quarta-feira, 21 de agosto de 2019

«Um estado selvagem» de Roxane Gay - Opinião


Há muito que queria ler este livro e há muita mais ainda que não me acontecia ler um livro tão sofregamente, sem parar para pesquisar fosse o que fosse a que o livro apelasse. Li, sublinhando apenas uma frase: "Os úteros das suas mães eram países férteis em si mesmos."
E no final, é a frase que mais me faz sentido para resumir todo o drama que Roxane Gay narra, estão essencialmente em causa as relações familiares e o peso da ligação a um país ainda em estado selvagem. No entanto, é toda a violência exercida sobre Mireille Duval que desperta outro tipo de estado selvagem e um dúvida: pode um ser humano sobreviver a um trauma deste tamanho e reerguer-se!?

Mireille é descendente de haitianos, imigrados nos Estados Unidos da América, no entanto, a certa parte da vida os pais regressaram ao Haiti e fazem uma vida distante da maioria dos haitianos. Num país onde grassa a miséria, a violência e a morte, uma vida próspera e abastada, cheia de gente altiva torna-os num alvo permanente, onde a corrupção e os sequestros pretendem enviar uma mensagem muito clara: ninguém está seguro. Isso torna-se claro, quando de visita ao país, Mireille é raptada e o grupo sequestrador exige um milhão pela sua libertação. 

O sequestro desta mulher e os horrores por que passa não são descritos de forma chocante, de forma só a informar do que se passa, são antes descritos morosamente, pensados para encontrar as palavras certas para não descrever de rompante, mas ainda assim estar lá tudo claramente. Não sei se me faço entender, é preciso ler para sentir o nó que nos fica ou os olhos rasos de água. As imagens são fortes, essencialmente pelo sentido da descrição, pelo todo. O leitor percebe, percebe muito bem como Mereille é violada, humilhada, dilacerada, transformada em restos humanos. Percebe, lê, emociona-se e chega a pedir uma pausa. 

Entre os relatos de violência, existem viagens ao passado, momentos lúcidos em que Mereille recorda a família, o Haiti, a sua vida e deixa perceber que o Haiti é um local em transformação e não necesariamente para melhor. O sentimento de pertença é complexo e isso também nos é passado pelas descrições que ela faz dos homens que a cercam. Pessoas sem nada, logo sem nada a perder. 

"Os bairros de lata são um labirinto interminável de ruas e vielas (...). Os blocos transformam-se numa montanha com escadarias escuras, estreitas e serpenteantes que mantêm tudo unido. Muitas vezes o céu é bloqueado por um emaranhado espesso de fios eléctricos. (...) As mulheres raramente andam sozinhas pelas ruas. Não é seguro, nunca. (...) As ruas estão pejadas de lixo (...) por vezes uma galinha ou uma cabra perdida caminha cuidadosamente pelas ruas.(...) O ar é opressivo, com o cheiro de demasiada gente num espaço reduzido. (...) Corri por estas ruas e pensei: «Este é o Haiti que nunca vi ou conheci.» Era um Haiti que ninguém deveria ter de conhecer."

A dignidade e a humilhação vivem a paredes meias com toda narração da primeira parte, durante o cativeiro de Mireille. Numa segunda parte, tentamos sofregamente responder positivamente à pergunta que dá ritmo a todo o enredo. É nesta busca, também ela desenfreada, por superação e sobrevivência que conhecemos os medos e os fantasmas que perseguirão esta mulher para o resto da sua vida, mas ficamos também a conhecer outra personagem forte, Lorraine. Outra persoangem arrebatadora.
Há mais personagens e mais lados a explorar, o do pai ou da família Duval, que são uma caricatura dos imigrantes abastados que vivem confortavelmente ao lado da pobreza extrema; existe o marido, típico americano dos filmes romântico de Hollywood... todos eles passam as suas agruras, mas nenhum me prendeu a atenção, eu só queria mesmo perceber tudo o que Roxane tinha reservado para Mereille. 

*

Vale a pena ler a entrevista à autora, aqui.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

«Cada dia é um milagre» de Yasmina Khadra - Opinião


Estreei-me em Khadra com este «Cada dia é um milagre», que pelo título já deixa adivinhar um pouco do seu conteúdo e pelo título original: “L'équation africaine”, é ainda mais notória a equação em causa: o valor da vida e a importância das pequenas coisas, dos pequenos milagres de cada dia e o saber agradecer as benesses de certas localizações geográficas.

Kurt, um médico endinheirado que vive confortavelmente no silêncio alcatifado de um bom condominio vê a sua vida estilhaçada pela morte da mulher. E consequentemente pelo desinteresse e insensibilidade dos outros perante a sua dor.

"(...)Jessica reduzida a um simples despojo coberto com um lençol branco."
 "Eu estava em choque. triturado por uma tormenta que me aspirava sabia lá para que abismo..."

Desde cedo há um toque de dramalhão na escrita de Khadra, mas misturam-se muito bem com descrições bem conseguidas (do sogro, por exemplo) e uma forma de falar de sentimentos que mostra como a dor alheia causa pouca empatia e em parte por ser tão difícil falar da dor, explicá-la, catalogá-la. Nisso, há passagens na sua escrita que são exímias em ler-nos a alma.

Rapidamente esta vida de zebruras (palavra aprendida neste livro) atinge picos nunca antes imaginados quando Kurt aceita a proposta de Hans Na segunda parte do livro, Blackmoon, Kurt e Hans vêem-se apanhados na teia da miséria humana que se alastra nesse colosso que é o continente africano, alimentado diariamente a doses elevadas de violência, fome, corrupção e guerra.

O barco em que viajavam é atacado e os amigos, Kurt e Hans são raptados. O interesse neles é dinheiro, como é costume dos regastes, mas cedo se percebe que estão entregues às oscilações dos humores figadais de um pirata filosófico que tem todo um leque de teorias e mão pesada na forma de os violentar e humilhar.

"(...) só sinto desdém pela sua autoridade de bandida, nojo pela espécie de ogro paranóico que se esconde por trás da sua lanterna, ódio frio por todo esse bando de degenerados à solta na natureza como os germes virulentos de uma pandemia..."

Há nestas descrições um lado quase poético ao descrever a violência que existe em África, tão visceral e crua como a beleza intemporal e virgem da sua Natureza, sempre presente em tudo. Há uma veneração por África que a torna personagem, aliás, em parte essa personagem é Bruno, um anacoreta itinerante devoto a África.

"África é uma certa filosofia de redenção."

Na relação de cativeiro, conhecemos esse peregrino poeta, emocionado e embriagado pela própria prosa, que enaltece África e as suas gentes, mas também a sua condição de andarilho perdido por um país que lhe mostrou o que outras zonas boas do mundo não conseguiram e o fez gente.

Há um outro personagem que dá dimensão humana às crises inúmeras que acontecem por todo o continente, o Capitão encarna todos aqueles que foram escolhidos pela violência, aqueles a quem a vida não deixou outro caminhão se não o da força e do medo. Ser-se temido é por vezes a forma de se manter vivo, mas a que custo? É também esse lado que o autor quer salientar e tornar menos abstracta aos olhos de quem o lê.

"Desde os tempos remotos que o Homem, desconfiando daquilo que não o faz sofrer, corre atrás da própria sombra (...) incessantemente esquartejado entre o que acredita ser e o que desejava ser, esquecendo que a maneira mais saudável de existir é, muito simplesmente, continuar a ser ele próprio."

Em suma, este é um livro que explora sentimentos opostos e nos confunde com tantas sensações divergentes. Se por um lado Khadra consegue parágrafos brilhantes que espelham uma análise e um entendimento brutal da humanidade e da sua complexidade, bem como o choque de culturas e o peso do homem branco em África; por outro, a persistência de cenários previsíveis cansaram-me imenso.

Ao longo de todo o livro existem falhas de tradução que são notórias. Há parágrafos muito bem conseguidos, onde se nota um trabalho soberbo da tradutora em fazer soar bem a poética do autor e noutros parece ter-se usado o google translator - não me sai da cabeça (e já o li há meses) - "vou tomar um bom chuveiro". Não sou uma entendida em tradução, nem nada que se pareça, mas há falhas flagrantes.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

“Alma e os mistérios da vida”, de Luísa Castel-Branco - Opinião


A minha mãe pede-me um livro e é assim que chego até este «Alma». Cheguei e fiquei até ao fim e não sei bem porquê, pois é uma leitura completamente fora das minhas escolhas, mas achei que um país mergulhado nas trevas da ditadura desse uma boa personagem, mas o país não se revela e a ditadura também não. São poucas as linhas que o descrevem, tal como a personagem que dá nome ao romance. Alma é uma personagem quase invisível, descrita pelas palavras dos outros e é a vida dos outros que vamos seguindo. 

"A sala estava à cunha e nem uma mosca zumbia, o ara estava pesado e peganhento. Com umas voz de cana rachada, tão fina como o bigode, o senhor inspector, sujeito atarracado, que tinha semelhança com o retrato do grande presidente, o Salvador da Nação, cujo o rosto presidia a todas as aulas numa moldura escrupulosamente limpa, procedeu à leitura das folhas de exame..."

Esta descrição, quase nas primeiras páginas, dão-nos o ambiente do Portugal de 70, mas o restante escrutinio passa rapidamente para as vidas de um leque amplo de personagens tapando a vida propriamente dita de Alma. No entanto, o tom em que o povo é descrito retrata muito bem a portugalidade da época e alguns traços que ainda hoje persistem.

"No Inverno, escondidas atrás das cortinas, espreitavam como gato castrados, e assim podiam recitar de cor a lista de quem tinha ido ao confessionário nos últimos anos..."

"(...) mesmo depois da Revolução, e durante uma época em que o ódio era o estrume das terras..."

Em parte, este romance alimenta-se muito desse estrume inerente à alma humana, uma estranha necessidade de dificultar a vida alheia, especialmente nesta época e essencialmente as vidas femininas, entregues aos caprichos das heranças de família e as falsas cortesias de homens que não as queriam, mas as precisavam desposar. Assim, as almas que povoam este livros estão entregues ao sofrimento. Seja ele por amor, ódio ou devoção.

"(...) e uma vez mais agradeceu ao bom Deus nunca lhe ter dado a conhecer o amor ou a paixão, livrando-o assim de ser barro nas mãos do destino."

Fruto da época, o medo também assume destaque: "O medo não morre de idade nem é passível de se perder nas brumas das memórias". Sentir medo, incutir medo, ter fé por ter medo... 

Existem, em certas passagens, descrições bem conseguidas das personagens, mas falta muito para ser um livro apetecível de ler e com um enredo bem entrelaçado.

"Tinha os olhos descaídos, como que prontos a tombar em cima da mesa ou de qualquer outra coisa, a todo o momento. Quando era criança, até que lhe emprestava um certo ar encantador, mas quando cresceu o rosto acabaria por descair como os seus olhos (...). Recordava um buldogue em poisio, um animal enroscado em si mesmo, cheio de pregas e mais pregas."



domingo, 19 de maio de 2019

Opinião "Acredita em mim"

Tenho andado distante dos livros. Se 2018 terminou com poucas leituras, estes primeiros meses de 2019 têm sido um deserto desprovido de oásis literários. Não tenho tido vontade, tempo ou cabeça. Tudo o que tenho começado a ler, fica pelo caminho. Pior, nem para livros me apetece olhar. Sinto que os estou a trair e faço os possíveis para que não reparem em mim quando passo os meus momentos de lazer a ver séries na Netflix mesmo em frente à estante. Vá, eu sei que os livros não me estão a julgar por ser uma má leitora MAS EU SIM.


Quando este "Acredita em Mim" me tocou à campainha eu andava a acalentar uma leitura que me submerge-se ao espírito "nem vou sair daqui para comer". Em 2017 JP Delaney fez de mim cativa com a leitura de "A Rapariga de Antes" e dei comigo a tecer enredos imaginários enquanto me deliciava com a loucura que foi visitar o Nº 1 de Folgate Street. Este "Acredita em mim" levou-me mais longe, levou-me a não conseguir acreditar nos meus próprios pensamentos e nos caminhos que o enredo me fez tecer mentalmente.
Dei por mim a pensar que por momentos estava tão perdida com o Claire, tão ludibriada com o enredo que não sabia bem quem dizia a verdade.
Acho que devia ter lido um romance e não um thriller que me entrou pela cabeça a dentro ao ponto de acordar a pensar na personagem e na resposta à pergunta "mas quem é o culpado?"
Mas ainda bem que o li porque terminei com o pensamento "Em livros que se matam pessoas, ressuscitam-se leitores"

Conhecemos Claire, uma actriz inglesa a viver em Nova Iorque que, por entre aulas de representação e uma carreira que teima em não arrancar, vai ganhando dinheiro para a renda com um esquema ludibrioso e pouco legal. Claire, na sua qualidade de mulher bonita e actriz versátil, representa o papel de sedutora perante um homem casado de modo a leva-lo a incriminar-se por infidelidade, o que garante à esposa e à empresa de advogados para o qual trabalha munições suficientes para avançar com divórcio. 
Mas o filme sobre a volátil mas carismática actriz a sobreviver na selva nova iorquina muda de género quando o seu mais recente alvo não sucumbe aos seus encantos e Claire se vê drasticamente arrastada para um caso de homicídio onde tão rápido lhe apontam o dedo com lhe pedem ajuda para encontrar o culpado.

"Sou só eu que faço isto - que sinto que estou constantemente a ver-me no filme da minha própria vida? Quando o pergunto a amigo, a maioria diz-me que sim sou só eu. Mas devem estar a mentir. Porque outra razão quereria alguém ser actor senão para poder editar a realidade"

Repleto de enganos, dramas, mentiras, macabrices ou simplesmente paranóia, este "Acredita em mim" pode ser um daqueles que se adora ou odeia. As reviravoltas, o "é e não é", são interessantes mas não nos deixam confiar em ninguém, pior, não nos deixam simpatizar com ninguém.
Logo de início li uma frase que me deixou a pensar e me acompanhou durante toda a leitura. 
"Quando as pessoas começam a pensar que têm o direito de procurar a sua felicidade em detrimento das normas sociais, acaba-se com um pequeno mas crescente número nas margens, pessoas que não entendem por que razão não haverão de satisfazer também os seus instintos mais negros e predatórios"

Acho que todos os leitores de thrillers e policiais têm de ter algo dark para lerem com tanta facilidade estas histórias, para conseguirem encontrar caminhos alternativos que o autor não seguiu.
Na realidade acabamos por nos meter na pele das personagens, exactamente como Claire.

"Representar não é fingir nem fazer-se passar por. Representar é fazer"
E é com esta frase que vos deixo, espero eu, com vontade de pegar no novo livro de JP Delaney. 
Este "Acredita em mim" requer um exercício de confiança. 
Abram o livro e deixem-se cair lá dentro.

PS: prometo voltar às leituras e às opinião mais completas e interessantes de se lerem.

"Acredita em mim" é uma novidade

quinta-feira, 18 de abril de 2019

«Princípio de Karenina» de Afonso Cruz :: Opinião



O princípio de Karenina ou a imperfeição que é querer medir a felicidade. 


"A imperfeição salvar-me-ia com igual intensidade e na mesma medida com que me faria sofrer"

É nesta medida dúbia, tendo na imperfeição a salvação, que um homem narra a sua história, numa longa carta de apresentação, à filha que não viu crescer. Explicando-lhe "uma orientação invisível e subtil das nossas vidas através dos afectos", mas também o drama de ter medo do desconhecido e como isso limita o tamanho do mundo; mundo esse sempre estrangeiro como o das mulheres que mais amou.

Essa aversão ao estrangeiro, as costas voltadas ao infinito que é uma janela aberta e toda as fronteiras que mais parecem muralhas, são heranças que cedo sabemos lhe terem ficado do pai. Heranças angustiantes, marcadas por sentimentos fortes que o sufocaram durante décadas. 

"Lembro-me muito bem dessa refeição em que o Dr. Vala disse à mesa que as batatas vinham da América do Sul. As emoções, positivas ou negativas, são uma máquina de impressão. Todos os acontecimentos tendem a desvanecer-se, mas a emoção grava-os na pedra da realidade, da nossa realidade (...) O cheiro das batatas cozidas estragava-me o nariz, (...). Olhei de soslaio para o meu pai, tentando perscrutar alguma reacção sua que confirmasse aquilo que eu acabara de perceber, a imoralidade de certa comida que mastigávamos e engolíamos (...)
- O que é que se passa? O menino está pálido.
Estava, efectivamente. Como se enfia na boca uma coisa de tão longe, com um oceano pelo meio, como se mastiga aquela distância toda?"

É essa distância, difícil de mastigar e, mais ainda de engolir, que o assombrou a vida inteira. Vida essa falsamente protegida pela imponência dos muros da moralidade, pregada entre gerações como estandarte contra o Mal.

"Um herói ou um santo só existe se confrontado com o Mal, só existe depois de emergir ileso da barbárie, e eu queria ser um santo como os que ouvia na missa e admirava nos nichos de pedra e nos frescos da igreja."

Para além dos santos, também a mãe vivia encerrada nesses nichos. Temente, ausente e de poucas palavras, constantemente esmagada entre a forte personalidade do marido e "a necessária encenação social que nos mantém coesos enquanto comunidade".

São entre estas personagens e outras pontuais que vamos conhecendo a história deste homem e de uma mulher vinda de geografias longínquas. Conhecemos-lhe o amor e os medos e questionamos atitudes de decisões de quem esteve mais perto de uma felicidade maior e a deixou fugir. Será mesmo assim? 
Este, como todos os livros de Afonso Cruz, faz-nos olhar para dentro. São frases pequenas, que parecem simples e que nos arrebatam, puxando-nos para dentro, numa tentativa de perceber mais o que metemos para fora. 
E a certa altura, numa conversa entre miúdos, concluímos que onde não há flores há caminho E que o medo nos pode fazer coxos da cabeça, deformando-nos. E que mesmo deformados encontramos um atalho para a vida.




sexta-feira, 12 de abril de 2019

O Arquipélago do Cão» de Philippe Claudel - Opinião


Um livro SEXTANTE

Pode este arquipélago usar a intensidade sufocante da ilha para se tornar num bom thriller? Philippe Claudel diz que sim e afirma ainda que a investigação atravessa toda a narrativa, não para se desvendar o crime, mas para revelar a mesquinhez e a passividade que altera os homens bons em seres medíocres e corruptos. 

"A morte dos três jovens negros não ocorrera na ilha. O mar abandonara-os na costa como se fossem madeiras que flutuavam. Ninguém os conhecia e as suas vidas de outrora nunca tinham tido qualquer contacto com as vidas dos habitantes da ilha. Só a morte os fizera cruzarem-se, mas isso não era uma razão suficientemente forte para que o quotidiano dos vivos fosse afectado." 

"O Cão está ali (...). Preparado para retalhar a imensidão azul-cobalto, longa e pálida, que o mapa cobre de números, que indicam as profundidades (...). As suas mandíbulas são duas ilhas encurvadas, a sua língua também, e os seus dentes, uns pontiagudos, outros maciços, outros afiados como punhais. (...) A vida na ilha provém do vulcão (...) Chamam-lhe o Brau. O nome tem uma sonoridade bárbara (...)"

«O arquipélago do cão» serve-se da parábola para figurar a actualidade da emigração e apontar o dedo à inércia de uma Europa envelhecida. O autor avisa-nos e coloca-nos naquele local, afirmando que fazemos parte dele. No entanto, a solidão árida e típica da ilha, envolta no odor a peixe e na miscelânea de cheiros de um vulcão adormecido pode não ter esse impacto no leitor.

O Cão, desumanizado pelas estações agrestes e pela emigração, simboliza uma comunidade de pessoas que estão conformadas e acomodadas à vida que levam, por isso, o autarca, o padre, a velha professora e os pescadores encarnam mais do que uma personagem, eles são o espelho das camadas da sociedade. Serem anónimos é o que lhes confere transversalidade, para que o leitor encontre semelhantes e desvende as metáforas inerentes às suas palavras, descrições e atitudes. 

"- Que querem que vos diga? Pensam que porque sou padre sei mais do que os senhores? (...) Se me fizessem perguntas sobre abelhas, poderia responder-lhes (...) - Aprendi muito com elas e o milagre do mel continua a deslumbrar-me. Se Deus existe está no mel! Foi isso que descobri em sessenta e nove anos de vida e cinquenta de sacerdócio. (...)
A religião cansava-o. Havia quem pensasse que ele próprio já não acreditava muito nela. Continuava a fingir, para não abandonar as suas últimas ovelhas, que, porém, chocara um dia durante o sermão, ao dizer-lhes que Deus partira, num regime de pré-reforma. (...) Está num processo de cessação progressiva de actividade. E a culpa é nossa."

Sempre a culpa. A tragédia grega envolta em culpa cristã. E se até Deus rescinde que sobra àquela comunidade? Um apelo à consciência? Ou um elemento que os venha espicaçar? ... sob a aparência de funcionário dos correios dormita uma moreia... e o que virá ela caçar com o seu olfacto apurado?

quarta-feira, 10 de abril de 2019

«Até ao fim do mundo» de Maria Semple :: Opinião


"Numa colina de Seattle, de onde se avistam ferry boats a deslizarem como caracóis na água, uma mãe peculiar, Bernadette Fox, evita conflitos e batalhas de melgas, que ela esmagaria só com um esgar e o seu toque de insólito. Com isso e com cartazes gigantes que deslizam em avalanches de lama.
INSÓLITO?
A maioria dos acontecimentos deste livro são insólitos e excêntricos!
A EXCENTRICIDADE cai aqui nas páginas deste livro como chuva, que tipicamente, cai em Seattle.

Mas passemos ao enredo. Bernadette comanda este show de marionetas peculiares. Manjula, a secretária virtual, sediada algures na Índia está encarrega de organizar uma viagem idealizada por Balakrishna ou Bee, a filha de Berdanette e do guru da Microsoft. Juntos, em família, eles pretendem chegar à Antártida, mas antes há que desmistificar o tumultuoso Estreito de Drake que já existe entre eles.
Isto tudo sem esquecer o naipe de estarolas que é a comissão de pais do Colégio Galer Street, especialmente com Soo-Lin Lee-Segal e Audrey Griffin, as melgas de eleição. 

Bernadette é louca? Talvez.
A sua filha é excêntrica? Pois claro. Vá lá ser-se de outra forma com uma mãe destas.
Bernadette é genial? Isso é de certeza. E o projecto Vinte Milhas (que gostava de perceber se existe!) é uma ideia maravilhosa e genial.

«Até ao fim do mundo» é uma leitura obrigatória? Não é, mas devia!
E o título também devia ter respeitado o original. «Para onde foste Bernadette?» é o enredo mais presente, já que esta mãe tem mais do que uma fuga em curso. Eu sei que a Antártida pode ser o fim do mundo, mas a viagem desta família começa dentro de casa, nas dinâmicas familiares e nas suas fugas excêntricas, mas iguais a tantas outras.

Se o enredo é estranho? Totalmente. Tal como a organização das vozes que o narram e o tipo de texto que usam, desde e-mail's a relatórios. Mas é tudo muito bom e faz uso da excentricidade da melhor forma possível. Maria Semple tem o dom da criatividade e suga o leitor para esta história louca e imparável. E sem esquecer um roteiro musical que acompanham mãe e filha, que estava a passar por uma fase «Abbey Road». 

"Quando começou «Here comes the sun», o que é que aconteceu? Não, o sol não apareceu, mas a mãe abriu-se num sorriso como o sol a trespassar as nuvens. Sabem como nas primeiras notas daquela canção há algo na guitarra do George que é tão cheio de esperança? Era como se, quando a mãe cantou, também ela estivesse cheia de esperança. Até acertou nas palmas irregulares durante o solo de guitarra (...) Por isso, quando chegou àquele medley fabuloso, a mãe e eu cantámos a acompanhar «You never give me your money» e depois «Sun King», que a mãe sabia, mesmo a parte em espanhol, e ela nem sequer sabe espanhol (...)