A leitura é uma viagem por palavras nacionais, estrangeiras, umas cultas, outras menos, umas mais rebuscadas, outras simplificadas, algumas levam-nos às lágrimas, muitas delas às gargalhadas e as melhores, aquelas que nos deixam abismadas, tamanha é a profundeza da ideia, da genuinidade expositiva, onde a simples contemplação daquelas palavras nos deixa assim: sob o Efeito dos Livros!
quarta-feira, 8 de abril de 2020
«Bowie, uma biografia» de María Hesse :: Opinião
domingo, 5 de abril de 2020
"O Meu Mapa de Ti"
terça-feira, 17 de março de 2020
«A história de uma serva» de Margaret Atwood :: Novela gráfica - Opinião
quarta-feira, 11 de março de 2020
«As aves não têm céu» de Ricardo Fonseca Mota :: Opinião
"Que salvação tem uma alma que persegue a vontade cega de esquecer?"
É com a cabeça cheia de perguntas e "o retrovisor vazio para sempre" que conhecemos Leto. Atormentado, não suportando encostar a cabeça na almofada, é um homem em pedaços, com as sobras num remoinho e que reinventa a vida apenas para poder continuar a sofrer.
Leto perdeu a filha e sente uma culpa maior que tudo, uma dor que não encontra semelhantes. A dor é uma verdade diferente para quem a sente. A mulher de quem se divorciou, os amigos os pais, os sogros, ninguém entende a dimensão do seu sofrimento e Leto fecha-se na densidade de um sofrimento muito próprio e que o faz vaguear sem sentido.
"É censurável o facto de não sabermos morrer. Andamos a morrer há milhares de anos e ainda não sabemos como se faz. Seja castigo, prémio ou escárnio, ainda morremos de forma muito atabalhoada."
O estado de espírito de Leto é uma personagem só por si, a sua dor é tanta que se espalha por tudo à sua volta: "A atmosfera tensa da cidade torna-se ainda mais inútil quando não há ninguém que a pise."
A constante "repulsa pelo movimento" pauta os dias deste homem que já não espera nada da vida. Movimento é andar para a frente, é avançar e esquecer, mas Leto não quer esquecer. Ele é o homem gaveta, um mistério que encerra palavras que ninguém entende, lamentos que os outros não ouvem.
"O que cada um faz com o vento serve para fugir à escuridão, (...). Descobri depois que acontece o mesmo com as palavras."
Palavras essas, ditas em surdina que ainda o surpreendem com verdades que lhe mostram a sua lucidez com que olha ao mundo: "desconhecia haver vitória no falhanço."
Neste "As aves não têm céu" faz-se um retrato duro e cru de um homem despedaçado que “não espera nada das pessoas, senão presença, ruído e desprezo” e que vive num estado de espírito de permanente desilusão com a vida: “Se eu der um tiro na cabeça será que ouço o barulho da arma a cair no chão?”
São nestas dúvidas que vai marinando a vida sem préstimo de Leto que num “dia de céu balsâmico” perdeu a filha e culpa-se como talvez todos os pais se culpam da morte de um filho. É esmiuçando no sofrimento, no luto e no remoer de episódios do passado que a vida deste homem surge tão fragmentada como a sua mente. Só a culpa não é fragmentada, essa sim está compacta, inteira, insuportável!
Há só um detalhe que para mim fez mossa, foi a desconexão da narrativa, compreendo-a e acho-a uma metáfora brilhante para o estado de espírito do personagem, no entanto, não é a estrutura que mais aprecie para seguir numa leitura, ainda assim acho um resultado extremamente positivo.
segunda-feira, 2 de março de 2020
«A noite em que o verão acabou», um thriller de João Tordo - Opinião
Dividido entre várias décadas, a narrativa desperta no Verão de 1987, um verão húmido e desgastante, quando Pedro Taborda descobre mais do que os calores algarvios. Ele descobre as curvas e os modos atrevidos de Laura Walsh, a filha do magnata americano, Noah Walsh; mas conhece também Levi, uma criança misteriosa e meio desconexa que, um ano mais tarde, é a principal suspeita de ter assassinado o pai, de forma terrível e mesmo ao jeito de um bom escândalo como os americanos gostam de explorar. Especialmente os jornalistas, ainda mais por ter ocorrido na pequena vila veraneante de Chatlam, onde os Walsh são tão alvo de adoração como de ódios antigos.
Tordo caracteriza muito bem os Taborda, especialmente quando cruza os seus portuguesismos exagerados com os maneirismos dos Walsh, mas mais do que isso, o que atravessa todo o romance é a inquietação de Pedro por Laura e o mistério em torno da resolução apressada que é dada à morte do magnata.
O romance explora ainda o fascínio de Pedro pela escrita e pelos romances policiais, mas a literatura assume outro papel quando, em Nova Iorque, o protagonista priva com Gary List, o autor de culto que venera e quer para seu mentor. Aqui a narrativa assume outros contornos, voltando às frustrações dos autores, os sucessivos bloqueios, a busca pelo reconhecimento, o isolamento forçado, a solidão final e toda a ironia escondida nos livros. Digamos que um Tordo mais ao jeito que o conhecemos em outros livros.
Pelo enredo, de nada ser o que parece e pelos saltos temporais, mas também pelo desejo de Taborda ser escritor e privar com Gary List – o seu escritor favorito e mentor – fez-me muitas vezes lembrar «A verdade sobre o caso Harry Quebert», e o vilarejo recheado de segredos antigos juntamente com as duas irmãs recordou-me a recente adaptação de “Objectos cortantes” pela mão da HBO.
Faltou-me descobrir qual o autor que List representa para poder ir descobrir livros novos.
«A primeira pessoa» de Ali Smith - Opinião
Confesso que não consigo ficar fã de Ali Smith. Li há muito anos «Hotel Mundo» e lembro de ter gostado, porém não me recordo de nada. Será que gostei assim muito? Já mais breve tentei «Outono», não consegui passar das primeiras vinte ou trinta páginas. Há uma certa alegoria e transcendência que não me cativa nem faz avançar. Estranhando tudo a tal ponto, que nada faz sentido.
No entanto, neste livro de contos «A primeira pessoa» dei por mim a ler dois ou três deles com uma sensação enorme de curiosidade e até sofreguidão, com vontade de perceber a estranheza que envolvia tanto a discussão de duas mulheres à volta dos contos, bem como o delírio de uma outra mulher que se envolve num rapto esquisito e forçado de um bebé alheio.
Ambos os contos são completamente desconexos entre si e qualquer tentativa de ligação é ainda mais difícil do que a de encontrar um sentido em cada conto per si. Ainda assim, a forma como os contos estão organizados: primeira, segunda e terceira pessoa; dão a supor alguma interligação ou intertextualidade. Existindo, eu não a encontrei, a não ser a desconexão e o caos que senti ao lê-los.
*
«O verdadeiro conto» em “A primeira pessoa” de Ali Smith
“Cynthia Ozick dizia que a diferença entre o conto e o romance está em que um romance é um livro em cuja viagem, se for um romance bem trabalhado, o leitor se modifica, enquanto um conto é mais como o presente talismânico oferecido ao protagonista de um conto de fadas – algo de completo, poderoso, cujo poder pode não ser ainda bem compreendido mas que pode andar nas nossas mãos ou dentro de um bolso e acompanhar-nos por uma floresta ao longo do caminho da vida.”
*
Não importa nada, mas faria muita diferença. A capa da tradução brasileira, talvez prepare mais o leitor para a estranheza que encerram as páginas da narrativa de Smith.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
O regresso do professor Catalão
Em «A Morte do Papa», Nuno Nepomuceno consegue transpor acontecimentos da década de 80 para a actualidade, socorrendo-se das valências da tecnologia para mover a intriga nos meandros da expiação online, conseguindo assim uma trama intensa e totalmente actual.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2020
Balanço literário de um ano híbrido e longo
2019 foi um ano híbrido, a muitoooos níveis e com os livros não foi excepção!
Julgo não ter havido ano, nesta década que fechou, em que eu lesse, mas não terminasse vários livros e de ter mais de metade por lhes dedicar um texto.
Li 23 livros para os quais fiz um texto de opinião, 12 deles eram da biblioteca, para cumprir o objectivo: "vai mais à biblioteca" e mesmo no final do ano não foi excepção, pois trouxe 5 livros de contos que me têm acompanhado por dezembro e transitaram para 2020.
Produzi pouquíssimo para o projecto Deus me Livro, tão pouco que ainda é uma bênção poder de vez em quando publicar lá, especialmente a reportagem sobre a Noite Europeia da Literatura.
Já com a comunidade de leitores estive mais assídua, mas muito menos participativa com textos.
Tenho 28 por livros lidos sobre os quais não escrevi nada e nem sei bem porquê: preguiça? desleixo? vontade de acumular e ver a pilha a crescer?
Não sei e decidi nem querer saber ou me preocupar. Li-os, estão lidos, outros não os terminei (3) e daqui irão provavelmente para a estante ou para as da biblioteca municipal.
Apetecem-me apenas pequenos parágrafos e saber que os li, recordando-os ou por fotos ou por frases de destaque.
Isso, e ver se cumpri com o desafio lançado por mim mesma no princípio do ano, daí este balanço.
Um dos favoritos marcou logo o início do ano, «O filho único», uma narrativa muito bem montada com um narrador de 6 anos a tentar descodificar o mundo dos adultos, quando esse mundo se confunde ainda mais perante a morte de um filho, um outro filho.
O arranque do ano ficou igualmente marcado pelos contos de Ana Margarida de Carvalho, «Pequenos delírios domésticos» que brindam o leitor com uma escrita magnífica, cuidada e enredada, dando-nos sempre vontade de continuar cada conto, navegando assim naquela realidade paralela.
Janeiro de 2019 ficou ainda marcado pelo regresso a Richard Yates e o seu «O Desfile da Primavera» onde a tristeza e a dose certa de desgraça familiar completam a solidão que pauta os livros do autor. E isto, claro, envolvo numa escrita impressionante e que prende desde a primeira frase.
Em Fevereiro perdi-me nos contos e novelas de Mário de Carvalho, fiquei fã de "Cronovelemas» e em Março voltei a João Tordo na reedição de "As três vidas", cumprindo assim mais uma meta do desafio literário: "lê mais autores portugueses".
Ainda em Março regressei a In McEwan e descobri John Banville, mas não tive paciência para continuar com o nobelizado Wole Soyinka, mas o que me arrebatou mesmo foi a maluquice do «Onde estás Bernardette?», um livro no qual peguei por ver vários destaques e opiniões devido ao filme que ainda iria sair durante o ano.
Em Abril voltei a Philipe Claudel, mas também aos portugueses com «Filho da mãe» de Hugo Gonçalves que mesmo não me tendo conquistado, merecia que eu lhe dedicasse um texto. O luto é um dos meus temas favoritos e a forma como o autor faz uma road trip pelas memórias pós-morte da mãe vale bastante a pena e isso fez-me ir ao teatro ver uma peça adaptada de um dos seus livros de contos: «Fado, Samba e Beijos com Língua».
Em Maio perdi-me pelas novidades e li «O fim da solidão» ao qual não dediquei texto e do qual pouco ou nada me lembro. Mas lembro-me muito bem das mulheres que João Tordo trouxe em «A mulher que correu atrás do vento» juntamente com toda uma compilação musical que me fez completar mais partes do desafio literário: "Livro com música dentro" e "lê um calhamaço". Aliás com Tordo e já mais para o final do ano, li outro calhamaço «A noite em que o Verão acabou».
Já o ano ia a meio, voltei aos contos de Murakami com «Os celeiros incendiados», pensando ir ao cinema ver a adaptação cinematográfica, mas não fui a tempo, nem o conto me conquistou, tal como não percebi o furor em torno de "Devias ter-te ido embora" do alemão Daniel Kehlman. Também não me convenceu, o último do nórdico M. J. Arlidge: «A floresta do mal» ou a estreia com a portuguesa Julieta Monginho na reedição de «A terceira mãe". Convenceu-me sim «A criança que sonhava com o fim do mundo» e a «A filha devolvida» ou ainda «Crianças invisíveis», num retorno à escrita de Patrícia Reis. No entanto, para nenhum deles fiz um texto.
Como também descobri, após os empréstimos, que nunca fiz um texto para livros lidos em 2018, tais como «Ecologia» de Joana Bértholo; «Meio homem metade baleia» de José Gardeazabal ou o fabuloso e conciso «Laços» do italiano Dominico Starnone e o qual devo voltar a ler.
O verão propriamente dito foi marcado pela intensa leitura de «Um estado selvagem» que é talvez o livro do ano, pela dureza daquilo que relata e por falar de violência contra as mulheres juntamente com o clima de guerra que se vive em muitos países africanos, picando assim mais dois pontos do desafio de leitura: livros sobre os Direitos Humanos e livros cujo a narrativa é num cenário de guerra, mas também para este ponto podia eleger o fabuloso, e outro dos favoritos deste ano: «Cai a noite em Caracas» de Karina Sainz Borgo, que tem um enredo completamente fora de tudo o que li este ano, abordando tantos dos temas que têm inundado as notícias da actualidade. Este livro merecia um texto, mas merecia mais ainda uma série ou um filme para que fosse falado inúmeras vezes.
O Verão teve mais duas leituras marcantes: «Uma questão de conveniência» que muito diz sobre a sociedade, o trabalho e as convenções que nos iludem e condicionam e que são transversais, tanto no mundo nipónico como aqui entre nós. Outro marcante foi «Autobiografia» num regresso à escrita de José Luís Peixoto que levanta uma questão muito interessante: "Quantos Saramagos existem?", ou melhor ainda, em quantas pessoas se divide ou multiplica um autor, seja ele quem for, quando cria um livro? E isso é interessante de explorar e ao acaso cheguei a divagações idênticas já mais para o final do ano com os contos de Ali Smith.
No verão ainda houve lugar a alguns livros nos quais peguei, li um pouco e larguei, entre eles com muita pena minha, como é o caso de «Vendedor de sangue», tinha muita curiosidade, mas que não me agarrou de todo! Li ainda e não me marcou «As longas noites de Caxias» e «Eu sou Bolaño». O que me continua a agarrar é Flannery O'Connor de quem li contos e os livros destacados pelo Prémio Leya, de onde li «Torto Arado» que muito me envolveu naquela crueza da roça antiga brasileira, que desconfio ainda existir e ser metáfora para criticas à actualidade.
Entrei em Setembro envolvida em romances mais light com «O que nos fica somos nós», que li bastante envolvida, pois gosto de livros que exploram a culpa. Também gosto de livros com pessoas estranhas e por isso preferi o romance seguinte: «Perto demais» que muito me fez rir. Já «Nenhuma verdade se escreve no singular» do qual adorei o título, explora um enredo pouco plausível e que cansa o leitor.
No trimestre que fechou a década, o tempo dedicado aos livros foi pouco, escrevi apenas sobre «Novembro» tentando perder-me mais no universo das Graphic Novels e da Banda desenhada, e fiz uma excelente descoberta: Enki Bilal que me fez voltar várias vezes à biblioteca.
Li também «Não te afastes» uma ficção juvenil de David Machado e mais um romance a puxar para o thriller, «A mulher entre nós», que muito habilmente confunde o leitor entre saltos cronológicos e relatos de mulheres. Deixando uma questão: "em quantas mulheres uma mulher se multiplica ao longo da vida?"
Mesmo na recta final de 2019 o tempo foi partilhado entre os contos de Tolstói, Ali Smith e o tão badalado trhiller de João Tordo que não foi de todo uma das minhas escolhas, se bem que o arranque e as 100 paginas finais são muito hábeis e viciantes. Viciante e engenhoso foi também «O protesto do lobo mau», livro infanto-juvenil que ganhou o prémio Pingo Doce.
O ano não terminou sem voltar à biografia de David Bowie, que me vai acompanhar em 2020 e o retorno de Possidónio Cachapa, que tem um mote meio delirante, meio sonhado e todo ele uma metáfora e uma critica, mas não era bem o que eu esperava, já que sou fã do universo muito particular que o autor tem criado em todos os seus outros livros.
E com este longo texto, remato assim todos os textos que não fiz desde o final de 2018 e ao longo deste 2019 que pareceu arrastar-se em muitas coisas.
E face ao desafio do blogue, o livro pendente de 2018 ficou pendente na mesma, não li nenhum livro com árvore na capa; com mais de 100 anos peguei em Tolstói, mas não li mais do que um conto ou dois, não li nem o Nobel de 2018, nem a de 2019 e nas metas literárias ficou-me a faltar ler sobre Fernão de Magalhães. O que de melhor o desafio me trouxe foi ler fora da zona de conforto e ter lidos mais contos.
E sem mais demoras, o meu Top 10 são:
"O filho único"
"Pequenos delírios domésticos"
"O desfile da Primavera"
"Um estado selvagem"
"Cai a noite em Caracas"
"A mulher que correu atrás do vento"
"Uma questão de conveniência"
"Autobiografia"
"Bowie, uma biografia"
"O protesto do lobo mau"
quarta-feira, 27 de novembro de 2019
«O Fim da Solidão» de Benedict Wells - Opinião

Benedict Wells arrecadou o Prémio de Literatura da União Europeia, entre outros na Alemanha, com um romance sobre a dor da perda, a marca da infância e a tentativa de reconstrução emocional (e familiar) de quem vive com ausências precoces. A narrativa acompanha Jules e os seus irmãos após a morte dos pais, num percurso de afastamento, silêncio, solidão aquando do internato num colégio e mais tarde, crescimento, reencontros e regressos.
Apesar do arranque com peso narrativo, a leitura deixa uma sensação
de ambiguidade. A crítica reconhece-lhe “um dom extraordinário de imaginação”, mas
essa criatividade não se reflete de forma evidente na estrutura — até bastante
linear — ou na abordagem dos temas. Até no tema mais importante, o da preservação
da memória, o enredo é vago e a densidade real remetida para constantes
referências a músicas e livros, deixando o leitor à procura de mais.
O tom sensível e emocional domina a escrita, mas nem sempre
em benefício do enredo. Ao procurar sublinhar o trauma de forma intensa, por
repetição, arrisca-se a atenuá-lo. Fica a sensação de que o texto luta por
conseguir equilibrar profundidade, superação e desapego enquanto narra uma
jornada íntima ao mesmo tempo que criar uma atmosfera cultural e
intertextual, quando tudo o que Jules nos quer dizer é que existem dores que permanecer
irresolúveis. E isso pauta a primeira metade do livro e é a melhor!
O romance entra cedo num padrão psicológico repetido: infância trágica →
internato → distanciamento → reencontro amoroso → crise adulta e fecha-se sobre
si mesmo, gerando um peso narrativo que pode conquistar alguns leitores, já a
outros pode cansar porque desacelerar o ritmo narrativo e atribuir-lhe
previsibilidade. E é o que acontece com a segunda metade da história.
O final, esse, fecha tudo de forma quase terapêutica. É um final
demasiado “arrumado”, quase que sereno — deixando uma sensação de que tudo se cumpriu segundo um plano.
domingo, 29 de setembro de 2019
«Uma Questão de Conveniência» de Sayaka Murata - Opinião
sábado, 21 de setembro de 2019
«O que fica somos nós», Jill Santopolo :: Opinião
“Durante anos senti-me culpada. Culpada de nos termos beijado a primeira vez enquanto a cidade ardia, culpada por ter sido capaz de me perder em ti naquele momento. Mas, mais tarde, compreendi que não éramos os únicos. As pessoas confessaram-me, em sussurros, que tiveram sexo naquele dia. Que fizeram um filho. Que ficaram noivos. Que disseram «amo-te» pela primeira vez. Há alguma coisa na morte que faz as pessoas quererem viver. Naquele dia queríamos viver, e não nos culpo por isso. Deixei de nos culpar.”
Este romance de Jill Santopolo está cheio de culpa e ambiguidades e talvez seja isso que o torna tão plausível.
É a culpa por não se ter o condão de adivinhar qual é o destino de cada um e de uma vida a dois.
Lucy, Gabe e Darren compõem um enredo cheio de encontros e desencontros e até um certo abandono. São vidas cheias, mas ao mesmo tempo vazias, vidas em função de outras vidas; de objectivos, de sonhos, de certezas. Certezas que a vida se encarrega de abalar e baralhar.
Mas mais do que tudo, e como não podia deixar de ser, há aqui um amor absorvente, vivido numa medida maior e com contornos de tragédia. Lucy e Gabe conheceram-se a 11 de Setembro de 2001. Ainda assim, e que por mais que se amem, anos a fio, são pessoas diferentes e seguem - separados - vidas independentes.
"(...) sempre me pareceu que pertencias a ti próprio e que te emprestavas a mim quando te apetecia; nunca te possui completamente"
Mas quem possuí quem, se por vezes é tão difícil possuirmo-nos a nós mesmo!? É nessa dificuldade que Lucy avança com a sua vida e conhece Darren. E toda essa parte mais cor de rosa foi deliciosa de ler, tem detalhes muito bem conseguidos e cenas muito reais. No entanto, o que incomoda (e não sei se essa é a palavra certa) é percebermos que toda a narração é dirigida a Gabe, como se Lucy lhe relatasse a sua vida, numa carta sem fim, anos e anos seguidos.
Gabe é um fantasma maior e assombra todas as outras coisas: a maternidade, a carreira, o casamento ou a família que parece estável e completa.
"Vemos tudo através do filtro dos nossos desejos e arrependimentos, das nossas esperanças e medos."
Para além dos filtros e dos arrependimentos em que o livro nos faz pensar, leva-nos igualmente a reflectir na forma como as relações nascem e se desmoronam, e o difícil que é encontrar o equilíbrio.
Foi uma boa leitura e recomenda-se, seja para leitores apaixonados ou corações despedaçados.
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
«Voar no Quarto Escuro» de Márcia Balsas :: Opinião
segunda-feira, 26 de agosto de 2019
«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva - Opinião
«Crónica de um Vendedor de Sangue» de Yu Hua - Opinião
Comecei com bastante entusiasmo a leitura deste tão aclamado autor chinês, no entanto, rapidamente percebi que seria difícil manter a vontade em continuar.
Na narração dos acontecimentos é constante a repetição de ideias e é utilizado um tom quase infantil, apesar da dureza que envolve a vida dos personagens.
Faço uma pausa e vou ler sobre o autor e a sua obra, há motivos para que escreva assim, supostamente na sua língua de origem funcionará melhor e o próprio também pretende esse registo para que até o público mais jovem chegue aos seus romances e conheça o percurso político e sócio-económico da China.
Volto à leitura e sinto, o que parece ser uma necessidade, a de identificar muito bem cada personagem, cada fala, cada atitude, e por isso continua a repetição dos nomes dos personagens, que me cansaram desde as primeiras páginas. Apesar de também para isso existir explicação que se encontram nas notas de tradução.
Avancei mais um pouco, queria ficar a conhecer essa realidade tão miserável que pautou o regime de Mao, mas a forma como as provações do povo são descritas e até as metáforas, em conversas muito simples entre Xu Sanguan e o tio ou a esposa continuaram a não me cativar e até a ilegalidade da venda do sangue não tornou a narrativa mais entusiasmante.
Gostava de ter avançado na história dos filhos ou da esposa desafiante, pois pelo que leio, existem reviravoltas que dão rumo à história, tornando-a ainda mais negra, mas enquanto esperava e lia, mais exasperava.
«A mulher de He Xiaoyong saiu de casa, bateu com as mãos nas coxas e disse:
"Um descarada que roubou a semente de outro homem e agora vem aqui de nariz empinado."
Xu Yulan respondeu: "Dei à luz três rapazes de seguida, claro que venho de cabeça erguida."
A outra mulher disse: "Três filhos de pais diferentes, isso é orgulho para alguém?"
"Essas miúdas também não parecem ser filhas do mesmo pai."
"Só uma porca como tu é que estaria com homens diferentes."
"E tu, és diferente? Olha bem para o que tens dentro dessas cuecas, isso é uma mercearia, qualquer um pode entrar."»
«Tudo Aquilo Que Não Lembro» de Jonas Hassen Khemiri - Opinião
quinta-feira, 22 de agosto de 2019
«Eu sou Bolaño, o escritor e o mito» - Opinião
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
«Um estado selvagem» de Roxane Gay - Opinião
terça-feira, 6 de agosto de 2019
«Cada dia é um milagre» de Yasmina Khadra - Opinião
Ao longo de todo o livro existem falhas de tradução que são notórias. Há parágrafos muito bem conseguidos, onde se nota um trabalho soberbo da tradutora em fazer soar bem a poética do autor e noutros parece ter-se usado o google translator - não me sai da cabeça (e já o li há meses) - "vou tomar um bom chuveiro". Não sou uma entendida em tradução, nem nada que se pareça, mas há falhas flagrantes.
























