sexta-feira, 18 de outubro de 2013

«Cornos da Fonte Fria» de Abel Neves - Opinião


«Cornos da Fonte Fria» de Abel Neves é uma edição Sextante, confira mais aqui.


Apaixonei-me por «Cornos da Fonte Fria» de Abel Neves apenas pela capa. Digamos que foi amor à primeira vista. A ideia de um farol em "formato" biblioteca, ou uma biblioteca em forma de farol é o mote da capa e a meu ver de todo o livro, aliás foi essa ideia que me acompanhou durante toda a leitura.

Imaginem que na Fraga da Moura, algures no Gerês, numa aldeia chamada Pitões das Júnias, no topo da serra com mais de 750 metros de altitude, nasce, da força e da vontade dos homens um projecto ímpar - a construção de um farol (sim, no meio da serra!), uma biblioteca com vista para o mundo inteiro e com uma luminária, clareando assim o caminho de todos.

"Imagina o farol de que te falei um dia, lembras-te? Proponho um farol construído neste aspecto da serra, azul e branco às listas, grande, com lumieira no topo que há-de ser sempre exuberante mesmo se discreta então, depois de feito na paisagem, feito com pedra do lugar, com as mãos do lugar, o farol será por dentro uma biblioteca. Destas ambições eu gosto. Só precisamos de coragem para que a ideia tenha adeptos. Quando um dia, o mundo contemplar o farol de Pitões poderá dizer: a beleza tem destas coisas."

Esta é uma ideia simplesmente brilhante e que me apaixonou durante todo o livro. Se a biblioteca farol existisse, eu iria por certo, muitas mais vezes ao Gerês, aliás tinha já um motivo (mais um) para lá voltar. Mas se não bastasse a ideia surreal de um farol em plena serra, o livro de Abel Neves é perito em nos fazer sentir próximos dos prazeres da vida rural e desejar um maior contacto com a terra, os bichos, os cheiros e as sensações de quem partilha uma vida de proximidade com a Natureza.

As histórias entrelaçam-se entre os vários personagens, entre um livro dentro de livros, os escritus dentro de uma saqueta e a Natureza aos pedaços. São fragmentos!
É isso mesmo, fragmentos, alguns parecem palavras e ideias soltas, frases desconexas e ideias desprendidas de um sentido... são páginas de introspecção e outras de divagação... são relatos de sensações e alguns episódios à mistura, são momentos. São 85 pequenos movimentos dispersos por 4 movimentos maiores.

"(...) Que direito tenho de compor sobre uma fractura, inventando e sugerindo palavras, tentando dar sentido a um fragmento, torná-lo maior? (...) A reconstituição é uma arte ou um abuso."

Apesar de apreciar as divagações do personagem principal, de quem eu mais gostei foi mesmo do Raspa-te e do Flores, aliás, chegamos ao fim e sem grande noção de uma linha do tempo na história perguntamo-nos se as personagens não se sobrepõe e se o escritor (o do enredo) não escreverá sobre ele mesmo e as suas aventuras aquando estava "na terra"!?

Se as divagações do Raspa-te com as aventuras do unicórnio são completamente surreais e hilariantes, os episódios do padre Moreia arrancam-nos também algumas risadas. Já alguma lentidão com que certas coisas acontecem e nunca se revelam, adensam ainda mais o mistério em torno de Vigário.
As personagens que vão surgindo dão corpo à ideia do farol biblioteca, embelezando-o, cruzando a importância e a beleza dos livros com a beleza da terra. Não esquecendo as dificuldades, o autor coloca as suas personagens com alguns dilemas entre o rural e o urbano, vencendo a meu ver o poder enigmático e apaziguador da natureza.

"Amanhã antes de sairmos, lembra-me de esfregar os dedos na hortelã e as urtigas no joelho."

Eu diria ainda que este livro revela o poder redentor que a ruralidade pode ter em cada um de nós.

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