três rapazes de seguida, claro que venho de cabeça erguida."
A outra mulher disse: "Três filhos de pais diferentes, isso é orgulho para alguém?"
"Essas miúdas também não parecem ser filhas do mesmo pai."
"Só uma porca como tu é que estaria com homens diferentes."
"E tu, és diferente? Olha bem para o que tens dentro dessas cuecas, isso é uma mercearia, qualquer um pode entrar."»

«Tudo Aquilo Que Não Lembro» de Jonas Hassen Khemiri - Opinião


"O vizinho estica a cabeça, olha por cima da sebe e pergunta‑me quem sou e o que estou aqui a fazer."

É assim que arranca esta narrativa fragmentada, para a qual a capa faz todo o sentido. Um escritor anda em busca de conhecer Samuel, um homem que morrer num trágico acidente. Acidente ou suicídio. Quanto mais ele entrevista e conversa, mais o leitor se pergunta: o que é que estou aqui a fazer? Pergunta essa que vai continuando sem resposta. Bem como conhecermos Samuel ou as outras personagens. 

“Quem decide o que é importante e o que é supérfluo? Quanto a mim, quantos mais pormenores te dou, mais pormenores ficam por contar.” Diz a certa parte uma das raparigas que gostava de estar com Samuel, referindo não por o conhecer muito bem, mas que gostava dele pelo efeito que despertava nela. Porém, os detalhes mais interessantes são sobre assuntos avulso que nada têm propriamente que ver com Samuel ou o seu desaparecimento. Ou a certa parte o assunto da imigração e dos refugiados, mas mais importante situações de mulheres vítimas de violência doméstica; dando-nos a perceber que essa realidade em Estocolmo é semelhante à de cá.

"As chamadas continuaram. Eu traduzia para mães que precisavam de saber o porquê de os seus pedidos de apoio terem sido recusados. Haviam homens que queriam recorrer de condenações por agressão. (...) Havia mulheres que contavam que, quando ele guiava bêbedo, ele não as deixava pôr o cinto de segurança; quando eu repetia a comida, ele obrigava-me a comer a comida do gato; (...)Havia mulheres que contavam que ele tinha uma rotina, (...), punha depois determinada canção a tocar e assobiava a melodia ao mesmo tempo que procurava as luvas. (...) Os homens eram advogados de Jämtland, atletas vencedores de medalhas de triatlo (...) os homens era vendedores de fruta sírios, violinistas belgas, alcoólicos de Skäne. Mas os homens não tinham importância nenhuma. (...) Eu queria era ajudar as mulheres." 

Foi Laide, a paixão de Samuel, a mulher jovem que se interessa e quer marcar a diferença junto destas pessoas, que me despertou mais interesse, ainda assim é tudo sempre dito por outros, sem acção directa entre as personagens, ou seja, a interacção está toda no passado, recorrendo à memória; há uma ausência de acontecimentos que ultrapassem o encontro para a breve entrevista com o escritor e isso torna-se cansativo, repetitivo. Mesmos alguns acrescentos que são ditos ou deixados a adivinhar sobre Samuel não me motivaram para terminar o livro, senti que a mais de meio livro lido não estava ligada a nada. 


quinta-feira, 22 de agosto de 2019

«Eu sou Bolaño, o escritor e o mito» - Opinião



“Eu Sou Bolaño” é uma compilação de textos, escolhidos por Celína Manzoni, que visam, através da perspectiva de vários escritores e textos inéditos de Bolaño, uma breve reflexão sobre o romance, a escrita e a sua biografia, afirmando mais uma vez o fenómeno que o escritor representa. Este conjunto de textos dispersos, oriundos de vários países, pretende proporcionar aos leitores de Bolaño mais motivos para compreender e apreciar a sua obra. 

Para quem como eu ainda não se estreou nas aventuras literárias deste autor, esta compilação foi acima de tudo um confirmar da fama e do traço de génio que lhe é reconhecido e ficar ainda mais indecisa por que obra começar. Essencialmente era isso que eu procurava, um guia de leitura para as obras megalómanas de Bolaño, no entanto, perante o avanço nesta compilação qualquer potencial leitor se sente perdido no universo selvagem deste autor ou a perguntar-se pelas suas capacidades para entender só metade daquilo que os estudiosos aqui indicam. Também eles continuamente boquiabertos. 

Logo ao início, no texto "Bolaño por Bolaño", surge a obra «A pista de gelo» que o próprio autor resume numa simples frase, : "(...) em La pista de Hielo (1993), falo da beleza que dura pouco e cujo o final costuma ser desastroso." Mais à frente, um curto texto suscita-se a curiosidade do leitor para o leque sumptuoso de personagens deste romance e parece-nos uma boa forma de entrar no universo do autor, entretanto, rapidamente nos assaltam com elogios ao complexo e provocador romance: «A Literatura Nazi nas Américas» cruzando-o com inúmeras outras referências literárias, deixando desde logo o leitor meio perdido no cruzamento de tantos livros. Mas a dúvida aumenta ainda mais com o altamente destacado «Os detectives selvagens», no entanto, a complexidade e as inúmeras páginas recheadas de metáforas e referências, bem como a estrutura que se desmonta e transforma e integra e desintegra em personagens e História, faz-nos pensar uma leitura inalcançável e muito difícil de decifrar.

É essencial perceber na intrincada e complexa obra do autor a luta contra o esquecimento, necessitando para isso de incluir a política na literatura. A forma como o faz é única e suplanta o óbvio ou o simples registo do real. Bolaño mune-se de personagens que se alimentam umas nas outras e reconstrói a memória individual e colectiva assente no horror e na bizarria do lado obscuro do ser humano como resposta. É isto que lemos nos vários ensaios sobre a obra de Bolaño, para além do reconhecido brilhantismo literário e da constante necessidade de analisar e interpretar a sua obra, nomeadamente os romances póstumos.

*

Excertos

Manzoni sobre «A Literatura Nazi nas Américas»

"Quando a história aceita como consumado o esquecimento de alguém cuja «passagem pela literatura deixa um rasto de sangue e várias perguntas feitas em silêncio» (186), a narrativa passa a converter-se num presente e o narrador em protagonista. Se a História não pode formular perguntas adequadas ou é incapaz de encontrar respostas para o silêncio dos desaparecidos, a poesia pode converter-se numa sua aliada.»


María Antonieta Flores sobre «Os Detectives Selvagens»

"As diversas histórias e personagens que se entrecruzam ou se desencontram constituem peças de uma colagem, os fragmentos de um todo impossível de alcançar. (...) Todo o tecido narrativo cria uma atmosfera vaga, de falta de certeza. O itinerário da história é marcado por palavras, tempos e espaços bem determinados que, apesar disso e paradoxalmente, constroem uma estética de imprecisão. (...)
Então, o leitor é obrigado a converter-se também em «detective» que não pode garantir o que está por detrás da janela imprecisa. (...)
Esta imprecisão das personagens que estão ali no texto, juntamente com a visão múltipla das múltiplas personagens, leva-nos a pensar que no fundo não existem protagonistas e que se trata de uma forma de elaborar narrativamente o conceito e tema caro à pós-modernidade: a dissolução do sujeito."


Enrique Vila-Matas no texto "Bolaño à distância" sobre «Os Detectives Selvagens»

No Bolaño de Os Detectives Selvagens há algo de desesperação maníaca. Escrevo isto e pergunto-me se na realidade o desesperado maníaco não serei eu. Queria falar com leveza e com a máxima agilidade da extravagância e do efervescente magma linguístico do romance de Bolaño para poder passar rapidamente à terceira secção interessante deste livro - a da estrutura originalíssima - (...).
Como são as coisas. Voltei a aproximar-me de Bolaño (...) - e, no entanto, vi-me aqui convertido num homem que ficou enredado no mundo da multiplicidade de Bolaño, esse escritor que vê o mundo como um enredo, um emaranhado, um novelo."


Alejandro Zambra sobre «Tres», um livro de poesia de Bolaño

"A extrema consciência compositiva que a obra de Bolaño entranha e por vezes ostenta, as suas raízes líricas ou o simples facto de os seus romances, como a boa poesia, conservam essa dose de ilegibilidade que apela à releitura (...): Bolaño, como poeta, é um excelente narrador, mas não há dúvida de que como narrador é um excelente poeta."


Mihály Dés sobre «Putas Asesinas»

"Duas qualidades extraordinárias caracterizam a narrativa de Roberto Bolaño (...). A primeira é a capacidade de criar importantes vozes narrativas que se fazem com a trama e se convertem no núcleo da história. A segunda consiste em outorgar uma quarta dimensão às suas narrações, uma espécie de abismo temporal através do qual tudo se vê como irrecuperavelmente perdido."


Bolaño no discurso de agradecimento do prémio Rómulo Gallegos

“então o que é uma escrita de qualidade? Pois, na verdade, o que sempre foi: saber enfiar a cabeça no escuro, saber saltar no vazio, saber que a literatura é basicamente um ofício perigoso. Correr pela beira do precipício (...)"


quarta-feira, 21 de agosto de 2019

«Um estado selvagem» de Roxane Gay - Opinião


Há muito que queria ler este livro e há muita mais ainda que não me acontecia ler um livro tão sofregamente, sem parar para pesquisar fosse o que fosse a que o livro apelasse. Li, sublinhando apenas uma frase: "Os úteros das suas mães eram países férteis em si mesmos."
E no final, é a frase que mais me faz sentido para resumir todo o drama que Roxane Gay narra, estão essencialmente em causa as relações familiares e o peso da ligação a um país ainda em estado selvagem. No entanto, é toda a violência exercida sobre Mireille Duval que desperta outro tipo de estado selvagem e um dúvida: pode um ser humano sobreviver a um trauma deste tamanho e reerguer-se!?

Mireille é descendente de haitianos, imigrados nos Estados Unidos da América, no entanto, a certa parte da vida os pais regressaram ao Haiti e fazem uma vida distante da maioria dos haitianos. Num país onde grassa a miséria, a violência e a morte, uma vida próspera e abastada, cheia de gente altiva torna-os num alvo permanente, onde a corrupção e os sequestros pretendem enviar uma mensagem muito clara: ninguém está seguro. Isso torna-se claro, quando de visita ao país, Mireille é raptada e o grupo sequestrador exige um milhão pela sua libertação. 

O sequestro desta mulher e os horrores por que passa não são descritos de forma chocante, de forma só a informar do que se passa, são antes descritos morosamente, pensados para encontrar as palavras certas para não descrever de rompante, mas ainda assim estar lá tudo claramente. Não sei se me faço entender, é preciso ler para sentir o nó que nos fica ou os olhos rasos de água. As imagens são fortes, essencialmente pelo sentido da descrição, pelo todo. O leitor percebe, percebe muito bem como Mereille é violada, humilhada, dilacerada, transformada em restos humanos. Percebe, lê, emociona-se e chega a pedir uma pausa. 

Entre os relatos de violência, existem viagens ao passado, momentos lúcidos em que Mereille recorda a família, o Haiti, a sua vida e deixa perceber que o Haiti é um local em transformação e não necesariamente para melhor. O sentimento de pertença é complexo e isso também nos é passado pelas descrições que ela faz dos homens que a cercam. Pessoas sem nada, logo sem nada a perder. 

"Os bairros de lata são um labirinto interminável de ruas e vielas (...). Os blocos transformam-se numa montanha com escadarias escuras, estreitas e serpenteantes que mantêm tudo unido. Muitas vezes o céu é bloqueado por um emaranhado espesso de fios eléctricos. (...) As mulheres raramente andam sozinhas pelas ruas. Não é seguro, nunca. (...) As ruas estão pejadas de lixo (...) por vezes uma galinha ou uma cabra perdida caminha cuidadosamente pelas ruas.(...) O ar é opressivo, com o cheiro de demasiada gente num espaço reduzido. (...) Corri por estas ruas e pensei: «Este é o Haiti que nunca vi ou conheci.» Era um Haiti que ninguém deveria ter de conhecer."

A dignidade e a humilhação vivem a paredes meias com toda narração da primeira parte, durante o cativeiro de Mireille. Numa segunda parte, tentamos sofregamente responder positivamente à pergunta que dá ritmo a todo o enredo. É nesta busca, também ela desenfreada, por superação e sobrevivência que conhecemos os medos e os fantasmas que perseguirão esta mulher para o resto da sua vida, mas ficamos também a conhecer outra personagem forte, Lorraine. Outra persoangem arrebatadora.
Há mais personagens e mais lados a explorar, o do pai ou da família Duval, que são uma caricatura dos imigrantes abastados que vivem confortavelmente ao lado da pobreza extrema; existe o marido, típico americano dos filmes romântico de Hollywood... todos eles passam as suas agruras, mas nenhum me prendeu a atenção, eu só queria mesmo perceber tudo o que Roxane tinha reservado para Mereille. 

*

Vale a pena ler a entrevista à autora, aqui.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

«Cada dia é um milagre» de Yasmina Khadra - Opinião


Estreei-me em Khadra com este «Cada dia é um milagre», que pelo título já deixa adivinhar um pouco do seu conteúdo e pelo título original: “L'équation africaine”, é ainda mais notória a equação em causa: o valor da vida e a importância das pequenas coisas, dos pequenos milagres de cada dia e o saber agradecer as benesses de certas localizações geográficas.

Kurt, um médico endinheirado que vive confortavelmente no silêncio alcatifado de um bom condominio vê a sua vida estilhaçada pela morte da mulher. E consequentemente pelo desinteresse e insensibilidade dos outros perante a sua dor.

"(...)Jessica reduzida a um simples despojo coberto com um lençol branco."
 "Eu estava em choque. triturado por uma tormenta que me aspirava sabia lá para que abismo..."

Desde cedo há um toque de dramalhão na escrita de Khadra, mas misturam-se muito bem com descrições bem conseguidas (do sogro, por exemplo) e uma forma de falar de sentimentos que mostra como a dor alheia causa pouca empatia e em parte por ser tão difícil falar da dor, explicá-la, catalogá-la. Nisso, há passagens na sua escrita que são exímias em ler-nos a alma.

Rapidamente esta vida de zebruras (palavra aprendida neste livro) atinge picos nunca antes imaginados quando Kurt aceita a proposta de Hans Na segunda parte do livro, Blackmoon, Kurt e Hans vêem-se apanhados na teia da miséria humana que se alastra nesse colosso que é o continente africano, alimentado diariamente a doses elevadas de violência, fome, corrupção e guerra.

O barco em que viajavam é atacado e os amigos, Kurt e Hans são raptados. O interesse neles é dinheiro, como é costume dos regastes, mas cedo se percebe que estão entregues às oscilações dos humores figadais de um pirata filosófico que tem todo um leque de teorias e mão pesada na forma de os violentar e humilhar.

"(...) só sinto desdém pela sua autoridade de bandida, nojo pela espécie de ogro paranóico que se esconde por trás da sua lanterna, ódio frio por todo esse bando de degenerados à solta na natureza como os germes virulentos de uma pandemia..."

Há nestas descrições um lado quase poético ao descrever a violência que existe em África, tão visceral e crua como a beleza intemporal e virgem da sua Natureza, sempre presente em tudo. Há uma veneração por África que a torna personagem, aliás, em parte essa personagem é Bruno, um anacoreta itinerante devoto a África.

"África é uma certa filosofia de redenção."

Na relação de cativeiro, conhecemos esse peregrino poeta, emocionado e embriagado pela própria prosa, que enaltece África e as suas gentes, mas também a sua condição de andarilho perdido por um país que lhe mostrou o que outras zonas boas do mundo não conseguiram e o fez gente.

Há um outro personagem que dá dimensão humana às crises inúmeras que acontecem por todo o continente, o Capitão encarna todos aqueles que foram escolhidos pela violência, aqueles a quem a vida não deixou outro caminhão se não o da força e do medo. Ser-se temido é por vezes a forma de se manter vivo, mas a que custo? É também esse lado que o autor quer salientar e tornar menos abstracta aos olhos de quem o lê.

"Desde os tempos remotos que o Homem, desconfiando daquilo que não o faz sofrer, corre atrás da própria sombra (...) incessantemente esquartejado entre o que acredita ser e o que desejava ser, esquecendo que a maneira mais saudável de existir é, muito simplesmente, continuar a ser ele próprio."

Em suma, este é um livro que explora sentimentos opostos e nos confunde com tantas sensações divergentes. Se por um lado Khadra consegue parágrafos brilhantes que espelham uma análise e um entendimento brutal da humanidade e da sua complexidade, bem como o choque de culturas e o peso do homem branco em África; por outro, a persistência de cenários previsíveis cansaram-me imenso.

Ao longo de todo o livro existem falhas de tradução que são notórias. Há parágrafos muito bem conseguidos, onde se nota um trabalho soberbo da tradutora em fazer soar bem a poética do autor e noutros parece ter-se usado o google translator - não me sai da cabeça (e já o li há meses) - "vou tomar um bom chuveiro". Não sou uma entendida em tradução, nem nada que se pareça, mas há falhas flagrantes.