segunda-feira, 20 de maio de 2013

«No meu peito não cabem pássaros» Nuno Camarneiro, Opinião

Perdoem-me a desatenção, mas o nome Nuno Camarneiro só chegou até mim pelas palavras de Maria do Rosário Pedreira aquando da apresentação do segundo romance do autor, aquele que ganhou o Prémio Leya 2012 e que foi a minha primeira leitura e contacto com a divinal escrita do autor. As palavras que destaquei na outra apreciação repetem-se agora e têm mesmo que se repetir, ler Camarneiro é apaixonante!

Em diversas entrevistas, críticas literárias ou pequenas sinopses do livro, faziam sempre questão em destacar que as personagens deste romance eram Fernando (Pessoa), Franz (Kafka) e Jorge (Luís Borges), acredito que quem pegue no romance sem ler nada não identifique (logo) tais personagens, talvez Pessoa, apenas por nos ser mais próximo, mas o que eu quero com isto dizer é que se as viagens pelas palavras de Camarneiro são uma versão biográfica destes três monstros da literatura, tal monstruosidade é esmagada pelas palavras simples e as ideias concretas que são servidas a frio como se de uma catarse pessoal se tratasse.

Chego ao fim desta leitura e é como se desejasse voltar ao início ou ao outro livro ou desejar que existisse já um terceiro. Camarneiro escreve com um pragmatismo lírico, o que parece desde logo antagónico, mas é exactamente isso que a sua escrita me transmite, a total clareza de conseguirmos ser pragmáticos em reconhecer que temos tantas dúvidas. Não sei se me faço entender!?

"O mundo, senhor Fernando, é para ser visto e entendido, não inventado."

E o que restará de nós se nunca inventarmos nada?
Obrigada Nuno pelas palavras, pela combinação que com elas inventas, são elas que são responsáveis por nos reinventarmos a cada leitura. A dúvida que fica, essa sim merece ser vista e analisada. Há pessoas que têm o dom, de com clareza e paixão, nos fazerem pensar. Eis o que tanto absorvo da tua escrita.

"Quando um achador de terras se cansa de procurar caminhos, resta-lhe desistir ou abrir uma estrada nova (...). Por uma estrada inventada chega-se a qualquer lugar e por palavras escritas chega-se a qualquer vida em qualquer época."

Tal como Fernando encara a vida e vê que ela se "afasta dos livros assim que se fecham", num espaço onde "tudo são incertezas e tropeços", talvez seja assim que as tramas que Camarneiro cria, se aproximam do nosso tempo, unindo os pontos e formando as linhas que a todos nos unem, seja com uma cidade de distância, um país, uma cultura, um oceano. Três personagens perdidos por três cantos do mundo, diferentes  por partes é certo, mas iguais num todo. Assim seremos todos? Serão as preocupações as semelhanças que nos unem? Não comungaram todas no mesmo sentido?

"A todo o momento há diabos a quererem entrar na gente, espíritos de fogo à procura de queimar corpos e almas (...) A cabeça de alguns é um diabo a quem deram um corpo e uma data de nascimento, uma possessão à espera de acontecer."

"Alguns homens são de tripas e escamas, depois de amanhados ficam um pouco que não chega e mal se vê. Há outros em que tudo se aproveita, homens com segredos nas entranhas e na pele, que contam histórias sem fim."

Mais uma vez, somos brindados com um livro excepcional, recheado de passagens que merecem destaque, correndo o risco de destacarmos a maior parte do livro. Há como que uma geografia insólita que fragmenta vários homens como se multiplicassem as preocupações, amores e incertezas de um só que ao mesmo tempo pode ser a alegoria de todos os homens. A meu ver, um narrativa que espelha sentimento, dor, lamento, amor, perda, paixão, busca, desejo... a sofreguidão de viver a vida.

São difíceis de encontrar as palavras que façam justiça a este romance. São as dores de uma vida vivida, aguardando o milagre!

"O verdadeiro bilhete de um suicida é a sua vida como ele a viveu."

É a vida como a gente a vive, pautada pelas dores do amor, pelas estranhezas de quem vemos por fora, pela dissimetria do tempo, que escasseia e avança e nós aqui: "(...) sem nunca se sair de onde um dia se partiu."

Um livro que chega a ser pessoal, que nos entrega aquilo que nós quisermos tirar dele!

*
Quero ainda destacar que durante a leitura me ocorreram duas músicas, não sei se por Buenos Aires se pela estranheza com que se entranha a trama deste livro. Aqui fica:




Uma leitura com o apoio da Editora

Mais informações sobre o livro: aqui
Mais informação do autor e blogue: aqui



3 comentários :

André Nuno disse...

"A vida tem mais palavras do que a literatura mas são palavras que não levam a lado nenhum"

Esta foi a frase que me ficou deste livro maravilhoso.

Afirmei que "As três narrativas vão-se alternando em capítulos muito curtos, intensos e literários, pois este livro é claramente uma peça de literatura que entra directamente para o que de melhor qualidade se escreve em português contemporâneo.

Estamos perante um romance muito bem escrito que deve ser lido à velocidade própria. Sabe melhor se digerido calmamente, deixando cada sabor e fragrância maturar no palato e espicaçar a nossa imaginação."

É uma delícia. :)
Boas leituras, Cris.

Philipa Amaral disse...

Quero ler :)

EfeitoCris disse...

Sabe melhor se digerido calmamente...

concordo plenamente Nuno.

Philipa, já está pronto para te levar! ;)

Obrigada amigos pelos comentários