quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Balanço literário de um ano híbrido e longo.




2019 foi um ano híbrido, a muitoooos níveis e com os livros não foi excepção!


Julgo não ter havido ano, nesta década que fechou, em que eu lesse, mas não terminasse vários livros e de ter mais de metade por lhes dedicar um texto.

Li 23 livros para os quais fiz um texto de opinião, 12 deles eram da biblioteca, para cumprir o objectivo: "vai mais à biblioteca" e mesmo no final do ano não foi excepção, pois trouxe 5 livros de contos que me têm acompanhado por dezembro e transitaram para 2020.

Produzi pouquíssimo para o projecto Deus me Livro, tão pouco que ainda é uma bênção poder de vez em quando publicar lá, especialmente a reportagem sobre a Noite Europeia da Literatura.

Já com a comunidade de leitores estive mais assídua, mas muito menos participativa com textos.

Tenho 28 por livros lidos sobre os quais não escrevi nada e nem sei bem porquê: preguiça? desleixo? vontade de acumular e ver a pilha a crescer?
Não sei e decidi nem querer saber ou me preocupar. Li-os, estão lidos, outros não os terminei (3) e daqui irão provavelmente para a estante ou para as da biblioteca municipal.

Apetecem-me apenas pequenos parágrafos e saber que os li, recordando-os ou por fotos ou por frases de destaque.
Isso, e ver se cumpri com o desafio lançado por mim mesma no princípio do ano, daí este balanço.

*

Um dos favoritos marcou logo o início do ano, «O filho único», uma narrativa muito bem montada com um narrador de 6 anos a tentar descodificar o mundo dos adultos, quando esse mundo se confunde ainda mais perante a morte de um filho, um outro filho.
O arranque do ano ficou igualmente marcado pelos contos de Ana Margarida de Carvalho, «Pequenos delírios domésticos» que brindam o leitor com uma escrita magnífica, cuidada e enredada, dando-nos sempre vontade de continuar cada conto, navegando assim naquela realidade paralela.

Janeiro de 2019 ficou ainda marcado pelo regresso a Richard Yates e o seu «O Desfile da Primavera» onde a tristeza e a dose certa de desgraça familiar completam a solidão que pauta os livros do autor. E isto, claro, envolvo numa escrita impressionante e que prende desde a primeira frase.

Em Fevereiro perdi-me nos contos e novelas de Mário de Carvalho, fiquei fã de "Cronovelemas» e em Março voltei a João Tordo na reedição de "As três vidas", cumprindo assim mais uma meta do desafio literário: "lê mais autores portugueses".

Ainda em Março regressei a In McEwan e descobri John Banville, mas não tive paciência para continuar com o nobelizado Wole Soyinka, mas o que me arrebatou mesmo foi a maluquice do «Onde estás Bernardette?», um livro no qual peguei por ver vários destaques e opiniões devido ao filme que ainda iria sair durante o ano.

Em Abril voltei a Philipe Claudel, mas também aos portugueses com «Filho da mãe» de Hugo Gonçalves que mesmo não me tendo conquistado, merecia que eu lhe dedicasse um texto. O luto é um dos meus temas favoritos e a forma como o autor faz uma road trip pelas memórias pós-morte da mãe vale bastante a pena e isso fez-me ir ao teatro ver uma peça adaptada de um dos seus livros de contos: «Fado, Samba e Beijos com Língua».

Em Maio perdi-me pelas novidades e li «O fim da solidão» ao qual não dediquei texto e do qual pouco ou nada me lembro. Mas lembro-me muito bem das mulheres que João Tordo trouxe em «A mulher que correu atrás do vento» juntamente com toda uma compilação musical que me fez completar mais partes do desafio literário: "Livro com música dentro" e "lê um calhamaço". Aliás com Tordo e já mais para o final do ano, li outro calhamaço «A noite em que o Verão acabou».

Já o ano ia a meio, voltei aos contos de Murakami com «Os celeiros incendiados», pensando ir ao cinema ver a adaptação cinematográfica, mas não fui a tempo, nem o conto me conquistou, tal como não percebi o furor em torno de "Devias ter-te ido embora" do alemão Daniel Kehlman. Também não me convenceu, o último do nórdico M. J. Arlidge: «A floresta do mal» ou a estreia com a portuguesa Julieta Monginho na reedição de «A terceira mãe". Convenceu-me sim «A criança que sonhava com o fim do mundo» e a «A filha devolvida» ou ainda «Crianças invisíveis», num retorno à escrita de Patrícia Reis. No entanto, para nenhum deles fiz um texto.

Como também descobri, após os empréstimos, que nunca fiz um texto para livros lidos em 2018, tais como «Ecologia» de Joana Bértholo; «Meio homem metade baleia» de José Gardeazabal ou o fabuloso e conciso «Laços» do italiano Dominico Starnone e o qual devo voltar a ler.

O verão propriamente dito foi marcado pela intensa leitura de «Um estado selvagem» que é talvez o livro do ano, pela dureza daquilo que relata e por falar de violência contra as mulheres juntamente com o clima de guerra que se vive em muitos países africanos, picando assim mais dois pontos do desafio de leitura: livros sobre os Direitos Humanos e livros cujo a narrativa é num cenário de guerra, mas também para este ponto podia eleger o fabuloso, e outro dos favoritos deste ano: «Cai a noite em Caracas» de Karina Sainz Borgo, que tem um enredo completamente fora de tudo o que li este ano, abordando tantos dos temas que têm inundado as notícias da actualidade. Este livro merecia um texto, mas merecia mais ainda uma série ou um filme para que fosse falado inúmeras vezes.

O Verão teve mais duas leituras marcantes: «Uma questão de conveniência» que muito diz sobre a sociedade, o trabalho e as convenções que nos iludem e condicionam e que são transversais, tanto no mundo nipónico como aqui entre nós. Outro marcante foi «Autobiografia» num regresso à escrita de José Luís Peixoto que levanta uma questão muito interessante: "Quantos Saramagos existem?", ou melhor ainda, em quantas pessoas se divide ou multiplica um autor, seja ele quem for, quando cria um livro? E isso é interessante de explorar e ao acaso cheguei a divagações idênticas já mais para o final do ano com os contos de Ali Smith.

No verão ainda houve lugar a alguns livros nos quais peguei, li um pouco e larguei, entre eles com muita pena minha, como é o caso de «Vendedor de sangue», tinha muita curiosidade, mas que não me agarrou de todo! Li ainda e não me marcou «As longas noites de Caxias» e «Eu sou Bolaño». O que me continua a agarrar é Flannery O'Connor de quem li contos e os livros destacados pelo Prémio Leya, de onde li «Torto Arado» que muito me envolveu naquela crueza da roça antiga brasileira, que desconfio ainda existir e ser metáfora para criticas à actualidade.

Entrei em Setembro envolvida em romances mais light com «O que nos fica somos nós», que li bastante envolvida, pois gosto de livros que exploram a culpa. Também gosto de livros com pessoas estranhas e por isso preferi o romance seguinte: «Perto demais» que muito me fez rir. Já «Nenhuma verdade se escreve no singular» do qual adorei o título, explora um enredo pouco plausível e que cansa o leitor.

No trimestre que fechou a década, o tempo dedicado aos livros foi pouco, escrevi apenas sobre «Novembro» tentando perder-me mais no universo das Graphic Novels e da Banda desenhada, e fiz uma excelente descoberta: Enki Bilal que me fez voltar várias vezes à biblioteca.

Li também «Não te afastes» uma ficção juvenil de David Machado e mais um romance a puxar para o thriller, «A mulher entre nós», que muito habilmente confunde o leitor entre saltos cronológicos e relatos de mulheres. Deixando uma questão: "em quantas mulheres uma mulher se multiplica ao longo da vida?"

Mesmo na recta final de 2019 o tempo foi partilhado entre os contos de Tolstói, Ali Smith e o tão badalado trhiller de João Tordo que não foi de todo uma das minhas escolhas, se bem que o arranque e as 100 paginas finais são muito hábeis e viciantes. Viciante e engenhoso foi também «O protesto do lobo mau», livro infanto-juvenil que ganhou o prémio Pingo Doce.

O ano não terminou sem voltar à biografia de David Bowie, que me vai acompanhar em 2020 e o retorno de Possidónio Cachapa, que tem um mote meio delirante, meio sonhado e todo ele uma metáfora e uma critica, mas não era bem o que eu esperava, já que sou fã do universo muito particular que o autor tem criado em todos os seus outros livros.

E com este longo texto, remato assim todos os textos que não fiz desde o final de 2018 e ao longo deste 2019 que pareceu arrastar-se em muitas coisas.

E face ao desafio do blogue, o livro pendente de 2018 ficou pendente na mesma, não li nenhum livro com árvore na capa; com mais de 100 anos peguei em Tolstói, mas não li mais do que um conto ou dois, não li nem o Nobel de 2018, nem a de 2019 e nas metas literárias ficou-me a faltar ler sobre Fernão de Magalhães. O que de melhor o desafio me trouxe foi ler fora da zona de conforto e ter lidos mais contos.



E sem mais demoras, o meu Top 10 são:

"O filho único"
"Pequenos delírios domésticos"
"O desfile da Primavera"
"Um estado selvagem"
"Cai a noite em Caracas"
"A mulher que correu atrás do vento"
"Uma questão de conveniência"
"Autobiografia"
"Bowie, uma biografia"
"O protesto do lobo mau"

domingo, 29 de setembro de 2019

«Uma Questão de Conveniência» de Sayaka Murata - Opinião


«Dentro da pequena caixa iluminada que é a loja, sinto a manhã fluir com normalidade. Do lado de fora dos vidros reluzentes e sem uma única dedada, vejo as pessoas caminharem apressadas. Mais um dia que começa. É esta a hora a que o mundo acorda e todas as suas engrenagens se põem a girar. Também eu estou em movimento, como uma dessas engrenagens. Sou uma peça no mecanismo do mundo (...).
Naquele momento, e pela primeira vez, eu fazia parte da humanidade. Acabo de nascer, pensei. Aquele dia marcou sem dúvida o meu começo como peça do mecanismo do mundo."

Keiko Kurukura é uma peça na engrenagem do mundo do trabalho, mas mais do que isso é, no seu entendimento, o trabalho que define e convenciona toda a sua existência. No manual de funcionamento e de regras de atendimento da loja de conveniência ela descobriu um manual para a vida. Entre stocks de ramen e oniguiris, umas quantas vénias e muitos Irasshaimasê, Keiko vai-se definindo como pessoa, seja na tentativa de estabelecer amizades, seja no corresponder ao que é socialmente aceite e pedido às mulheres. No entanto, a loja de conveniência não é um local conveniente para se continuar década após década a trabalhar. Que tipo de vida ira Keiko conseguir? Que homem quererá casar com ela? Estas perguntam não atormentam Keiko, mas são motivo de conversa entre conhecidos e familiares, que a analisam e criticam directamente na sua cara, mostrando-lhe que não corresponde ao padrão de sociedade para uma mulher japonesa da sua idade. 

"Os olhos de quem despreza uma coisa são particularmente fascinantes. Às vezes escondem o medo de ouvir argumentos contrários. Outras, trazem o brilho agressivo de quem desafia (...). Noutros casos, quando o desprezo é inconsciente, os globos oculares parecem cobertos por uma película, envoltos no prazer extasiante que o sentimento de superioridade provoca nas pessoas."

São estas breves análises que conferem transversalidade ao texto de Murata. Ela não retrata só a sociedade japonesa ou o mundo do trabalho nipónico. Como também não caracteriza só o socialmente aceitável para as mulheres lá do outro lado do globo. Não, nada disso. Murata consegue em poucas linhas e por vezes num tom quase adolescente caracterizar o mundo e a forma ancestral como ainda se olham certas situações. E prova ainda, que a normalidade ou o ser-se ajustado à realidade são coisas tão difíceis de definir quanto cada individuo per si.

"O padrão do mundo é rígido e os corpos estranhos são eliminados sem alarde. O seres humanos fora do padrão acabam por ser ajustados e corrigidos. 
Esse é o motivo que me faz pensar que preciso de me curar. Se não o fizer, serei dispensada pelas pessoas normais..." 

O mais interesse de todo o livro é fazer-nos pensar precisamente no que são pessoas normais ou no que é aceite como normalidade.


sábado, 21 de setembro de 2019

«O que fica somos nós», Jill Santopolo :: Opinião



“Durante anos senti-me culpada. Culpada de nos termos beijado a primeira vez enquanto a cidade ardia, culpada por ter sido capaz de me perder em ti naquele momento. Mas, mais tarde, compreendi que não éramos os únicos. As pessoas confessaram-me, em sussurros, que tiveram sexo naquele dia. Que fizeram um filho. Que ficaram noivos. Que disseram «amo-te» pela primeira vez. Há alguma coisa na morte que faz as pessoas quererem viver. Naquele dia queríamos viver, e não nos culpo por isso. Deixei de nos culpar.”

Este romance de Jill Santopolo está cheio de culpa e ambiguidades e talvez seja isso que o torna tão plausível.
É a culpa por não se ter o condão de adivinhar qual é o destino de cada um e de uma vida a dois.

Lucy, Gabe e Darren compõem um enredo cheio de encontros e desencontros e até um certo abandono. São vidas cheias, mas ao mesmo tempo vazias, vidas em função de outras vidas; de objectivos, de sonhos, de certezas. Certezas que a vida se encarrega de abalar e baralhar.
Mas mais do que tudo, e como não podia deixar de ser, há aqui um amor absorvente, vivido numa medida maior e com contornos de tragédia. Lucy e Gabe conheceram-se a 11 de Setembro de 2001. Ainda assim, e que por mais que se amem, anos a fio, são pessoas diferentes e seguem - separados - vidas independentes.

"(...) sempre me pareceu que pertencias a ti próprio e que te emprestavas a mim quando te apetecia; nunca te possui completamente"

Mas quem possuí quem, se por vezes é tão difícil possuirmo-nos a nós mesmo!? É nessa dificuldade que Lucy avança com a sua vida e conhece Darren. E toda essa parte mais cor de rosa foi deliciosa de ler, tem detalhes muito bem conseguidos e cenas muito reais. No entanto, o que incomoda (e não sei se essa é a palavra certa) é percebermos que toda a narração é dirigida a Gabe, como se Lucy lhe relatasse a sua vida, numa carta sem fim, anos e anos seguidos.
Gabe é um fantasma maior e assombra todas as outras coisas: a maternidade, a carreira, o casamento ou a família que parece estável e completa.

"Vemos tudo através do filtro dos nossos desejos e arrependimentos, das nossas esperanças e medos."

Para além dos filtros e dos arrependimentos em que o livro nos faz pensar, leva-nos igualmente a reflectir na forma como as relações nascem e se desmoronam, e o difícil que é encontrar o equilíbrio.

Foi uma boa leitura e recomenda-se, seja para leitores apaixonados ou corações despedaçados.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

«Voar no Quarto Escuro» de Márcia Balsas :: Opinião



"Há mais calma na sinfonia de uma casa abandonada, do que no silêncio familiar do medo."

No desempoeirar de memórias e com personagens decididas a pisar no passado, Balsas leva-nos a diversos quartos escuros, mas talvez nenhum nos prepare para as bofetadas, mesmo às claras, que nos vai dando durante a leitura. 

"Os primeiros tempos de tratamento foram duros: sempre atordoada, um nó no pensamento, a cabeça vazia como se uma equipa de limpeza lhe tivesse esfregado o crânio por dentro. A brilhar como uma pista de gelo. Deixou deixou de ser ela. Se calhar por isso, tudo melhorou na sua vida. (...), e nada lhe tirava o sono à noite."

Com uma escrita seca e acutilante, dá-nos cenários muito transparentes enquanto nos envolve num labirinto de sentimentos e emoções de mulheres, cheias de pessoas que lhes passeiam por dentro e que se cruzam nas arestas vivas e tóxicas do mundo do trabalho. 

Há cenas bastante bem conseguidas, sejam no escritório - sempre com um humor retorcido; seja a reforma de sexo entre Adelaide e Jorge ou a barricada de livros entre este mesmo casal. As angústias de Ema ou a violência contra Eduarda. São imagens que perduram na cabeça do leitor pela caracterização inteligente que adensam cada personagem. 

"(...)um bebé sozinho, fechado numa caixa, rodeado de velas. (...) nenhuma da família da defunta. «Defunta.» A palavra a bailar-lhe na cabeça. Como se chama a um bebé morto antes de nascer? (...)
Agora estava tudo acabado, tudo debaixo de uma carpete verde, fofa. (...)
«Branco não!», recusa Ema perentória, a quem os caixões para bebés lembravam bolos de noiva mal acabados."

Em todas as mulheres é fácil reconhecer traços que se confundem com os nossos ou que outrora já pautaram as nossas vidas. Como Beatriz, que na erosão dos dias vê a sua angústia, tristeza e solidão aumentadas, mas retratadas pela autora de forma muito privada, no entanto, quando se revelam os seus textos, já mais para o final, a metáfora usada dá toda uma outra dimensão à solidão, ao medo e às diferentes prisões que permanecem em toda a narrativa.

"Procrastinação. (...) Envergonha-se das coisas que lhe ocorrem, materialismos que não a definem, só a atormentam por definirem o mundo. (...)
Dar tempo ao tempo, conceito obsoleto. Toda a ansiedade é destrutiva."

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva - Opinião


«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva é um livro necessário essencialmente para recordar a maldade inerente à polícia política do Antigo Regime, mas mais do que tudo expor a maldade no feminino, daí que a PIDE venha na imagem da agente Leninha. No entanto, para deixar maior marca no leitor a autora precisava de ter sido mais crua, fosse com as descrições das personagens, fosse com as longas noites de tortura. Ainda assim é um documento importante e interessante para se pensar a perseguição política e a humilhação a que tantos homens e mulheres foram sujeitados. Em certas partes, a linguagem com um leve toque poético não lhe cai mal, mas distraí o leitor do importante: a violência, o ódio, a injustiça e o clima de medo. 

"Como represália, gritaram-lhe que fizesse a estátua: «Agora vais fazer de Cristo». Um dos agentes riu-se e os outros pegaram-lhe nos braços. Laura sentiu um calafrio, uma horrível sensação causada pelo toque das mãos suadas na sua pele. Bastavam poucas horas naquela posição para ficar rígida como um cadáver. (...) 
As noites pertenciam às agentes femininas que as impediam de dormir. (...) - Leninha, Odete ou Lourdes - ia batendo com  moeda debaixo da mesa. Aquele ruído tinha o som de um trovão numa penumbra de profundo silêncio."

Há um constante duelo entre Laura e a agente, no entanto, a narrativa segue um outro rumo a partir do momento em entra mais na vida de Leninha e vemos que a sua luta é muito anterior à PIDE e percebemos que o caminho da violência lhe era adivinhável. 
"No dia em que Salazar foi a Setúbal e beijou Maria Helena na testa, o seu pai deu uma tareia à mulher."

Nestas descrições de época, retratando as décadas de ditadura e a necessidade de deixar muitas palavras rentes à boca que conhecemos o outro lado, o de Laura, a jovem a quem é dada a oportunidade de vir para Lisboa estudar Direito e por aqui, anos mais tarde, entra-se na luta e na resistência estudantil, mas também com Laura, Ana Cristina Silva coloca-nos a pensar na sobrevivência e na superação do trauma. Se é que é possível e como, com que limitações.

“A vigilância praticada pelos agentes da PIDE era um serviço de Estado Português. O seu propósito secreto era o de que as pessoas deixassem de ter pensamentos para se transformarem numa frágil teia de espírito permeável ao terror.”

Quase no final, o palrar patriótico e a justificação pela lealdade e cumprimento de ordens, juntamente com nenhuma procura por redenção ou perdão, intensifica os traços psicológicos da personagem ligando-a à enorme desumanização de todos os regimes. 


«Crónica de um Vendedor de Sangue» de Yu Hua - Opinião


Comecei com bastante entusiasmo a leitura deste tão aclamado autor chinês, no entanto, rapidamente percebi que seria difícil manter a vontade em continuar.
Na narração dos acontecimentos é constante a repetição de ideias e é utilizado um tom quase infantil, apesar da dureza que envolve a vida dos personagens.

Faço uma pausa e vou ler sobre o autor e a sua obra, há motivos para que escreva assim, supostamente na sua língua de origem funcionará melhor e o próprio também pretende esse registo para que até o público mais jovem chegue aos seus romances e conheça o percurso político e sócio-económico da China.

Volto à leitura e sinto, o que parece ser uma necessidade, a de identificar muito bem cada personagem, cada fala, cada atitude, e por isso continua a repetição dos nomes dos personagens, que me cansaram desde as primeiras páginas. Apesar de também para isso existir explicação que se encontram nas notas de tradução. 

Avancei mais um pouco, queria ficar a conhecer essa realidade tão miserável que pautou o regime de Mao, mas a forma como as provações do povo são descritas e até as metáforas, em conversas muito simples entre Xu Sanguan e o tio ou a esposa continuaram a não me cativar e até a ilegalidade da venda do sangue não tornou a narrativa mais entusiasmante. 

Gostava de ter avançado na história dos filhos ou da esposa desafiante, pois pelo que leio, existem reviravoltas que dão rumo à história, tornando-a ainda mais negra, mas enquanto esperava e lia, mais exasperava.

«A mulher de He Xiaoyong saiu de casa, bateu com as mãos nas coxas e disse:
"Um descarada que roubou a semente de outro homem e agora vem aqui de nariz empinado."
Xu Yulan respondeu: "Dei à luz três rapazes de seguida, claro que venho de cabeça erguida."
A outra mulher disse: "Três filhos de pais diferentes, isso é orgulho para alguém?"
"Essas miúdas também não parecem ser filhas do mesmo pai."
"Só uma porca como tu é que estaria com homens diferentes."
"E tu, és diferente? Olha bem para o que tens dentro dessas cuecas, isso é uma mercearia, qualquer um pode entrar."»

«Tudo Aquilo Que Não Lembro» de Jonas Hassen Khemiri - Opinião


"O vizinho estica a cabeça, olha por cima da sebe e pergunta‑me quem sou e o que estou aqui a fazer."

É assim que arranca esta narrativa fragmentada, para a qual a capa faz todo o sentido. Um escritor anda em busca de conhecer Samuel, um homem que morrer num trágico acidente. Acidente ou suicídio. Quanto mais ele entrevista e conversa, mais o leitor se pergunta: o que é que estou aqui a fazer? Pergunta essa que vai continuando sem resposta. Bem como conhecermos Samuel ou as outras personagens. 

“Quem decide o que é importante e o que é supérfluo? Quanto a mim, quantos mais pormenores te dou, mais pormenores ficam por contar.” Diz a certa parte uma das raparigas que gostava de estar com Samuel, referindo não por o conhecer muito bem, mas que gostava dele pelo efeito que despertava nela. Porém, os detalhes mais interessantes são sobre assuntos avulso que nada têm propriamente que ver com Samuel ou o seu desaparecimento. Ou a certa parte o assunto da imigração e dos refugiados, mas mais importante situações de mulheres vítimas de violência doméstica; dando-nos a perceber que essa realidade em Estocolmo é semelhante à de cá.

"As chamadas continuaram. Eu traduzia para mães que precisavam de saber o porquê de os seus pedidos de apoio terem sido recusados. Haviam homens que queriam recorrer de condenações por agressão. (...) Havia mulheres que contavam que, quando ele guiava bêbedo, ele não as deixava pôr o cinto de segurança; quando eu repetia a comida, ele obrigava-me a comer a comida do gato; (...)Havia mulheres que contavam que ele tinha uma rotina, (...), punha depois determinada canção a tocar e assobiava a melodia ao mesmo tempo que procurava as luvas. (...) Os homens eram advogados de Jämtland, atletas vencedores de medalhas de triatlo (...) os homens era vendedores de fruta sírios, violinistas belgas, alcoólicos de Skäne. Mas os homens não tinham importância nenhuma. (...) Eu queria era ajudar as mulheres." 

Foi Laide, a paixão de Samuel, a mulher jovem que se interessa e quer marcar a diferença junto destas pessoas, que me despertou mais interesse, ainda assim é tudo sempre dito por outros, sem acção directa entre as personagens, ou seja, a interacção está toda no passado, recorrendo à memória; há uma ausência de acontecimentos que ultrapassem o encontro para a breve entrevista com o escritor e isso torna-se cansativo, repetitivo. Mesmos alguns acrescentos que são ditos ou deixados a adivinhar sobre Samuel não me motivaram para terminar o livro, senti que a mais de meio livro lido não estava ligada a nada. 


quinta-feira, 22 de agosto de 2019

«Eu sou Bolaño, o escritor e o mito» - Opinião



“Eu Sou Bolaño” é uma compilação de textos, escolhidos por Celína Manzoni, que visam, através da perspectiva de vários escritores e textos inéditos de Bolaño, uma breve reflexão sobre o romance, a escrita e a sua biografia, afirmando mais uma vez o fenómeno que o escritor representa. Este conjunto de textos dispersos, oriundos de vários países, pretende proporcionar aos leitores de Bolaño mais motivos para compreender e apreciar a sua obra. 

Para quem como eu ainda não se estreou nas aventuras literárias deste autor, esta compilação foi acima de tudo um confirmar da fama e do traço de génio que lhe é reconhecido e ficar ainda mais indecisa por que obra começar. Essencialmente era isso que eu procurava, um guia de leitura para as obras megalómanas de Bolaño, no entanto, perante o avanço nesta compilação qualquer potencial leitor se sente perdido no universo selvagem deste autor ou a perguntar-se pelas suas capacidades para entender só metade daquilo que os estudiosos aqui indicam. Também eles continuamente boquiabertos. 

Logo ao início, no texto "Bolaño por Bolaño", surge a obra «A pista de gelo» que o próprio autor resume numa simples frase, : "(...) em La pista de Hielo (1993), falo da beleza que dura pouco e cujo o final costuma ser desastroso." Mais à frente, um curto texto suscita-se a curiosidade do leitor para o leque sumptuoso de personagens deste romance e parece-nos uma boa forma de entrar no universo do autor, entretanto, rapidamente nos assaltam com elogios ao complexo e provocador romance: «A Literatura Nazi nas Américas» cruzando-o com inúmeras outras referências literárias, deixando desde logo o leitor meio perdido no cruzamento de tantos livros. Mas a dúvida aumenta ainda mais com o altamente destacado «Os detectives selvagens», no entanto, a complexidade e as inúmeras páginas recheadas de metáforas e referências, bem como a estrutura que se desmonta e transforma e integra e desintegra em personagens e História, faz-nos pensar uma leitura inalcançável e muito difícil de decifrar.

É essencial perceber na intrincada e complexa obra do autor a luta contra o esquecimento, necessitando para isso de incluir a política na literatura. A forma como o faz é única e suplanta o óbvio ou o simples registo do real. Bolaño mune-se de personagens que se alimentam umas nas outras e reconstrói a memória individual e colectiva assente no horror e na bizarria do lado obscuro do ser humano como resposta. É isto que lemos nos vários ensaios sobre a obra de Bolaño, para além do reconhecido brilhantismo literário e da constante necessidade de analisar e interpretar a sua obra, nomeadamente os romances póstumos.

*

Excertos

Manzoni sobre «A Literatura Nazi nas Américas»

"Quando a história aceita como consumado o esquecimento de alguém cuja «passagem pela literatura deixa um rasto de sangue e várias perguntas feitas em silêncio» (186), a narrativa passa a converter-se num presente e o narrador em protagonista. Se a História não pode formular perguntas adequadas ou é incapaz de encontrar respostas para o silêncio dos desaparecidos, a poesia pode converter-se numa sua aliada.»


María Antonieta Flores sobre «Os Detectives Selvagens»

"As diversas histórias e personagens que se entrecruzam ou se desencontram constituem peças de uma colagem, os fragmentos de um todo impossível de alcançar. (...) Todo o tecido narrativo cria uma atmosfera vaga, de falta de certeza. O itinerário da história é marcado por palavras, tempos e espaços bem determinados que, apesar disso e paradoxalmente, constroem uma estética de imprecisão. (...)
Então, o leitor é obrigado a converter-se também em «detective» que não pode garantir o que está por detrás da janela imprecisa. (...)
Esta imprecisão das personagens que estão ali no texto, juntamente com a visão múltipla das múltiplas personagens, leva-nos a pensar que no fundo não existem protagonistas e que se trata de uma forma de elaborar narrativamente o conceito e tema caro à pós-modernidade: a dissolução do sujeito."


Enrique Vila-Matas no texto "Bolaño à distância" sobre «Os Detectives Selvagens»

No Bolaño de Os Detectives Selvagens há algo de desesperação maníaca. Escrevo isto e pergunto-me se na realidade o desesperado maníaco não serei eu. Queria falar com leveza e com a máxima agilidade da extravagância e do efervescente magma linguístico do romance de Bolaño para poder passar rapidamente à terceira secção interessante deste livro - a da estrutura originalíssima - (...).
Como são as coisas. Voltei a aproximar-me de Bolaño (...) - e, no entanto, vi-me aqui convertido num homem que ficou enredado no mundo da multiplicidade de Bolaño, esse escritor que vê o mundo como um enredo, um emaranhado, um novelo."


Alejandro Zambra sobre «Tres», um livro de poesia de Bolaño

"A extrema consciência compositiva que a obra de Bolaño entranha e por vezes ostenta, as suas raízes líricas ou o simples facto de os seus romances, como a boa poesia, conservam essa dose de ilegibilidade que apela à releitura (...): Bolaño, como poeta, é um excelente narrador, mas não há dúvida de que como narrador é um excelente poeta."


Mihály Dés sobre «Putas Asesinas»

"Duas qualidades extraordinárias caracterizam a narrativa de Roberto Bolaño (...). A primeira é a capacidade de criar importantes vozes narrativas que se fazem com a trama e se convertem no núcleo da história. A segunda consiste em outorgar uma quarta dimensão às suas narrações, uma espécie de abismo temporal através do qual tudo se vê como irrecuperavelmente perdido."


Bolaño no discurso de agradecimento do prémio Rómulo Gallegos

“então o que é uma escrita de qualidade? Pois, na verdade, o que sempre foi: saber enfiar a cabeça no escuro, saber saltar no vazio, saber que a literatura é basicamente um ofício perigoso. Correr pela beira do precipício (...)"


quarta-feira, 21 de agosto de 2019

«Um estado selvagem» de Roxane Gay - Opinião


Há muito que queria ler este livro e há muita mais ainda que não me acontecia ler um livro tão sofregamente, sem parar para pesquisar fosse o que fosse a que o livro apelasse. Li, sublinhando apenas uma frase: "Os úteros das suas mães eram países férteis em si mesmos."
E no final, é a frase que mais me faz sentido para resumir todo o drama que Roxane Gay narra, estão essencialmente em causa as relações familiares e o peso da ligação a um país ainda em estado selvagem. No entanto, é toda a violência exercida sobre Mireille Duval que desperta outro tipo de estado selvagem e um dúvida: pode um ser humano sobreviver a um trauma deste tamanho e reerguer-se!?

Mireille é descendente de haitianos, imigrados nos Estados Unidos da América, no entanto, a certa parte da vida os pais regressaram ao Haiti e fazem uma vida distante da maioria dos haitianos. Num país onde grassa a miséria, a violência e a morte, uma vida próspera e abastada, cheia de gente altiva torna-os num alvo permanente, onde a corrupção e os sequestros pretendem enviar uma mensagem muito clara: ninguém está seguro. Isso torna-se claro, quando de visita ao país, Mireille é raptada e o grupo sequestrador exige um milhão pela sua libertação. 

O sequestro desta mulher e os horrores por que passa não são descritos de forma chocante, de forma só a informar do que se passa, são antes descritos morosamente, pensados para encontrar as palavras certas para não descrever de rompante, mas ainda assim estar lá tudo claramente. Não sei se me faço entender, é preciso ler para sentir o nó que nos fica ou os olhos rasos de água. As imagens são fortes, essencialmente pelo sentido da descrição, pelo todo. O leitor percebe, percebe muito bem como Mereille é violada, humilhada, dilacerada, transformada em restos humanos. Percebe, lê, emociona-se e chega a pedir uma pausa. 

Entre os relatos de violência, existem viagens ao passado, momentos lúcidos em que Mereille recorda a família, o Haiti, a sua vida e deixa perceber que o Haiti é um local em transformação e não necesariamente para melhor. O sentimento de pertença é complexo e isso também nos é passado pelas descrições que ela faz dos homens que a cercam. Pessoas sem nada, logo sem nada a perder. 

"Os bairros de lata são um labirinto interminável de ruas e vielas (...). Os blocos transformam-se numa montanha com escadarias escuras, estreitas e serpenteantes que mantêm tudo unido. Muitas vezes o céu é bloqueado por um emaranhado espesso de fios eléctricos. (...) As mulheres raramente andam sozinhas pelas ruas. Não é seguro, nunca. (...) As ruas estão pejadas de lixo (...) por vezes uma galinha ou uma cabra perdida caminha cuidadosamente pelas ruas.(...) O ar é opressivo, com o cheiro de demasiada gente num espaço reduzido. (...) Corri por estas ruas e pensei: «Este é o Haiti que nunca vi ou conheci.» Era um Haiti que ninguém deveria ter de conhecer."

A dignidade e a humilhação vivem a paredes meias com toda narração da primeira parte, durante o cativeiro de Mireille. Numa segunda parte, tentamos sofregamente responder positivamente à pergunta que dá ritmo a todo o enredo. É nesta busca, também ela desenfreada, por superação e sobrevivência que conhecemos os medos e os fantasmas que perseguirão esta mulher para o resto da sua vida, mas ficamos também a conhecer outra personagem forte, Lorraine. Outra persoangem arrebatadora.
Há mais personagens e mais lados a explorar, o do pai ou da família Duval, que são uma caricatura dos imigrantes abastados que vivem confortavelmente ao lado da pobreza extrema; existe o marido, típico americano dos filmes romântico de Hollywood... todos eles passam as suas agruras, mas nenhum me prendeu a atenção, eu só queria mesmo perceber tudo o que Roxane tinha reservado para Mereille. 

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Vale a pena ler a entrevista à autora, aqui.