quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

«Uma boa morte» de Hans Küng :: Opinião


Importa começar por dizer que Hans Küng é teólogo e que João Paulo II o proibiu de dar aulas de Teologia em 1979, no entanto, a este teólogo rebelde ninguém o tem impedido de pensar, seja sobre a eutanásia e os dogmas do catolicismo, mas mais que tudo fala de fé, da sua fé: "(...) mas eu tenho a convicção de que a morte não me levará ao nada, mas a uma realidade última e será um caminho interior, por assim dizer, levando à realidade mais profunda, a partir da qual, então, descobrirei uma nova vida."

São questões teológicas, mas também muita introspecção sobre a sua própria forma de avaliar a dignidade humana, a doença terminal, o sofrimento atroz e claro, o lado ainda mais pessoal que são as mortes de entes queridos que marcam e moldam a forma de olhar a morte como uma fase da vida.

“A vida transforma-se, não nos é tirada (…). Não se trata de um acabar nem, muito menos, de um perecer, mas de um consumar: a pessoa finita entra no infinito.»

Küng também aborda a mudança de opinião, que com o passar do tempo há quem defenda a prática do suicídio assistido, como quem ao ver essa fase da vida mais próxima de si, muda de opinião: "(...) perante a incerteza e a ignorância completas do que há para lá da morte. A monstruosidade da morte operada por acção própria surge perante a alma com uma atitude ameaçadora. Os sentimentos mudam [...])"

Os sentimentos mudam, é verdade de certeza, bem como a experiência pessoal quando confrontados com a dureza e a desumanidade da doença, aquando dos cuidados paliativos, e desses Küng também fala, e pergunta se a vida deverá ser isso, essa perda de dignidade e sofrimento tal que leva alguns ao suicídio, alguns, os que conseguem. Porém, há imensos presos a camas, totalmente dependentes, incapazes de pôr fim à vida mesmo que assim o desejem. E os familiares, os cuidadores: o sofrimento deles, a responsabilidade e até a culpa. 

Tais questões que levanta e procura responder, desejando um aprofundamento maior, no amplo sentido de se compreender que a eutanásia é também uma "assistência na passagem para a morte", aliás a ética mundial tem vindo a formar um quadro de princípios éticos e morais que assenta precisamente sobre esse acto como um acto de responsabilidade pela vida digna.

Falando de religião, prática médica, Alzheimer, a decisão de jejuar até morrer ou esclarecer a etimologia da palavra "eutanásia", são tudo temas dentro deste relato muito acessível e lúcido que espelha, essencialmente, a vontade de um homem em chamar à atenção para o sofrimento insuportável dos doentes e da família, tentando tornar o tema menos controverso. 

"Muitas pessoas fazem actualmente a experiência de uma despedida alongada pelos sucessos ambivalentes da medicina no que se refere ao prolongamento da vida na doença. Mas, quando o ser humano se despede na passagem para a morte, quando se interrompem todas as suas relações exteriores, extinguindo-se por vezes órgão após órgão (...) entra numa nova relação, oculta para nós. Vita mutatur, non tollitur. A vida transforma-se, não nos é tirada."



sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

«Os anos doces» de Hiromi Kawakami :: Opinião


Depois de ter ficado rendida ao ambiente que a escrita de Kawakami é capaz de criar em «Manazuru» (opinião aqui) tive de ler «Os anos doces» e perceber que a autora consegue criar todo um outro ambiente mas na mesma em torno de uma mulher e dos laços que cria. 

"Talvez porque com ele tivesse a impressão de viver com maior autenticidade...
Era uma impressão curiosa, comparável àquele sentimento estranho que nos leva a não retirar a cinta de um livro recém-adquirido."

Se em «Manazuru» que é um livro cheio de luto, mistério e solidão, conferindo uma aura de enorme fragilidade a Kei, a personagem feminina, que ao se debater com o desaparecimento do marido vive uma maternidade dividida e um regresso à casa materna; em «Os anos doces» Tsukiko é uma mulher independente, mas confusa com as exigências feitas à mulher e com as quais ela não se identifica propriamente, além disso, despreza inclusive algumas delas, talvez aquela que dá todo o ambiente ao livro: o prazer de comer e beber. 

"Felizmente tinham desistido de me pressionar para que me casasse e deixasse de trabalhar. Mas sentia-me pouco à vontade. Era mais ou menos como quando se experimenta roupa feita à medida: há sempre peças que ficam curtas, outras compridas (...) espantada, uma pessoa despe-as, mas constata, ao colocá-las à frente do corpo, que haviam sido realmente talhadas no tamanho certo. Enfim, sentia uma coisa desse género nas alturas em que estava com a família."

«Os anos doces» representam um período de bons encontros comensais entre Omachi Tsukiko e o seu antigo mestre de Japonês enquanto se envolvem numa relação peculiar mas sempre entregue aos prazeres da boca. «Os anos doces» é um livro que faz crescer água na boa.

"Traga-me, por favor, almôndegas de sardinha e fatias de rabanete .
- Eu queria um rolo de pasta de peixe e alcachofras chinesas. E fatias de rabanete também, se faz favor - pedi, sem querer ficar atrás dele. O cliente da mesa ao lado pediu algas..."

Matsumoto Harutsuma é o mestre, um homem mais velho do que Tsukiko e que exerce uma força subtil mas intensa sobre ela, bastava-lhe um sorriso: "(...) Havia algo de diabólico por detrás daquele riso. Algo que lembrava o riso de um miúdo que acaba de esmagar uma formiga." E dessa forma, com trejeitos simples e quase infantis, o mestre prendia-lhe a atenção e o pensamento.

O tempo vai avançando desde a época da apanha dos cogumelos, ao festival das cerejeiras ou à estação das chuvas, entre muitas garrafas de saké, inúmeras formas de comer tofu e uma ou outra iguaria que nos fazem crescer água na boca: "(...) beringelas frescas laminadas e salteadas, cobertas com molho de soja com aroma de gengibre. Couve macerada no miso..."

«Os anos doces» são um retrato delicado de uma relação difícil de definir, onde há, sem dúvida, uma exaltação do prazer de comer e uma comparação entre amor e comida, talvez na complexidade de definir o gosto de cada um.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

«Pão de Açucar» de Afonso Reis Cabral - Opinião




"(...) soube que me oferecia tudo o que eu procurava: a colisão de mundos em perigo, o conflito dos intervenientes com ele no centro, a problematização do corpo, as consequências da miséria, essa palavra que já não se usa mas ainda se aplica, o equilíbrio entre o desespero e a esperança. Quer dizer, nada de especial. 
A partir daí, pesquisei os acontecimentos a fundo.
Li o processo judicial sem parar, (...)"

É em conversa com um interveniente das zonas sujas, Rafael Tiago, que Afonso Reis Cabral parte para esmiuçar a ideia central deste «Pão de Açúcar». A morte violenta de Gisberta, facto verídico (Porto, 2006), confere a este romance o lado mais negro de uma sociedade que alimenta e faz crescer crianças que se tornam adolescentes desajustados e desapegados de valores ficam muito aquém dos desejados. 

"(...) A bicicleta ainda não se tornara real, faltava dá-la a conhecer. Assim é com desgraças e felicidades, partilhamo-nas para mediar a emoção. Mas então pensei, qual alegria qual tristeza, era só sucata despejada com outras porcarias. Calei-me porque achei ridículo, angustiante também, que o lixo de um fosse o entusiasmo de outro."

É no meio do lixo e da doença que uma amizade frágil e intermitente se dá, satisfazendo necessidades de atenção de ambas as partes e reciclando os restos de uma bicicleta, entretanto, entre visitas, a violência e os ânimos exaltam-se e resultam na morte de um transsexual seropositivo e sem abrigo.

"Ela meteu a ponta do indicador no arroz, experimentou um bocado, e depois já punha a mão inteira, já dizia «Está quente!», engolindo com gozo e fazendo os gemidos de quando o ser humano é bicho. (...) Ávida de limpar o lado dela, não reparava na minha cautela. 
Apesar de contente por vê-la satisfeita, a imagem da doença babada para a panela fez-me nojo. (...)
Contudo, o nojo persistia como as tareias que se apanham na infância e nos deixam o corpo dorido até ao fim da vida."

O cenário não podia ser mais degradante e é em si uma personagem que sublinha a critica social, alertando para um problema que persiste em tantas cidades de norte a sul do país; prédios abandonados aos quais os interesses económicos ou os imbróglios jurídicos não deram seguimento e que são focos promotores de miséria. 

"(...) O esqueleto não dava hipermercado. (...)
As ratazanas foram as primeiras. Ainda as obras decorriam e já elas se aninhavam nos cantos. (...)
À noite, os ocupantes dormiam em barracas improvisadas com caixotes, toros, cartões, plásticos e colchões. Melhor dito, dormiam em lares com toques de luz a conquistar o cimento. A ruína sobrevivia à frustração e sublinhava-se: era só gente a dormir.
(...) Para ser útil, não bastava abrigar pedintes, segredos, porrada, troca de seringas, orgasmos e gestos brandos. Não, para ser útil, havia que inaugurar um parque de estacionamento."

O livro é rico nas cenas de convívio entre os jovens e no Pão de Açúcar com Gisberta, mas também dá saltos temporais que levam o leitor a conhecer as duras realidades que ali chocam. Os capítulos oscilam entre o presente de Rafael como mecânico, o lar/abrigo onde os jovens foram criados e a pensão onde Gisberta se prostituía, bem como momentos específicos de algumas daquelas vidas. 

"A determinado momento, a Gi passou-lhe a mão pelo cabelo e ele aceitou a carícia com uma naturalidade que eu nunca igualaria. A naturalidade de quem lida desde pequeno com travestis. Para mim foi como levar uma flechada na cabeça: ser assim afagado era mais do que muita gente podia esperar da vida."

Entre alimentar Gisberta e auxiliar Rafael no arranjo da bicicleta, outros episódios acontecem entre os restantes jovens, ainda assim, e mesmo o leitor sabendo o fim, não parece existir nada de decisivo para que a violência ocorra e persista dia após dia. Talvez as circunstâncias, o acaso, a revolta, a desesperança e a solidão... Talvez. Mas isso e muita falta de carinho.

"Dali veríamos as coisas de outra maneira, os problemas ficariam na cave. Os dela, a morte que a comia por dentro, que a obrigava a abdicar a cada dia; os meus, saber que a necessidades de a ajudar só fazia sentido por ambos não termos mais ninguém."



terça-feira, 18 de dezembro de 2018

«O coração é um caçador solitário» de Carson McCullers :: Opinião



«O coração é um caçador solitário» de Carson McCuller é um livro carregado de solidão!

Ao longo de mais de trezentas páginas acompanhamos a tristeza e a solidão de John Singer, mudo mas ouvinte e confessor de um leque vasto de outras personagens, entre elas: Antonapoulos, o grego, também ele mudo; Mick, uma rapariga em debate com a chegada da idade adulta; Jake, bêbado e reaccionário laboral; o doutor Coupland, um médico negro ou Biff Brannon proprietário do New York Café.

"(...) alguns homens optam por se distanciarem dos seus sentimentos, e assim evitam ser consumidos pelos mesmos. Projectam-nos noutro ser humano ou mesmo numa ideia ou num conceito."

"O restaurante ainda não estava cheio. Àquela hora, os homens que haviam passado a noite a pé cruzavam-se com aqueles que tinham acabado de acordar (...). Não se ouvia barulho, nem as pessoas a conversar, pois toda a gente estava sentada sozinha. A desconfiança mútua entre os homens (...) conferia a todos a sensação de alienação."

É entre projecções e desconfianças que vamos conhecemos as histórias tristes destes personagens, todos eles sós, taciturnos e fechados sobre seus dramas, que normalmente são os dramas comuns e intemporais, mas a extensão de dada a cada drama e a densidade que McCuller confere a cada personagem é feita com descrições breves mas extraordinárias; capazes de viciar o leitor naquele enredo, onde cada personagem parece entrar numa competição pela vida mais miserável. 

"O proprietário leu o bilhete e lançou um olhar atento e cheio de tacto a Singer. Era um homem de estatura mediana, com uma barba escura e espessa que a parte inferior do seu rosto parecia de feita de ferro. (...) Todas as noites, o mudo passeava sozinho pelas ruas da cidade (...). Gradualmente, a sua agitação foi dando lugar ao cansaço (...).
O seu rosto revelava a paz taciturna típica das pessoas profundamente tristes ou profundamente sábias."

No entanto, noutras breves descrições McCuller eleva a importância de pequenos gestos que salvam o quotidiano desses mesmos personagens tristes. Não os priva do sofrimento, mas fá-los acreditar, a eles e a nós leitores, na possibilidade de redenção pela amizade, mesmo que por breves momentos. Exemplos disse são as descrições dos carroceis ou das noites em que Mick procura escutar a música que sai das outras casas. E o melhor é que McCuller cria estes cenários em uma, duas frases breves. 

"Essas noites eram secretas e eram o período mais importante do Verão inteiro. Na escuridão, Mick caminhava sozinha como se fosse a única habitante da cidade. (...) Quando ia até às zonas mais abastadas da cidade, todas as casas tinham rádio. As janelas estavam abertas e ela escutava a música na perfeição. (...) escondia-se na escuridão à escuta."

Distinguir entre pessoas tristes e sábias ou revoltadas e sábias e se são pequenas ou não as conquistas diárias de cada um (quando as há) torna-se irrelevante quando compreendemos o que preocupa cada um e vemos problemas sociais de hoje: exploração laboral, racismo, desigualdade de género e a solidão que é uma doença tão potente quanto as outras, mas muito mais difícil de identificar, e aí o livro é ainda melhor e dá às personagens as várias máscaras que a solidão pode ter: revolta, insegurança, melancolia, luto ou até a homossexualidade. 

"(...) o mudo era o seu único amigo. Passavam imenso tempo juntos, sentados no quarto silencioso a beber as cervejas. Ele falava e as palavras reflectiam as manhãs escuras passadas na rua ou sozinho no seu quarto. As palavras ganhavam forma e eram proferidas com alívio."

Já tendo referido tanto do que este livro aborda ainda falta referir a alienação própria e inerente a cada personagem, o peso da deficiência ou a violência contra os negros e a fé na palavra de Deus como única salvação. Mesmo assim tudo isto é pouco. Há mais, muito mais, camuflado nas palavras depositadas uma amizade silenciosa com o surdo-mudo Singer. 

"Ela falava e ele não compreendia. (...) Era como se a sua cabeça fosse a proa de um navio e os sons fossem a água que batia contra o mesmo, para depois seguirem em frente. Ele sentia necessidade de voltar atrás, à procura das palavras que já haviam sido proferidas."

Mesmo que neste livro tudo seja dramático, escuro, sofrido, miserável e cheio de arrependimentos, a mestria com que Carson McCuller escreve, cura qualquer ressentimento deixado no leitor pelo destino das personagens. É um retrato duro, mas poderoso, da condição humana. 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

«A história de uma serva» de Margaret Atwood :: Opinião



«A história de uma serva» livro que deu origem à tão badalada série televisiva que em 2017 ganhou um Emmy na categoria de Drama foi escrita em 1985 e, perante tal galardão Margaret Atwood afirmou que a sua narrativa especula sobre um futuro assustador é ainda mais assustador se assumirmos que a mesma tem contornos de documentário pelas circunstâncias sociais asfixiantes que marcam a actualidade. 

A história que a Serva narra é a pouca que lhe é permitida numa sociedade onde quase tudo é proibido às mulheres, até o uso do seu próprio nome. Porém, os patamares sociais distanciam muito as mulheres desta sociedade totalitária e fortemente religiosa. O regime instituído espartilha um quotidiano resumido às tarefas domésticas e a certas práticas sociais restritas, onde cabe às mulheres o papel que os homens interpretam das escrituras: casamento, manutenção do lar, procriação e obediência ao marido. 

Atwood criou assim um casulo preso a raízes puritanas e cerimoniosas, onde as Servas vivem mais restringidas do que as demais mulheres; são elas as responsáveis pela descendência, são elas as mães da nação de Gileade. Porém, não são elas as mães que darão colo ou afecto, elas são as Servas, a sua missão é parir, até lá, são o depósito da semente (e esperança) dos comandantes, os grandes senhores e líderes de Gileade. As Esposas zelam pela família, controlam Servas e Martas (basicamente criadas) e organizam pequenos festins comensais para celebrar sementes bem lançadas e partos com nados vivos, para além de tomarem parte na Cerimónia mensal. Rituais que chegam a ser chocantes aos nossos olhos de hoje, mas que, com traços verdadeiros, têm origem em tradições do fanatismo religioso. Assustador é o mínimo que se pode pronunciar e que o leitor sente em certas passagens mais descritivas.

A narrativa assume o pensamento fragmentado de June, a Serva protagonista, com saltos temporais tão necessários para a sua saúde mental, como para o leitor perceber como se chegou aquela sociedade tóxica e recente. Ao mesmo tempo mostra a luta quotidiana de uma mulher, outrora livre e independente, numa tentativa de se adaptar a esta nova realidade e provar o seu valor de mulher fértil, ou seja, engravidar do Comandante a quem serve. 
Provar ou não o seu destino: engravidar; faz a sua vida ter valor e continuar integrada na sociedade ou ser desterrada para as Colónias: um local envenenado pelos erros (ambientais?) do passado, onde só se vai para trabalhar e morrer vítima de radiação. 

Todo este relato tem um silêncio constrangedor e de falsa resignação e dele resultam inúmeros códigos e significados partilhados entre as Servas e as Martas. Nos seus olhares, cheios de desconfiança mas também de empatia, desenvolve-se um sistema paralelo e secreto que visa salvar estas mulheres e contrariar a profunda estratificação da sociedade.

No resguardo que é obrigatório a estas mulheres vê-se o quanto este livro é anti-utópico e com uma voz reivindicativa, contrariando teorias de felicidade máxima e concórdia entre os cidadãos de um regime totalitário. A denúncia que aqui se faz é feroz e reduz o totalitarismo a um único termo: primitivo. E faz dele estandarte para denunciar igualmente como é primitiva e bárbara a violência e os condicionalismos exercidos sobre as mulheres. Para além disso, há um traço ténue mas sempre presente, de uma critica social pesada e facilmente transferidas para os dias de hoje. E assim se justifica a intemporalidade da escrita de Atwood.

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«A história de uma serva» de Margaret Atwood é uma das melhores leituras de 2018!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

PASSATEMPO 1 -- "Natal vegan e saudável"


PASSATEMPO 1 

"Natal vegan e saudável" em parceria com Um Curso em Sabores


Oferta de 2 livros com mais de 250 receitas vegan: 

sopas e entradas; molhos, marinadas e temperos 
saladas, massas e quiches
sumos e smoothies 
veggie burgers 
indiano e mexicano
superalimentos
doces e sobremesas 

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REGRAS PARA PARTICIPAR
Siga o link para o post no facebook 


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O passatempo decorre até ao final do dia 16/12/2018.
Os livros serão enviados por Um Curso em Sabores.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

«O Poder» de Naomi Alderman - Opinião



«O Poder» parte do pressuposto de inversão do poder institucionalizado, ou seja, a transferência do poder dos homens para as mulheres. Mas não só. As mulheres têm uma energia electrizante, capaz de alterar o significado mais alargado que atribuímos ao poder. «O Poder» que aqui lhes brota das mãos, talvez metáfora para a forma como Jesus fazia milagres, é uma força extrema capaz de torturar, invocando uma dor excruciante capaz de levar à morte. 

Esta força devastadora, como todas as forças, abre possibilidades para os seus detentores, que abençoados por esse poder podem praticar o bem e atribuir papeis mais justos ou decidir-se pelo mal e provocar uma reviravolta total na natureza das coisas. E é precisamente essa reviravolta e inversão que é o mote do livro. O poder total está do lado feminino e também anos de revolta e desigualdade, resta saber se o Mal, antes de erradicar a desigualdade, irá antes provocar um certo caos e violência, às vezes necessárias para despertar mentalidades. 

"A forma do poder é sempre a mesma; tem a forma de uma árvore. Das raízes às pontas, o tronco central ramificando-se e voltando a ramificar-se, alastrando sempre com dedos cada vez mais finos e exploradores."

A forma como esta distopia é desenvolvida e o recurso que faz a algumas imagens, levou-me a pensar em outros livros. Acho-o inseparável do «A história de uma serva» de Margaret Atwood (os traidores de género ou os homens necessitarem de uma guardiã feminina), quase um livro-resposta, vingando a submissão a que as mulheres são expostas como servas. Mas o lado que remete ao ancestral, à origem de certas gravuras que vão sendo reveladas, fez-me pensar em «A Fenda» de Doris Lessing, livro esse cheio de feminismo e de como as mulheres devem ter sempre papeis decisivos. 

Claro que todo o enredo é uma típica luta entre o Bem e o Mal e o livro assume essa luta de forma muito actual e cinematográfica recorrendo para isso a personagens bastante jovens e de diferentes meios sociais. Facilmente conquistará uma adaptação para série televisiva. No entanto e talvez pelo tom juvenil ou por estar constantemente a ligá-lo a outras referências tive dificuldade em apreciar a leitura e em acabá-lo. As gravuras e o lado de possibilidade histórica tribal captaram a minha atenção, mas o enredo em si não. Deverá ser um livro bastante interessante e desafiante para ser lido pelos mais jovens e até em contexto escolar.


«Salvação» de Ana Cristina Silva - Opinião


"Não grito menos, talvez grite mais baixinho, não choro menos, mas talvez as minhas lágrimas se tenham tornado menos silenciosas. Pela aritmética passaram seis meses desde a morte de Sofia, pelas minhas contas não passou nem um dia."

"Salvação" é um livro de recolhimento na morte e de superação pela escrita. Ou do processo de criação de personagens com as quais se reconstrói um sentido para a perda, o luto, mas também o perdão.

"Eu e David Negro recolhemo-nos na morte da mulher amada e tornámo-nos um só. Esta absorção de um no outro explica que tenha conseguido escrever um capítulo num único mês como se a minha personagem tivesse pegado na minha mão e redigisse por mim as frases."

Colonizado pela dor, o narrador deste livro dedica-se a preencher os seus dias com a escrita de um romance, um novo livro imposto pelo mulher que acabou de falecer, um pedido feito estratégia para que ele supere o luto.
Dividido em pouco mais de doze meses, acompanhamos os capítulos de "O Livro", escrito também sobre o luto e a perda de uma filha, onde o protagonista David Negro expõe as suas mágoas, memórias e reflexões. Ao mesmo tempo, em capítulos que são as fases de luto do narrador, vamos sabendo mais da sua vida com Sofia e do seu dia-a-dia lutando pela superação.

"Desde que a minha mulher morreu o meu luto tornou-se num dilúvio que não deixa espaço para mais nada. A dor não é um local iluminado (...) Mas neste momento, sinto que a jornada de David Negro se transforma num dever que vai para além do pedido de Sofia, ainda que esse percurso não esteja, nem nunca possa estar, separador dela. Até porque é minha intenção apontar o dedo ao deus a que ela tanto rezou e aprisioná-lo numa rede de acusações."

No longo corredor que é o luto e no qual não é possível passar a correr, o narrador embrenha-se numa complexa rede de memórias, no sofrimento e na culpa, sem esquecer acusações e dúvidas, onde Deus tem um papel decisivo, mas a História e o seu curso também. A forma como "O Livro" percorre séculos, o rumo dos eventos chega até aos actuais e as inquietações ancestrais são equiparadas às de hoje: as crises de fé e de valores e as consequências no ser humano. E assim, desta forma, Ana Cristina Silva cava ainda mais fundo o fosso do abandono e da culpa, retratando muito bem o lado emotivo dessa pressão psicológica.

"Continuo a falar com a minha mulher, mas lentamente a morte de Sofia vai deixando de ser a medida de todas as coisas. (...)
Se a dor tivesse assas e batesse, diria que o seu movimento se foi tornando mais suave (...) Porém, o sofrimento do luto não voa, apenas pulsa por dentro (...) tanto assim que só vivo para me afundar na memória dos tempos felizes."

Se retirássemos os capítulos que dizem respeito à escrita de "O Livro", a maneira como a autora relata a perda e a dor é de tal forma emotiva e insistente que traz o leitor para o sofrimento do narrador, tornando a leitura quase aflitiva. E quero com isto dizer que é extraordinária essa capacidade, pois não acho que caia na repetição, mas sim aumentando a densidade psicológica do personagem.

"(...) Em cada intervenção, ele alcança um novo patamar de profundidade, frases empolgadas, quase poéticas - como se existisse uma estética da morte - (...)"

Também seguindo uma estética da morte, associada à própria estética de fé e crença, "O Livro" transforma-se num romance histórico que denuncia e relembra o fanatismo religioso do século XVII e o liga aos eventos violentos actuais para os quais o próprio escritor se sensibiliza quando o luto lhe permita se ligar novamente à realidade que o rodeia: a morte no espectro do fanatismo jihadista.

"Há um momento em que tenho o mais absurdo dos pensamentos: talvez estivesse a ver repetidamente o mesmo grupo de pessoas a sofrer o mesmo atentado (...) Como se aquelas pessoas não tivessem individualidade, como se se tivessem convertido num borrão desfocado de um ecrã, como se a morte se tivesse tornado uma banalidade."