segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Opinião "O Rapaz à Porta"

A perfeição sempre me aborreceu mas garantidamente a vida certinha e espectacular Cecilia Wilborg revelou-se tudo menos aborrecida.

Conhecemos Cecilia como uma daquelas mulheres que só de olhar para ela se torna cansativo. Sempre primorosamente arranjada e composta, Cecilia tem a dose certa de tudo. Desde o marido atraente e que toda a gente queria caçar às duas filhas lindas e fofinhas, desde o casarão com vista para o porto de Sandefjord ao trabalho como decoradora freelancer que lhe garante ocupação e "independência" na sua posição de mulher moderna.
Como ela bem diz "tudo o que a Cecilia quer, a Cecilia tem".
No entanto, toda esta fachada foi polida de modo a esconder as imperfeições, as gaffes, os problemas e os erros do passado que podiam manchar a vida perfeita da família Wilborg mas principalmente de Cecilia.
E a primeira frecha abre-se quando, como que caído do céu, Tobias vem parar à vida de Cecília e da sua família.
Mas seria esta a primeira frecha ou apenas a que vai fazer tudo se desmoronar?

Alguém se esqueceu de ir buscar Tobias à aula de natação e devido à sua boa reputação em Sandenfjord e por ter sido a última a sair da piscina, coube a Cecilia leva-lo a casa onde chegou à conclusão que o local estava deserto e não havia sequer indícios de lá viver alguém.
Ressentida com a responsabilidade de tomar conta de um miúdo que pouco ou nada falou desde que estava consigo, Cecilia levou-o para casa só com o objectivo de se desenvencilhar dele no dia seguinte na escola mas surpresa surpresa, também aí ele não era esperado ou conhecido e é aí que a coisa começa a complicar.
Onde estão os pais desta criança?
Se não vive naquela casa, vive onde?
Porque Tobias não fala e quase parece um sombra a mover-se na escuridão?

Com a estadia de Tobias em casa dos Wilborg, a pedido do serviço de assistência social e contra vontade de Cecilia, começamos a perceber que a fachada polida que ficamos a conhecer tem rachas e bastante profundas, que Cecilia não é nem de longe um amor de pessoa, que alberga nela uma escuridão bastante profunda e capaz de destruir tudo à sua volta, a começar por si mesma.A sua bitchiness, desculpem a falta de expressão em Português, tem momentos que são tão espectaculares como repugnantes e quantos mais abalos sofre no seu dia a dia, maior é a sua instabilidade e acreditem, a coisa vai de mal a pior em meia dúzia de páginas.

E à medida que vamos avançando ficamos igualmente a conhecer pedaços da história pelos olhos de Tobias e Annika. Sim, Cecilia pode ser a grande peça do puzzle mas foi Annika que me prendeu à história, mesmo que inicialmente começasse por a desprezar, pouco a pouco mostrou um lado tão humano e credível que se tornou, pelo menos para mim, na melhor personagem deste livro. Não vos vos explicar quem é a Annika, vou convidar-vos a ler o livro. Acreditem, merece a pena só para ficar a conhecer Annika e Cecília, especialmente esta última que com a sua arrogância e altivez fez-me pensar em todas as razões porque não almejo a perfeição e por me afasto de pessoas que fazem da ostentação, superioridade e rebaixamento do outro uma actividade diária.

É curioso como tinha a certeza sobre o destino desta história desde que li a sinopse mas foi interessante ver a narrativa dar-me a volta, levar-me a acreditar que aquilo que bati o pé desde o primeiro momento não era o que a história me estava a oferecer, só para no fim ficar de queixo caído quando se sabe a verdade e ela é ainda pior do que estávamos à espera.
Fiquei sem dúvida rendida à história de Cecilia, Tobias e Annika e também à escrita de Alex Dahl.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

«COMBOIO PARA O PAQUISTÃO» de Khushwant Singh - Opinião


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Khushwant Singh (1915-2014) foi advogado, diplomata, jornalista, político e um dos grandes escritores indianos ou não fosse amplamente conhecido por expor a partição da Índia em 1947, com a separação do Paquistão e a saída dos ingleses. A polémica em torno das suas opiniões valeram-lhe ser banido e ter a cabeça a prémio, no entanto, nunca abandonou o seu país nem a cultura Sikh. 

A partição de 1947 ainda hoje tem repercussões bem com as diferenças entre sikhs e hindus e claro, muçulmanos, uma maioria essencialmente em território paquistanês. Tais diferenças enraizadas contribuem para maiores divisões e discriminação entre indianos em geral. O romance expõe ainda as fissuras deixadas pelas linhas fronteiriças traçadas conforme os interesses ingleses, causadores de fricções e desconfianças entre um povo separado por clivagens sociais e tradições religiosas. A proximidade geográfico não apazigua diferenças incrementadas ao longo de séculos, e isso o livro também denuncia. 

"«A liberdade tem de ser uma coisa boa. Mas nós, o que é que vamos ganhar com isso? As pessoas instruídas (...) hão-de ficar com os empregos que os ingleses tinham. Mas nós, vamos ganhar mais terra ou mais búfalos?»
«Não», continuou o muçulmano. «A liberdade é para os instruídos que lutaram por ela. Nós fomos escravos dos ingleses, agora vamos ser escravos dos indianos instruídos - ou dos paquistaneses.»"

«Comboio para o Paquistão» expõe também a questão da violência e da matança que existiu fruto de todas essas discórdias, e na aldeia de Mano Majra onde a população, apesar das diferenças, vivia em consonância, vê essa linha de paz, ténue e frágil, facilmente ameaçada quando ordas de migrantes oscilam entre comboios apinhados de gente: muçulmanos que fogem em direcção ao Paquistão e sikhs e hindus que fogem em direcção à restante Índia.
A aldeia, situada junto à ferrovia, passa a ser testemunha da violência extrema que pautou este episódio da História da Índia.

“Desde a partição do país, esta discussão tinha um interesse adicional (...) Agora, os comboios (...) Quando vinham, estavam apinhados de refugiados sikhs e hindus vindos do Paquistão, ou muçulmanos vindos da Índia. As pessoas vinham empoleiradas nos tejadilhos com as pernas balançando na borda, ou em armações de cama apertadas entre os vagões. Algumas vinham precariamente cavalgando os amortecedores entre as carruagens. (...) 
Ele teria descrito a viagem como insuportável, mas os limites a que a resistência humana consegue estender-se na Índia fazem com que esta palavra perca todo o significado."

Khushwant Singh foi sempre indecoroso e dilacerante para os costumes da sociedade indiana, chocando-a, mas isso não o impediu de escrever ao longo de toda a sua vida. 

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Uma edição Cavalo de Ferro 




quarta-feira, 10 de outubro de 2018

«Pequenos fogos em todo o lado» de Celeste Ng - Opinião


Uma edição Relógio d’Água, 2017

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Em Shaker Heights, Cleveland, o pacato subúrbio tem tudo para que a vida dos seus moradores corra às mil maravilhas. É verdade, é cliché, mas as vidas bem-sucedidas são por ali uma colecção digna de caderneta de cromos, artigo usual nos anos 90, precisamente a década em que decorre a acção.

Postas as peças em cima da mesa, o jogo começa do fim para o princípio, recuando a acção e o enredo para que o leitor consiga perceber como chegámos aquele fogo posto.
No entanto, há regras do jogo e a família Richardson cumpre-as à risca, tendo apenas um pequeno entrave, os filhos, ou pelo menos alguns deles. E é aí que os pequenos fogos alastram.

Outra peça menos fácil de encaixar no jogo é Mia, uma mãe solteira recém-chegada à "vila", com uma filha adolescente, Pearl; ambas vão criar laços fortes com os Richardsons, mas também desfazer o seu mundo idílico e cheio de máscaras, abrindo espaço a mais pequenos fogos. Mia é um enigma, um case-study, uma mulher misteriosa que desperta paixões.

"Concentrou-se na fotografia (...) Era uma fotografia de uma mulher, de costas para a câmara (...), um emaranhado de membros que, apercebeu-se a Sra Richardson com um choque, a fazia parecer uma enorme aranha. (...) acabou por se voltar para Mia com curiosidade. Nunca conhecera ninguém como ela. (...)
A Sra Richardson sempre levara uma existência ordeira e organizada. (...)Tinha sido educada para seguir regras, para acreditar que o funcionamento correcto do mundo dependia da sua obediência (...) E depois havia aquela Mia, uma mulher completamente diferente, (...) uma parte dela queria estudar Mia como se fosse uma antropóloga..."

Quem mais se sente perturbada por esta propagação incendiária é Elena Richardson, num misto de curiosidade e de medo avança pelo caos que teme poder instalar-se e procura saber mais do passado das recém-chegadas. Talvez Elena seja a personagem mais fascinante, porém a reviravolta na sua vida é expectável.

"Durante toda a vida, aprendera que a paixão, tal como o fogo, era uma coisa perigosa. Facilmente se descontrolava. Subia paredes e ultrapassava trincheiras. As mais pequenas centelhas saltavam e espalhavam-se (...) Era melhor controlar a sua centelha (...) Ou, se calhar, mantê-la cuidadosamente acesa (...) Cuidadosamente controlada. Domesticada. Feliz em cativeiro. A chave, pensou ela, era evitar a conflagração."

Pode o passado ser uma arma directamente apontada a nós e por isso ameaçador e condicionante?
Pode a queda das máscaras, tão acarinhadas, condicionar o futuro, abrindo caminhos sem retorno no quotidiano de uma família?
Pode, claro que pode. E é isso que Celeste Ng mostra neste seu «Pequenos fogos em todo o lado» dando várias dimensões às suas personagens e histórias de vida, num enredo cheio de camadas.

A velocidade inicial com que cheguei a bem mais de metade do livro quase o torna num típico page turner, estava cativada pela escrita e pelas camadas que a autora dá às dinâmicas criadas entre os adolescentes e as próprias mães, instigando curiosidade no leitor, tornando a leitura imparável; mais pelo ambiente de mistério do que pelas crises de adolescência.

 A aura daquele pedaço americano, já tão falado, era agora descrito de um jeito menos banal, ainda que pejado de referências dos anos 90, facto que tornou o livro tão próximo da minha adolescência. No entanto, a certa parte, ou por desconfiar do desfecho ou por lhe reconhecer semelhanças com algumas séries, desinteressei-me um pouco pela leitura. Ou então, por a certa parte já não querer mais viagens ao passado de Mia, queria sim o calor de cada momento tenso na ligação daquelas mulheres.

"(...), Mia deixou ficar a mão, como se fosse uma escultora a modelar os ombros de Pearl. (...) Há muito tempo que a filha não a deixava estão tão próxima. Os pais, pensou, aprendiam a sobreviver a tocarem cada vez menos nos filhos. Em bebé, Pearl, agarrava-se a ela; (...) à medida que foi crescendo, Pearl continuou a agarrar-se à perna da mãe, depois à cintura, depois à mão, (...) Agora que Pearl era uma adolescente, as carícias da filha tinham-se tornado raras - (...) - quando aquilo que mais queria no mundo era abraçar a filha com tanta força que as duas se fundissem e nunca mais pudessem ser separadas."

É curioso que agora ao escrever sobre este livro, relendo partes, tenha dado conta que realmente gostei mais dele agora do que no momento em que o terminei. É esta a magia dos livros. Só pode!

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

«A rapariga que lia no comboio» :: opinião



Esta leitura teve o apoio da Porto Editora
e foi-me recomendada pela metade colorida.

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Juliette, uma snifadora de livros, como todos os bibliómanos que conheço, cresceu a ajudar o avô, outro adorador de livros e cedo aprendeu a refugiar-se neles. E tentava, sempre que possível, passar essa sua adoração aos que lhe eram mais próximos; se bem que eram escassos. Juliette era quase só, quase invisível, presa num trabalho que já não tinha nada para lhe oferecer (se é que alguma vez chegou a ter) e lhe dava uma crispação nos dedos dos pés. É isso, Juliette é igualmente peculiar!

"Não nos ensinaram
o único exercício que poderia salvar-nos:
aprender a sustermo-nos de uma sombra."

Nem que essa sombra seja da espessura da lombada de um livro ou da espessura de um verso. 
 É nos livros que reside a esperança, o sonho, a viagem e a vida. E as frases que lhe inspiram os dias.

"Falava dos livros como seres vivos - velhos amigos, temíveis adversários por vezes, alguns a fazer figura de adolescentes provocadores e outros, de velhas senhoras a bordarem tapeçarias junto à lareira. (...) alguns livros eram cavalos fogosos, indomados, que nos levam num galope desenfreado, agarrados, de qualquer maneira, às suas crinas. Outros barcos que vogavam pacificamente nos lagos, em noites de lua cheia. Outros ainda, prisões."

A cavalo de livros e de ideias, Juliette tenta empreender a árdua tarefa de ser uma passadora de livros. À cabeça do cartel, Firouzeh e os seus enigmas, tentam revelar o que mais se pode esconder na espessura dos livros e nas pessoas que os lêem. Ainda que a resolução dos enigmas passe por deixar, a Juliette e aos leitores, mais questões do que respostas... tal como muitos livros.

"(...) no fundo, somos todos obtusos, impermeáveis às emoções de outrem, incapazes de decifrar os gestos, os olhares, os silêncios, e estamos condenados a explicarmo-nos, laboriosamente, com as palavras que nunca serão as certas."

Em busca de palavras, mas também de atitudes, pessoas e lugares, veremos Juliette partir numa estante andante, um mini-autocarro amarelo e assim deixar a porta aberta a um segundo volume. 

Este livro de Christine Féret-Fleury é um belo exemplar de biblioterapia, dá sugestões sem apontar caminhos, levanta questões com aparente delicadeza, mas atira-nos frases que nos deixam a pensar, e apresenta um enredo ternurento, que toca no quotidiano, mas dá-lhe uma capa um tanto inocente e improvável, mas afinal, os livros também são feitos para sonharmos. 



quinta-feira, 4 de outubro de 2018

«MANAZURU» de Hiromi Kawakami - Opinião


"O meu marido desapareceu sem deixar rasto. Até hoje, não voltei a vê-lo."

O romance «Manazuru» podia assim encher-se com luto e o abandono, causado pela incerteza do desaparecimento de Rei. Mas não. Apesar de narrar um desaparecimento com mais de uma década, Kawakami, coloca Kei, a esposa, no centro desta narrativa, preenchendo-a de emoções e sensações, descritas em pequenos gestos do quotidiano. No entanto, o livro é igualmente um labirinto de duvidas, que substitui o ritmo ansioso e ofegante da incerteza por uma delicadeza estranha e cativante, que parece própria da cultura nipónica.

"A resposta não se fez esperar. Sim, estou ressentida! Sim, sinto rancor. (...) é qualquer coisa no mais fundo de mim própria, é todo o meu ser, o núcleo do meu corpo que tem ressentimento por esse marido que desapareceu sem dizer fosse o que fosse. 
(...) Qualquer coisa de que Seiji não se pode apoderar. Teria de ser Rei a fazê-lo. (...) Só o homem que ele era se podia apoderar. 
É o que explica, sem dúvida, que a minha mãe não gostasse dele.
(...) 
Ter-nos-emos reaproximado desde que voltámos a viver juntas? Três mulheres debaixo do mesmo tecto, três seres de carne. Aqui estão os seus corpos, como pequenas esferas que se se misturam. As três mulheres não têm o mesmo eixo, não têm o mesmo centro, não são superfícies lisas, estão aqui, cada uma delas, com a sua espessura própria."

«Manazuru» é um livro complexo que explora a geometria própria de cada corpo e do que lhe faz falta nas diferentes relações de proximidade. A relação mulher-homem, que ultrapassa a dimensão do casamento, primeiro com o aparecimento de uma criança, carne da sua carne, e depois, mais tarde, fruto da necessidade e do desejo, um corpo que pertence a outro alguém, um amante. E no meio disto tudo, o retomar a uma proximidade mais ancestral, o voltar ao corpo da mãe. 

"Quando nos vemos separados de um ser que nos acompanhou por muito tempo, só o efémero resta. Passar-se-ia, sem dúvida, a mesma coisa com Seiji. 
Fi-lo entrar no meu quarto. - Porque o meu corpo não te deseja! - expliquei-lhe e ele riu. - Mas eu, eu tenho uma certa vontade de estar contigo. (...)
Amo-o, tudo é frágil, e eis-nos separados. O amor não implica necessariamente a união."

Kei analisa o que gera proximidade, se amor, desejo, necessidade, afecto, toque, solidão, dependência, lugar, eixo, distância, medo, obrigação... E analisa-o face a quem lhe é próximo, a mãe, como lugar e casa para onde volta; a filha, Momo, que lhe sugou energia e afecto e a fez renegar às suas vontades de mulher esposa; ao marido que a possuía de forma desigual; ao amante, que na sua estranheza silenciosa, a aceitou e lhe devolveu um certo sentimento de pertença e ainda uma presença misteriosa que a acompanha para todo o lado. Essa coisa que se sobrepõe e se impôs a Kei, tal como as memórias e o vazio.

"Tudo se tornou vazio.
Murmuro de mim para mim, a sós comigo.
E todavia, havia qualquer coisa que se preparava já para preencher o vazio. Do mesmo modo que a água em que se dissolve o ágar-ágar não é realmente translúcida, porque, apesar de lavadas as algas das suas impurezas, as duas substâncias têm densidades diferentes e é necessário algum tempo para que uma e outra se misturem (...)"


*

Tradução: Miguel Serras Pereira 

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

"UPA-LA, UPA, UPA, UPA-LA"

"UPA-LA, UPA, UPA, UPA-LA" ou «A nossa alegria chegou» é o regresso, esfuziante e fantasioso, de Alexandra Lucas Coelho ao romance.



Agarre neste livro e num pano de estampagem colorida, tire os chinelos de enfiar no dedo e siga pelo trilho mais isolado até à praia. Sinta o calor da areia a espalhar-se pelo dedos, a chegar aos tornozelos, deixe a brisa invadir-lhe o rosto. Encontre um pedaço de areia só para si e leia. Leia sem parar. A sensação que se tem com este livro é de que Alexandra Lucas Coelho (ALC) o escreveu de rompante, tal é a energia com que nos agarra e prende do princípio ou fim da leitura.

"- A história do mundo começou em Alendabar, contam os nativos!
O convidado está disposto a concordar, perante o que vê. Uma orla florejante bordeja o areal, extensíssimo. Num extremo da praia, a falésia negra, encostada a um vulcão. No outro, a foz do rio incandescente (...)
Valeu a pena contornar o planeta, pensa. Nem muros nem mastins, a selva será a melhor guarnição."

Alendabar é lugar imaginário, tem cheiros fauna e flora e, restos de uma língua perdida entre canoas e um povo que se balança nas redes suportadas pelas morambeiras. Povo esse que come as cinza dos seus mortos, misturada na polpa tenra e fresca das morambas, num ritual ao pé do rio que abriga os mitos dos seus deuses ancestrais.

"Há milénios que as morambeiras de Alendabar são o braço a camas de rede, guarida a barcos de pescador, além de tudo o que nelas pousa, mora, se come ou se bebe. (...)
Mais antigo, só o cacto flor de índigo...
(...)
Fantasia é quase fé. E um sexo exposto é deus."

A escrita escorreita e tão directa de ALC quase que ataca o leitor. Há coisas escritas de forma tão declarada, tão escarrapachada, que o leitor até precisa de as ler duas vezes para as perceber melhor, e percebeu, é claro que percebeu, mas é essa incidência, esse lado tão incisivo que abanam o leitor.

"Então Aurora parou de pensar nisso. Pensou que pensar nisso é que era um truque do mal para nos desorientar, até não acreditarmos em nada. E quando não acreditamos em nada o mal ganha. Não podemos esquecer quem é o verdadeiro inimigo. O bem não é um truque do mal. O bem é acreditar que o mal não levará tudo. O bem é a luta."

E sim, este é um livro de luta, de denúncia, do mal contra o bem, da inocência da idade, mas da pouca idade marcada pelos desaires da vida. Aurora, Ossi e Ira são três jovens em defesa desse bem, buscando o lugar próprio de cada um entre a tirana que escraviza e amedronta. Tá cá tudo, neste livro cheio de foco: política, escravidão - a mais velha de todos os tempos e a mais moderna, a poluição e a preocupação com o ambiente, as questões de género e de igualdade, a falta de ética da exploração animal e a violência inerente, a ganância e a demência dos tempos modernos; mas também o amor, o luto, a paixão, o sexo e o acreditar que a vida pode ser sempre mais.

"Não há nada mais vazio do que um ecrã negro de um computador. (...) e dentro desse espelho dorme a voz que Zu mais ouviu nos últimos anos. Como pode ter saudades de alguém sem corpo, sem coração? Se Jade existe, como pode não estar com ela agora? Se Jade não existe, que faz ele aqui, de computador aberto?
(...)
Jade é a bela adormecida deste tempo. Aquele que nem pode ser beijada."

Alendabar tem aura de mil e uma noites, onde o sultão é o leitor, entretido pelas histórias, não de uma bela condenada à morte, mas de três jovens que parecem viver uma aventuras de «Ali Baba e os 40 ladrões», não no deserto mongol, mas numa praia de «Lagoa Azul», ou não fosse os cabelos loiros de alguns dignos de um espectáculo exótico.

Nestes cabelos loiros, a história é tecida com outros fios e unida à de Atlas, por quem Felix e a mãe estão de luto. Por fios ainda mais imaginário, há a história de um convidado, Zu, que encerra em si os medos e as ansiedades do homem moderno, essencialmente em conflito consigo mesmo.

"O humano é esse primata, não o que fala, não o que pensa, mas o da planta do pé arqueada que imagina histórias, ri com elas, chora com elas. Só ele sabe como estar vivo é o grande buraco negro."

«O corpo dela e outras partes» de Carmen Maria Machado :: Opinião



Uma poderosa e desconcertante reflexão sobre o que é ser mulher,
desejar, amar, resistir, viver como mulher.

FINALISTA DO NATIONAL BOOK AWARD E UM DOS MELHORES LIVROS DO ANO:

Barnes & Noble * Book Riot * Boston Globe * Chicago Review of Books * Elle * Huffington Post * Kirkus Reviews * Library Journal * Los Angeles Times * New York Times * Paris Review * Publishers Weekly * Washington Post

Uma edição ALFAGUARA

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As distinções e ovações quase falam sozinhas sobre a qualidade reconhecida à escrita de Carmen Maria Machado, mas a questão que se principal é:
O que é viver no corpo de uma mulher?
Talvez seja pesquisar muito e lutar por entender a body literacy que encerra cada corpo feminino. 

Carmen Maria Machado explora cada conto com imprevisibilidade e experimentalismo, tal como se percorresse um corpo com ânsia de o conhecer em todos os seus recantos. É assim que eu leio os seus contos.

A voz do corpo, a voz por vezes escondida ou recatada. O dar voz às mulheres, pelo seu corpo, pelos seus desejos, pelos seus anseios e preocupações e pelas suas metades. 
Carmen Maria Machado assume-se metade diva, metade bruxa. Eu diria antes: metade besta, metade bestial. 
É isso mesmo: ser mulher, é ser capaz de numa hora ser uma mulher bestial, e na seguinte uma besta. O mundo assim o obriga e nós mulheres também. 

Qual dessas metades é a mais ligadas à fantasia?
Tudo dependerá muito de cada uma e da realidade de cada quotidiano. E pelo que lemos do livro, do entendimento que se faz do corpo com que se vive. E se o aceitamos ou não. 

Assumir o corpo é  talvez a forma mais rápida de entender o lado selvagem que cada uma tem em si, é aceitar que o humor, as necessidades, as vontades, os sentimentos, as paixões, as falhas...  oscilam. Aceitar, é talvez a nossa maior força.

Pela objectiva, cada vez mais afinada, da crítica cultural-feminista o livro de Machado é um livro político, muito centrado nos temas de hoje, um livro que mistura a realidade com a fantasia, alertando para as caixas e caixinhas que determinam o território feminino, condicionado à masculinidade de uma linguagem espalhada pelo mundo fora.

Nos oito contos, para além de um experimentalismo constante (a meu ver!), destacamos a forma de narrar que cruza, por palavras da autora, meta-ficção, não-realismo, fantasia, horror e ficção-científica. Tudo unido por uma imaginação recheada de folclore, muito dele proveniente das origens cubanas de Machado. 
Os críticos têm dificuldade em catalogá-la, chegando até ao rótulo de erótico e pornográfico. 
No entanto, o que interessa é o resultado. Todo são contos surreais, abordando constantemente o desejo como um motor poderoso e pequenos padrões, nas personagens, que se repetem e se aproximam à realidade. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

«A Submissão» de Amy Waldman - Opinião



"Deixa-me fazer-te uma pergunta. Tu, com as tuas causas liberais, como reconcilias o teu apoio ao islão com o teu apoio aos direitos dos homossexuais, ao feminismo, quando vês como as mulheres, ou os homossexuais, ou as minorias, são tratados em tantos países muçulmano?
- O Khan não é esse tipo de muçulmano.
- Mas então tens uma medida pessoal... os muçulmanos «aceitáveis» são aqueles que concordam contigo."

Quem são os muçulmanos aceitáveis?
Quais são as causas e as minorias por quem é «aceitável» lutar após o 11 de Setembro?
Quem são os que têm direito a decidir sobre o memorial a erguer no ground zero?
A quem pertence a maior dor? Existem mortes mais importantes do que outras? 
Quem tem legitimidade para afirmar sentenças perante temas tão ambíguos como o significado da arte ou a profundidade da dor?

O debate é acesso e pejado de discórdias: as aceitáveis e as manipuladas pela ganância dos media, astutamente personificada por Alyssa Spier. Mohammad Khan tem uma presença ambígua, mas o estado em que se encontra Nova Iorque e a opinião pública também. O conflito tem início com uma fuga de informação e a pressão espalha-se aos mais variados intervenientes. O peso da herança cultural, a interpretação do islão, o significado da arte e a profundidade da dor são o centro deste livro. Ou seja, política. Mas política é também o papel dominante dos jornalistas, das associações, dos debates transformados em manifestações, as angariações e os grupos de suporte, um manancial de intervenientes que espelham uma América divida, com medo e altamente manipulada por muito ruído e pouco espaço à reflexão. 

"(...) temos pessoas a arrancarem os lenços da cabeça das nossas mulheres e os nossos jovens a radicalizarem-se em resposta, e quem pode censurá-los? Isto vai acabar mal. - Virou-se para Mo. - Você está a levar-nos para um mau final. Foi você, não os terroristas, quem sequestrou a nossa religião. Pelo menos os terroristas são crentes. Qual é a sua desculpa?"

O extremismo não está só nas acções, mas também na forma tão "preto no branco" de olhar a um assunto complexo. 
"Mo não tinha o eco - teológico, histórico e histérico - de Mohammad." 
O não entendimento a Khan, assume exposição máxima, negando-lhe qualquer pertença. Sem obter aceitação de nenhum dos lados, Mo é excluídos de uma América que não entende os seus intentos e é igualmente excluídos de uma religião que pede mais do que ele dá. Sobra-lhe a arquitectura para interpretar o que o rodeia.

"Há cinco dias que estava a jejuar. Ele era apenas um grão de areia, entre centenas de milhões de muçulmanos que observavam o Ramadão - (...). Ele via esse período como um edifício, medido de quarto crescente a quarto crescente, fazia de cada dia uma sala, medida do nascer ao pôr do sol. A refeição antes do nascer do dia era uma ombreira e, durante as horas de abstinência, a boca era como uma porta trancada. Mas estes eram os conceitos rebuscados de um arquiteto. A verdade era que não sabia por que motivo estava a fazê-lo..."

O impulso de privilegiar a tolerância e a importância da arte como resposta para a esperança perdida chocam com a própria vulnerabilidade de cada um e o pedido de segurança que é feito por todos. É com muita desta dualidade que todo o enredo se depara, explorando teorias da conspiração que parecem absurdas, mas que pautaram os jornais naquele período conturbado.

"Claire acendeu a televisão, curiosa por saber o que as classes histéricas pensavam disto.
- Num desenvolvimento potencialmente explosivo, o design do memorial pode, na verdade, ser o Paraíso dos mártires - informou com ar sério um apresentador da Fox News, antes de passar a palavra a um painel de especialistas no islão radical.
(...)
- Os restos mortais deles também estão naqueles terrenos. Ele desenhou um túmulo, um cemitério, para os terroristas, não para as suas vítimas. Certamente que sabia que, em árabe, a palavra para túmulo e jardim é a mesma. 
(...) «Jardim da Vitória» gritava o Post. O editorial de opinião do Wall Street Journal chamava ao design de Khan «um ataque à herança judaico-cristã da América (...) uma tentativa encoberta de islamização.», prosseguia o artigo."

A memória colectiva quer manter viva a memória de uma tragédia, mas a necessidade de se curvar perante necessidades tão particulares e outras tão patrióticas, torna impraticável o processo de luto, tornando-o num lugar barulhento e vazio das reflexões necessárias.

"- Lamento, mas um memorial não é um cemitério. É um símbolo nacional, um significante histórico, uma forma de garantir que qualquer pessoas que o visita... por mais ténue que seja a sua ligação em termos temporais ou geográficos com o ataque... compreende como foi, o que significou."


*

A melhor frase de todo o livro:

"A tristeza dele, demasiado grande para um corpo tão pequeno, era como uma sombra que não deixava crescer uma planta."

Opinião "A Vida Amorosa de Nathaniel P."

Outro dia contemplava a mega estante da metade negra quando ela começou a tirar livros da prateleira, a perguntar se já tinha lido este ou aquele livro. É de dizer que voltei com 4 ou 5 nos braços e este "A vida amorosa de Nathaniel P." foi um deles.
Livro do ano de não sei quantas publicações de renome e uma leitura que se revelou como uma tumultuosa e irritante viagem à mente masculina.

Honestamente desejei desistir uma mão cheia de vezes nas primeiras 40 páginas. 
Da última vez que pensei "não dá, não tenho paciência para vaguear na mente de um gajo intelectualóide e todo cheio de si" foi quando embalei e levei a leitura até ao fim.


Nate sempre quis escrever. Filho de uma família emigrante com sua dose de pretensão, Nate frequentou Harvard e algum tempo depois mudou-se para Nova Iorque. Sem um livro debaixo do braço e nem um contrato editorial na calha, Nate comeu nos primeiros tempos graças a pequenos trabalhos, opiniões e outra coisas pontuais para revistas mais ou menos conhecidas. No entanto, quando o conhecemos, o seu nome já se tornou sonante no meio editorial, tem um livro a sair dentro de alguns meses, é invejado por colegas e cobiçado pelas mulheres. 
Como uma personagem que imaginamos a caminhar pelas ruas de Brooklyn enquanto fala para o espectador, em close up para a câmara, Nate vai divagando sobre a sua pessoa, o seu trabalho, mas acima de tudo, sobre as mulheres da sua vida.

E se num momento conseguimos compreende-lo e ser complacentes com ele, no seguinte ele irrita-nos com a sua falta de tacto e incapacidade para ser honesto especialmente em relação ao seu mais recente emparelhamento. 

Por vezes aquilo que dizemos que queremos e aquilo que realmente gostamos de ter são coisas diferentes.
Nós sabemos, as relações não são fáceis. Ou será que deviam ser fáceis e se não o são, é porque não valem a pena?
"Por que raio é que as mulheres, por mais inteligentes, por mais independentes que fossem, revertiam inevitavelmente para este estamos de imbecilidade voluntária?"
Este Nate é um detector de defeitos e detalhes nefastos que minam a imagem da mulher à sua frente. Quando as coisas típicas de um namoro acontecem Ad infinitum (como ele salienta) e a rotina se instala no casal, é quando percebemos o momento em que Nate começa a sabotar as suas relações.

"Por norma os homens querem um motivo para terminar uma relação, enquanto as mulheres querem um motivo para a manter...é por isso que, depois, os homens olham para tudo o que estava mal na relação, para confirmar que fizeram bem em termina-la. As mulheres, por outro lado, voltam atrás e procuram aquilo que podia ter sido diferente, aquilo que podia ter feito com que as coisas funcionassem."
Este "A Vida Amorosa de Nathaniel P." parece ter sido escrito como se um agente infiltrado no cérebro masculino tivesse captado a essência dos pensamentos, desejos e receios dos homens para depois os vender ao sexo oposto. Adelle Waldman cria uma voz para Nate que, arrisco-me a mandar esta afirmação para a frente por falta de cultura e conhecimentos literários, se torna refrescante ao escancarar uma janela mal lavada e com pouca visibilidade para a mente masculina.

E agora, o que pensa a minha metade literária da minha opinião ao livro que ela me sugeriu?