terça-feira, 22 de outubro de 2013

“As Velas Ardem até ao Fim” - Sándor Márai - Opinião

A curiosidade para este autor, nasceu com o livro «A Herança de Esther» que ainda não li, já que quando comecei a procurar, deparei-me com este “As Velas Ardem até ao Fim” (uma edição Dom Quixote, 2001) e pareceu-me uma excelente forma de começar e não me enganei.

Comecei e acabei-o no mesmo dia. A inquietação de ter de saber o que se passou entre aqueles dois homens foi maior e a leitura teve de continuar.
A velhice actual de Konrád e Henrik é exposta através dos fantasmas que ficaram dos tempos vindouros onde estes dois amigos, conviveram e criaram uma personalidade em conjunto, desenvolvendo uma amizade muito pouco usual e ao mesmo tempo muito pura. Mas tudo muda, tudo se altera e a separação foi inevitável.

É na partida de um e no ficar do outro que se passam quarenta e um anos. Quarenta e um anos de espera, de ausência, de silêncio e igualmente de dúvida e mágoa, mas mais ainda de vontade de terem uma última conversa, um último desabafo.

O início do livro é o alerta para a chegada do tão esperado momento e todo o livro se desenrola de forma a fazer-nos saber do quão intrincada era a relação entre ambos. Até que a conversa, ou talvez mais um monólogo ocorra. Muitas são as perguntas ditas e desditas, porque já se sabem as respostas, muitas são as respostas mudas, em que os gestos e o silêncio dizem tudo... Digamos que é o climax final pelo qual esperamos todo o livro e este não desilude.


“As Velas Ardem até ao Fim” é uma extraordinária história de amizade e de resiliência humana, onde o retorno às origens e o confronto com a verdade pode sempre ser a salvação, o descanso e o apaziguar da alma. No entanto, são quarenta e um anos de vida em suspensão e você perdoaria? Seria capaz de viver assim? Foram perguntas que me vieram várias vezes à ideia.

"Aguentámos, pensou o general"

«Um portentoso tratado sobre a Amizade em forma de romance, uma obra-prima» diz Inês Pedrosa

Não poderia estar mais de acordo. Este enredo em formato de álbum de família, numa antevisão do já parco futuro, dá-nos a certeza de que o passado e o presente se misturam e se desaguam no futuro, é porque o futuro ao passado vai beber. Uma escrita poderossíssima e bela, que nos prende desde o primeiro momento. Um equilíbrio muito bem conseguido entre acção e descrição, não tornando nunca monótona a leitura. Um enredo cativante, por vezes comovente e ternurento, mas muito frontal e lúcido, deixando sempre a descoberto a pureza de uma amizade de mais de meio século.

"(...) os pormenores, às vezes, são muito importantes. Dum certo modo ligam todo o conjunto, colam a matéria base das recordações."

Que pormenores nos ficam? Que pormenores colam as nossas memórias?
Um romance sobre a amizade é certo, mas também sobre decisões, remorsos, consequências, honestidade e sobrevivência, sem esquecer o ciúme, a suspeita e o amor.

"Era o momento em que a noite se separa do dia, o mundo de baixo do mundo de cima. (...) É o último segundo em que a profundidade e a altura, a luz e a escuridão, tanto universal como humana, ainda se tocam (...)"

E na sombra, deixo-vos com Polonaise-Fantaisie de Chopin, já que a sua sombra também paira neste romance.

1 comentário :

helena frontini disse...

Li esses dois romances e gostei MUITO de ambos.