quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Opinião "Uncommon Type / Papéis Diferentes" - Tom Hanks

Vamos lá falar do primeiro livro do espectacular e adorável Tom Hanks. Até à data do lançamento deste livro, eu ignorava que ele escrevia. Tinha ideia que ele já tinha sido responsável por guiões de filmes em que entrou ou produziu mas nem sabia quais. O que também não sabia é que ele coleciona máquinas de escrever e que em 2014 lançou uma app (Hanx Writer) que simula a experiência de escrever nas ditas. Se eu dei por mim a encolher os ombros perante a ideia, o mesmo não aconteceu a imensa gente que até tornou a app num pequeno sucesso pela altura do seu lançamento. 
E agora vocês perguntam “mas o que é que isto tem a ver?” e eu respondo com a sinopse.

SINOPSE
Um romance febril e divertido entre dois melhores amigos. Um veterano da II Guerra Mundial cura as suas cicatrizes físicas e emocionais. Um ator de segunda categoria que é atirado para o estrelato e de repente encontra-se no meio de uma estreia tempestuosa. Um colunista do jornal de uma pequena cidade com perspetivas do mundo moderno bastante antiquadas. Uma mulher a adaptar-se à sua vida no novo bairro depois do divórcio. Quatro amigos que vão à Lua e voltam numa nave construída no quintal das traseiras. Um surfista adolescente que tropeça na vida secreta do próprio pai.
Estas são apenas algumas personagens e enredos que Tom Hanks cria no seu primeiro livro de ficção, uma recolha de histórias que explora com grande ternura, humor e perspicácia a condição humana e algumas das suas particularidades. Todas têm uma coisa em comum: uma máquina de escrever desempenha um papel em cada história, umas vezes menor, outras vezes fulcral. Para muitos, as máquinas de escrever representam uma perícia e beleza cada vez mais difíceis de encontrar. Hanks alcança-as facilmente.

Como eu nunca leio sinopses dos livros que quero ler apenas por causa do autor, só percebi quando abri o livro que todos os contos deste “Uncommon Type” (Pápeis Diferentes em Portugal) têm como personagem uma máquina de escrever, embora num registo “never the bridge, always the bridesmaid”, esta peça não ocupa um foco central, é em muitos casos um detalhe tão ínfimo que mal damos por ele. Confesso que até cheguei ao fim de um dos contos e não me lembrava de ter visto referência mas vá, eu sou distraída :) 
Como a sinopse menciona e muito bem, os contos são do mais diverso possível. Há uns que nos prendem e nos deixam tristes por já terem terminado, outros que nos fazem sorrir por qualquer semelhança a algo que conhecemos mas depois há aqueles dos quais não guardamos grande coisa, excepto mais um modelo de uma máquina de escrever antiga, algumas delas bem bonitas. No entanto, o que levamos do livro é que o Mr. Hanks consegue transpor para o papel um pouco daquele calor que emana e que me faz gostar dele. Desafio-vos a não ouvir a voz dele na vossa cabeça quando começam a ler.
Em suma, posso dizer que gostei da experiência mas só fiquei fã de uma mão cheia de contos.
Se os seus dotes de escrita são brilhantes? 
Não sou juiz para ditar a sentença do “fica-te pelos filmes” mas posso afirmar que “Uncommon type” conseguiu despertar em mim o saudosismo por um meio antigo e no qual ainda tive oportunidade de bater umas teclas em miúda, sem compreender sequer a engenharia e mestria que aqueles monstros das letras possuíam.
Talvez contos não sejam bem a minha praia, eu que gosto abrir um livro e levar tudo a eito. Próxima vez que um livro de contos me chegue às mãos, vou optar por torná-lo um companheiro de mesa de cabeceira, para ler num regime “um conto por dia não sabe o bem que lhe fazia”.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Opinião "Clock Dance" de Anne Tyler

Willa Drake sempre dançou ao ritmo da música dos outros. Desde pequena aceitou o embalo das ondas criadas pelo conflito familiar e o desaparecimento da Mãe lançou o que seriam as fundações de uma personalidade que se sobrecarga com as responsabilidades e o bem estar alheio, sem olhar ao seu. Esta característica até podia ser encontrada numa mulher e/ou mãe galinha/guerreira que luta e leva tudo à frente mas no caso de Willa é o que a torna complacente e a leva a seguir uma vida para o qual foi levada pelas vontades e decisões dos outros. 
Uma das coisas que gosto de fazer quando vou de férias é escolher livros da estante que depois irei deixar em locais como o campismo onde vamos todos os anos e que já podia encher meia estante com os títulos que temos deixado por lá. No entanto, o objectivo não é que fiquem a ganhar pó na estante e que uma vez deixados no local das doações, encontrem sempre um novo dono e partam assim para novas paragens.
Algures num dos meus passeios deste ano, dei-me de caras com um campismo que tinha umas centenas de livros na estante dos doados e lá do meio salvei um Juan José Millas em espanhol e este “Clock Dance” de Anne Tyler em inglês. O resto estava em línguas que não domino e em idiomas que nem sequer reconheci.

O nome da autora pareceu-me familiar mas sabia que nunca tinha lido nada seu embora a Wook, minha bíblia base de dados, diga que até tenho livros da autora na wishlist. São tantas as opções que uma pessoa até se perde.
A última mudança na sua vida ocorre quando Willa se torna, fora da zona de conforto e a vários estados de distância da sua residência, a pessoa responsável pelo bem estar da ex namorada do filho e da uma miúda que nem sequer é sua neta. A aceitação de um pedido sem lógica esconde a faísca que pode incendiar tudo e é assim, entre mal entendidos, vontades, desafios e alegrias até então desconhecidas, que Willa abre um novo capítulo na sua vida, ou pelo menos, um que algures lá pelo meio começa a ser escrito pelo seu próprio pulso.

Se “Clock Dance” é uma história de “mudar de vida” ou grandes epifanias isso não posso dizer sem dar spoilers mas acima de tudo é um livro que nos relembra que há beleza nas coisas mundanas do dia a dia e que, parafraseado alguém que não sei quem, o que interessa é o caminho, não o destino. E se esse caminho for fruto das nossas escolhas, boas ou más, a única coisa que interessa é que esteja povoado por quem mais gostamos e que nos vá fazendo feliz até chegarmos ao nosso destino.

Pergunta...
quem é que já leu algum livro desta autora?
Tenho o "Amarga como vinagre" na wishlist faz muito tempo. Alguém leu?

sábado, 12 de setembro de 2020

Opinião "Os rapazes de Nickel" de Colson Whitehead


Com a chegada do correio, o pouco que ainda vamos recebendo por estas paragens, segue-se sempre a divisão dos pães literários entre as duas metades que compõem esta casa. “Os rapazes de Nickel” é, sem sombra de dúvida, uma leitura que figura do lado da metade negra mas por vezes, há livros que chamam por nós e no qual pegamos sem saber o que vamos encontrar ou o quanto o seu conteúdo se encaixa no que habitualmente gostamos de ler.


Baseado no caso real de um reformatório mascarado de escola, palco de segregação e incontáveis horrores, “Os rapazes de Nickel” começa com a descoberta, anos após o fecho e venda das terras, de corpos mutilados e campas anónimas nas imediações do local. Durante décadas de funcionamento, as queixas de violência sempre pairaram sobre a instituição como uma sombra mas nunca se fez justiça, nunca se lutou por quem lá pereceu. Quantos miúdos morreram assim? E quem não morreu, como levou a sua vida dai para a frente?


“Era aquilo que a escola tinha feito aos rapazes. Não acabava após a saída dos alunos. Amassava-os de todas as formas, deixava-os bem danificados e incapazes de te uma vida decente" 


E é assim que ficamos a conhecer Elwood Curtis, um miúdo inteligente com um futuro que tinha pernas para andar mas cujo tom de pele e a década em que nasceu, o colocaram num mal entendido que ainda hoje muda a vida de muita gente. A passagem pela Nickel, mais que um solavanco na estrada, altera por completo o terreno palmilhado daí em diante por Elwood e por outros que como ele viveram os horrores perpetrados por quem seriam os seus cuidadores. Há imagens que não se esquecem, sons que retesam todo o corpo mesmo anos depois e há cicatrizes, físicas e emocionais, que nunca saram. Como é possível sarar uma ferida que continua a sangrar? 


É impossível não sentir um arrepio na espinha perante o que o nosso imaginário vai criando com as descrições de Whitehead. Ele coloca-nos lá, mesmo sem sequer fazermos ideia do que poderá ser um inferno assim.


Onde me falta o brilhantismo na minha opinião, coloco o que roubo à divulgação do livro para vos sugerir a leitura desta novidade.


“Um romance de brutal impacto emocional. Uma obra literária que exibe a pujança de um escritor em plena forma, que explora a ferida aberta da segregação racial e levanta uma poderosa voz contra a injustiça” 

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Opinião "Extremo Ocidental"

Há livros que nos caem no colo sem contarmos e "Extremo Ocidental" foi um deles. 

Pela altura do seu lançamento (2016), chegou-nos uma cópia por cortesia da editora Elsinore mas por questões de preferências, o exemplar acabou por ir parar à outra metade desta casa literária. Dissecado, comentado e levado de viagem, esse exemplar ainda lá está na estante e o que eu acabei por ter como companhia foi encontrado num cafezinho pitoresco que em tempos foi uma antiga estação de comboio na linha do Vouga e que agora é a casa de partida para uma volta de bicicleta na ecopista. Sem querer, este livro partiu comigo e juntos rumámos ao Norte de Portugal e ao local do Capítulo 1 -  A Ilha de Insua, Caminha e a fria, ventosa e desafiante Praia do Moledo.

Calma, não vai sair daqui uma roadtrip com "Extremo Ocidental" como guia. O nosso encontro foi apenas um acaso do destino e calhou as nossas coordenadas se alinharem.

Por escrito percorri estes mais de mil e tal quilómetros de costa a visitar sítios onde nunca fui, a reencontrar os areais que conheci toda a minha vida e a compreender que somos um país cheio de locais, histórias e pessoas interessantes para conhecer.

De norte a sul mergulhamos nas praias e nas histórias, quase que nos sentimos como se ali estivéssemos


e alguém sentado ao nosso lado, a sentir o mesmo sol e o mesmo vento, nos contasse tudo sobre si e o local em que nos encontramos. É assim, a saltitar costa abaixo e indo até Marrocos, que ficamos a saber que nunca houve um pessegueiro lá na ilha e que existem parques de campismo onde não se acampa.

Este "Extremo Ocidental" permite-nos conhecer um bocadinho mais da alma do nosso país, da sua geografia e a sua gente. Se antes falei de roadtrip em tom de brincadeira, aqui fica a sugestão:

Percorrer a costa de Norte a Sul de carro, mota, carrinha ou caravana (vá vou deixar o a pé e de bicicleta de lado sem ser contra) é uma óptima sugestão para as vossas próximas férias. Com este e outros livros como companhia, quem sabe não ficam a conhecer um lado de Portugal que desconhecem.

E por falar em livros, lá para o meio da Costa, algures antes de chegar a Vieira de Leiria somos presenteados com um episódio hilariante e que já me veio à memória algumas vezes ao longo deste verão, especialmente se vejo alguém sentadinho na sua cadeira a ler como se estivesse na santidade do seu lar. Todo o leitor sabe o pesadelo (mas também o prazer) que pode ser "ler na praia", excepto quando o mar nos prega uma partida ou calhamos numa praia cheia de gente barulhenta.

Boas viagens e boas leituras.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Opinião "O Segredo de Rose"

As delicadas e surpreendentes irmãs Fowler. 
Se Violet foi uma agradável surpresa, Rose foi o equiparável à flor que lhe dá o nome. Bela, sofisticada mas no final de contas, um clichê. 


Conhecemos Rose no primeiro livro e que é inteiramente dedicado à sua compostíssima irmã mais velha. Se Violet é a cabeça dos negócios, Rose pareceu-me a lufada de ar fresco da família. Como irmã mais nova, foi sempre protegida mas isso não a impediu de marcar o seu lugar na Fleur, a empresa familiar, e desenvolver uma personalidade engraçada e descontraída. No entanto, a imagem externa que obtemos de Rose através dos olhos da irmã revela-se um pouco longe da realidade. Insegura quanto à sua posição na hierarquia familiar, especialmente no que toca à importância que cada pessoa tem na empresa, Rose chega-nos abalada pelos segredos do passado, pronta para meter um ponto final no legado familiar e a precisar de um escape. 
O que melhor que um homem para nos tirar a cabeça das coisas mundanas do dia a dia?
E o mesmo se pode dizer do contrário. 

 "Doem-me literalmente as mãos com vontade de a tocar. Mas não o faço. Não posso. Toca-la faz com que perca células cerebrais, juro por Deus"

Caden conhece Rose em Cannes, durante a apresentação do documentário sobre a família Fowler. No entanto, ele não estava lá pelos seus interesse cinematográficos. A queda astronómica do seu pai uns anos antes fez de Caden o responsável pela família, ou melhor, pela mãe. Em vez de adoptar a acção de qualquer pessoa normal e ir trabalhar, Caden decidiu enveredar por um caminho que permitiria aproveitar-se dos seus conhecimentos da alta esfera social e ganhar dinheiro, ou seja, roubando aos ricos e dando aos pobres, um Robin Hood que na realidade ficava com os ganhos e providenciava o dia a dia da sua mãe e seu.
Mas quando o seu último golpe, um colar caríssimo e que raramente vez a luz do dia, se encontra ao pescoço de uma mulher que é capaz de o desestabilizar apenas com um olhar, Caden vê a sua fonte de rendimento ficar suspensa entre a razão e o desejo de não magoar Rose.

Envoltos num nevoeiro de atracção e pouca razão, Caden e Rose vivem um romance suspenso da realidade na cidade de Londres onde os dois se encontram de passagem, ele a aproveitar a boleia no regresso a casa e ela de visita à irmã que agora se encontra a gerir a sucursal da empresa com o giríssimo Ryder (lembram-se dele?!) 

Quando ambos tomam decisões que podem mudar para sempre a sua vida, haverá possibilidade de se redimirem perante si próprios e um com o outro?


Estou curiosa para ler a sobre a terceira e última irmã, a infame Lily.
Mas ainda não tenho o livro :P

Leitura de Setembro 2018 que ficou perdida nos rascunhos até setembro de 2020

«Uma mulher desnecessária» de Rabih Alameddine :: Opinião

 



"Aaliya, a sublime, a louca."

Aaliya, a mulher desnecessária. Aaliya a mulher não religiosa, mas crente no poder dos livros, na salvação pela palavra, pela Literatura. 
Aaliya a caprichosa, a rebuscada, a livreira, a tradutora, a mulher desemparelhada do seu tempo, da sociedade que a envolve e ainda assim uma mulher tão necessária ao futuro irreconciliável entre realidade e ficção.

"Gosto de homens e mulheres que não encaixam bem na cultura dominante, ou, como Álvaro de Campos lhes chama, estrangeiros aqui como em toda a parte, casuais na vida como na alma. Gosto de outsiders, fantasmas a errar em salas cobertas de teias de aranha no castelo maldito de ter que viver."

"Incomodou-me, a vida toda, eu não ser igual a toda a gente. Durante anos, consegui convencer-me de que era especial, de que ser diferente era uma escolha. (...) Sou única, um indivíduo, não simplesmente idiossincráticas, mas extraordinária. Considerava o meu individualismo uma virtude, que me protegia e estados de espírito colectivos e insanidades, que me ajudava a elevar-me acima das correntes rápidas da família e da sociedade. A ideia reconfortava-me. Só que agora não está a resultar. E não é só de agora. Já lá vai algum tempo que não consigo muralhar o meu coração como deve ser. (...)
Não me saí tão bem como Gustave. Os meus muros não são estanques. Ao longo dos anos, surgiram brechas irregulares. (...)
Pessoa, que conhecia a alienação ainda melhor do que Flaubert, escreveu: «Mais terrível do que qualquer muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.»
Que dom para as palavras tem este poeta, que domínio das imagens."

Que dom tem também Rabih Alameddine para escrever como se fosse uma mulher, ler-lhe a alma e as ânsias, expondo particularidades e a solidão numa extensão incrível que nos deixa boquiabertas perante tal transparência e intensidade. Domínio tem também de um enredado de citações, referências, livros, quadros, poemas, filmes e tanto mais que torna este livro um manual de consulta obrigatória, para além de brindar o leitor com uma personagem fabulosa que é esta tradutora não oficial, uma mulher que se muralha e resguarda na melodia do árabe, trabalhando assim livros intemporais que são a sua melhor companhia.

"Não há nostalgia tão intensa como a saudade do que nunca existiu."

Este livro está pejado de solidão e de pequenas esperanças que morrem muito cedo, deixando um vazio  assustador que quase parece obrigatório à condição feminina naquele colosso geográfico condicionado pela sociedade patriarcal e o esmagamento pelas tradições religiosas, a Beirute muçulmana para uma mulher com mais de setenta anos, no entanto Aaliya, a resiliente, contraria o obstrucionismo enraizado e persiste no inútil, pensando e citando Pessoa.

"Ora, poderão querer saber porque é que me empenho tanto nas traduções, se depois as encaixoto (...). Pois bem, o meu empenho prende-se com o processo e não com o produto final (...)
Mas não só. No Livro do Desassossego, Pessoa escreve: «A única atitude digna de um homem superior é o persistir tenaz de uma actividade que se reconhece inútil, o hábito de uma disciplina que se sabe estéril, e o uso fixo de normas de pensamento filosófico  metafísico cujo a importância se sente nula.»"

É sem dúvida um desassossego que sentimos a certa parte deste livro ao acompanhar a vida desta mulher, que ao sabor dos seus relatos, nos revela o passado e, tudo num espaço de poucos dias perto do final do ano, quando, por norma, acaba uma tradução e há a euforia de escolher um novo projecto para começar mais um novo ano. Mas o desassossego maior chega com um acontecimento, uma viragem, um encerrar de um capitulo, uma cena muito intensa, palpável, rica em imagens e cheiros, que sendo levada a palco, ali, acontecendo debaixo dos nossos olhos, arrancaria, por certo, lágrimas aos espectadores.

"A minha alma é um brinquedo e roer do destino. A minha sina persegue-me como um batedor experiente, como um caçador malévolo, morde-me e não me larga. Encontro outra vez o que eu pensava ter deixado para trás. Serei sempre um fiasco, no passado, no presente e para sempre. Falhar outra vez. Falhar pior*. Assisto ao desmoronamento da minha vida.
*(Nota da tradutora Tânia Ganho) 
Alusão às famosas palavras de Samuel Beckett: «Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor» 

Com esta palavras encaminhamo-nos para o fim do livro, mas também pesando o lado redentor dos livros e o ressignificar das memórias.
Um livro poderoso!

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

«Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos» de Olga Tokarczuk :: Opinião

 


"1
E, agora, tende cuidado!
Certa vez, tendo escolhido um Caminho perigoso,
um Homem justo caminhou com Humildade 
pelo Vale da Morte."

Em jeito de premonição assim começa «Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos», alertando para a Morte e trazendo consigo uma conclusão: o caminho pernicioso com que o Homem tem marcado a sua passagem pela Terra terá de ter os dias contados. A Natureza é divina e superior e precisa reafirmar a sua posição. 

"(...) São as estrelas e os planetas que estabelecem a ordem, o céu é o padrão segundo o qual surge o modelo da nossa vida. (...) Nada será capaz de escapar a esta ordem.
É preciso ter olhos e ouvidos bem abertos, associar os factos. Ver semelhanças onde os outros só vêem diferenças (...) E, ainda, não esquecer que o mundo é uma grande rede, um todo, e que não há nada que exista isoladamente. Que todo o fragmento do mundo, incluindo o mais pequeno, se encontra ligado a outros de acordo com uma complicada Correspondência Cósmica, difícil de deslindar pelas mentes comuns.
(...) A sua geração tem Plutão na Balança, o que enfraquece a capacidade de estar alerta. E acham-se capazes de equilibrar o inferno, mas não creio que o consigam fazer. (...) A realidade envelheceu, tornou-se senil, pois está sujeita às mesmas leis que todos os organismos vivos - o envelhecimento. Tal como as células do corpo, os seus componentes mais pequenos, os sentidos, também sucumbem à apoptose. A apoptose é uma morte natural, causada pelo cansaço e esgotamento da matéria. Em grego, a palavra significa «queda das pétalas». O mundo perdeu as suas pétalas."

A mensagem final é clara, mas a forma como a Prémio Nobel encontrou para conduzir o leitor é extremamente rebuscada e genuína pois encontra a sua voz na narradora Janina Duszejko, uma anciã que questiona o autismo testosterónico masculino, a tristeza genuína da Natureza e vê tudo tendenciosamente negro e meio desfocado como se olhasse a realidade por um caco de vidro fosco, orientado pelo alinhamento dos planetas e as cartas astrológicas que lhe permitem conhecer as pessoas e os eventos à sua volta.

"Tenho de tomar cuidado. Só agora me atrevo a confessar: não sou grande astróloga, infelizmente. No meu carácter existe um certo defeito, que tende a obscurecer a imagem da configuração dos planetas (...). Vejo como nos mexemos às cegas num perpétuo Crepúsculo. Vejo-nos como escaravelhos capturados em caixas por uma criança cruel. É fácil danificar-nos, ferir-nos, despedaçar a nossa existência extravagante e engenhosamente fabricada. Tudo isto eu interpreto como anormal, terrível e ameaçador. Só vejo Catástrofes. Mas se, no início, está a Queda, será possível cair ainda mais abaixo?"

É sem dúvida um livro extravagante, recheado de pequenas pérolas que conquistam o leitor, seja pelas considerações ou as brilhantes descrições da natureza envolvente e até as análises astrológicas que confundem o leitor. Mas superior mesmo é a condução do enredo por uma terra pedregosa e fria, onde a luz da lanterna que alumia a Escuridão se vai extinguindo fechando assim o ciclo da premonição inicial, a inevitabilidade da Morte!

Excertos:

 "Tenho uma Teoria. Acredito que aconteceu uma coisa terrível: o nosso cerebelo não foi devidamente ligado ao cérebro, e esta talvez tenha sido a maior falha da nossa programação. Fomos mal concebidos. Por conseguinte, o nosso modelo deveria ser substituído. (...)
Temos um corpo que é como uma bagagem incómoda. (...) A única Ferramenta, tosca e primitiva, com que nos brindam à laia de prémio de consolação foi a dor."

"- Podereis argumentar que não passa de um Javali - continuei. - Mas que dizer daquela enxurrada de carne que vem do matadouro e cai diariamente sobre a cidade como uma incessante chuva apocalíptica? (...) O mundo é uma prisão cheia de sofrimento, construída de modo que, para se sobreviver, seja preciso infligir dor a outros. Ouvistes? (...) desiludido com o que eu estava a dizer, se pôs a trabalhar; por isso, passei a dirigir-me apenas ao Caniche: - Que mundo é este? Um mundo transformado em almôndegas, salsichas, em tapete estendido junto à cama, em caldo feito de ossos de outro ser..."

"- Que vai ser de nós? - perguntou dramaticamente.
- Tem medo que os Animais nos matem também a nós?
Estremeceu.
- Não acredito na sua teoria. É absurda.
- Pensei que a senhora, como Escritora, tivesse imaginação e capacidades visionárias, e não se fechasse a ideias que, à primeira vista, possam parecer improváveis. Devia saber que tudo o que somos capazes de imaginar é uma imagem da verdade - concluí, citando Blake (...)"


«Irmão mais velho» de Mahir Guven - Opinião

 


(...) Fumar um porro para dormir é típico dos cobardes. Daqueles que se recusam a negociar com as próprias angústias e as atiram para trás das costas para fechar os olhos em paz. Mas é uma paz podre. O charro é um falso amigo do sono. (...) De manhã, ao acordar, a bochecha amarfanhada e pegajosa de baba não é sinal de repouso. Com a erva, as noites são tão nubladas como um banho turco. Há pouca luz, está húmido, não se vê a grande distância e é tudo lento."

Dando o devido destaque a este parágrafo, o leitor tem uma apresentação da acção e um aviso: o céu vai estar nublado e com poucas abertas, já que este irmão mais velho, reside nos subúrbios de Paris, num emaranhado de problemas, dúvidas e preocupações, onde as palavras se confundem entre dialectos, orações e política e "(...) Síria, Daesh, Estado Islâmico. Terroristas. As palavras do medo. Já não era preciso dizê-las, elas andavam no ar (...)"

Um irmão mais velho entregue ao volante de um Uber, para desgosto de um pai taxista, faz-nos ver a proximidade dos problemas que se vivem em França tal como acontecem aqui, no entanto, eles têm ainda a pressão e o dedo apontando por serem filhos de emigrantes e árabes, por isso, o irmão mais novo, enfermeiro, decide que o seu destino deve ser outro, um local onde se sinta mais em casa e seja realmente útil. E é aqui que a nebulosidade aumenta e cobre o céu todo. Os pensamentos confundem-se mais a cada baforada, desenterrando o passado, revolvendo a ânsia da aceitação, o sentimento de pertença e o eterno questionar pelo sentido da vida. 

"Estava no Chade, man. Um nome mágico, místico.O meu primeiro inimigo cumprimentou-me. Era grande, redondo e amarelo, e caía-me a pique sobre a cabeça, um sol de chumbo capaz de enlouquecer um leão. (...)
No Chade tornei-me verdadeiramente francês. Brancos, portugueses, magrebinos, negros, pouco importa, o uniforme abafava as diferenças. Todos iguais. Irmãos como eu. Vencidos pela vida. Antes da tropa havia por vezes droga, por vezes lutas, por vezes pobreza (...) Os mais perigosos estavam lá por vocação. Toda esta gente tinha em comum chegarem cheios de paleio de certezas sobre a vida e sobre si mesmos. Mas repletos de falhas e cheios de dúvidas. A tropa esmagava-nos para nos tornar mais fortes. Colmatava as brechas, mas não reparava as falhas."

Também sobre a religião fica-se na dúvida se vem colmatar as falhas ou abrir brechas maiores, tecendo o irmão mais velho considerações sobre o Islão: "(...) Cada um encontra sapato para o seu próprio pé, e o número que deseja andar na direcção que escolher." E sendo dessa forma: um peso, duas medidas, dificulta entendimento e aceitação mesmo no seio dos que seguem a religião e por isso mais difícil de entender motivações alheias que encaminham o irmão mais novo em direcção à Jihad. 

Porém, há sempre um lado descontraído, ao sabor de mais um bafo, e que segue várias linhas de pensamento, parecendo não dar grande importância a nenhum em particular, mas fazendo considerações irónicas, mordazes e em certos aspectos muito acertadas, que passam pelas polémicas mais actuais, tendências, tecnologia, relacionamentos, corrupção, a Uber e os TVDE's ou coisas como fazer contas à vida e ver que não se conseguem pagar todas as despesas e aí entra o lado ecológico, as manifestações, as reviews dos clientes e tudo o que mais couber numa mente atarefada no trânsito parisiense.

"Esta moda das duas rodas deve confundir os serviços policiais, e estou certo de que as estatísticas de controlos de identidade o testemunham. Como diferenciar um barbudo muçulmano de um hipster numa bicicleta sem mudanças. O problema é sério."

O problema é sério e a dúvida persiste, mas o que importa mesmo saber é se o mano mais novo é ou não um terrorista e o que faz no seu regresso a Paris.

"A dúvida é uma torneira que pinga. Gota após gota, a dúvida faz ninho no chão e cava o seu caminho terra adentro. 
(...)
O importante não é a verdade, é criar uma verdade, uma boa verdade. E essa verdade é convencê-los de que não sabias de nada."



terça-feira, 1 de setembro de 2020

«Estou viva, estou viva, estou viva.» de Maggie O'Farrell :: Opinião

 


"Respirei fundo e ouvi o bater do meu coração.
Estou viva, estou viva, estou viva."
Sylvia Plath, A Campânula de vidro

Respire fundo também o leitor, pois vai precisar. Este livro reúne 17 episódios onde a ameaça de morte foi uma possibilidade, uma constante e um pensamento ao longo da vida de O'Farrell. Nesses textos, que fluem como um romance, o leitor sente-se impelido a avançar, dono de uma curiosidade mórbida, pela proximidade de alguns episódios ou simplesmente por ser um livro muito bem conseguido, quer pela escrita escorreita, quer pela frieza com que certas palavras nos atacam e mexem com a nossa sensibilidade. Estranho? Talvez. Talvez seja mais fácil sentir enquanto se lê, por isso, leia este livro.

Para já, pense nisto: de quantos atropelamentos fugimos nós ao longo da vida? Desses "foi quase" dos quais saímos ilesos, avançamos como se nada me pudesse tocar, nada de mal pudesse acontecer, desde que eu pudesse continuar em frente, continuar a correr, continuar em movimento.

"(...) o avião que não apanhámos, o vírus que nunca inalámos, o atacante com que nunca nos cruzámos, o caminho que não tomámos. Estamos, todos nós, a deambular num estado de ignorância inocente, a pedir tempo emprestado, a aproveitar os dias, a escapar aos destinos, a escapar por uma nesga, sem saber quando será dado o golpe. Como escreve Thomas Hardy sobre Tess Durbeyfield: «Havia outra data... a da sua própria morte; um dia que se ocultava, invisível, entre todos os outros dias do ano, sem dar sinal ou fazer som quando ela passava por ele, a cada ano; e ainda assim estava inteiramente presente. Quando seria?»"

Quando seria? Como seria? Que parte do corpo atacaria?

Dividido em 17 episódios que atacam partes dispares do seu corpo, Maggie O'Farrell começa por se sentir ameaçada no pescoço, marca essa que nunca a abandonará, no entanto, a ameaça, a sentença de morte prematura chega ainda mais cedo em 77, quando ainda miúda se chegam a conclusões assustadoras que irão encaminhar decisões e experiências futuras, no entanto, o espírito fugidio e escapista da autora talvez tenham sido determinantes para partes do corpo que surgem mais adiante e as conclusões que partilha com os leitores.

"Vivi grande parte da minha vida perto do mar: sinto a sua atração, sinto-lhe a falta se não o vir regularmente, se não caminhar à beira-mar, se não mergulhar, se não respirar o seu ar. (...) Desde criança que nado sempre que posso, mesmo na água mais fria. É, na minha opinião, uma experiência muito reconfortante. Nos seus Sete Contos Góticos, Karen Blixen escreveu: «Conheço uma cura para tudo: água salgada... de uma forma ou de outra. Suor, ou lágrimas, ou o mar salgado.»"

Para além de considerações muito acertadas, existem boas referências e um ritmo imenso que prende o leitor a cada página, junto com descrições muito vívidas e partilhas muito transparentes, diria até de uma raridade genuína. 

"Sou a única abstémia de chá da minha família. Acho que eles o consideram uma perversão incompreensível. Para mim, o chá sabe a restos secos de relva, bolor de folhas diluído, composto húmido misturado com um toque de fluídos corporais bovinos. Nunca o consegui suportar."

"Está alguma coisa a mexer-se dentro de mim, nas profundezas dos canais em espiral do meu estômago, algo com garras, com presas, com intenções malévolas. (...) É como se tivesse engolido um demónio."

São vários os demónios que sugam a energia a esta autora, um deles é o da rotina, da doença ou da normalidade, para combatê-los, escreve e viaja, só isso é capaz de fazer frente à inquietude borbulhante que nunca a abandona.

"Depois de ter percorrido o Mediterrâneo em 1869, Mark Twain disse que viajar era «fatal para o preconceito, a intolerância e a mesquinhez."

Ler este livro também tem algo de fatal, é uma valente viagem, recheada de sabedoria e partilha que de certeza, tocarão no âmago de algumas memórias pessoais. 

*

Uma descoberta que este livro me trouxe foi o podcast «Contos Não Vendem» de Joana Neves, tradutora deste livro. Um dos episódios traz-nos o conto "O Que Veio Salvar-me", de Virgilio Piñera, lido por Manel Moreira que faz muito bem a ponte para o tema da morte, especialmente para o conto «Corpo Inteiro» neste livro de O'Farrell.

Vale a pena ouvir, aqui.


sábado, 20 de junho de 2020

«A despedida de José Alemparte» de Paulo Bandeira Faria - Opinião



Em «A despedida de José Alemparte» perdemo-nos inicialmente no trio de vozes que narram episódios despegados e que confundem o leitor, deixando-o sem saber quem é quem e do que fala. À medida que a narrativa cresce, as tensões são muitas e a urgência da despedida ganha sentido, é que José tem Alzheimer e tem por resolver um passado doloroso que já se vai esfumando da sua memória. 

A guerra e a ditadura, a descoberta da doença, mas também a família e o passado, abrem feridas que sangram uma vida inteira e talham o carácter das personagens que Paulo Bandeira Faria habilmente criou nesta espécie de diário. Dividido em três partes: Sinais. Forças e Maravilhas cruzam-se várias vidas ocupadas em dar voltas a um passado que, inevitavelmente, terá de juntar as pontas num presente prestes a se finar. 

"Fiquei só. Recordei um diálogo que uma vez tive com Xosé. O nosso destino não nos pertence, pedimo-lo emprestado, disse-lhe, e ele, apesar de descrente desde o dia em que rezou por um milagre que não ocorreu, perguntou: a quem? A Deus? Respondi: não: aos outros."

Os outros têm aqui um peso e um tamanho enorme, os outros são um país e a sua História, a guerra civil ou os atentados terroristas bascos, a crise económica europeia, o desemprego, o governo e os outros na esfera familiar, os que perdemos e os que ainda temos. E é aqui que conhecemos Emma, Alex, Daniel, Marta, Maria e Matilde, bem como Xosé, o amigo desavindo de José Alemparte. 

"(...) Sabes o que eu e a minha mãe ouvimos quando carregávamos o meu pai e ninguém nos ajudava? Um falangista passou e disse: pesa não pesa? É que leva muito chumbo dentro! E desatou a rir enquanto eu chorava. Velámo-lo em casa e ninguém pôs lá os pés, tinham medo, parecíamos uns leprosos. A minha mãe nunca mais tirou o luto (...)"

A história dos Josés tem o seu impacto e partilha os alicerces da passado recente da própria Espanha, tocaram-me mais os episódios de quando se cruzam com a guerra, do que o amor por uma mulher que os separou; mas o quotidiano até certo ponto banal de Emma e Daniel revela um passado ainda mais próximo sobre a incomunicabilidade que silencia muitas famílias e lhes rebenta os laços e os afectos, fruto de um modelo de mundo que pula e avança com um apetite voraz e tantas vezes sem sentido.

"(...) Até os beijos já não são beijos, mas bjs. Entre nós já não há o calor das vogais, só a cortante transcrição das consoantes, já reparaste? Apenas passamos informações."

Há ainda outro lado da voracidade, a da urgência do crescer e do perguntar e aí surge Alex, um narrador com uma visão muito peculiar e que quebra alguma tensão que a narrativa carrega, revelando-nos por vezes os tais detalhes que permitem compor os outros lados do enredo. 

"Eu também gosto de rir. Quando nos rimos usamos muitos músculos da cara. É por isso que me rio tanto. Os adultos riem pouco e ficam com pouca ginástica na cara. Eu disse isso ao meu avô e ele disse que eu tinha razão (...) perguntei: porquê? E ele disse: porque a seriedade da cara nos vem do coração. 
Eu não entendi (...)"

quarta-feira, 8 de abril de 2020

«Bowie, uma biografia» de María Hesse :: Opinião



Every time I thought I'd got it made
It seemed the taste was not so sweet

Com um verso de «Changes» de 1971 podemos, talvez, traçar uma linha que acompanhou todo o universo visionário que sempre acompanhou Bowie. Por isso, e usando esse mesmo traço que divide de forma muito ténue realidade e ficção, María Hesse e Fran Ruiz desenharam e narraram uma biografia que espicaça o leitor fã, colocando-o a voar por entre décadas de boa música, influências e tendências sociais que se infiltraram sempre nas composições e performances do artista. 

"Por isso, e porque estamos conscientes de que uma biografia é, inevitavelmente, uma obra de ficção, decidimos misturar passagens da vida real de Bowie com elementos fantásticos. (...)
Apresentar as coisas apenas sob um único prisma por muito honesto que este tente ser, pode revelar-se mais enganador do que uma visão fragmentada e ambígua."


As I ask you to focus on

Sailors fighting in the dance hall

Oh man, look at those cavemen go

It's the freakiest show

Bowie é um mundo e é difícil resumi-lo em algumas linhas, as músicas e as ilustrações só ajudam a navegarmos cada vez mais longe.

Ainda criança e com o pai que lhe mostrou a música como uma nave na qual podia viajar sempre que quisesse, Bowie começou a perder-se por entre sonoridades que já o começavam a delinear como o músico que viria a ser, no entanto, a convivência o irmão a sofrer de doença mental e numa cidade onde ainda se brincava entre escombros, desde logo quis fugir ao tédio e ao cinzentismo do quotidiano.


A entrada no mundo artístico e nos palcos teve influências variadas fruto das novidades que foram os anos 60 e 70, com ressonâncias tão diversas como Muddy Waters, Little Richard, Velvet Underground ou Leonard Cohen. 

Se o álbum «Space Odity» revela ao mundo o ser alienígena que procura revelações nos círculos mais eléctricos da ficção científica, as influências do budismo ou a voz de Cohen, pedem-lhe outras variações. Mas nada foi tão forte no início da sua discografia do que o amor versus o tédio do casamento e da fidelidade, junto com o lado esquizofrénico do seu irmão que por extensão o afectavam e o faziam questionar tudo e toda a "contaminação social e política" fruto dos tempos revoltosos e conturbados da época de 70.
As mudanças em direcção ao universo de Ziggy Stardust e o álbum «Hunky Dory» marcado pelo nascimento do primeiro filho, marcam de certeza a primeira década discográfica de Bowie, fechando-a com a "trilogia berlinense", onde o tom experimental, a cidade fragmentada, as margens da sociedade e a alucinação das drogas (e a amizade com Iggy Pop) estiveram presentes até «Ashes to Ashes», uma declaração de intenções para fechar um ciclo e entrar na década de 80 como numa nova era.


"They'll split you're pretty cranium and fill it full of air."

A entrada nos anos 80 foi marcada pelo divórcio, pelo reatar da relação com o filho e pela mítica e eterna "Let's Dance", no entanto e apesar de ter sido um êxito milionário, Bowie viu-se a ser criticado pelo lado mais pop comercial. Mas Bowie considerou-a uma plumagem diferente e tão necessária à constante transfiguração do artista. O início nos anos 80 também fica marcado pela parceria e amizade com Frddy Mercury e o hit «Under Pressure", que por disparidades contratuais com a editora RCA da qual Bowie se queria desatar, ficara para os Queen.

Estar na linha da frente da industria pop valeu-lhe criticas e o constante foçar na sua vida pessoal, no entanto isso não se atravessou no caminho criativo que nos valeu, a nós ouvintes e fãs, a eterna e maravilhosa "Absolute Beginners". Os anos 80 são também marcados pela tour «Glass Spider», uma monstruosa performance que de tão grandiosa se tornou exigente para o artista e os músicos que o acompanhavam, revelando o tédio e a solidão associada à fama, especialmente a pós a morte do irmão Terry ter morrida e a sua ausência no funeral ter despertado uma onde de indignação e críticas. 

A década de 90 arranca e fica marcada pelo casamento com Iman Mohamed Abdulmajid, a mulher que viria a acalmar "o alienígena isolado num planeta onde nunca se tinha encaixado", fase essa também marcada pela introspecção sobre a sua forma de criar e se: "Quanto da minha arte não passará de uma tentativa de entender a doença do meu irmão?" 



Antes do virar do século Bowie dedica-se também à pintura, ganhando algum destaque em 1995 aquando a sua primeira exposição individual. Este fim de século é marcado por outro facto muito importante, recupera direitos dos seus primeiros discos e dessa forma do seu antigo agente Tony Defries. Há ainda, todo um novo universo cheio de possibilidades e ofertas para explorar: a Internet!

Nos anos 2000 a sua discografia é marcada pela reflexão social, política, filosófica e pelo 11 de Setembro, num misto de plenitude que tem na  sua vida conjugal com Iman e a filha Zahara, no entanto, a doença cardíaca marca um fim antecipado em 2003 naquela que seria a sua última tournée. 
Em 2013 e após um silêncio complemente inusual para Bowie, espanta todos com o lançamento de «The next day» centrado nas suas inquietações, mas faltava ainda o disco da plenitude e de despedido: «Blackstar» 

We live closer to the earth
Never to the heavens
The stars are never far away
Stars are out tonight


Em suma, este livro só faz uma coisa: abrir ainda mais a curiosidade e a admiração por este homem alien camaleão único eterno e sempre, mas sempre "an absolute beginner"

*

 Fica uma possibilidade de playlist

domingo, 5 de abril de 2020

"O Meu Mapa de Ti"

Diz a letra de uma música que "A House is a not Home" porque quem faz um lar são as pessoas que o compõem, aqueles que nos preenchem os dias, aqueles que nos amam e por quem vivemos. Sim, nós também somos parte integrante do nosso próprio lar mas infelizmente há momentos na nossa vida em que essa noção sofre alterações, se perde ou se desvanece até não restar nada que faça sentido.

Para Holly Wright o seu lar era apenas uma casa alugada em Londres, onde vivia desde o momento em que se viu sozinha no mundo. Ao contrário da sinopse apresentada na contracapa do livro editado em Portugal pela Editorial Planeta, eu acho que a da versão em inglês me cativou muito mais para a leitura.


"Holly Wright teve alguns anos difíceis. Após a morte da mãe, Holly tornou-se numa especialista em manter as pessoas à distância - incluindo o seu namorado, Rupert. Mas quando Holly recebe uma carta inesperada que a informa que uma tia, que ela nunca conheceu, lhe deixou uma casa na ilha grega de Zakynthos, os muros que ela construiu começaram a desmoronar. Ao chegar à ilha, Holly conhece Aidan e lentamente começa a descobrir a verdade sobre o segredo que destruiu sua família. Será a ilha o lugar onde Holly realmente pertence? Ou será que a vida real lhe vai passar a perna?"
(tradução feita pela Elsa) :P

Sem revelar mais "spoilers" sobre a história acho que é preciso aquela informação relevante sobre o passado de Holly para compreender a sua vida em Londres, a sua relação com o Rupert e a reacção ao facto de ter herdado uma casa numa ilha grega com ar de paraíso (sim, vão googlar Zakhintos)
O primeiro pensamento de qualquer pessoa seria "OH MEU DEUS, OBRIGADA!" mesmo que no cantinho da vossa mente estivesse um "quem raio é esta tia e porque me deixa uma casa se nunca me viu".

Para Holly foi mais uma pedra a cair na superfície aparentemente estável do lago que se tornou a sua vida, pronta para criar ondas desnecessárias e trazer ao de cima o que quer que estivesse escondido no fundo.
A sua incapacidade de ser verdadeira consigo mesma e com o seu passado, acompanham-na naquela que poderia ser só uma viagem de férias à Grécia mas que se torna num enorme deja-vu e o principio de algo mais.
Podia dizer que "O meu mapa de ti" é um romance leve, daqueles que gostamos de ler estendidas ao sol num dia de verão mas a viagem de auto-descoberta de Holly, a exploração geografia e temporal dos segredos da família e o impacto que o passado e presente têm na personagem principal, são bem capazes de mexer convosco, assim como mexeram comigo. Acho que tenho andado demasiado afastada dos livros e das vidas dos personagens :P
  
Faz imenso tempo que não me sento para escrever uma opinião a um livro. Mais do que meses, talvez já tenha passado um ano.
As justificações são tantas que não saberia por onde começar e encontro na história de Holly uma semelhança. Existem paixões, passatempos ou talentos que temos que são um tremendo conforto e algo que gostamos imenso de fazer mas sem saber bem porquê, deixamo-los esquecidos numa mala debaixo da cama ou numa prateleira a ganhar pó.
E assim como Holly, também eu tenho de voltar a meter as mãos ao trabalho, não a escrever emails profissionais mas para deixar os meus dedos teclarem furiosamente enquanto o meu cérebro lhes envia sinais, por vezes a um ritmo avassalador, sem parar para pensar, em visão em túnel para não me distrair e assim deixar que tudo o que me vêm à cabeça passe efectivamente "para o papel".

"O meu mapa de ti" veio tirar-me do marasmo de leitura e embora ainda não esteja ao nível de entusiasmo, interesse e velocidade habituais, já me sinto muito mais a leitora que sempre consumiu linhas escritas em livros e despejou outras tantas em opiniões escritas quase imediatamente após fechar o livro e sorrir para a contracapa.

Os livros foram e serão sempre um bálsamo. E se este me fez parar e olhar para o tempo de chuva lá fora enquanto lia sobre o céu azul de Zakhintos e as suas maravilhosas vistas, é a sensação de liberdade de agarrar na mochila e meter-me no próximo voo para as ilhas gregas que mais me doí cá dentro nestes momentos incertos e enclausurados que vivemos neste momento. 
Que a realidade de acordar com vontade de viajar e não descansar enquanto não marco um bilhete de avião esteja a pouco tempo de distância, que a normalidade que tanto demos por garantida nos possa ser restituída em breve e que este tempo de isolamento, controlo e incerteza nos torne mais agradecidos, solidários e a conscientes.

E até lá, deixo-vos embalados com a Ella 


"O meu mapa até ti" é uma aposta


terça-feira, 17 de março de 2020

«A história de uma serva» de Margaret Atwood :: Novela gráfica - Opinião



"Vendo que não dava à luz filhos a Jacob, Raquel começou a ter inveja da irmã e disse a Jacob: «Dá-me filhos ou, então, morro!»

E Jacob irritou-se com Raquel e disse-lhe: «Julgas-me capaz de substituir Deus, que te recusou a fecundidade?»

Ela respondeu: «Aqui tens a minha serva Bila; vai ter com ela. Que ela dê à luz sobre os meus joelhos; assim, por ela, eu também terei filhos.»"  
                                                                                                                                       Génesis, 30:1-3

Esta passagem da Bíblia é um dos pilares fundadores da sociedade de Gileade, uma estrutura ditatorial, apoiada no fanatismo religioso e numa segregação sufocante e violenta para as mulheres. Atwood idealizou e montou o romance «A história de uma serva», um relato igualmente sufocante e que lemos com nó na garganta. 

"Se o que estou a contar é uma história, então tenho controlo sobre o final. Haverá então um final para a história, ao que se seguirá a vida a sério. Posso recomeçar onde fiquei.
O que eu estou a contar não é uma história. (...)
Contar, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, em todo o caso, escrever é proibido. Mas se é uma história, mesmo na minha cabeça, devo estar a contá-la a alguém. Há sempre mais alguém. (...) Querido Tu, diria eu. Apenas tu, sem um nome. Juntar um nome, junta-te ao mundo dos factos, que é mais arriscado (...) Tu pode até ser mais de uma pessoa.
Tu podem ser milhares."


Ler o romance escrito por Atwood e agora poder ver esta interpretação gráfica por Renée Nault permite dar outra dimensão às palavras já intensas da autora; as imagens captam muito bem a rigidez, a apreensão, o sufoco, a ameaça, o medo, mas também a vontade de fuga e resistência, a necessidade do toque, a constante denúncia e revolta; entre tantas outras coisas para as quais é difícil dar um só nome. 

Ver com atenção estas imagens, estáticas, tão diferente de ver o livro adaptado a série televisiva, acrescenta essa tal dimensão que refiro, podemos perder-nos dentro de muitas destas imagens tempos sem fim e ir ler e reler passagens que marcámos aquando da leitura deste diário, contado na cabeça da Serva June, não June, não, DeFred, já que não pode mais usar o seu próprio nome, ela já não é dela mesma, mas sim de um homem, de um líder, do Comandante.

"A noite é minha, um tempo meu, para fazer o que quiser, desde que em silêncio. Desde que não me mexa. Desde que fique deitada, imóvel. (...)
Estou deitada na cama, ainda a tremer. Se molharmos o rebordo de um copo e passarmos o dedo por ele, produz um som. É assim que me sinto: esse som do vidro. Sinto-me como a palavra estilhaçar
Quero estar com alguém."

A falta de contacto é em si uma forma de subjugação, as Servas nem no acto da Cerimónia devem ser tocadas pelo Comandante, ele apenas as deve possuir, a fim de depositar nelas a semente.

"Espero, lavada, penteada, alimentada, como um porco premiado. 
(...)
A cerimónia decorre conforme o habitual.
Deito-me de costas, completamente vestida com excepção da saudável roupa interior de algodão branco. (...)
Envolve-nos uma neblina de Lírio do Vale, um tanto fria, quase fresca. Não há calor neste quarto.
Acima de mim, (...) encontra-se Serena Joy, estendida. Tem as pernas abertas, eu estou deitada no meio delas, tenho a cabeça no estômago dela, a nuca em cima do seu osso púbico, ladeadas pelas coxas dela. Também ela está completamente vestida. 
Tenho os braços levantados; as mãos dela seguram as minhas. O que supostamente significa que somos uma só carne, um só ser. (...)
A minha saia vermelha está subida até à cintura, mas não mais do que isso. Abaixo dela, o Comandante fode. Aquilo que fode é a parte inferior do meu corpo. (...)
Serena Joy  aperta-me as mãos como se estivesse ela a ser fodida (...) e o Comandante fode, com a cadência de marcha regular dois-quatro, e assim continua como uma torneira a gotejar. (...)"

Poderia continuar com descrições, mas nada como pegarem na novela gráfica e irem descobrindo as imagens e lendo passagens correspondentes na narrativa. E melhor ainda, a Bertrand publicou recentemente «Os Testamentos» continuando assim a história de Gileade e a da Resistência. E é sobre isso mesmo este último excerto: a resistência, a esperança e o acreditar.

"Na penúria, uma pessoa é levada a acreditar em todo o tipo de coisas. Agora a credito na transmissão de pensamento, vibrações do éter, tretas dessas. Nunca tinha acreditado.
Também acredito que não o apanharam, ou que não o alcançaram, afinal de contas, que ele conseguiu chegar à outra margem (...) Imagino a roupa. É um conforto para mim vesti-lo com roupas quentes. Estabeleceu contacto com os outros, deve haver uma resistência , um Governo no exílio. Há-de haver lá alguém, a tratar das coisas. Acredito na resistência da mesma maneira que acredito que não pode haver luz sem sombra; ou melhor, não pode haver sombra a não ser que também haja luz. Tem de haver uma resistência, senão de onde é que vêm todos os criminosos, na televisão?"

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quarta-feira, 11 de março de 2020

«As aves não têm céu» de Ricardo Fonseca Mota :: Opinião



"Que salvação tem uma alma que persegue a vontade cega de esquecer?"

É com a cabeça cheia de perguntas e "o retrovisor vazio para sempre" que conhecemos Leto. Atormentado, não suportando encostar a cabeça na almofada, é um homem em pedaços, com as sobras num remoinho e que reinventa a vida apenas para poder continuar a sofrer.

Leto perdeu a filha e sente uma culpa maior que tudo, uma dor que não encontra semelhantes. A dor é uma verdade diferente para quem a sente. A mulher de quem se divorciou, os amigos os pais, os sogros, ninguém entende a dimensão do seu sofrimento e Leto fecha-se na densidade de um sofrimento muito próprio e que o faz vaguear sem sentido.

"É censurável o facto de não sabermos morrer. Andamos a morrer há milhares de anos e ainda não sabemos como se faz. Seja castigo, prémio ou escárnio, ainda morremos de forma muito atabalhoada."

O estado de espírito de Leto é uma personagem só por si, a sua dor é tanta que se espalha por tudo à sua volta: "A atmosfera tensa da cidade torna-se ainda mais inútil quando não há ninguém que a pise."
A constante "repulsa pelo movimento" pauta os dias deste homem que já não espera nada da vida.  Movimento é andar para a frente, é avançar e esquecer, mas Leto não quer esquecer. Ele é o homem gaveta, um mistério que encerra palavras que ninguém entende, lamentos que os outros não ouvem.

"O que cada um faz com o vento serve para fugir à escuridão, (...). Descobri depois que acontece o mesmo com as palavras."

Palavras essas, ditas em surdina que ainda o surpreendem com verdades que lhe mostram a sua lucidez com que olha ao mundo: "desconhecia haver vitória no falhanço."

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Neste "As aves não têm céu" faz-se um retrato duro e cru de um homem despedaçado que “não espera nada das pessoas, senão presença, ruído e desprezo” e que vive num estado de espírito de permanente desilusão com a vida: “Se eu der um tiro na cabeça será que ouço o barulho da arma a cair no chão?”

São nestas dúvidas que vai marinando a vida sem préstimo de Leto que num “dia de céu balsâmico” perdeu a filha e culpa-se como talvez todos os pais se culpam da morte de um filho. É esmiuçando no sofrimento, no luto e no remoer de episódios do passado que a vida deste homem surge tão fragmentada como a sua mente. Só a culpa não é fragmentada, essa sim está compacta, inteira, insuportável!

Há só um detalhe que para mim fez mossa, foi a desconexão da narrativa, compreendo-a e acho-a uma metáfora brilhante para o estado de espírito do personagem, no entanto, não é a estrutura que mais aprecie para seguir numa leitura, ainda assim acho um resultado extremamente positivo.

segunda-feira, 2 de março de 2020

«A noite em que o verão acabou», um thriller de João Tordo - Opinião

João Tordo traz-nos, ao fim de mais de uma dezena de livros, um bastante diferente da maioria dos que já escreveu. E expõe desde cedo que todos os thrillers, e crimes, se alimentam de três motivos: sexo, ambição e inveja. No entanto, há também um traço comum aos livros do autor: “A fragilidade exposta das nossas certezas” ou os fracassos adolescentes e a sua aura de irrealidade; juntamente com uma frase, que para quem leu quase todos os outros livros do outro, descreve muito bem traços das suas personagens e estabelece um fio que une todas as narrativas de Tordo:
                                                                           "O medo é um capricho dos nervosos."


Dividido entre várias décadas, a narrativa desperta no Verão de 1987, um verão húmido e desgastante, quando Pedro Taborda descobre mais do que os calores algarvios. Ele descobre as curvas e os modos atrevidos de Laura Walsh, a filha do magnata americano, Noah Walsh; mas conhece também Levi, uma criança misteriosa e meio desconexa que, um ano mais tarde, é a principal suspeita de ter assassinado o pai, de forma terrível e mesmo ao jeito de um bom escândalo como os americanos gostam de explorar. Especialmente os jornalistas, ainda mais por ter ocorrido na pequena vila veraneante de Chatlam, onde os Walsh são tão alvo de adoração como de ódios antigos.

Tordo caracteriza muito bem os Taborda, especialmente quando cruza os seus portuguesismos exagerados com os maneirismos dos Walsh, mas mais do que isso, o que atravessa todo o romance é a inquietação de Pedro por Laura e o mistério em torno da resolução apressada que é dada à morte do magnata.

O romance explora ainda o fascínio de Pedro pela escrita e pelos romances policiais, mas a literatura assume outro papel quando, em Nova Iorque, o protagonista priva com Gary List, o autor de culto que venera e quer para seu mentor. Aqui a narrativa assume outros contornos, voltando às frustrações dos autores, os sucessivos bloqueios, a busca pelo reconhecimento, o isolamento forçado, a solidão final e toda a ironia escondida nos livros. Digamos que um Tordo mais ao jeito que o conhecemos em outros livros.

Pelo enredo, de nada ser o que parece e pelos saltos temporais, mas também pelo desejo de Taborda ser escritor e privar com Gary List – o seu escritor favorito e mentor – fez-me muitas vezes lembrar «A verdade sobre o caso Harry Quebert», e o vilarejo recheado de segredos antigos juntamente com as duas irmãs recordou-me a recente adaptação de “Objectos cortantes” pela mão da HBO.
Faltou-me descobrir qual o autor que List representa para poder ir descobrir livros novos.

«A primeira pessoa» de Ali Smith - Opinião




Confesso que não consigo ficar fã de Ali Smith. Li há muito anos «Hotel Mundo» e lembro de ter gostado, porém não me recordo de nada. Será que gostei assim muito? Já mais breve tentei «Outono», não consegui passar das primeiras vinte ou trinta páginas. Há uma certa alegoria e transcendência que não me cativa nem faz avançar. Estranhando tudo a tal ponto, que nada faz sentido.

No entanto, neste livro de contos «A primeira pessoa» dei por mim a ler dois ou três deles com uma sensação enorme de curiosidade e até sofreguidão, com vontade de perceber a estranheza que envolvia tanto a discussão de duas mulheres à volta dos contos, bem como o delírio de uma outra mulher que se envolve num rapto esquisito e forçado de um bebé alheio.

Ambos os contos são completamente desconexos entre si e qualquer tentativa de ligação é ainda mais difícil do que a de encontrar um sentido em cada conto per si. Ainda assim, a forma como os contos estão organizados: primeira, segunda e terceira pessoa; dão a supor alguma interligação ou intertextualidade. Existindo, eu não a encontrei, a não ser a desconexão e o caos que senti ao lê-los.

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«O verdadeiro conto» em “A primeira pessoa” de Ali Smith

“Cynthia Ozick dizia que a diferença entre o conto e o romance está em que um romance é um livro em cuja viagem, se for um romance bem trabalhado, o leitor se modifica, enquanto um conto é mais como o presente talismânico oferecido ao protagonista de um conto de fadas – algo de completo, poderoso, cujo poder pode não ser ainda bem compreendido mas que pode andar nas nossas mãos ou dentro de um bolso e acompanhar-nos por uma floresta ao longo do caminho da vida.”

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Não importa nada, mas faria muita diferença. A capa da tradução brasileira, talvez prepare mais o leitor para a estranheza que encerram as páginas da narrativa de Smith.