sexta-feira, 20 de julho de 2018

«Fahrenheit 451» de Ray Bradbury - Opinião


Em 1953 o livro de Ray Bradbury foi publicado como um manifesto contra a censura e traçava um cenário diabólico, que à época parecia absurdo. Era afinal um aviso. O seu tom era premonitório e hoje choca pela semelhança com a realidade que temos, numa sociedade tão virada para os ecrãs e em constante estupidificação. 
O alerta era para a massificação da televisão e que as pessoas não estavam a perceber o quanto isso as tornava imbecis e desinteressadas do que realmente as rodeava. E pior é ver que mais de cinquenta anos depois a massificação continua e o cidadão vai empalidecendo atrás dos diversos tipos de ecrãs.
No entanto,  «Fahrenheit 451» é, acima de tudo, uma saga, uma viagem de redenção. Há uma reviravolta e uma conversão que ainda é possível: "vagabundos por fora e bibliotecas por dentro".

Da fogueira até aos homens-livro, conhecemos a reviravolta na cabeça de Montag, o bombeiro que incendeia livros: essas ameaças de luz aos cidadãos cinzentos, viciados em ecrãs e comprimidos. 
O prazer com que Montag exercia a sua profissão/missão é assustadora e percebe-se que é uma referência ligada ao passado recente de uma Europa entregue aos totalitarismos. A critica social é feroz e um espelho do que tem vindo a acontecer até aos dias de hoje:

"Depois, o cinema no início do século XX. A rádio. A televisão. As coisas começaram a ser em massa.
Montag permaneceu sentado, imóvel.
- E porque possuíam massa, tornaram-se mais simples. Outrora, os livros atraíram algumas pessoas, aqui e ali, um pouco por todo o lado. Pessoas que podiam dar-se ao luxo de serem diferentes. Havia espaço para isso no mundo. Mas depois o mundo encheu-se de olhos, de cotovelos e de bocas. A população duplicou, triplicou. Os filmes e a rádio, as revistas, os livros foram ficando todos ao mesmo nível, uma espécie de pudim pastoso (...)
- (...) Os livros ficam mais curtos. Condensações. Resumos. Tabloides. Tudo se orienta para a piada, o fim abrupto.
(...) Tudo digerido, resumido, digerido-resumido. Política? Uma coluna, duas frases, um título! E depois, tudo desaparece! A mente dos homens anda a tal velocidade neste carrossel movido pelas mãos dos editores, exploradores e radiodifusores que, nesse movimento centrífugo, se perde tudo o que seja pensamento, considerado desnecessário, uma perda de tempo!"

Até nesta digestão acelerada e ao sabor de interesses comerciais, este livro se aproxima dos dias de hoje. Cada avanço na narrativa quer chamar à atenção para o poder dos livros e da necessidade de abandonar a máscara social e a vida ao sabor de modas e tendências. Se actualmente "ser diferente" está na moda, a pergunta que fica é se essa diferença é genuína ou simplesmente provocada para uma integração no modelo ditado pelas maiorias. 

«Fahrenheit 451»  é um grito contra o status quo, é um abanão, abana a árvore e deita abaixo essa preguiça... a preguiça de questionar, de pensar. A sociedade distópica aqui relatada não questiona, não tem curiosidades, todos são egoístas e niilistas, aborrecidos e irresponsáveis. Controlam a raiva através de divertimentos tão bizarros e impunes como ir atropelar pessoas. Os livros aqui são símbolos para o livre pensamento, através do acto de ler, pensar, questionar e em última estância, criar e evoluir.

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Uma edição SDE | Saída de Emergência


«O Hipnotista» - Lars Kepler :: Opinião


Publicado em 2010 pela Porto Editora, «O Hipnotista» inicia a saga do detective Joona Linna pela mão da dupla Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril, o casal por detrás do muito aclamado pseudónimo: Lars Kepler.
Aquando da publicação do último volume, «O Caçador», cujo a sinopse me cativou bastante, decidi-me a começar esta longa saga e ficar a conhecer esta dupla, donos de enredos psicológicos e sangrentos. 

«O Hipnotista» parte do mito grego, do deus Hipnos, cujo o nome significa «sono». Hipnos é irmão gémeo da morte e filho da noite da escuridão. Mas indica também que a hipnose remonta à medicina com a data de 1843, como um estado próximo do sono e, ao mesmo tempo, de extrema atenção e grande recetividade. 
Será com esta ambivalência que o leitor se depara durante todo o livro até perceber os motivos do crime inicial e de outros que são descobertos mais tarde. 

Também hipnotizado, o leitor segue com Erik Maria Bark, no frio anestesiante de uma noite nevada e desde logo se percebe que o hipnotista irá ceder e quebrar a promessa. Uma família foi violentamente assassinada, esquartejados, corpos despedaçados pela casa fora, uma carnificina digna de ajustes de contas entre cartéis de droga. 
Bark aceita a sugestão de Daniela e voltará a hipnotizar, mas com resultados que poderão entrar em conflito com o desenrolar da investigação a cargo de Joona Linna, ou pelo menos ele assim decide. Teimoso e persistente, Linna persegue uma investigação de contornos alucinantes, nomeadamente o rapaz que, vítima de inúmeras facadas, se encontrava vivo, contrariamente ao que era suposto.

"O comissário pensa na palavra sueca para «autópsia», obduktion, que vem do latim e que significa, originalmente, «cobrir, ocultar, envolver», quando, na realidade, o que se faz durante esse processo é precisamente o contrário."

Tal como numa investigação, recorra ela a um passado recente ou a um já bem enterrado.
O passado, tão útil a ocultar dramas, mas não a sarar feridas; vive precisamente disso: cobrir, ocultar, envolver e, influenciar o presente. Especialmente quando ocorre o rapto de Benjamin, filho de Erik Bark. É por certo o passado a persegui-lo!

"«O passado não está morto. O passado nem sequer passou», citando o escritor William Faulkner, referia-me a que cada pequena coisa que acontece a um ser humano o acompanha até ao presente. Todas as vivências influenciam (...) tratando-se de experiências traumáticas, o passado passa a ocupar todo o espaço do presente."

É precisamente dessas experiências traumáticas que a dupla Kepler se alimenta para tecer um thriller psicológico intenso e viciante, fazendo o leitor querer logo pegar no volume seguinte: «O Executor» de tão boa que é esta estreia.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

«O Bom Inverno» de João Tordo - Opinião


Frustrado, cínico e hipocondríaco, o narrador: um escritor entregue à melancolia e a um certo ócio, está descrente do poder da literatura. Céptico com o poder dos livros e das suas histórias e, igualmente pessimista com o que a realidade tem para lhe oferecer.

"Se antes eu era um pessimista, depois de comprar a bengala passei a ser um cínico. Um homem novo com uma bengala podia dar-se ao luxo de desprezar o mundo e, assim sendo, eu tencionava aproveitar a oportunidade para ajustar contas com a realidade."

Apoiado na bengala que recentemente adquirida, o narrador escritor larga o conforto anestesiante do seu apartamento e segue em direcção a um enigma oferecido por Vincenzo e um grupo de jovens escritores com quem se encontra numa palestra internacional. 

"«Sabes o que é curioso?», perguntei, sorrindo, embora sem grande vontade, «Eu , no que diz respeito à literatura, regredi. (...)
Nina pensou durante uns momentos.
«(...) cada vez mais acredito que só vale a pena ler um romance (...) quando temos uma pergunta na cabeça para a qual não sabemos a resposta. Ou, mesmo que tenhamos encontrado a resposta, se precisarmos de confirmação.»
Fiquei intrigado. Pedi-lhe nova explicação.
«Pensa bem: o mesmo se aplica a escrever livros, ou não? Não será o escritor, verdadeiramente, o único interessado naquilo que escreve? Quero dizer, porquê andar a inventar histórias a torto e a direito, a menos que essas histórias sejam a solução, temporária ou absoluta, para um enigma qualquer?»
«Todos temos enigmas por decifrar», repliquei. «No entanto, nem todos lemos ficção. E somos ainda menos os que a escrevemos.»
«Justamente», respondeu Nina. «Porque pessoas diferentes encontram as respostas em lugares diferentes (...)»
«Ao mesmo tempo é uma forma de cobardia», respondi (...)
«Pois é», (...) «Os escritores, no fundo, são todos uns cobardes.»
Fiquei sem resposta..."

Com alguma cobardia e sem grande determinação, o destino é a idílica Itália, com o objectivo de conhecer uma prometedora sumidade do cinema e das artes em geral, Don Metzger e usufruir de uma temporada de Verão na sua casa com a promessa de algumas peripécias e acontecimentos inesperados.

"Sabaudia é um lugar estranho, que cai algures entre o cinema realista italiano aprovado por Vittorio Mussolini, filho do grande ditador, e o melhor surrealismo de Fellini. Difícil de explicar. A cidade foi mandada construir por Mussolini em cima de uma vasta extensão de pântanos drenados (...)
«Um lugar bizarro»"

E num lugar bizarro espera-se que aconteçam coisas igualmente bizarras. Vicenzo esperava-o e silenciosamente o escritor desesperançado também, nem que fosse alguma curiosidade que Nina despertava nele para um ajuste de contas com a realidade. Juntos rapidamente se vêem enredados num crime, uma morte seguida de outra, como num jogo viciado ou envolvido nos meandros da máfia. 

"Cauteloso era um eufemismo para aquilo que eu me tornara; na verdade, eu desistira, permitindo que a indiferença vencesse. 
Ajustar contas com a realidade escusando-me de existir, e um homem que se escusa voluntariamente a existir sucumbiu ao apelo da fraqueza, ou da cobardia, ou da ausência..."

Um homem que se escusa voluntariamente a existir, mas que mesmo assim seguiu aquele grupo, embora esteja coxo, deprimido, cansado, não é um homem que abandona tudo por completo. É sim um cínico, um escritor camuflado na lentidão da bengala, na soberba de captar os melhores detalhes para um enredo refinado e primoroso como os balões de ar quente que dão pano de fundo a esta narrativa, juntamente com a voluptuosidade de um bom inverno e o misticismo da floresta.

"O Verão instalou-se na sua grandeza e também na sua miséria. A noção de que pouco havia a fazer naquele momento infundiu nas almas uma entranha apatia e, ao mesmo tempo, de uma urgência em regressar ao quotidiano (...) e partilhavam-no com quem quer que se encontrasse por ali (...) e os seus silêncios eram longos, melancólicos e pesados."

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Desde «A biografia involuntária dos amantes» que um livro do Tordo não me prendia tanto ao enredo e ao narrador. Há como que uma salvação pessoal apegada à salvação dos outros, sempre voluntariamente disfarçada, um pouco cobarde, um tanto cínica, numa procura constante pelas miudezas que dão sentido à vida.

«O desaparecimento de Stephanie Mailer» de Joël Dicker - Opinião



Sou fã de Dicker!
O suiço cria enredos que mais parecem redes velhas de pesca. Embaraçadas em nós antigos, presos por restos de muitas outras pescarias das quais já ninguém se lembra. Depois, numa madrugada em que o mar está de feição, alguém se lembra de desenovelar essas velhas redes e lançar-se a novas descobertas.
O leitor tem assim um papel de mexilhão, fixa-se como pode, agarrando-se aos detalhes, tentado compreender o fluxo da maré.

«O desaparecimento de Stephanie Mailer» é um livro puzzle como «A verdade sobre o caso de Harry Quebert» mas que a meu ver não supera nem se iguala a esse. Os livros estão dentro de livros , a investigação chega a ser incauta ou pessoal mais do que detetivesca, o amor move sempre a maioria dos personagens, mas a forma como este último é montado não se torna tão viciante como o primeiro, e nem cumpre a máxima: "Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter acabado de ler."

Talvez a expectativa fosse muito elevada ou então é a minha exigência. O que sei é que não me fixei tanto nas personagens e senti semelhanças com outros enredos ou dei por mim a divagar para outros cenários. Houve personagens ou situações que me lembraram a série «Fargo»,a falsidade de certas personagens levou-me a pensar em «Big Litle Lies», o cenário, Orphea, cansou-me pela sua superficialidade.

No entanto, o livro tem tudo: os capítulos incisivos e que alimentam o ritmo de leitura, o enredo que se adensa, as peripécias, os supostos deslizes dos personagens para o leitor achar que já sabe quem matou quem, o lado de farsa daquela camada social, o critico azedo, a jornalista e a detective que querem singrar como profissionais reconhecidas, um pouco daquele charme do policia bom e do policia mau... e claro está, um erro que pode pôr em causa mais de vinte anos de uma carreira bem sucedida. Mas falta-lhe qualquer coisa e creio que desta vez os detalhes, as histórias de tantas personagens acabam por distrair ou talvez até cansar o leitor, que quer ver uma justificação para tantos enredos dentro do enredo e sai um pouco frustrado pela colagem final.
É muito mais uma série de mal entendidos, acasos infelizes e amores assolapados do que mentes argutas e frias que arquitectam um crime perfeito.

Repito sou fã do autor, li os seus quatro livros, o meu favorito é o que foge ao ambiente de thriller, «Os Últimos Dias dos Nossos Pais» é um livro de extrema beleza, essencialmente pelo lado humano e a forma como descreve as relações que superam o ambiente de guerra. Este último, definitivamente, não me convenceu.

sábado, 14 de julho de 2018

«Morrer com dignidade – a decisão de cada um» - Opinião


O livro "Morrer com dignidade: a decisão de cada um", da autoria do movimento cívico Direito a Morrer com Dignidade e organizado pelo médico e político João Semedo (coautor de «Salvar o SNS», Porto Editora 2017), pretende esclarecer e informar sobre a despenalização da Morte Assistida. O livro inclui testemunhos de personalidades públicas e textos que abordam as questões fundamentais sobre a morte assistida e ainda apontamentos de foro jurídico sobre os projectos de lei que visam a despenalização na ajuda à morte. 
Seja apelidada de eutanásia, suicídio assistido ou morte assistida, tudo são termos para obter ajuda a morrer de forma legal e sem consequências para quem ajuda, nomeadamente familiares. O tema já não é novo no debate nacional e é dos que mais tempo tem sido alvo de debates e criticas ferozes, mas ainda assim, muito há ainda que debater e esclarecer, para que exista uma maior aceitação pela escolha de cada um.
"A despenalização da morte assistida é a mais humanitária e democrática opção que podemos aprovar para o final da vida: ninguém é obrigado e ninguém é impedido, o único critério é a escolha de cada um."

E é nessa possibilidade de escolha que reside ou que devia residir a democracia actual, permitindo a actuação em liberdade e responsabilidade, tanto de quem pede para ser ajudado a morrer, como quem pode e tem meios para ajudar. A relação médico-doente tem sido igual e amplamente debatida e muito se tem discutido sobre a missão dos médicos, mas também sobre a forma paternalista como se olha à pessoa doente.

"Nós somos seres para a morte. Sabemo-lo desde que nascemos (...) É «humano» e - como dizia Ter~encio - nada do que é humano nos é estranho. Então porquê considerar uma aceitação do fim, um planear do fim, como um transtorno da razão? Se a doença altera o nosso estado de espírito não nos estupidifica necessariamente. Nem nos obriga a suportar um sofrimento indizível. A doença pode dar-nos uma consciência renovada sobre a nossa finitude (...)
Deverá o médico consolar? Sim, (...) mas respeitando criteriosamente a racionalidade interna do seu doente (...) Pois o médico não tem de ser um dador de sentido. Tem de ser um respeitador dos sentidos."

Laura Ferreira Alves («Ajudas-me a morrer?», Sextante 2009) fala do fim da vida em sofrimento como uma tortura e é no sentido de acabar com essa tortura que se apela ao direito da liberdade individual de escolha em antecipar o fim dessa mesma vida. No entanto, a deliberação a favor da despenalização continua a protelar e a apelar, ou a apoiar-se, nos cuidados paliativos, que sabemos serem bastante fracos no nosso país e daí o constante alerta: "morre-se mal em Portugal". A degradação lenta e penosa da pessoa perante a doença é o principal fundamento para se exigir ao direito a uma morte digna e livre do peso da clandestinidade.



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sábado, 23 de junho de 2018

"Extremamente alto e incrivelmente perto" de Jonatham Safran Foer :: Opinião

Resultado de imagem para "Extremamente alto e incrivelmente perto" de Jonathan Safran Foer

Mais de anos separam os romances "Extremamente perto e incrivelmente alto" de "Aqui estou", mas eu não não precisei sequer de um mês para devorar ambos os livros. A escrita de Foer é altamente marcante. O autor cria narrativas entrecortadas no tempo, que fazem o leitor sentir-se à deriva. Afinal o foco dos seus romances é a família e quantas vezes os dramas familiares não são isso mesmo: um imenso mar onde tudo choca, tudo balanceia e se revolve, aguardando por marés mais calma, mais apaziguadoras. 

"As palavras já se tinham esgotado quando conheci a tua mãe, talvez tivesse sido isso a tornar o nosso casamento possível, ela nunca teve de me conhecer."

A sensação de não conhecer perdura no leitor por muito tempo, diria até que navegamos sem rumo por mais de uma centena de páginas. A dificuldade de ligar as histórias e saber quem é quem parece propositada, só Oskar nos vai encaminhando e puxando para o presente. E mesmo assim, a forma acelerada e complexa como funciona a sua cabeça, em modos de quase-cientista, ajuda a compor uma autêntica sinfonia com toda a restante família.

"As minhas botas estavam tão pesadas que me senti contente por haver uma coluna por baixo de nós. Como podia uma pessoas tão solitária ter vivido tão perto de mim durante toda a sua vida? (...)
Isso fez-me começar a perguntar-me se haveria outras pessoas tão solitárias assim tão perto. Pensei em «Eleanor Rigby» (título de uma canção dos Beatles). É verdade, de onde vêm todos eles? E onde pertencem?"

 A solidão é uma constante. É uma tempestade avassaladora. Oskar perdeu o pai no atentados do 11 de Setembro e a sua luta é tentar sentir-se mais perto dele, todos os dias. Oskar não o quer esquecer, não se quer desfazer de objectos do pai, não quer que a mãe prossiga com a sua vida. E mais, quer desvendar um mistério por detrás de uma chave misteriosa. E isso levá-lo-à a confrontar-se com a solidão dos outros, as suas emoções mais retraídas e a crescer em mais direcções do que aquelas em que já cresceu para a sua pouca idade de onze anos.

"Outra coisa que também me surpreendeu foi o caixão não estar fechado à chave, nem sequer pregado com pregos. A tampa só estava assente em cima dele (...). Isso não me pareceu bem. Mas, por outro lado, quem iria abrir querer abrir um caixão?
Abri o caixão.
Fiquei outra vez surpreendido, embora, mais uma vez, não devesse ter ficado. (...) Ou talvez ficasse surpreendido por ele estar tão incrivelmente vazio. Pareceu-me olhar para a definição de vazio no dicionário."

A variação no discurso é complexa e leva-nos até diferentes personagens que convergem para o passado. O passado, mais ou menos longínquo, é constantemente invocado através cartas dispersas, umas guardadas, outras lançadas ao acaso e ainda outras eternamente à espera de encontrarem coragem para as selar e seguir o seu caminho. 

A memória e o passado atravessam esta narrativa com a mesma força com que Oskar se empenha na sua busca. "Extremamente alto e incrivelmente perto." é um livro desafiante, recheado de peripécias e uma boa dose de humor negro, devido à forma como Oskar olha e comenta o mundo à sua volta. E é ainda um livro carregado de emoções que ora nos faz olhar ao nosso umbigo, fazendo-nos reflectir, ora nos abre os olhos para uma dimensão muito maior do mundo. 

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Opinião "Chama-me pelo teu nome"

 Embora não seja costume ler o livro depois de ver a sua adaptação, não resisti em comprar este romance de André Aciman e de voltar aos idílicos meses de verão sob o sol italiano, tão repletos de paixão, mal entendidos, medos e experiências marcantes. Queria confirmar se o primeiro pensamento que tive, que esta história era uma coisa linda e livre de julgamento, se mantinha com a leitura.


Elio é um miúdo com 17 anos no corpo mas muitos mais na alma. A educação e a liberdade que os pais lhe deram fazem-no viver com a complexa tarefa de pensar e sentir como alguém mais velho mas não é por isso que deixa de ter coisas da sua idade.
Quando o mais recente visitante de verão chega para passar 6 semanas, Élio oscila entre a necessidade de agradar e a demonstração casual de indiferenca que por vezes lhe é característica mas que também esconde algo mais.
Oliver, nos seus plenos vinte quatro aproveita a oportunidade para trabalhar no seu livro enquanto ajuda o pai de Élio, isto tudo numa estadia que eu dava um dedo do pé para poder usufruir.

E o que começou com uma secreta atração unilateral transforma-se em algo profundo, capaz de derrubar as barreiras que eles próprios ergueram entre ambos, capaz de os fazer sair da sua própria pele.
Uma história de amor, desejo, culpa, dúvida e intimidade. Uma que me deu um gozo enorme conhecer e que me deixou rendida à beleza que os olhos de Élio captam naquelas semanas. Beleza essa que não se perde nem nas cenas mais in your face

E aquelas últimas 30 páginas mexeram comigo, tanto como quando vi o filme.
Não vos quero roubar a beleza pura de uma conversa em específico mas quando chegarem lá vão perceber. Ou talvez seja preciso ter passado pela nossa cota parte de amores, desamores, dúvidas e julgamentos para ver nesta história a beleza que lhe é inerente.
A verdade é que demoramos tanto tempo a perceber quem somos e vivemos tanta coisa em vidas paralelas à que levamos diante da grande maioria das pessoas que nos rodeia que é bom saber que há quem consiga, sem falácia ou moralidade, apoiar-nos no bom e no mau, no certo e no incerto.
Termino com um sorriso, uma lágrima e esta frase:

"Arrancamos tantos de nós próprios só para nos curarmos das coisas, mais depressa do que deveríamos, que entramos em falência por volta dos trinta anos e temos menos para oferecer de cada vez que começamos com alguém novo"

"Chama-me pelo teu nome" é um dos meus livros preferidos e chega a Portugal pela mão do Clube do Autor

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Opinião "Os Altos e Baixos do meu Coração"


Molly apaixonou-se 27 vezes e em quase 100% dos casos, o alvo do seu afecto nem sequer sabia que ela gostava dele, como é que ela se chamava ou sequer que ela existia!
Quem nunca teve uma paixão secreta que mande a primeira pedra.
Molly simplesmente temia o mesmo que todos nós, seja qual for a nossa idade...
SER REJEITADA e ter de lidar com isso.
A adolescência é por si só uma época de altos e baixos mas o que fazer quando é o nosso coração que parece ter entrado numa montanha russa?

Molly manteve essas paixões secretas ao longo dos seus 17 anos mas o seu grupo de amigas, composto por Cassie, Olivia e a Abby, estiveram sempre a par de tudo e insistem que eventualmente ela precisa de arranjar um namorado, ou pelo menos, de beijar alguém.
Abby, a sua prima, mudou de cidade e agora namora Nick. Já os conhecemos no livro do Simon e são uns queridos. Não leram? Vão ler! E depois ver o filme!
Para Cassie, a sua irmã gémea, apaixonar-se é tão simples como respirar. Confortável na sua pele e na preferência por raparigas, Cassie leva a vida a um ritmo diferente da irmã cujo excesso de peso e falta de confiança em si mesma a fazem retrair e a impossibilitam de ver até que ponto a exposição lhe pode trazer frutos.

Pela mesma altura em que Cassie conhece a sua nova namorada, Mina, e se perde na fase de lua de mel de uma nova relação, Molly segue meia desamparada pelos eventos que se sucedem, especialmente quando na sua vida, até então cheia de coisas platónicas, aparecem dois potenciais candidatos a fazer florescer no seu coração algo mais que um "crush" passageiro.
Quem nunca se viu com um pretendente, o que faz quando de um momento para o outro percebe que tem dois?
Será que ela vai escolher bem? 
Por quem vamos nós torcer?

"Estou deitada ao lado do Will.
E do Reid.
Acho que o meu coração não quer ficar no meu peito"

A autora consegue dar-nos uma história que nos faz sorrir pela sua doçura e actualidade. Pegando em algo que trago da história do Simon só posso dizer:
"Todos merecemos uma grande história de amor"
E é exactamente isso que pensei enquanto lia a história de Molly. Não é o peso, a altura, a origem, a história familiar, o nariz torto, a preferência sexual ou a nossa geekness que nos rotulam de incapazes de amar e ser amado, somos nós próprios que nos deixamos etiquetar e que colocamos rótulos em nós próprios, que não são nada mais, nada menos que limites à nossa capacidade de sermos nós mesmos, livres e felizes.

Espero que gostem deste livro de Becky Albertalli. Eu gostei mais de ler a história do Simon mas gostos são gostos.
"Os Altos e Baixos do meu Coração" é uma aposta

sexta-feira, 8 de junho de 2018

«Submissão» de Michel Houellebecq - Opinião

Wook.pt - Submissão

Paris, 2022, François, professor universitário:  "Gostava de apanhar o metro pouco depois das sete da manhã, de ter a ilusão de pertencer à «França madrugadora», a França dos operários e dos artesãos, mas devia ser praticamente o único a gostar disso, porque dava a aula das oito horas a uma sala quase deserta, à excepção de um grupo compacto de chinesas, todas de gélida seriedade..."

Seriedade é palavra dúbia e carregada de metáforas nos livros de Houellebecq. Quem leu mais do que um livro do autor percebe que cada linha que ele tece, é preenchida com mais do que um duplo sentido. E todo este livro é uma critica constante à sociedade (desatenta, amorfa e despolitizada), mas, e sublinhe-se o mas, em certas alturas parece uma ode a atitudes racistas e misógenas. Por isso, a forma como o livro descreve o crescendo da extrema-direita ou a forma como a Fraternidade Muçulmana conquista terreno no cenário político francês, parece de leve aceitação por parte do professor. 

"- Sim, teoricamente és machista, sem dúvida. Mas tens gostos refinados: Mallarmé, Huysmans, e isso afasta-te definitivamente do simples machista. Além disso, tens uma sensibilidade anormal para escolher tecidos para a casa. Em contrapartida, veste-te sempre como um labrego. Enquanto personagem macho grunge, até podias ter uma certa credibilidade; mas não gostas de ZZ Top, sempre preferiste Nich Drake. Em resumo, és uma personalidade paradoxal."

São diversas as vezes que a sociedade ocidental é resumida a uma massa desatenta, amorfa e despolitizada, muito crente na sua liberdade, mas sem mais preocupações, contrastando com o resto do mundo: "- O que acontece - prosseguiu ele . é que a maior parte das pessoas vive a sua vida sem se preocupar com estas questões, que lhe parecem exageradamente filosóficas (...). Quer dizer, é assim no Ocidente; porque por toda a parte no resto do mundo é em nome destas questões que os seres humanos morrem e se matam (...)."

"(...) convencido muito cedo de que, na maior parte das vezes, a transmissão do saber era impossível, que era extrema a diversidade das inteligências, e que nada poderia suprimir ou sequer atenuar essa desigualdade fundamental."

Essa desigualdade fundamental é um raciocínio pouco abonatório para a personagem. No entanto, cedo percebe onde o autor quer chegar. A submissão está iminente e, à semelhança do tão estudado Huysmans, encarará certas mudanças como uma recusa, até desejada, e própria do tédio burguês:
"(...) o fardo da existência individual desapareceria." Seria apenas necessário garantir a existência do prazer, mas a fé islâmica até isso lhe proporcionava.
Mas será a poligamia suficiente para a sociedade ocidental aceitar a expansão muçulmana e a sua consequente submissão?

Chega a parecer que sim, pois as restantes equações ele resolve-as todas. A retirada da mulher do mercado de trabalho, o entorpecimento dos media, a educação controlada e subsidiada pelos desígnios da fé, o petróleo como patrocinador máximo da economia e a integração de grandes demografias (Turquia e Egipto) para a Europa... 

A decomposição repugnante da Europa Ocidental era a justificação máxima para se abraçar a submissão ao islão, religião irmã, mais recente, mais simples, mais autêntica.


«Submissão» é um livro fácil de ler, mas julgo estar repleto de camadas e interpretações, onde as opiniões do personagens se confundem com a realidade actual e é isso, que em parte, o chega a tornar assustador.