terça-feira, 29 de julho de 2025

TEORIA KING KONG de Virginie Despentes :: Opinião


“Se a mulher apenas existisse, de facto, na ficção escrita pelos homens, surgiria na imaginação como um ser da máxima importância; muito versátil; heróica e mesquinha; maravilhosa e sórdida; infinitamente bela e terrivelmente medonha; tão importante como um homem e segundo alguns ainda mais. Contudo, está é a mulher como aparece na ficção. A verdade é que, tal como o professor Trevelyan acentua, a mulher era fechada à chave, espancada e torturada.”

VIRGINIA WOOLF, Um quarto que seja seu

Não obstante a qualidade da escrita de Virginie Despentes, faz todo o sentido destacar as palavras de Virginia Woolf, já que esta dualidade percorre toda a Teoria King Kong: é bonita e guerreira a mulher da ficção, mas quando a realidade bate à porta e essa mulher é feia, abrutalhada, gosta de sexo e não tem vergonha de o dizer, tem opiniões, fala alto e esbraceja, trabalha e paga as suas contas e ainda se afirma mulher, filha, mãe, amiga e caga d’alto nas palavras dos outros, que a definem como louca, destravada, malfodida, machona ou histérica… Pois é, o enredo já é outro, não se sabe se a beleza justifica e o perfil guerreiro é remetido para o da mulher-ficção. Mas essa não existe, todas as outras existem, sempre existiram e vão continuar a existir. E algumas falam ainda mais alto e escrevem coisas como Despentes escreveu. Escreve!

“Nós somos do sexo do medo, da humilhação, o sexo alheio. É sobre essa exclusão do nosso corpo que se constroem as virilidades; é nesses momentos que se tece a sua famosa solidariedade masculina. Um pacto que assenta na nossa inferioridade. (…) A prova é que, se realmente não quiséssemos ser violadas, teríamos preferido morrer, ou teríamos conseguido matá-los. Aquelas a quem isso acontece, do ponto de vista dos agressores – eles lá se arranjam, de uma maneira ou de outra, para acreditar nisso -, desde que escapem com vida é porque o ocorrido não lhes desagradou assim tanto.”

O corpo, a sexualidade, a violação e a pornografia são mais que temas neste Teoria King Kong, são pilares-base para olharmos a sociedade. São pontos de vista acutilantes e com as arestas bem afiadas, deixando hipocrisias e subterfúgios de lado. A análise de Despentes vai da literatura à política, da 7ª arte à imigração, da subordinação económica e social à segregação da prostituição, do consumismo à religião, do manifesto feminista à maternidade, família e religião até à morte da fada do lar.

“É esta a condição feminina, a sua cartilha. Sempre culpadas do que nos fazem. Seres considerados responsáveis pelo desejo que suscitam. A violação é um programa político preciso: esqueleto do capitalismo, é a representação crua e directa do exercício do poder. Designa um dominante e organiza as leis do jogo de modo a permitir-lhe exercer o seu poder sem restrições. Roubar, arrancar, extorquir, impor, que a sua vontade se cumpra sem entraves e que ele desfrute da sua brutalidade, sem que a parte adversa possa manifestar resistência. Desfrute da anulação do outro, da sua palavra, da sua vontade, da sua integridade. A violação é a guerra civil, a organização política pela qual um sexo declara ao outro: assumo todos os direitos sobre ti, obrigo-te a sentires-te inferior, culpada, aviltada.

A violação é apanágio do homem. A única coisa de que as mulheres nunca – até agora –se apropriaram não foi da guerra, da caça, do desejo cru, da violência nem da barbárie, mas da violação. A mística masculina deve ser construída como intrinsecamente perigosa (…) A violação, o acto condenado de que não se deve falar, sintetiza um conjunto de crenças fundamentais envolvendo a virilidade.”

Despentes não tem medo das palavras e vai mais longe: violação, virilidade, poder, sedução, economia, pornografia, mediatismo e poder político, tudo se une pela mesma cola, a da hipocrisia.

“A parte promocional do meu ofício de escritora mediatizada sempre me impressionou pelas suas semelhanças com o acto da prostituição. Salvo quando dizermos, «sou puta», termos todos os salvadores do nosso lado, enquanto se dissermos «apareço na televisão» termos os invejosos contra nós. Mas o sentimento de não pertencermos completamente a nós próprios, de vendermos o que é íntimo, de mostrar o que é privado, é exactamente o mesmo.”

“A pornografia é o sexo encenado, cerimonial. Ora, por um truque de prestidigitação conceptual que continua a ser obscuro, o que é bom para alguns, a que aqui chamamos de libertinagem, constituiria para as massas um perigo de que era absolutamente necessário protegê-las.”

Podemos não concordar ou achar exagerado, podemos nem nunca ter olhado aquilo com aqueles olhos, podemos ficar chocados, mas dificilmente ficamos indiferentes ao que aqui é exposto. E o que Virginie faz é isso, ela expões, mais do que só escrever algo. Ela escolhe as palavras certas e o momento adequado para dizer o que diz, por isso mesmo expõe e denuncia, fazendo-nos pensar e repensar conclusões deslocadas.

“Para um homem, não gostar das mulheres é uma atitude. Para uma mulher, não gostar dos homens é uma patologia. (…) Veja-se as reacções quando dizemos alguma coisa (…) todos os golpes são permitidos, a começar pelos mais baixos- Nem sequer somos estrangeiras, mas estamos sempre a ser legendadas porque não sabemos o que temos para dizer. Ou pelo menos não tão bem como os machos dominantes…

Tão interessante quanto esta narrativa, suas ideias e contradições, é ver como a autora aplica isso no âmbito do romance com a trilogia de Vernon Subutex; habilmente construída com inúmeras personagens, capazes de dar voz a muitas destas preocupações king kongíanas 😉 sem esquecer a radiografia social e política com a banda sonora a marcar o friso cronológico.

A ler: Gail Pheterson; O pavilhão das crianças loucas de Valerie Valére; Camille Paglia e Josée Dayan


sexta-feira, 25 de julho de 2025

«Como amar uma filha» de Hila Blum - Opinião

Hila Blum propõe, em «Como amar uma filha», um romance que mais do que procurar respostas, se dedica a escavar silêncios. A premissa parece simples: uma mãe observa a filha à distância, espreitando-a pela janela de uma casa holandesa, anos depois de terem cortado relações. De a filha, deliberadamente, ter cortado relações com a mãe. No entanto, a execução é densa, fragmentada e inquietante. O que mais sobressai é a forma como a autora disseca o afeto, com repetição, apoiando-se numa estrutura narrativa que desafia o friso cronológico.

"(...) Mediante as fotografias, as famílias constroem a sua crónica em imagens - um álbum portátil que dá testemunho da sua coesão. E depois, sempre que fotografava a Leah, a casa hábil clique da máquina, tinha a impressão de estar a escolher uma versão da realidade entre muitas. Levei anos a livrar-me dessa sensação."

Esta linha temporal frágil e muitas vezes desconcertante, reforça o estado mental de Yoella Linden, a narradora, a mãe, cuja memória é demasiado precisa e obsessiva, parece impor uma versão da realidade entre muitas, tornando a leitura mais claustrofóbica do que envolvente. Não se entende se disseca as memórias para reconstruir e entender o que correu mal ou se apenas para manter vivo todo o seu empenho maternal, como quem põe o nome nas coisas para reivindicá-las. 

terça-feira, 24 de junho de 2025

«Boulder» de Eva Baltasar :: Opinião





A força sísmica da escrita de Eva Baltasar em pouco mais de 120 páginas.

“Tinha vivido agarrada a uma certeza impalpável, protegida por três ou quatro coisas indispensáveis que me diferenciavam de uma marginal, de uma excluída. Precisava de enfrentar o vazio, sonhei-o ao ponto de fazer dele um mastro, o centro do meu equilíbrio onde me seguro, quando a vida se desmorona à minha volta. Vinha do nada, envenenada, e ansiava por terras uivantes.” 
«Boulder», de Eva Baltasar (segunda parte de uma trilogia iniciada com Permafrost) é a confirmação da maturidade literária da autora catalã que rapidamente tem conquistado leitores dentro e fora de Espanha, muito pela força sísmica da sua escrita. Nesta narrativa breve, mas intensa, acompanhamos a protagonista, metaforicamente apelidada de Boulder, num percurso emocional conturbado de desejo, amor e maternidade entre a fragmentação e a manutenção da sua identidade.
“Fumo mais do que nunca, mas fumar sozinha na noite é uma maneira de alimentar o feitiço, convoca o corpo desejado e fá-lo entrar pouco a pouco, até chegar às reservas de ar, até atingir a lembrança mais querida presa na caixa estanque do peito (…) Já nem fodemos. A Samsa não tem sexo, tem um estaleiro obstruído por um único (…) Um filtro finíssimo fecha-lhe a boca do desejo. Dela, nada resta, foi transformada.”
Sem dúvida que o desejo é vibrante, e mesmo quando o desejo fica latente e surge a tensão, essa latência é sempre sentida na linguagem, aliás, a linguagem é o ponto mais forte deste livro. Diria até que o maior magnetismo é conseguido pela forma como a narradora sente e domina as palavras. Pensa-as.

“A língua é, e será sempre, um território ocupado. (…) Só a língua pode fazer-nos pertencer a um lugar, para não nos perdermos. É um substrato que alimenta. (…) Encoraja-nos e adoece-nos, desorienta o nosso instinto animal, torna-nos humanos. (…) Mas também pode ser a mais tirânica. Somos responsáveis por cada palavra, não há expressões inocentes."

Aliás, é precisamente na linguagem que Boulder encontra a sua complexidade.

domingo, 15 de junho de 2025

«A Subtração» de Alia Trabucco Zerán - Opinião

 "Recordar é a nossa forma de luto" (Herta Mülller)

As palavras não são de Trabucco nem das personagens dest'A Subtração, que como o próprio título indica, tira mais do que acrescenta, porque eles habituaram-se a calar, a desconfiar, a temer, a sofrer. Hoje, querem recordar, exorcizar e superar. Eles querem paz no silêncio que há muito caiu sobre as suas cabeças. Mas o silêncio é em si mesmo um luto e existem lutos que se infiltram na linguagem, marcam o tempo e o espaço colectivo e corroem de forma palpável até o vazio, as ausências, os fantasmas. Corroem a palavra e eles, nós, todos nós, precisamos da palavra para sarar. Da palavra dita. De cada palavra ouvida.

"E eu, mais uma vez, deixei de ouvir, tentando fugir ao peso daquelas frases, convencida de que, como quando era criança, cada pessoa não vivia uma série de anos, mas sim um número predefinido de palavras que conseguia ouvir durante a vida (...)"

domingo, 11 de maio de 2025

(voltar a) «Como um romance» de Daniel Pennac

"O verbo ler não suporta o imperativo. 
É uma aversão que compartilha com outros: o verbo «amar»... o verbo «sonhar»... 
É evidente que se pode sempre tentar. Vejamos: «Ama-me!» «Sonha!» «Lê!» «Lê, já te disse, ordeno-te que leias!»
- Vai para o teu quarto e lê!
Resultado?
Nada.
Ele adormeceu em cima de um livro."


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(pelo) Direito de adormecer com um livro

E se o leitor adormecer não tem mal. «Como um romance» de Daniel Pennac é um óptimo romance para se ter na mesinha de cabeceira. É um excelente companheiro, nada reclamador, mesmo que numa amizade longínqua, em que apenas lhe prestemos uma visita uma vez por década. A última leitura havia sido em 2010 e há pouco tempo apeteceu-me abri-lo, reencontrar algumas ideias sublinhadas e prestar-lhe a devida homenagem: relê-lo 😍 "A repetição é tranquilidade. É uma prova de intimidade (...) Reler não é repetir, é renovar constantemente um infatigável amor."


Ler mais direitos 😍

quinta-feira, 20 de março de 2025

“Voltar do Bosque” de Maddalena Vaglio Tanet :: Opinião

Recomendado por Paolo Cognetti — com quem já subi oito montanhas e me deixei deslumbrar pelo entorpecimento contemplativo da alta montanha — cheguei a «Voltar do Bosque», sobre o qual ele disse “que existe qualquer coisa no ser humano que não consegue renunciar à sua ligação profunda com a terra.” E é verdade, concordo plenamente com isso e Tanet também, porque o silêncio húmido da culpa de Sílvia, cresce, fragmenta-se e dissolve-se na contemplação, no refúgio e na expulsão que o bosque lhe dá.

«Voltar do Bosque» (Dom Quixote, 2024) é o romance de estreia de Maddalena Vaglio Tanet, nomeado para o Prémio Strega em 2023 e inspirado num caso real que aconteceu na sua família, o livro desenrola-se numa aldeia piemontesa em 1970, e começa quando Silvia, professora de uma escola primária, desaparece no bosque após o suicídio de uma aluna. 

Essa fuga, gesto silencioso e trágico, é impulsionada por uma culpa que ela julga não encontrar eco ou expiação possível dentro das paredes da sua comunidade. Então, será Martino — uma personagem asmaticamente frágil – um rapazinho recém-chegada à aldeia e talvez a única alma dissonante ali — quem a encontrará, dias depois, faminta, enlameada, e em choque.

A culpa de Silvia, que irradia angústia desde as primeiras páginas, é também a culpa de uma aldeia inteira que prefere calar. A Natureza não é palco; é presença viva. Ao mesmo tempo que acolhe, dilui. Fragmenta. Serve de refúgio à protagonista, mas não a reconstrói. Apenas absorve a sua dor.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

"Os Dias Contados" , de João Tordo :: Opinião

Em "Os Dias Contados", João Tordo transporta-nos para fevereiro de 2013, onde um acidente na Serra Nevada desencadeia uma série de eventos que culminam no primeiro grande caso da subcomissária Pilar Benamor. Este thriller mergulha-nos na personificação do mal, mas não esquece as crises familiares e existenciais de cada personagem, com um toque de humor muito peculiar, especialmente na dupla pai e filho que foram as partes que mais me conquistaram.


Por outro lado, quando peguei no livro achava que ia ler sobre um novo caso de Pilar Benamor, completando assim a trilogia, mas vê-se logo que não fui pesquisar sobre o livro e o processo de escrita, caso contrário teria percebido que um acidente pessoal fez nascer a personagem de Flores Baltazar que com os (seus) dias contados virou o livro numa prequela 😉 e em muito boa hora.

"Ela estacou. À luz do candeeiro de rua, naquele princípio de noite fria, vi uma mulher diferente daquela com quem me casara - alguém que, por via da relação com um homem como eu, se havia tornado, ela própria, uma dependente. Alguém que existia em função de apagar os fogos que eu ateava - vezes e vezes sem conta, repetidamente -, devido à minha personalidade ou às características mais empedernidas do meu carácter, que eu gostava de apelidar de criativo. Eu intuía que esse tempo estava a chegar ao fim; só não sabia ainda como.”

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

«Irmã Marginal» de Audre Lorde :: Opinião


Ler Irmã Marginal é entrar num território vivo e urgente, onde cada palavra é escolhida com a responsabilidade de quem sabe que o silêncio mata. A obra de Audre Lorde, aqui traduzida com enorme cuidado e sentido político por Gisela Casimiro, não se limita a somar ensaios; constrói uma constelação de ideias, feridas, revoltas e possibilidades que apontam para um horizonte comum: todas temos voz, e essa voz merece ser ouvida, em toda a sua complexidade.

“E quando as palavras das mulheres imploram por ser ouvidas, cada uma de nós deve reconhecer a nossa responsabilidade de procurarmos essas palavras, de as ler, partilhar e estudar a sua pertinência nas nossas vidas. Que não nos escondamos atrás da farsa das separações que nos foram impostas e tantas vezes aceitamos como nossas.”

Neste livro-colosso entramos livres de intimidações, cada texto é um convite de portas abertas à reflexão; feito de palavras que acolhem e desafiam à acção. O que nele encontramos não é um discurso hermético, mas um mapa de resistências e afetos onde o feminismo negro, a poesia, a maternidade, o erotismo e a pedagogia se cruzam como vias fundamentais para a sobrevivência e a mudança. E é ainda mais, porque é transversal a todas as mulheres e as suas lutas.

“A autoconexão partilhada é uma bitola da alegria que sei ser capaz de sentir, lembra-me a minha capacidade de sentir. Essa emoção profunda e insubstituível da minha capacidade de sentir alegria pede-me à vida que a viva sabendo que tal satisfação é possível e não temos de lhe chamar nem «casamento», nem «deus», nem «além».”

Em textos como "A poesia não é um luxo", Lorde devolve à escrita poética o seu lugar como forma de pensamento e de transformação. A poesia, diz-nos, é a expressão destilada da experiência. Mais do que ornamento, ela é ferramenta para imaginar novos modos de viver. Este é o primeiro gesto de empoderamento: resgatar a linguagem como campo de acção.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

«O nome que a cidade esqueceu» de João Tordo – Opinião

“Para quem isto que escrevo, então?
Resposta: Para ti, mas não para ti:
para mim; para ti em mim.”
J. M. COETZEE, A Idade do Ferro

Pelas palavras de Coetzee entramos na vida de Natacha e George B. e desde cedo sabemos que muito dos outros ficou dentro deles. Em parte, um muito que ficou por resolver e com quem fazer as pazes.

Embora as circunstâncias sejam muito distintas, fruto daquilo que não se controla; ambos estão exilados, não obstante serem livres. As suas acções estão presas ao passado, ao medo, à solidão, mas essencialmente ao medo de ter medo, de se magoarem ainda mais, de não saberem com quem contar.

Assim, o livro divide-se porque os dois caminharão em sentidos opostos, George B. não vai superar o seu isolamento, mas Natacha vai florir e abrir-se ao mundo e às pessoas. No meio, conheceremos as histórias de cada um deles e de quem ou o quê, os moldou a serem satélites. E pensamos...

De quantos satélites se compõe a nossa história? Quantos orbitam perdidos no espaço escuro e imenso que são as memórias e o passado? Quantos se tornam lixo espacial? Ou especial?
E o que é que os satélites têm a ver com a história? Muito! Os satélites e o espaço. O vazio!

domingo, 11 de agosto de 2024

Amy e Isabelle - Opinião - Opinião

“A vida, delicada como um tecido, podia ser rasgada pelos golpes caprichosos de um momento aleatório e egoísta.”

E a frase não podia ser mais verdadeira e transversal à história das mulheres que encontramos nos livros de Strout e mesmo este sendo o seu primeiro romance já se sente a provocação e o confronto geracional, especialmente no feminino e que povoará a relação mãe-filha em Barton ou até mesmo a forte e acutilante Kitteridge.

Em «Amy e Isabelle» uma insegurança disfarçada e uma certa indiferença, caracterizam filha e mãe, respectivamente e a conturbada relação entre ambas que de forma tentacular ultrapassa as fronteiras do doméstico, seja por estarem integradas numa comunidade próxima, seja porque a dada altura trabalham juntas. Ainda assim, a hostilidade aumenta entre as duas, depois do ambiente ficar envolto em mistério e segredos, transformando a atitude de cada uma, embora o início da idade adulta faça mais estragos que qualquer outro evento.

“O verdadeiro problema, claro, era que ela e a mãe passavam o dia todo juntas. Amy tinha a sensação de que as ligava uma linha negra, uma linha não maior do que um risco feito a lápis, talvez, mas, ainda assim, uma linha omnipresente.”

E essa linha nunca se apaga em todo o livro, tal como uma outra que une as mulheres do escritório, reforçando que quando é preciso são aliadas umas das outras, mostrando uma análise muito interessante por parte de Strout sobre os ambientes por onde o mulherio prolifera.

terça-feira, 16 de julho de 2024

«Acolher» de Claire Keegan - Opinião



"Acolher” de Claire Keegan lê-se enquanto se saboreia uma chávena de chá e confirma o que mais se ouve sobre as narrativas da autora: concisão e capacidade de sugestão. Cada linha mantêm a fina barreia entre o que é dito e o que por nós leitores é adivinhado.

Keegan narra o abandono de uma criança às mãos de uma família que não é a sua, mas que será a que tem meios para a sustentar e educar, enquanto se tecem sentimentos de forma subtil, lidos nas entrelinhas pelos desejos dos leitores de que aquela entrega corra bem.
A aceitação e o acompanhamento permitem à menina superar o medo do desconhecido e reconhecer aquela casa como sua. Mais até que a de origem, é certo. E embora o abandono seja o motor desta história, a forma como cada frase se torna leve, traz esperança e transforma um enredo que tinha tudo para estar ensombrado, numa história que enternece pelo poder do não-dito.

Ainda assim, não será pelo estilo de escrita que regressarei à obra da autora, falta-me pano de fundo, pontos de viragem, momentos de tensão, alimentados por descrições que me transportem para a acção. A economia de meios tão salientada em Keegan não me permitiu sequer ter tempo para temer pelos personagens.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

«Estela sem deus» de Jeferson Tenório :: Opinião


"Escutei e concordei com tudo. Não estava disposta a discutir nada com ele. Porque eu estava me aproximando do lado esquerdo do meu coração, então era preciso calar, calar até que o momento exato surgisse, até que meu grito pudesse sair puro e vulcânico, livre das amarras. Livre do peso dos homens.”
É curioso voltar a uma leitura através das frases a que se dá destaque, juntamente com um regresso ao livro anterior por aquilo que se escreveu, e ver as semelhanças que não foram sentidas aquando da leitura, no entanto, não é possível ignorá-las. A procura por um pai e a aspereza das relações entre as pessoas, juntamente com a racialização, a fé, a família, a educação (e os livros!) e o abandono, deixam feridas abertas em cada personagem e ESTELA não é excepção.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

«Sono» de Nick Littlehales :: Opinião

Ler «Sono» de Nick Littlehales é aprender que dormir 8h é um mito e só contribuí para a nossa ansiedade e é ficar desperto para termos como power nap, jetlag social, lâmpadas solares, dietas de luz, colchões e roupa de cama equivalente a nuvens, equilíbrio digital, a abordagem R90 e a controversa técnica de mouth taping.

"Ir para a cama quando não estamos cansados ou preparados para o fazer apenas causará problemas, e sentirmo-nos tensos por causa disso a meio da noite não nos ajudará a voltar a adormecer. Assim que começa a preocupação, libertam-se as hormonas do stress, como a adrenalina e o cortisol, e ficamos ainda mais alerta."

Mantendo essa ideia como a principal, já que o mito das 8h de sono é um "tamanho único" que claramente não serve a todos e juntando a organização do sono e do dia em períodos de 90m (Abordagem R90), sem esquecer que precisa tanto combater o jetlag social como reduzir o excesso de cafeína = «ser uma sombra nervosa de si próprio e claro» – e reduzir o nº de horas de uso de equipamentos, essencialmente o pc/tablet e o telemóvel.

Manter esta dieta de aparelhos e apimentar a vida com mais caminhadas, desporto em geral, música que estimule as ondas delta (para de noite) e as ondas beta (de dia!) e estipular períodos de 90m para organizar o dia-a-dia será o essencial para melhorar e reprogramar o cérebro para tempos de sono de qualidade.


Na Abordagem R90 há princípios básicos:
- acordar pelo menos 90m antes da hora de estar apto para o trabalho ou no trabalho;
- é importante manter sempre horário de acordar, mesmo quando não precisa, para não dar informações erradas ao organismo;
- organizar ciclos de 90m para estruturar o seu dia, seja com actividades, períodos de sono, de lazer;
- reduzir ou anular dispositivos antes de dormir (dieta de luz)

domingo, 7 de julho de 2024

«Terrinhas» de Catarina Gomes - Opinião

“Quer queira quer não, nas minhas memórias mais antigas parece que descubro batatas. Sempre me foram íntimas. Na casa onde eu cresci dava a impressão de que até tinham direitos”.

É entre batatas, memórias, medos e sacrifícios, e segredos, que a vida de Cláudia se estruturou. Uma vida que a partir de certa idade repele a terrinha e as perguntas que ficaram por fazer. As heranças e as coisas das quais se sabe pouco, como sempre soube pouco sobre batatas. Esse enigma, essa obsessão… onde residia o segredo que tornava as batatas da terrinha melhores que quaisquer outras?

“Durante meses a fio comprei batatas nos mais variados sítios, de mercearias a minimercados, supermercados e hipermercados. Só precisava de uma de cada vez. (…)
Pegava na batata solitária recém-comprada, numa das sobreviventes, e cozia-as às duas. Não lhes saboreava diferenças. E isso provocava em mim emoções diversas. A ausência do sabor distintivo fazia-me sentir cada vez mais próxima do dia em que as conseguiria mandar a todas embora, da libertação. Ao mesmo tempo, entristecia-me a ideia de que, ao que tudo indicava, as batatas que restaram não tinham nada de especial, que afinal eram iguais às que se podiam comprar em qualquer loja de esquina por tuta-e-meia.
Por medo de ver essa constatação a aproximar-se, persisti. Uma vez, estava a dar na televisão um programa sobre vinhos. Resolvi imitar o que vi os enólogos fazer: deixava os pedaços de batata tardarem-se-me longamente no palato, até se desfazerem.”

segunda-feira, 17 de junho de 2024

"O segredo dos teus olhos" de Eduardo Sacheri :: Opinião

“O segredo dos seus olhos”, aclamado primeiro romance de Eduardo Sacheri, foi adaptado ao cinema por Juan José Campanella, arrecadando diversos Prémios, entre eles, o Óscar de Melhor Filme Internacional (2010) e um Goya e ainda em 2016 foi inserido na lista dos 100 Melhores Filmes do Século XXI pela BBC. As ovações não são em vão, tanto livro como filme são dois objectos de culto distintos e amplamente intensos.

“Muitas vezes me surpreendeu notar no meu espírito certa alegria culpada perante os horrores alheios, como se a circunstância de sucederem coisas pavorosas aos outros fosse um modo de afastar da minha vida tais tragédias. Uma espécie de salvo-conduto.”

Benjamín Chaparro era o dono desse salvo-conduto, no entanto, um homicídio de uma bela mulher e o coração dilacerado do marido porão chaparro numa luta obstinada por descobrir o culpado, como se esse crime lhe desse “a oportunidade de ver reflectidos, nessa vida destroçada pela dor e pela tragédia, os fantasmas dos meus próprios medos.” 

domingo, 16 de junho de 2024

«O Samaritano» de Mason Cross - Opinião

Mason Cross tem publicada em Portugal a trilogia dedicada a Carter Blake, um operacional que satisfaz os pedidos do FBI quando é preciso encontrar quem não quer ser encontrado. A história que acompanha o percurso deste asset não é desconhecida das séries do grande público ou dos enredos típicos dos page turners habitualmente viciantes e frenéticos. E embora se perceba que mais tarde ou mais cedo, Blake saberá demais e tornar-se-á ele mesmo um alvo, a história não desilude, antes pelo contrário, é a perspectiva e os conhecimentos do próprio Blake que aceleram o ritmo da acção. 

Em «O Samaritano» a acção centra-se num homem que supostamente ajuda mulheres cujos carros avariam à beira da estrada. Mas será que avariam mesmo? Será ele uma ajuda?

Claro que não! No entanto, não é nada a que os detetives Allen e Mazzucco não estejam habituados: as mulheres são os alvos principais de determinado tipo de crime e o nível de violência tem escalado nos últimos, mas os corpos que agora são encontrados têm uma mutilação caraterística, um corte que é uma assinatura. 

No rasto dessa assinatura surge Blake, que desconfia de um outro profissional que ele conheceu bem.

“- É um local ótimo para se largar corpos e não se trata do trabalho de um novato. Até um recruta o perceberia imediatamente, (…).

Era verdade. Tudo o que haviam visto até ali apontava para que o corpo fosse a última vítima de uma série, e não um crime isolado. As feridas da tortura mostravam paciência, deliberação, confiança. Comedimento, até, se isso não fosse uma contradição. Tivera o cuidado de manter a jovem viva durante algum tempo. O golpe mortal fora desferido com determinação absoluta, à primeira tentativa. Várias pessoas tinham comentado o profissionalismo da sepultura. A sorte fora a única razão para o corpo ser descoberto. Tudo somado, apontava para a obra de um assassino experimentado. Mas não era a verdade completa. A verdade completa necessitava de mais reflexão antes que ela a revelasse a alguém, incluindo o homem em quem mais confiava no departamento. Sabia apenas que haveria mais corpos.”

Skills, calculismo, paciência e anos de treino, confiança e premeditação, anonimato, liberdade e impulsos homicidas tudo combinado com sorte, muita sorte a favor de um assassino que opera como um fantasma, até que um aluimento de terras o deserdou da sorte que lhe tem permitido correr o país a matar e a ocultar corpos. Crozier tem a preparação certa para continuar a sua obra: “Sem um corpo é impossível decidir conclusivamente que um desaparecimento é o resultado de um crime”, mas o facto de Blake conhecer o seu traço (o serrilhado da sua faca de mato) vem atalhar os planos de Crozier e bem sabemos que quando a pressão aumenta, os erros surgem.

E quando o caos se instala, todos são suspeitos e Blake não passa de consultor que oferece os seus serviços a troco de nada. E todos sabem que não há almoços de borla. Especialmente os detetives.


sexta-feira, 7 de junho de 2024

«O que é o quê, a história de Valentino Achak Deng» de David Eggers - Opinião


"(...) o mundo que conheci não é muito diferente do retratado nestas páginas. (...) sabíamos que as nossas histórias tinham de ser bem contadas (...) nenhuma privação ou perda era insignificante."

As palavas são do próprio Achak Deng sobre a forma que David Eggers encontrou para biografar grande parte da vida deste «lost boy» vítima da guerra civil e da ebulição étnica que vem assolando o Sudão, especialmente o Sudão do Sul, desde 1972 com a quebra do acordo de Addis Abeba, dividindo ainda mais a região e as suas diferenças étnicas e fundamentalismos religiosos e daí o título, porém, pode até ser uma metáfora para tudo o que aqui é contado, tornando difusa a linha que separa a realidade da ficção, não obstante, a violência, o abandono, o medo e as dificuldades e a enorme miséria por que qualquer povo passa perante a perseguição; ficando por vezes confuso saber quem persegue quem e porquê.

"Diz-me, onde está a tua mãe, Michael? Alguma vez a viste aterrorizada? Nenhuma criança devia ver tal coisa. É o final da infância quando vemos o rosto da nossa mãe sem expressão, os olhos baços, mortos. Quando fica derrotada ao ver simplesmente a ameaça a aproximar-se. Quando não acredita que é capaz de nos salvar."

terça-feira, 4 de junho de 2024

«Cem anos de perdão» de João Tordo :: Opinião

Se «Águas Passadas» não movem moinhos, ladrão que rouba ladrão tem «Cem anos de perdão». E estivessem certos os provérbios, o ritmo dos thrillers de João Tordo teriam por certo outro tom e embora este «Cem anos de Perdão» ainda comece com algum humor, rapidamente o cenário do crime anula qualquer risada que pudéssemos dar com um dupla de polícias trôpegos, no meio de uma ilha remota algures ao largo de Inglaterra. Aliás, Cícero está preso e o cenário na prisão está pejado de predadores e Pilar sobrevive na fria Helsínquia, rodeada de homens feios e pesadelos que adensam os seus traumas.

"(...) os pesadelos persistiam. O clarão. A memória dos dias no hospital. Os ossos do rosto desfeitos, os dentes perdidos. A recuperação lenta, morosa. Alguém lhe dissera que uma pessoa precisava de oito anos para resolver um trauma, se fosse assumido e tratado. Quanto tempo demoraria daquela maneira - oitenta anos?
(...)
O desejo, o sexo, o jogo do gato e do rato, a adrenalina que, temporariamente, lhe mitigava a ansiedade. O regresso, uma e outra vez, ao mesmo ritual perverso. Quando desligou, lembrou-se das <<características», repetidamente lidas nas reuniões: Temendo o abandono e a solidão, ficamos e regressa- mos a relações dolorosas e destrutivas, escondendo a nossa dependência de nós e dos outros, cada vez mais isolados e alienados dos amigos, das pessoas que amamos, de nós próprios, de Deus."

domingo, 26 de maio de 2024

«Águas passadas» - de João tordo :: Opinião

"Fui eu quem a descobriu, à afogada, no meu passeio matinal pela arriba. E a culpa nasce precisamente daí - de o meu temperamento melancólico se alimentar positivamente da morbidez; de o sofrimento ser o seu húmus mais fértil. Ao encontrar o cadáver, a minha vida ganhou novo alento.
Vergonhosamente, desabrochei."

É com esta descrição dele mesmo que Cícero se apresenta. Parte do alento que tinha perdido, sabemos em breve, deve-se à falta que Simples lhe faz, o cão que morreu faz pouco tempo. Mas a maior parte do seu sofrimento data de anos, muito antes de se ter tornado um eremita à beira da falésia na escarpada Azóia. E logo aí conquistou a minha atenção. Eu vi-me, contemplativa como Cícero e acompanhada de um cão, nos trilhos que serpenteiam o precipício com vista para o Atlântico. 

E claro, ter sabido que a série está a ser adaptada para série televisiva, colocou a leitura noutro nível. Eu ia lendo e fazendo o meu próprio casting. 

Quando o corpo de Charlie é descoberto, ficamos a conhecer a Subcomissária Pilar Benamor, a quem é pedido: "caso decida ir buscar a pobre rapariga ao Inferno, por favor, não olhe para trás no regresso.". Evocando o mito de Orfeu, o legista parece adivinhar os horrores que aí irão, embora Cícero já nos tenha dito que ele voltará a matar.

terça-feira, 14 de maio de 2024

«Quarto de despejo» de Carolina Maria Jesus - :: Opinião

"O que aborrece-me é elas vir na minha porta para perturbar a minha escassa tranquilidade interior (...) Mesmo elas aborrecendo-me, eu escrevo. Sei dominar meus impulsos. Tenho apenas dois anos de grupo escolar, mas procurei formar o meu carater. A unica coisa que não existe na favela é solidariedade. Veio o peixeiro Senhor Antonio Lira e deu-me uns peixes. Vou fazer o almoço. As mulheres sairam, deixou-me em paz por hoje. Elas já deram o espetaculo. A minha porta atual- mente é theatro. Todas crianças jogam pedras, mas os meus filhos são os bodes expiatorios. Elas alude que eu não sou casada. Mas eu sou mais feliz do que elas. Elas tem marido. Mas, são obrigadas a pedir esmolas. São sustentadas por associações de caridade.

Os meus filhos não são sustentados com pão de igreja. Eu enfrento qualquer especie de trabalho para mantê-los. E elas, tem que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor. A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses. Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos socegados. Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas."