terça-feira, 19 de março de 2019

«Numa casca de noz» de Ian McEwan - Opinião

"O útero, ou este útero, não é um lugar tão mau quanto isso; assemelha-se ao túmulo, «agradável e privado», num dos poemas favoritos do meu pai.
Eu sei. Os sarcasmos não ficam bem a um nascituro."


Um nascituro "de pernas para o ar dentro de uma mulher" é o narrador deste relato ácido, peculiar e humorístico. O narrador-feto tem uma presença omnipresente e um lugar privilegiado garantindo-lhe saber dos acontecimentos em primeiríssima mão. McEwan consegue, com descrições brilhantes das personagens e de alguns acontecimentos, envolver o leitor nesta massa insólita e alimentar a sua curiosidade, apesar do tem banal do adultério.

"(...) Ouvi dizer uma vez e registei: um parolo de cérebro embotado. As minhas perspectivas tornam-se sombrias. A existência dele impede as minhas legítimas reivindicações a uma vida feliz ao cuidado dos dois progenitores. (...) 
E o Claude, como uma mosca volante (...) Nem sequer é um oportunista colorido, nem apresenta o mais leve indício do patife sorridente, (...) insípido para além da invenção, e de uma banalidade tão requintadamente trabalhada como os arabescos da Mesquita Azul."

Juntamente com Claude, Trudy a desleal, é a mãe deste narrador e congeminam um crime passional: matar John, marido, irmão e pai deste narrador ainda por nascer. 
Sim, leu bem, tal como em «Hamlet»  A mãe tem um caso com o cunhado, o irmão do marido. Tudo nesta noz tem traços de tragédia clássica. Aliás, o marido, é um poeta falhado, um ser envolto em neblinas de tristeza que declama o seu amor sob a forma antiquada de um soneto. Por outro lado, Claude, é um palerma, um parolo, um néscio, podendo-lhe ser atribuído título de bobo da corte.

Mas voltemos ao narrador, já que tudo à sua volta é caótico, desde os planos a que assiste à casa imunda onde a mãe e o tio habitam ou o seu mundo amniótico bem regado a copos de vinho que facilmente passam o ponto da degustação e podcasts sombrios que o vão educando para o estado do mundo.

"Todas as fontes concordam que a casa é imunda. Só lugares-comuns a definem bem: delapidada, a descascar-se, a desmoronar-se. A geada por vezes gela e torna rígidas as cortinas do Inverno; com as grandes chuvadas, os esgotos, como bancos de confiança, devolvem os depósitos com juros (...9"

Melhor que o argumento é a maneira como McEwan o expõem ao leitor. É brilhante a acidez e humor negro com que o descreve, deixando o adultério e até o crime para segundo plano, conferindo ao narrador preocupações existenciais e avaliações criticas do que o rodeia.

"Portanto, estamos sozinhos, todos nós, até eu, cada um a percorrer uma estrada deserta, transportando ao ombro, numa trouxa atada a um pau, os esquemas e os diagramas para um progresso inconsciente.
É um peso excessivo para suportar, demasiado sinistro para ser verdade. Porque havia o mundo de ser apresentar sob uma forma tão dura?"

O narrador é requintado e pejado de carácter, é um ser critico, mordaz e necessariamente dramático:
"Que me envenenem ao teu lado em vez de me entregarem em qualquer sítio
Típica auto-complacência de terceiro trimestre (...) Se a hipocrisia é o único preço, compro a vida burguesa e considero o preço barato. (...) e o meu direito é ao amor de uma mãe e é absoluto. Não vou dar aval às suas maquinações de abandono. O exilado não serei eu, mas ela. Vou atá-la com esta corda fina, pressioná-la, no dia do meu nascimento, com o olhar atordoado de recém-nascido e um lamento de gaivota solitária para lhe arpoar o coração."

Esta visão ampliada da realidade, proporcionada pela membrana reveladora é constantemente conseguida com ironia e erudição, ou não fosse a linguagem de McEwan o melhor deste romance ao conseguir dar a este personagem-narrador-feto-provocador camadas e camadas e personalidade.

"Nem toda a gente sabe o que é ter o pénis do rival do nosso pai a centímetros do nariz. Nesta última fase, deviam pensar em mim e conter-se. Se não em nome do parecer clínico, pelo menos por cortesia. Fecho os olhos, cerro as gengivas, apoio-me às paredes uterinas. (...) a cada movimento de êmbolo, receio que ele vá investir, perfurar o meu cérebro de ossos tenros e semear nos meus pensamentos a sua essência, a nata transbordante da sua banalidade. (...)
Como um sapo a copular, ele cola-se-lhe às costas. Em cima dela, agora dentro dela, e bem fundo. É muito pouco o que da minha mãe traiçoeira me separa do pretenso assassino do meu pai."



segunda-feira, 18 de março de 2019

«A Última Ceia» de Nuno Nepomuceno :: Opinião


"Os italianos chavamam-lhe Il Cenacolo. (...)
Todos a conheciam como A Última Ceia
(...)
Apesar do restauro recente, o estado de degradação não só era considerável, como notório. Partes do desenho inicial do desenho de Leonardo estavam desaparecidas, outras simplesmente tinham sido eliminadas, mas, quando a luz na sala diminuiu ligeiramente, provavelmente devido a uma nuvem que passava lá fora, Sofia deu por si maravilhada.
Pálidas carícias de cor, na sua maioria em tons pastel, ganharam vida perante si. Depois da entrada triunfal em Jerusalém, Jesus reuniu os apóstolos para uma refeição e previu, entre outras coisas, que um deles iria traí-lo. As grandes figuras dos discípulos agruparam-se à sua volta em conjuntos de retórica. Revoltados, gesticularam e argumentaram com uma emotividade nunca antes representada, escutados ao longe pelas montanhas que os espiavam através das janelas entreabertas."


Uma obra de arte icónica, um roubo que supera interesses monetários e uma história de amor fugaz repintam esta última ceia num tom enigmático e conferem-lhe um acabamento de thriller sofisticado. As descrições bem conseguidas e uma escrita que cativa pelo ritmo que impõe, conduz o leitor por uma viagem entre ruas, igrejas, galerias e obras de arte, como se ele próprio viajasse por Itália. E o leitor escolherá: ou vive intensamente a paixão recente entre Giancarlo Baresi e Sofia Conti, especulando as intenções de cada um ou se preocupa em desvendar a motivação por detrás do roubo de tal peça gigantesca e de valor incalculável. Independentemente da escolha, o leitor é sempre acompanhado por bons momentos literários, navegando ao longo de diversos períodos da História, tal como acontece nos últimos dois livros de Nuno Nepomuceno: «A célula adormecida» e «Pecados Santos». 

"Mas a arte é um conceito poderoso (...)
O povo hebraico achou a escultura de um bezerro de ouro tão impressionante, que resolveu venerá-lo tanto como a Deus. Luís XVI perdeu o trono devido, em parte, aos gastos excessivos que fez em quadros (...)
»A arte mão é um animal exótico que se guarde em cativeiro para que possamos admirá-lo todos os dias (...)"

A religião está sempre presente nos últimos livros de Nepomuceno, se bem que neste há um salto, cruzando religião e arte, tornando os crimes mais passionais, conferindo um tom airoso para falar do Cristianismo. Outro detalhe sempre bem conseguido é a forma como o autor aprofunda a vida dos personagens que se repetem e vêm pintalgando as três narrativas. Vemo-los surgir em cada um dos livros sempre com mais detalhes, como se cada um deles fosse um quadro em constante restauro, é assim no caso de Afonso (e de Diana), permitindo ao leitor acompanhar aquela história e os fantasmas que ficam adormecidos e, a quem que não leu os livros anteriores, a querer lê-los para entender determinadas acções dos personagens. 

Outro pormenor que tem marcado estas leituras são os relatos dos crimes ou das cenas de violência e é interessante ver como um autor evolui e com muito menos descrições consegue transmitir violência, pavor, angústia e medo, sem perder humor ou a capacidade de permitir ao leitor várias sensações numa só passagem. 

"O Tamisa serpenteava no meio dos edifícios vitorianos, mas eram os arranha-céus que mais se destacavam. O sempre ácido humor britânico batizara-os bem. Os ingleses chamavam-lhes The Gherkin - O Pepino -, The Cheesegrater - O ralador de queijo -, The Razor - A lâmina de barbear (...)
Antes de começar a falar, Richard lançou um último vislumbre aos arranha-céus. Curioso, era exactamente assim que se sentia, como um aperitivo cortado em pedaços e pronto a ser servido grelhado para o italiano degustar."


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terça-feira, 12 de março de 2019

«o escuro que te ilumina» de José Riço Direitinho - opinião


Tenho, necessariamente, de pessoalizar este meu texto sobre o mais recente livro de Riço Direitinho. Sou fã do autor e sigo muitas vezes sugestões de leitura comentadas por ele no Público. Por isso, e por ser fã do fabuloso breviário; só podia correr a comprar e, a ler, este novo livro perante o lançamento tanto alarido se fez. 
No entanto, ao lê-lo fui ficando escurecida com o que me esperava, página atrás de página. O tom encantatório que eu queria reencontrar, apenas me chegava por referências do autor e não pelas suas palavras.
Agora, volvidos mais de seis meses da sua leitura e por motivo deste texto, releio partes, umas ao acaso, outros marcadas e descubro-lhe uns traços que captaram a minha atenção e me puxam para o reler na íntegra.

*

O narrador, homem de meia idade e professor universitário, entediado com a rotina da vida, decide espiar a vizinhança e com os segredos dos outros expiar os seus males. Entretanto vai tecendo um diário e mina-o de referências e citações de outros autores. Se inicialmente me pareceu um exagero, agora em releitura acho-o um detalhe obrigatório para a personagem. Ossos do ofício!

"Contrariando o que disse Herr Nietzsche:
Não são os abismos que só por si nos atraem, são os nossos próprios precipícios que se iluminam com a visão desses outros abismos: dos teus."

Nesses abismos, ficamos logo a saber, existe um alvo: uma mulher, ser observado e desejado, para quem o narrador se dirige: escrevo como se me lesses. (...)
"Ficaram-me os olhos em ti na primeira vez que te vi (...) 
Não sei como exprimir a ideia.
Fui-te construindo: como quem constrói com objectos soltos uma infância que a vida fez esquecer (...)"

Desenamorado da vida, o professor avança compulsivamente com o telescópio e o acto de espiar rapidamente o ultrapassa. 

"As vidas dos outros, olhadas com distância, sempre me interessaram (...) interessam-me como histórias: matéria bruta: acasos. Não me prendem por aquilo que contam, mas pelo que possam esconder: (...) como algo que está ali diante de nós e que não se revela a um olhar distraído: que temos de descobrir: como deve acontecer nas boas histórias."

“O espaço doméstico, esse ringue de silêncios pactuados e de lutas mudas, pode ser o território mais difícil de habitar: mas é talvez dos poucos a que sabemos poder sempre voltar, e é isso que, de uma forma ou de outra, nos conforta e sobretudo nos protege.”

Eu não sei se Riço Direitinho consegue essa tal boa história, mas consegue escamotear as intenções do personagem que mais adiante no relato podem surpreender o leitor. Fugindo desse ringue doméstico e de forma tão ao acaso e quase natural, a vida evolui para a devassidão. 

"É verdade que, depois de termos deixado calcificar a vida (assim como acontece com as torneiras que já não abrem nem fecham, só pingam durante a noite - não, isto não é uma irónica metáfora sobre o sexo conjugal), precisamos quase sempre de um estímulo para ressuscitar."

Contrariando essa calcificação da vida, o professor ressuscita fantasias sexuais que compulsivamente segue, com bazófia e profusão, trazendo constantes descrições de cenas de sexo explícito para a narrativa.  

"A transgressão, mais do que libertar, conduz ao desejo: a fantasia é sempre um acto transgressor, necessário para todas as almas que acreditam - que acreditam no que quer que seja."

Se o personagem transgride fá-lo em plena consciência e coragem. Pode não a ter para a sua fantasia mais concreta: ela, a desejada, mas o abismo profundo da solidão revela-lhe lugares e noites de plurais onde se pode abandonar à libertinagem que Lisboa lhe oferecer e a partir daí detalha um guia com direito a códigos de conduta, dress code e localizações gps. 

"Há nas verdadeiras almas atormentadas um desespero existencial que passa para o sexo (...)"

E é isso, temos aqui uma alma atormentada e não se lhe conhecem mais motivos do que um amor angelical e platónico e umas quantas críticas à sua forma física, erotizando-lhe apenas a inteligência. No entanto, para além da solidão também o sexo é embutido na rotina: sexo desenfreado como catarse para esbater a solidão nos breves segundos de um orgasmo.

As repetidas jogadas sexuais, algumas roçando o ridículo (como a aluna que pede: “Foda-me o cu, professor! E vá declamando um soneto de Bocage." - que professor faz) tornam-se o «pão nosso de cada dia» e o relato vai perdendo intensidade. Repete-se o sexo explícito mas cheio de metáforas, a critica social é mordaz e inteligente, mas o que mais fica é que o sexo tanto exibe o mais moderno de cada um, como esconde medos, fracassos e o peso do envelhecimento. 

sexta-feira, 8 de março de 2019

«O meu amante de domingo» de Alexandra Lucas Coelho - Opinião


"Alguém com uma vingança nunca está só."


Há um "não sei o quê" que me puxa para os livros de Alexandra Lucas Coelho (ALC) que eu não sei o que é, mas que me leva a entrar neles adentro e só sair quando atinjo o fim. 
Encontro sempre personagens que têm um traço meu, neste claramente é a linguagem desbragada, como muitos me acusam de ter. A narradora consegue ser fulminante com alguns comentários e pensamentos tóxicos, no entanto, o tom que o romance leva, que se esforço por não querer parecer sério, faz-nos cingir essa linguagem à revolta e à fúria que aquela mulher sente e então passa a fazer sentido.

"Lá fui para a Bobadela à hora a que já estaria no centro de Lisboa a nadar, apurando a cada braçada o sofrimento mais adequado a um filha da puta criativo. Roda? Garrote? Esmagamento por pata de elefante? A vingança é muito subestimada até se manifestar (...)"

Neste "O meu amante de domingo" há uma mulher esmagada pela solidão imposta pelo árido Alentejo, sufocando-a num espaço aberto mas exíguo delimitado por um muro. E isso pode, e deve ser, metáfora para tanta coisa seja na vida desta personagem, seja nas vidas que lhe quisermos juntar. Isto para dizer que sinto sempre os livros de ALC como tratados sociológicos cheios de detalhes reais, mas que fogem para um campo surrealista pela riqueza com que a autora divaga e cruza referências. Aqui, a cabeça do autor viaja entre defuntos, vinganças, memórias póstumas e sexo sem compromisso entre viagens a Lisboa. 

"Porque confiei naquele cabrão? (...)
O decapitador dará a mão ao filho depois dos trabalhos do dia, talvez até lhe ensine como é isto de cortar cabeças, talvez lhe cante uma canção. Amor total e ausência de amor são quartos contíguos da mesma casa."

Todo o livros está pejado de referências, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, entre outras que não Literatura, ainda assim, vemos que o foco central é a revolta de uma mulher que busca no sexo ocasional uma ligação para compreender que é no sexo que tudo conflui: nada nos aproxima tanto, título de um dos capítulos, resumo bem essa ideia. Sexo, paixão, revolta, vingança, geram e são emoções associadas a tantas outras: solidão, desconexão, fracasso, entrega, medo... Tal como a paixão, o sexo ou a amizade.

"Toda a paixão é um ataque ao sistema imunitário. Se precisamos dela para viver, mais precisamos que ela acalme, ou seja, acabe, para continuarmos vivos."

quarta-feira, 6 de março de 2019

«Epidemia» de Reina James :: Opinião


«This times of dying» terrivelmente traduzido como «Epidemia, um tempo para viver» sugere, na sinopse, um amor proibido e talvez afaste leitores ao pensarem que vão ler só mais uma história de amor. No entanto, também não é um romance histórico que nos acrescente muito sobre esse episódio negro da Gripe Espanhola em finais da primeira Grande Guerra. Ainda assim, é um livro bastante competente e que explora subtilmente inúmeros temas: a crucial diferença entre classes sociais; o peso de um casamento, a violência doméstica e o papel da mulher, esmagada pelos costumes da época, apesar de serem tempos de guerra e de ausência de muitos homens da família. O livro é ainda estranhamente exímio em traçar uma imagem que espelha bem o rasto de destruição provocado por uma Epidemia para a qual as autoridades não tiveram mão, através das descrições dos materiais em falta para construir caixões e fazer enterros. 

O romance promete um curso curioso já que as personagens centrais são: Allen, uma professora primária, aparentemente nova mas viúva, filha de boas famílias, mas que trata a sua solidão fazendo-se acompanhar de um cangalheiro, Henry, que não tem mãos a medir com os inúmeros pedidos para tirar medidas a corpos e construir caixões; tem também uma criada lésbica que ela protege e trata fora das convenções sociais. Ambos têm ainda irmãs e amigos próximos que compõem, com requinte, este ramalhete. Ela tem uma irmã que entra em greve de fome, como medida de protesto contra os espiões alemães que diz ter em casa. Ele, tem duas que são tipicamente as irmãs protectoras mas codrilheiras, muito preocupadas com a influência desta professora no negócio de família, que ele gere e as alimenta a elas. 

Toda a paleta de personagens chega a ser sórdida face aos acontecimentos gerais e que afectam quase todos em geral, no entanto o flagelo da Gripe Espanhola só atinge proporções de cataclismo à medida que o número de mortos esgota desde a madeira aos locais onde enterrar os mortos. Ainda assim, não será uma história de amor a atropelar um flagelo que dizima milhares de pessoas pela Europa fora. são sim episódios desta natureza mais rocambolesca que alimentam a curiosidade do leitor. Isso e o facto de estar bem escrito, apesar de por vezes repetir ideias e se alongar em descrições. 


Alguns excertos:

"Depois de todos aqueles anos em que o homem lhe batera (...) Ele esperava que a sua viúva o seguisse, isto segundo ela, e achava que ela deveria ter-se suicidado para ir atrás dele lá para onde quer que ele tivesse ido. (...) Mas na noite antes de eu ter ido buscar o corpo para o funeral, ela cravou-lhe pregos de quatro centímetros nos pés para evitar que ele andasse atrás dela. Se ele voltar, disse, ouço logo aqueles pregos a baterem nas tábuas do soalho."

"Quando desci à loja, já lá estava um homem a bater à porta. Assim que o deixei entrar, ele agarrou-me a mão e apertou-ma firmemente, não me deixando afastar. Tinha acordado e deparara com a mulher morta na cama junto dele, e o bebé morto no berço. (...) O home que me tinha apertado a mão tinha sido a primeira alma viva a tocá-la em dias."

"Havia um bacio cheio junto à cama, fezes a flutuar no seu interior. Era mais que provável que este tivesse transbordado porque o chão em volta estava manchado - o cheiro terrível.
Allen sabia que devia esvaziar o bacio. Sabia que se o deixasse onde estava, eles não teriam escolha, ou conseguiam descer, ou ensopavam a sala. Todo o seu conflito interior em relação a visitar doentes se continha na relutância de fazer aquilo. Aquilo requeria uma generosidade extrema da sua parte. O esvaziamento regular da cadeira sanitária de Lily desgastara o seu altruísmo."

"Depois acendi a lareira com restos de chão da oficina e sentei-me para tocar a música que tinha feito para o poema. Depois de ter pensado que o piano seria de maior utilidade se desmontado e transformado num caixão (...)"





«O Desfile da Primavera» de Richard Yates :: Opinião



São tristes, são sós, chegam até a ser deprimentes, as personagens e os enredos de Yates, mas é tão bom, mas tão bom de ler que tive necessidade de repetir a incursão na obra do autor.
Descobri Richard Yates em 2017 com o fabuloso conjunto de contos «Onze tipos de solidão» e foi daqueles autores que me cativou desde logo.
Por isso, quando este ano começou, peguei logo num livro dele: «O desfile da primavera» que arranca assim: “Nenhuma das irmãs Grimes estava destinada a ser feliz, e olhando para o passado sempre houve a sensação de que os problemas começaram com o divórcio de seus pais.”

Se desde o início sabemos que nenhuma das irmãs Grimes será felizes, sabemos também que será a escrita de Yates que oferecerá algum tipo de redenção à descrição dos acontecimentos naquelas vidas. E é isso que é brilhante, a escrita de Yates. É impressionante como em tão poucas páginas o autor é capaz de enfiar anos de vida de duas mulheres perdidas na luta pela felicidade. Tentem elas atingi-la da forma mais segura e até banal ou, de forma aventureira e moderna. No entanto, o autor avisa-nos desde a primeira linha que o que lhes reserva não é bom.

"O olho de Sarah não sofreu danos - os seus grandes e profundos olhos castanhos continuaram a ser o traço dominante de um rosto que haveria de ser belo - mas ficou para o resto da vida com uma cicatriz azulada que descia da sobrancelha até à pálpebra, como o risco hesitante de um lápis, e Emily não podia nunca olhar para ela sem se recordar de como a irmã tinha aguentado tão bem a dor. Recordava-lhe também, vezes sem conta, da sua própria susceptibilidade para o pânico e do seu incomensurável pavor de estar só."

Yates tem esta capacidade de montar todo um cenário com frases aparentemente simples e capítulos breves. Numa frase curta ele é capaz de nos dar informação capaz de revirar tudo o que sabíamos até ali.

"Mas parou de chorar abruptamente quando se apercebeu que até isso era mentira: aquelas lágrimas, tal como todas as outras que derramara durante toda a sua vida, era apenas para ela - para a pobre e sensível Emily Grimes, que ninguém compreendia, e que não compreendia nada."

Quer parecer-me que todos os contos e romances de Yates têm sugestões musicais, algumas delas poderiam são até capazes de denunciar desejos dos personagens, mas o autor é implacável e o rumo é maioritariamente negro, com vidas preenchidas de solidão, ainda assim o lamento transmitido ao leitor perante algumas das situações vividas pelas personagens tem rasgos de humor, que chegam a ridicularizar a situação, revelando a desesperança.

"- Oh" Como lhes chamas os seus amigos? Andy?
- Oh, meu Deus, não. «Andy» não! Dá a ideia de um tipo demoníaco e desbragado, que não sou de todo. Sempre fui tratado por Andrew, assim mesmo, sem diminutivos (...)
Pela forma como comia, ela apercebeu-se que Andrew gostava de comida (...) não disse grande coisa até estar cheio, e por essa altura havia uma fugaz auréola de gordura em volta da sua boca. Depois começou a falar como se conversar fosse outro prazer sensual (...)"

A mim cativa-me sempre. E continuo com a mesma ideia: quero ler tudo o que houve para ler de Richard Yates.

*

Numa pesquisa sobre o livro encontrei o trabalho fotográfico de LIRON KROLL inspirado neste romance e de onde retirei as fotos para este post.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

«Cronovelemas" de Mário de Carvalho - Opinião


«Cronovelemas" ou crono-novelemas, como eu insisti em lhe chamar, integra duas novelas: "A Arte de Morrer Longe" e "Quando o Diabo Reza", unidas agora sobre este neologismo ou cruzadas aqui, visto a sina da escrita também ser sistematicamente traída pelos caprichos da realidade. 


"Quando o Diabo Reza" traz-nos dois artistas daqueles com quem já todos nós nos cruzámos numa esquina de Lisboa ou ao balcão baço de um tasco a beber uma mini. Estes artistas, Bartlo & Abreu, o uso do "e" comercial é propositado, se bem que é um negócio condenado ao insucesso, por um lado devido às perlengas vagas e repetitivas de um e, às estratégias e ideias já gastas, de outro. 
No entanto, a congeminação é feita muito ao jeito típico e comunicativo de Mário de Carvalho que conquista o leitor a cada palavra, o enreda a cada linha e o embrenha em parágrafos cheios de rasgo.

"Mas Abreu optou pela serenidade desprendida, naquele jeito de boca descaída, de infinito desprezo pelo mundo, sem pachorra para atender Bartlo e os outros mangas que estavam ali a fazer-lhe confusão, enquanto ele se concentrava. Ficar-lhe-ia bem um cigarro ao canto do beiço, o olho meio fechado por causa da linha do fumo (...)"

"Mas Abreu não convenceu ninguém. Acabou por confessar, meio envergonhado:
- Sempre tens mais presença, pá. E faladura.
A ele entravava-se-lhe a voz sempre que acelerava o pensamento. No fundo, invejava aquele desembaraço com que Batlo, em abancando, estendia as pernas, levantava a mão a meia altura e vá de palavrear e enfiar histórias, magnetizando quem estiver em volta. Não era grande cabeça para meditar, mas tinha uma boca de ouro para a palradeira."


"A Arte de Morrer Longe" é um hilariante relato do que pode ser uma discussão sem fim à vista, perdida nos pântanos sombrios em que se tornam certos casamentos. Vagamente desdenhoso, mas carregado de humor negro, a novela traça uma crítica feroz a certas dinâmicas românticas. E, como foi lido depois de "Quando o diabo reza" parece que estava a encontrar os tais policias com pouco treino no diálogo, já que aqui, os encontros com a policia dão todo um outro desenlace a esta arte de (fazer) morrer longe e dão um outro significado à célebre frase: «o escuro tem vida própria».
Sobre a saga da tartatura nada direi, para permitir ao futuro leitor todas as risadas que este trio lhe proporcionará.

"Nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, há tal melancolia, e no século XXI, Cesário amigo, pouca é a melhoria. As municipalidades poupam nos gastos de iluminação, porque interiorizam que os habitantes já chegam à noite muito fartos da célebre luz de Lisboa e precisam de descansar os olhos e os sentidos. 
E, se assim é nas praças históricas, como o Rossio, com grande profusão de sombras, e nos antigos bairros que tomam trevas de floresta negra, então mais se enegrece o ambiente quando se trata de alumiar plantas, relvados, bichos, espaços vazios e águas largas (...)
Por tudo isto, não é fácil abandonar uma tartaruga no lago do Campo Grande (...) atolando os pés em torrões de terra, fazendo rechinar a relva, criando em torno de si um halo de crepitações capazes de despertar qualquer tigre dente-de-sabre à solta."





quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

"Com ESTE HOMEM"

Jesse e Ava estão tão loucos como estavam há 12 anos atrás, ou para mim, como estavam em 2014 quando li a trilogia Este homem e fiquei a conhecer o mundo louco, a personalidade mandona, o sexo escaldante e a perdição por manteiga de amendoim de Jesse Ward.
Estive a reler a opinião à trilogia e resumo a minha opinião com esta citação:
"Passei por diferentes opiniões ao longo desta trilogia. Comecei por gostar da história mas não de Jesse, depois era Ava e a sua passividade que me irritavam enquanto o enredo melhorava mas quando entrei no terceiro capítulo, decidi meter tudo para trás das costas e dar-lhe uma última oportunidade de me arrebatar por inteiro. O caminho foi tumultuoso mas o destino final surpreendeu-me pela positiva. Agora, aplaudo de pé!!"


Em "Com Este Homem" reencontramos Ava e Jesse com 12 anos de relação solida mas igualmente louca e carinhosa. 

Num dia a dia feito lado a lado, a trabalhar no ginásio/spa que ambos criaram, este casal continua no auge ao longo de mais de uma década de casamento, mesmo com um par de gémeos de 11 anos.
Mas são os momentos baixos que nos fazem agradecer pelos altos e a vida desta família é revirada do avesso quando Ava sofre um acidente que a deixa em coma. E ao acordar Ava não reconhece Jesse, os filhos...na realidade Ava acha que ainda está nos primeiros anos da sua vida adulta, com muita coisa para curtir, um corpo todo no lugar e que é a única pessoa que tem de ouvir para tomar decisões da sua própria vida. 
Como dar a conhecer a Ava a história tão especial que viveram juntos?
Como faze-la entender que não só é mulher como mãe de dois miúdos?
Como lidar com isso tudo e ainda com as outras complicações que Jesse e Ava sempre tiveram de lidar ao longo da última década juntos?




Regressar a este casal anos depois de ter lido a história faz-me sentir tão amenésica como a personagem.
O que me lembrava?
Ele - escaldante, mandão, dono de mansão de sexo, louco por rendas
Ela - desafiadora, igualmente louca mas por ele :)
O que me lembra deles como casal?
Só me lembro que era sexo e confusão intercalado com muito drama ao longo de três livros.
Curiosamente este foi o melhor.
Porquê? 
Porque não me lembro dos outros. Porque fui relembrada de episódios que viveram ao mesmo que Ava os ia descobrindo e acabei por gostar da ideia do "oh meu Deus tenho 50 anos mas continuo um deus do sexo"
Por vezes é engraçado voltar a estas histórias.
Quem gostou de reencontrar Jesse e Ava?