segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Onde os últimos pássaros cantaram, Kate Wilhelm

Não sabendo muito bem como me chegou às mãos, "Onde os últimos pássaros cantaram" é uma obra de 1976 que podia muito bem ter sido escrita agora, pois estaria perfeitamente contextualizada aos dias de maior instabilidade, dúvida e incontrolável indecisão que o nosso mundo atravessa.

As preocupações climáticas são amplamente superadas pela utopia de uma sociedade quase secreta e capaz de superar aquilo que poderia ser o fim da humanidade como a conhecemos. Tal como a noção e a importância do grupo e da união é igualmente superada pela luta pela individualidade e independência de cada um de nós. A clonagem e a tentativa de nos aproximar ainda mais do que só pelas semelhanças de espécie é alarmante e francamente bem jogada pelas descrições simples e pragmáticas de Kate Wilhelm.

Vencedora do Prémio Hugo logo no ano seguinte ao seu lançamento esta obra lança-nos para um drama emocional:
(sinopse)
David, estou a contar-te aquilo que o maldito governo ainda não quer admitir. Estamos no início duma longa depressão que vai arrastar a nossa economia, e a de todas as nações deste mundo, para uma crise como nunca antes imaginámos. A poluição espalha-se mais rapidamente do que sabemos. Já estamos com um crescimento zero da população há alguns anos. A fome já se estende a um quarto do mundo, neste preciso momento. Há mais doenças agora do que quando Deus lançou as pragas sobre os egípcios. Há mais secas e cheias do que há registo. Espécies inteiras de peixes desapareceram, simplesmente desapareceram. Não há o raio duma colheita neste mundo que não sofra de algum tipo de praga ou doença, e as coisas só vão piorar. E eles não sabem o que fazer a respeito de nada disto. Estes loucos vão justificar cada catástrofe, atribuindo-a a uma condição isolada, e virarão as costas ao facto de se tratar de uma questão global, até ser tarde de mais para o evitar.

Emocional porque ainda hoje a clonagem é um assunto tabu e perante o qual todos devemos questionar qual será o nosso papel como indivíduos, não numa perspectiva de individualismo  mas sim de individualidade própria e tão apurada na nossa espécie.
Seríamos nós capazes, de conscientemente, abandonar a nossa perspectiva pessoal, a nossa capacidade de decisão e acção em prol de uma utopia!?

"(...) 
- Pela primeira vez, desde que a Humanidade caminha na terra - disse ele -, não haverá inúteis.
- Nem génios - acrescentou uma voz condescendente. (...)"

Até que ponto damos especial interesse à comunidade onde vivemos? Quando nos virmos sem ela? Quando nos sentirmos ameaçados? E quando formos, ainda mais, apenas números? Apenas pedaços trabalhadores que fazem pequenas partes de uma sociedade funcionar? Conseguiremos nós, agora, após anos de evolução a tomarmos partido, a sermos donos de parte da nossa evolução, conseguiríamos agora depositar tudo nas mãos de um grupo!? E se a clonagem nos retirar toda esta capacidade de questionarmos? Viremos todos ao mundo reprogramados para sermos escravos de uma comunidade? Sentiremos nós essa escravidão? Será assim em outros planetas? Seres geneticamente apurados, capacitados de "skills" específicos e contribuidores, cada um na sua área, sem misturas, sem questões, sem desafios!?!?!

Apesar de curtas ideias e de apenas lançar o mote à dúvida e à questão, creio que a autora é exímia em nos deixar a pensar:

(...)
- O indivíduo não existe. Existe apenas a comunidade. O que é correcto para a comunidade, é correcto, mesmo sob risco de morte do indivíduo. Ninguém existe, existe apenas o todo.
- Onde ouviste isso?
- Li.
(...)
- esse livro é uma mentira (...) eu sou um. Eu sou um indivíduo.
- Mark espera - interpelou Barry. - Alguma vez viste o que acontece a uma formiga que entra numa colónia estranha?
(...)
- Mas eu não sou uma formiga - contrapôs Mark.

As personagens neste livro não são como formigas, são mais como números em dia de bingo, uns serão muito importantes, e outros menos, ou quase nada. Essa forma de nomear algumas personagens com números foi o que mais que custou a entranhar durante a leitura, mas agora vejo que foi estrategicamente bem escolhido e premeditado, foi de certeza o trigger necessário para trazer ao livro a frieza, o distanciamento e a capacidade de desumanizar toda a luta e utopia conseguida por alguns e desafiada por outros.

Agora que penso bem nesta leitura, creio que quem lê este livro e segue a série "Walking Dead" verá algumas semelhanças, algumas lutas idênticas, algumas dúvidas que persistem e o motivo é sempre o mesmo, a luta pela Humanidade, tal como a gente a conhece.

Boas Leituras

2 comentários :

philipa disse...

Mais um para visitar a maranhota! :)
Efeitocris...tenho la em casa " As velas ardem até ao fim" é meu...quando quizeres...

efeitocris disse...

queres este?
OK
levo-te já hoje ;)
está agendado pra uma troca, mas sem pressão! ;)