segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Opinião "Alguém como tu"


Coral sabe que o melhor remédio é aproveitar o presente, não lamentar o passado e não fantasiar com o futuro. É uma mulher com os pés bem assentes no chão e que sabe o que quer. Desde que foi mãe e a sua relação com o pai da filha caiu por terra, está decidida em manter os divertimentos bem separados dos sentimentos. Ciente do que quer em termos de sexo, Coral não se coíbe de aproveitar os encontros amorosos que tem mas há um que ela não se importava nada de repetir, e repetir e repetir.
Andrew McCoy é o chefe da segurança da sua amiga Yanira e a estrela mais brilhante no mapa de conquistas fortuitas de Coral. Juntos tiveram uma noite que rebentou com a escala mas se Coral tem o seu código de conduta baseado no "aproveitar sem se apaixonar, então Andrew nem comete o erro de repetir com a mesma. Para ele a melhor maneira de evitar confusões é deixar bem claro que não quer mais nada do que aquela noite e assim não há hipóteses de alguém ficar a remoer e tornar uma noite em algo mais.
Para Coral essa pedrinha no sapato ainda se torna mais pesada quando o docinho das suas fantasias se torna seu vizinho e entre ambos se desenvolve uma bonita amizade.
E o que dizer a Coral quando ela aceita ir com Andrew ao rancho da sua família enquanto se faz passar por sua namorada?
PURA LOUCURA!
A RECEITA PARA O DESASTRE!!
E o clássico "depois não digas que não te avisei".

Uma vez no rancho da família de Andrew a mentira ganha pernas à medida que os dias vão passando, Coral se vai inserindo nas coisas boas e más deste clã e a intimidade com Andrew ganha contornos nunca esperados.
Mas será que o acordo mudou? Estarão os dois na mesma página no que toca às alterações que a sua "relação" sofreu?
Ou estará Coral no derradeiro caminho para mais um desgosto amoroso?

Uma história de força, perdão, aceitação e coragem que nos mostra que por mais capítulos que a nossa história tenha, nem todos são maus, que eventualmente o final feliz "como o dos filmes" acaba por chegar até nós. 
E se não chegou até agora é porque a história ainda não chegou ao fim.

Os livros da Megan Maxwell são sempre divertidos e românticos mas ao fim de tantos já não fico rendida como aconteceu com os primeiros, sejam os mais hot ou os mais fofinhos como este "O teu aroma a pêssego" ou "Deixa-te levar".
No entanto, foi interessante ficar a conhecer a história de Coral que nos tem divertido tantas vezes ao longo dos livros das suas amigas e os Ferrasa.

E como fiquei numa de música country, aqui fica uma que encaixa bem na história.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

«ABC da Poupança» de Ana C. Bravo - Opinião


"Poupar não é necessariamente uma medida SOS (...) A frugalidade é uma forma de consciência expandida, de percebermos que, no fundo, o verbo «ser» é muito diferente do verbo «ter»..."

Poupar ainda é tabu ou sinónimo de fragilidade? Ou mais além, de falhanço?
A frugalidade está na moda ou é uma tomada de consciência para evitar o esbanjamento?

A frugalidade é igualmente vista como uma qualidade de quem é prudente no uso e consumo de recursos como: alimentos, objectos, tempo, dinheiro ou bens em geral. É uma postura de consciência comportamental que visa proteger e gerir estrategicamente recursos e seus hábitos de consumo e de preocupação a longo prazo com a sustentabilidade.

Assim, esta filosofia de poupança usa um sistema sustentado por resultados, não de satisfação ou gratificação imediata, mas de contenção, opta por soluções de consumo com baixo custo e de cultura comunitária e local, daí a ligação entre: organização financeira, reciclagem, produtos locais, sustentabilidade e por sua vez «felicidade e paz financeira».

Este livro ajuda-o a engendrar um plano de poupança que vise atingir a meta: «É preciso tão pouco para viver bem." Por isso, dê o benefício da dúvida e siga alguns do conselhos de literacia financeira e treino de previdência:

-"Orçamentar é sinónimo de poupar..." e para tal precisa de saber, ao detalhe, todas as suas despesas, anote tudo ou guarde os talões.
- Divida as despesas por rubricas: supermercado; casa; tabaco; gasóleo... e depois pergunte-se:
              - Tenho hábitos que podem ser mudados?
              - Faço despesas desnecessárias? Preciso mesmo de tudo o que compro regularmente?
              - Onde consigo melhorar?
- Seja pragmático e realista. Estabeleça limites!
- Programe-se para poupar 10% do seu rendimento.

Atenção: 10% é um bom ponto de partida, um valor facilmente suportado pela nossa cabeça. Vá ao banco e estabeleça uma transferência automática de 10% do seu salário. É uma ajuda que dá a si mesmo. Não se desfalque!

Nota importante: não se esqueça que a rubrica "Carro/combustível", inclui muitas outras despesas, são exemplos: seguro, IUC, revisão anual, óleo, filtros, pneus, inspecção, escovas de pára-brisas, lavagens...
Aqui o cálculo deve ser pensado de forma anual, para depois ser dividido pelos 12 meses do ano, e assim, poderá pôr de parte para despesas maiores e de periodicidade anual.

Outra nota importante: a sua poupança de 10% por mês e o reembolso do IRS (caso receba) são boas quantias para criar um fundo de previdência, digamos um mealheiro. As emergências e imprevistos são um facto e exigem fundo de maneio.

O livro de Ana C. Bravo tem uma parte introdutória para orçamentar, depois, mais especificamente, apresenta nove áreas em que dá dicas de poupança, desde as compras do dia a dia aos filhos e à gestão do lar, sem esquece férias ou remédios caseiros.
Basta escolher aquelas em que mais lhe "dói" e aplicar o devido curativo.

De entre as centenas de dicas, deixo algumas mais capazes de gerar falatório.

- Leve dinheiro para pagar as compras/evite cartões e créditos

- Ande a pé, por desporto, por hábito ou como meio de transporte

- Esqueça o "standby" e poupe 25% na factura da luz

- Se for jantar fora, partilhe a sobremesa

- Use a areia da praia para a exfoliação corporal, fora dessa época, use açucar mascavado no seu gel de banho

- Leia um bom livro sobre remédios caseiros e aprenda a usá-los

- Conheça a escova que lava os dentes sem pasta: procure por Soladey


Vocês não vai ficar rico com estas estratégias, mas pode desafogar-se e ficar mais organizado, em casa e na carteira! E vai também contribuir para a saúde do planeta.

*

Uma leitura com o apoio blogueiro do Estante de Livros

domingo, 28 de outubro de 2018

Opinião "O Prédio das Mulheres Que Desistiram dos Homens"

Para uma total mudança de perspectiva nas tramas que são as relações amorosas entre homens e mulheres, vamos falar de um livro em que as mulheres, por desgosto ou fastio, excluíram os homens da sua vida. Ou pelo menos assim o parece. 


 Quando umas das inquilidas deste prédio exclusivamente feminino decide partir para uma aventura no outro lado do mundo, deixa vazio um andar que rapidamente é ocupado por Juliette, a nossa protagonista. A mais jovem de todas as intervenientes desta história, Juliette, a quem as regras do prédio foram ditadas à priori, alberga uma mente que saltita, ainda que secretamente, como uma bobine solta por pensamentos de sons, cheiros e coxas masculinas. O seu desejo por amor e aceitação, algo que nunca teve ao longo da sua vida, é um segredo que guarda bem longe das suas novas vizinhas e amigas. 

 Giuseppina, a Siciliana, o único tentáculo num polvo forte composto por homens rigidos, que sempre viveu um vida ditada pela virtude e o serviço à família. 
Rosalie, a ex mulher moderna e metade da dupla "Rosalie e François" até ao dia em que ele saiu para comprar tabaco e nunca mais voltou tal era o medo do compromisso e da mini van com um banco de trás repleto de putos aos gritos. 
 Simone, outrora uma filha do campo, conta com uma surpreendente aventura por terras sul americanas que a fizeram voltar à pátria com um filho nos braços, conta agora com um ninho vazio, povoado apenas pelo odor dos seus cozinhados, a presença calmante da sua planta de cannabis e o ronronar de Jean Pierre, o único macho autorizado a meter a pata no imóvel. 
Quem ditou as regras foi a Rainha, dona do edificio e de uma aristrocracia intemporal de quem em tempos foi adorada em palco mas infeliz no amor. Foi o italiano que lhe quebrou o coração que a presenteou com o prédio em que hoje estas mulheres, que renegaram os homens das suas vidas, habitam num pacato pátio no 20º arrondisement parisiense. ​

"Então porque desististe? 
Não desisti dos homens. Desisti, sim, de sofrer. 
... 
A formação de um casal não é a única resposta à pergunta "como ser feliz?"​ 

 Um romance fora do vulgar, que me fez sorrir pelos momentos em que eu própria já pensei se não haveria um andar para mim neste prédio. 
Uma leitura curtinha e que nos pensar se estamos a renunciar o amor ou apenas o sofrimento.


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

«Departamento de Especulações» de Jenny Offill :: Opinião


"O que disse Ovídio: Se alguma vez fores apanhado, por muito bem que escondas, / Mesmo que seja numa noite clara, jura e rejura que é mentira. / Não te mostres demasiado servil, nem mais atencioso do que é devido, / pois com isso apenas lograrias afiançar a tua culpa. / Esgota-te se for necessário e demonstra na cama dela / que não poderias ser tão bom se acabasses de vir da cama de outra."

*

"Departamento de Especulações", de Jenny Offill, (Relógio de Água, 2015) é um livro arrebatador. E ao mesmo tempo uma chapada em diversos tons e de difíceis contornos. Ou seja, nem sempre percebemos se as palavras nos apanham em cheio, como os cinco dedos de uma mão ou se é apenas, um indicador esticado que nos cutuca o nariz, em jeito de empurrão mais subtil. 

O que é certo é que Offill não escreve sobre nada de novo: um homem, uma mulher, casam e fazem bebés, um dia o homem cansa-se ou sabe-se lá o quê, traia a mulher e a ela, tipicamente como é esperado, dispara em especulações, emoções, divagações e (talvez) separações. 

Simples básico banal. 
Nada mais errado! E é isso que faz do departamento de Jenny um departamento sem igual nesta empresa compartimentada que é a vida a dois.  

"A vida é igual a estrutura mais actividade."

"Os budistas dizem que há 121 estados de consciência. Desses, só três envolvem angústia ou sofrimento. A maior parte de nós passa o tempo a circular entre esses três estados."

Se a estrutura está em risco e a actividade é torturante, minada pelos círculos de angústia e de sofrimento, daí só poderia resultar uma narração conturbada, híbrida e fragmentária, de onde sobressai uma mulher que procura entender, sentir e se abrir ao que a vida tem, agora, para lhe oferecer.

"A invenção do barca representa também a invenção do naufrágio"

"Até ao século XVII, era geralmente admitido que os ímanes possuíam alma. De que outro modo podia um objecto atrair e repeli?" 


Com quantos sinónimos e de quantos antónimos se faz uma relação?
Atracção/traição. Amor/paixão. Cumplicidade/solidão. Desejo/ sexo. Intimidade/repulsa.
Há de tudo no inventário de Jenny Offill. Mas de tudo mesmo, abrindo assim o leque de pessoas que pode atingir. E atinge de certeza.

"O que disse Simone Weil: A atenção sem objecto é uma forma de oração superior."

"Uma experiência mental, proposta pelos estóicos. Se estás farto de tudo o que tens, imagina que o perdeste."

É difícil definir, é extremamente complexo de explicar, pois não é só de sentimentos, de desgosto ou desapego, da maternidade ou da complexidade da vida a dois, todo o livro é digno de ler e reler, de pensar nos diversos caminhos que nos aponta... até na profissão a narradora nos surpreende, ela aceita ser ghostwriter de um "quase astronauta" russo. 

"Minha Vera, Tua Mãe Já Sabe Usar Naftalina. É a mnemónica que lhe deram para recordar a ordem dos planetas."

Com uma separação digna de quem habita outro planeta, a esposa vai narrando e, ora se afasta, ora se aproxima, como se tivesse ao seu dispor um zoom que procura calibrar. 
Ela quer compreender, ela quer aceitar. Especula ensinamentos, palavras alheias, compara-se aos outros e olha para si, para ele, para o "nos". Há até quem diga que este livro é uma ode ao casamento.

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Opinião "Longe do Paraíso"

"Eu sou o sonho americano, do esperma em cheio na cara.
Sou rica.
Como um rapper. Com um homem de negócios.
A conta bancária do Donald Trump e a boca do Pato Donald"


A história de Mona não é fácil de engolir mas é interessante de ser ler. Uma viagem nua e crua sobre a mente humana que vive viciada no dinheiro e no sucesso fácil e sobre a indústria do sexo que fiel a si mesma continua o Olimpo aos olhos de uns e desprezível aos olhos e outros.

Mona, Kim, Holly...
Seja qual for o nome e o momento em que o adopta, ela é apenas uma adolescente que vive no vazio dos dias, a usar o corpo em proveito dos seus interesses, a trocar ilusões carnais por uma chance de seguir caminho rumo ao futuro que anseia para si.
Se o modo como chega à industria da pornografia é calculado ao mais ínfimo detalhe, espezinhando tudo o que encontra pelo caminho, a sua ascensão a estrela porno de renome não é desprovida de momentos que nos revoltam o estômago, quer pelo que ela faz, pelo que é e no que se torna.
Não que me ofenda o facto de ela ser actriz porno, nem de longe, mas apenas acho que "Longe do Paraíso" está exactamente assim, longe de ser uma leitura fácil e que me tenha agradado na totalidade. É interessante sim mas não o consigo ver como uma narrativa sedutora, talvez porque continue a achar que a industria porno é feita para os homens e não para as mulheres, muito menos as que nela trabalham.
Bem, talvez "Longe do Paraíso" só não seja uma leitura para mim.
Numa coisa tenho de dar a mão à palmatória, a descrição de certos momentos, especialmente quando contados pelo olhar vazio e mente calculista de Mona, cuja fome de riqueza à custa de tudo e todos a motiva a atalhar das piores maneiras rumo a uma conta bancária recheada é simplesmente arrepiante.

Mas não é esse o American Dream?
O sucesso e a riqueza?! 
O problema é o custo que lhes é cobrado.

Um livro 



I'm your National Anthem, boy put your hands up, give me a standing ovation
Boy you have landed, babe in the land of, sweetness and danger...

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Opinião "Um homem chamado Ove"

Se eu fosse uma pessoa normal e que leva as coisas sempre com o mesmo ritmo, tinha pegado num papel e caneta ou então aberto um nota no meu telemóvel para escrever a minha opinião a este livro assim que terminei a sua leitura a 29 de Agosto mas como estava de férias não me dei ao trabalho e só publiquei uma foto no insta com esta mensagem:

"Adorei este livro 🙂 que personagem!! Cheguei ao final completamente rendida à personalidade e história da vida de Ove e foi com pesar que fechei o livro."

A Elsa de Outubro pergunta "E agora?"
E posso responder o seguinte:

Desde que li a sinopse de "Um homem chamado Ove" que sabia que ia gostar de ler o livro de Fredrik Backman. Tenho uma certa queda para pessoas rabugentas e Ove é sem dúvida uma pessoa rabugenta, ou pelo menos é essa a impressão que passa a toda a gente.
Ove vive numa bairro simpático que em tempos foi habitado por suecos de respeito como é o seu caso e o da sua mulher Sonja mas desde que este foi crescendo tem vindo a aceitar pessoas que não se interessam por nada, especialmente pelas regras do bairro. Ove é um homem respeitador das regras, talvez por isso toda a gente o ache um velho chato que está sempre a reclamar com tudo e todos mas na realidade, Ove é apenas um homem sozinho, especialmente desde que Sonja morreu e o trabalho já não tem lugar para um homem da sua idade.
Determinado em acabar com a sua vida, são incontáveis a vezes em que vê os seus planos cuidadosamente delineados serem adiados, especialmente pelos seus vizinhos mais recentes, que ele "afectuosamente" chama de Mulher Grávida Estrangeira, o seu marido esgalgado e as suas duas miúdas.
E sem querer, Ove é puxado para os dramas desta jovem família, para os desvarios amorosos de um miúdo que quer conquistar alguém com uma bicicleta, para a responsabilidade de partilhar a habituação com um gato ameaçado de morte e para o facto dos serviços sociais estarem prontos para levar para um lar um homem que em tempo Ove chamou de amigo, pelo menos até ele trocar o seu Volvo (o segundo carro aceitável para um homem decente ter, porque o primeiro é e sempre será um SAAB) por um BMW.

Divertido, tocante e capaz de nos arrancar umas quantas lágrimas lá para o final por estarmos tão apegados à integridade e ao coração gigante de Ove, "Um homem chamado Ove" é uma magnífica leitura e acho que todos temos a aprender grandes lições com este Senhor com S maiúsculo, uma prova que já não se fazem pessoas como antigamente mas que se nos esforçarmos podemos ser dignos da mesma admiração. E epah, eu não conduzo um SAAB mas sim um Volkswagen e digo, para mim é sempre um ponto positivo ver que alguém escolheu a mesma marca de carro que eu, é quase uma validação, algo que acontece quando vejo alguém a ler. :)

Mas o melhor do livro...a história de Ove e Sonja :) 

Agora quero ver o filme. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Opinião "O Rapaz à Porta"

A perfeição sempre me aborreceu mas garantidamente a vida certinha e espectacular Cecilia Wilborg revelou-se tudo menos aborrecida.

Conhecemos Cecilia como uma daquelas mulheres que só de olhar para ela se torna cansativo. Sempre primorosamente arranjada e composta, Cecilia tem a dose certa de tudo. Desde o marido atraente e que toda a gente queria caçar às duas filhas lindas e fofinhas, desde o casarão com vista para o porto de Sandefjord ao trabalho como decoradora freelancer que lhe garante ocupação e "independência" na sua posição de mulher moderna.
Como ela bem diz "tudo o que a Cecilia quer, a Cecilia tem".
No entanto, toda esta fachada foi polida de modo a esconder as imperfeições, as gaffes, os problemas e os erros do passado que podiam manchar a vida perfeita da família Wilborg mas principalmente de Cecilia.
E a primeira frecha abre-se quando, como que caído do céu, Tobias vem parar à vida de Cecília e da sua família.
Mas seria esta a primeira frecha ou apenas a que vai fazer tudo se desmoronar?

Alguém se esqueceu de ir buscar Tobias à aula de natação e devido à sua boa reputação em Sandenfjord e por ter sido a última a sair da piscina, coube a Cecilia leva-lo a casa onde chegou à conclusão que o local estava deserto e não havia sequer indícios de lá viver alguém.
Ressentida com a responsabilidade de tomar conta de um miúdo que pouco ou nada falou desde que estava consigo, Cecilia levou-o para casa só com o objectivo de se desenvencilhar dele no dia seguinte na escola mas surpresa surpresa, também aí ele não era esperado ou conhecido e é aí que a coisa começa a complicar.
Onde estão os pais desta criança?
Se não vive naquela casa, vive onde?
Porque Tobias não fala e quase parece um sombra a mover-se na escuridão?

Com a estadia de Tobias em casa dos Wilborg, a pedido do serviço de assistência social e contra vontade de Cecilia, começamos a perceber que a fachada polida que ficamos a conhecer tem rachas e bastante profundas, que Cecilia não é nem de longe um amor de pessoa, que alberga nela uma escuridão bastante profunda e capaz de destruir tudo à sua volta, a começar por si mesma.A sua bitchiness, desculpem a falta de expressão em Português, tem momentos que são tão espectaculares como repugnantes e quantos mais abalos sofre no seu dia a dia, maior é a sua instabilidade e acreditem, a coisa vai de mal a pior em meia dúzia de páginas.

E à medida que vamos avançando ficamos igualmente a conhecer pedaços da história pelos olhos de Tobias e Annika. Sim, Cecilia pode ser a grande peça do puzzle mas foi Annika que me prendeu à história, mesmo que inicialmente começasse por a desprezar, pouco a pouco mostrou um lado tão humano e credível que se tornou, pelo menos para mim, na melhor personagem deste livro. Não vos vos explicar quem é a Annika, vou convidar-vos a ler o livro. Acreditem, merece a pena só para ficar a conhecer Annika e Cecília, especialmente esta última que com a sua arrogância e altivez fez-me pensar em todas as razões porque não almejo a perfeição e por me afasto de pessoas que fazem da ostentação, superioridade e rebaixamento do outro uma actividade diária.

É curioso como tinha a certeza sobre o destino desta história desde que li a sinopse mas foi interessante ver a narrativa dar-me a volta, levar-me a acreditar que aquilo que bati o pé desde o primeiro momento não era o que a história me estava a oferecer, só para no fim ficar de queixo caído quando se sabe a verdade e ela é ainda pior do que estávamos à espera.
Fiquei sem dúvida rendida à história de Cecilia, Tobias e Annika e também à escrita de Alex Dahl.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

«COMBOIO PARA O PAQUISTÃO» de Khushwant Singh - Opinião


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Khushwant Singh (1915-2014) foi advogado, diplomata, jornalista, político e um dos grandes escritores indianos ou não fosse amplamente conhecido por expor a partição da Índia em 1947, com a separação do Paquistão e a saída dos ingleses. A polémica em torno das suas opiniões valeram-lhe ser banido e ter a cabeça a prémio, no entanto, nunca abandonou o seu país nem a cultura Sikh. 

A partição de 1947 ainda hoje tem repercussões bem com as diferenças entre sikhs e hindus e claro, muçulmanos, uma maioria essencialmente em território paquistanês. Tais diferenças enraizadas contribuem para maiores divisões e discriminação entre indianos em geral. O romance expõe ainda as fissuras deixadas pelas linhas fronteiriças traçadas conforme os interesses ingleses, causadores de fricções e desconfianças entre um povo separado por clivagens sociais e tradições religiosas. A proximidade geográfico não apazigua diferenças incrementadas ao longo de séculos, e isso o livro também denuncia. 

"«A liberdade tem de ser uma coisa boa. Mas nós, o que é que vamos ganhar com isso? As pessoas instruídas (...) hão-de ficar com os empregos que os ingleses tinham. Mas nós, vamos ganhar mais terra ou mais búfalos?»
«Não», continuou o muçulmano. «A liberdade é para os instruídos que lutaram por ela. Nós fomos escravos dos ingleses, agora vamos ser escravos dos indianos instruídos - ou dos paquistaneses.»"

«Comboio para o Paquistão» expõe também a questão da violência e da matança que existiu fruto de todas essas discórdias, e na aldeia de Mano Majra onde a população, apesar das diferenças, vivia em consonância, vê essa linha de paz, ténue e frágil, facilmente ameaçada quando ordas de migrantes oscilam entre comboios apinhados de gente: muçulmanos que fogem em direcção ao Paquistão e sikhs e hindus que fogem em direcção à restante Índia.
A aldeia, situada junto à ferrovia, passa a ser testemunha da violência extrema que pautou este episódio da História da Índia.

“Desde a partição do país, esta discussão tinha um interesse adicional (...) Agora, os comboios (...) Quando vinham, estavam apinhados de refugiados sikhs e hindus vindos do Paquistão, ou muçulmanos vindos da Índia. As pessoas vinham empoleiradas nos tejadilhos com as pernas balançando na borda, ou em armações de cama apertadas entre os vagões. Algumas vinham precariamente cavalgando os amortecedores entre as carruagens. (...) 
Ele teria descrito a viagem como insuportável, mas os limites a que a resistência humana consegue estender-se na Índia fazem com que esta palavra perca todo o significado."

Khushwant Singh foi sempre indecoroso e dilacerante para os costumes da sociedade indiana, chocando-a, mas isso não o impediu de escrever ao longo de toda a sua vida. 

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Uma edição Cavalo de Ferro