
A leitura é uma viagem por palavras nacionais, estrangeiras, umas cultas, outras menos, umas mais rebuscadas, outras simplificadas, algumas levam-nos às lágrimas, muitas delas às gargalhadas e as melhores, aquelas que nos deixam abismadas, tamanha é a profundeza da ideia, da genuinidade expositiva, onde a simples contemplação daquelas palavras nos deixa assim: sob o Efeito dos Livros!
quinta-feira, 15 de setembro de 2022
“O meu nome era Eileen” de Ottessa Moshfegh :: Opinião
terça-feira, 16 de agosto de 2022
«Uma Vida à Sua Frente» de Romain Gary :: Opinião
Numa França vista do 6º andar de um prédio pobre, Momo, um
rapaz que “não foi datado” vive aos cuidados de Madame Rosa, ex-prostituta e
ex-judia, (os próprios papéis provam essas “não-existências”) que o recebeu por
ele ser uma “criança ilegal”, “um filho de puta”. Mas os anos estão a passar e
os quilos da Madame a aumentar à mesma velocidade que o seu corpo se deteriora
com eventos em que a cabeça ganha pernas e vai passear.
As histórias destes Miseráveis,
porque Victor Hugo e a sua capacidade de descrever a França e a miséria são uma
inspiração e aspiração de Momo (e do Senhor Hamil) que, quando crescer, quer
escrever assim a histórias dos seus miseráveis e Roman Gary consegue
isso mesmo em «Uma
vida à sua frente» na voz desta criança de dez anos, Momo, que com a sua inocência,
própria da idade, mas com a perspicácia (e alguma confusão, já que Momo ao
início era muito novo para ir à escola e de repente já tinha idade a mais) de
quem teve de se desenvencilhar sozinho… até para ter uma mesada!
“Quando os vales deixavam de vir para um de nós, a Madame
Rosa não punha o culpado na rua. Era o caso do pequeno Banania, o pai dele era
desconhecido, logo não o podíamos censurar por nada; (…) a Madame Rosa ralhava
com o Banania mas ele estava a borrifar-se, porque só tinha três anos e
sorrisos. Acho que a Madame Rosa teria dado o Banania à Assistência, mas não o
seu sorriso, e como não se podia separar um do outro, via-se obrigada a ficar
com os dois.”
Momo narra a sobrevivência que por ali se vive quase sem maldade,
embora exista dinheiros e leis à mistura, coisas que Momo pouco percebe, entre
muitas outras, mas de solidão, desamparo e ausências Momo percebe.
“Não faço ideia do que me deu, mas havia anos que não tinha
mãe nem pai, nem mesmo bicicleta (…). Fiquei todo tocado e possuído pela
violência, nem dá para acreditar. Vinha de dentro de mim, e é ali que é pior.
Quando vem de fora com pontapés no cu, podemos sempre fugir. Mas de dentro, não
é possível. Quando me apanha, quero ir-me embora e não voltar mais a lado
nenhum. É como se estivesse alguém a morar dentro de mim. Começo a gritar,
atiro-me para o chão, bato com a cabeça para sair, mas não é possível, não tem
pernas, nunca temos pernas dentro de nós. Faz-me bem falar disto, aliás, é como
se estivesse a sair um pouco. Estão a perceber?”
E o leitor vai percebendo!
Vai aceitando a dureza do relato enquanto desanuvia pelo
humor e ironia com que é descrita e é aí que reside toda a peculiaridade da
escrita de Gary; é na força do humor, pelo traço inocente da voz de Momo que a
fronteira que segrega estas pessoas, a invisibilidade e o preconceito em que
vivem, é denunciada.
Ainda assim, existem excepções, e ainda bem!
“Eu ia muitas vezes sentar-me na sala de espera do Doutor
Katz, já que a Madame Rosa repetia que era um homem que fazia o bem, mas não
senti nada. Talvez por não ter ficado tempo suficiente. Sei que há gente que
faz o bem no mundo, mas não fazem isso a toda a hora e é preciso calhar no
momento certo. (…) A Madame Rosa dizia que o Doutor Katz era a medicina geral,
e é verdade que se via de tudo ali, judeus, claro, norte-africanos, para não
dizer árabes, negros (…)”
«Uma vida à sua frente» denuncia e reflecte sobre temas que
ainda hoje são discutidos, seja pela controvérsia, seja pela herança tóxica dos
conflitos armados, do colonialismo ou outros que ainda têm muito de tabu, como
é o caso da eutanásia.
“Não queria ouvir falar do hospital onde nos fazem morrer até ao fim, em vez de nos darem uma injecção. Dizia que, em França, estão contra a morte serena e que nos obrigam a viver enquanto ainda formos capazes de sofrer. A Madame Rosa tinha um pavor à tortura e dizia sempre que, quando tivesse que chegasse, far-se-ia abortar. (...) Vi logo que ela se tinha deteriorado mais na minha ausência e sobretudo em cima, na cabeça, onde ela estava pior do que nos outros sítios. (…) estava tão danificada que até os seus cabelos tinham parado de cair porque o mecanismo que os fazia cair tinha-se também deteriorado.”
É impossível ao leitor não sorrir, por vezes até rir à
gargalhada com os termos inocentes de Momo, num humor afiado, quase cáustico,
que dão toda uma outra dimensão ao que nos narra e a leveza com que revela
preocupação pelo sentido da vida: “se quiserem a minha opinião, o tempo, é para
os lados dos ladrões que temos de o ir procurar.”
Procurar o tempo junto dos ladrões, abortar alguém na velhice, “perder-se no seu interior” ou “ter uma cabeça que passeia” quase que retira seriedade aos assuntos, mas acrescenta uma sensibilidade enorme a uma criança que efectivamente é responsável por uma mulher idosa com demência e a quem, se pudesse, daria uma morte digna e como ela pretendia, enquanto ainda podia escolher.
“- Vão obrigar-me a viver, Momo. É o que fazem nos hospitais, têm leis para isso. Não quero viver mais do que o necessário. Há um limite, até para os judeus. (…) Não quero viver só porque a medicina o exige. (…)Prometes?
- Khaïrem.
Quer dizer «juro» (…)
Eu teria prometido qualquer coisa à Madame Rosa para fazê-la feliz, porque mesmo quando se é muito velho a felicidade ainda pode ser útil (…).”
A felicidade mesmo que a conta
gotas é sempre útil e dá-la, às vezes até sem a ter, é um acto de amor. E é
preciso amar mesmo que seja num «buraco judeu». E Gary conseguiu um livro
terno, não pelo que conta, mas pela forma como o faz, com um humor redentor.
segunda-feira, 15 de agosto de 2022
«Terra Alta» de Javier Cercas :: Opinião
domingo, 7 de agosto de 2022
«Gente Ansiosa» de Fredrik Backman - Opinião
Imaginem o enredo que dá, colocarmos oito pessoas ansiosas,
prestes a se tornarem reféns acidentais de uma outra pessoa pouco experiente
nas lides do crime (pouco!) organizado e a contar serem salvas por duas outras
pessoas que não se entendem, embora sejam policias, são também pai e filho.
"(...) algo que é impossível aos filhos compreenderem e
que os pais têm vergonha de admitir: na verdade, não queremos que os nossos
filhos persigam os seus próprios sonhos nem que sigam as nossas pegadas.
Queremos, sim, seguir as pegadas deles enquanto perseguem os nossos
sonhos."
Azar de Jim que não queria Jack como polícia. E,
aparentemente, azar daquele apartamento cheio de gente que conta com eles para
desvendar o roubo e a consequente situação de reféns. Situação essa, que, à boa
maneira de gente ansiosa, se altera rapidamente com pessoas muito diferentes a
descobrirem laços que julgavam inexistente e a se identificarem e protegerem
mutuamente
"Esta coisa das palavras é complicada, em particular
quando uma pessoa é mais velha e tudo o que quer dizer a alguém mais novo é:
«Vejo o teu sofrimento, e isso faz-me sofrer.”
E para ver o sofrimento do outro, basta por vezes parar para
ouvir realmente, com espaço e admitir o quão fácil, horrível e assustador é
fracassar nisto de ser adulto, ainda para mais quando ser adulto envolve ajudar
outros a tornarem-se adultos.
E até quando seguimos nisto de tornarmo-nos adultos?
Conhecendo Roger e Anna-Lena, diríamos que uma vida toda. Ou
é apenas medo pelo excesso de tempo, quando temos tempo para pensar que já nos
falta pouco tempo? Parece um pouco idiota, mas a ansiedade não nos torna a
todos um pouco idiotas?
«Gente Ansiosa» de Fredrik Backman é um livro cheio de
perguntas, mesmo quando aparecem sobre a forma de respostas. É um enredo com
tantos enredos dentro, tantos quantos são os personagens. Aliás, mais, é gente
com gente dentro. Gente com problemas e ansiedades como as da gente 😉
E ao mesmo tempo é uma narrativa cheia de saltos e perspectivas, momentos
tensos e outros de calmaria. E lucidez. Pois até mesmo «gente ansiosa» tem
momentos de lucidez, como Zara na psicóloga a debater o que é a felicidade. A
debater não, a afirmar.
Tal como o livro se vai afirmando com pequenas verdades: «[…]
a solidão é como a fome: só nos apercebemos do quão esfomeados estávamos quando
começamos a comer.»
domingo, 17 de julho de 2022
«Talvez devesses falar com alguém» de Lori Gottlieb :: Opinião
«Talvez devesses falar com alguém» de Lori Gottlieb é viciante! É também atrevido e honesto e vai destapando alguns mitos, lugares-comuns e meias verdades sobre todos nós e a intervenção terapêutica. E a necessidade que todos temos dela. Porque temos! Embora mascaremos confissões e partilhas e ainda seja tabu falar de dificuldades emocionais e do quanto comprometemos a nossa saúde mental.
Sem quaisquer rodeios, a primeira parte abre assim: “Nada é mais desejável do que ser-se libertado de um padecimento, mas nada é mais assustador do que ser-se privado de uma muleta.” (James Baldwin). E, nas suas próprias palavras, acrescenta: “Um dos passos mais importantes na terapia é ajudar as pessoas a assumir a responsabilidade pelos seus problemas actuais, porque, assim que compreendem que podem (e devem) construir as suas vidas, ganham a liberdade para gerar mudança. Ou, como também rapidamente nos diz: “A terapia provoca reações estranhas, porque, de certa forma, é como a pornografia. Ambas envolvem alguma nudez. Ambas podem causar alguma excitação. E ambas têm milhões de utilizadores, a maioria dos quais não divulga essa utilização.”
Passando esta introdução de posicionamento, contextualização e revelação, o que Gottlieb pretende dizer é que precisamos reescrever a narrativa da nossa vida, romper com o discurso desencorajador e aceitar que muitas vezes necessitamos de acompanhamento na dor e a terapia é um espaço seguro para essa partilha, compaixão (e auto-compaixão) e construção do futuro.
“Quando o presente se desmorona, o mesmo acontece com o futuro que lhe tínhamos associado. E ficarmos de repente sem futuro é a maior de todas as reviravoltas. Mas se passarmos o presente a tentar consertar o passado ou controlar o futuro, permaneceremos presos no mesmo lugar, perpetuamente desgostosos.”
Se algumas considerações nos parecem óbvias e rebatidas, é porque são, mas estão lá para nos relembrar disso mesmo: se são tão óbvias por que nos esquecemos tanto delas e de as pôr em prática?
Juntamente com essas chamadas de atenção, Gottlieb entra habilmente em explicações de foro psicológico que ajudam a atender o porquê de diversas situações, escolhas ou até mesmo da inércia, ajudando num auto-diagnóstico. Sem esquecer as emoções e os sentimentos que precisamos tratar com mais cuidado.
“Ocorre-me um pensamento que tenho muitas vezes quando vejo os meus pacientes autoflagelarem-se: Neste momento, você não é a melhor pessoa para falar consigo acerca de si mesmo. Há uma diferença, explico-lhes, entre culparem-se e assumirem a responsabilidade, o que é o corolário de algo dito por Jack Kornfield: «Uma qualidade que advém da maturidade de espírito é a gentileza. É baseada no conceito fundamental de autoaceitação.» Na terapia, damos preferência à autocompaixão (serei humano?) em detrimento da autoestima (um julgamento: serei bom ou mau?).”
Pode parecer o mesmo, mas Lori explica que não. A verdade e a aceitação vêm pouco a pouco da verbalização e afirma-se com a importância de ouvir-se a si mesmo, da responsabilização com a realidade e a gestão de expectativas. E toda a vulnerabilidade que é precisa no processo.
“Podemos ajudar os pacientes a encontrarem a paz, mas talvez um tipo de paz diferente daquele que pensavam encontrar quando começaram o tratamento. Segundo a famosa frase do falecido psicoterapeuta John Weakland, «Antes de uma terapia bem-sucedida, são sempre os mesmos problemas. Depois de uma terapia bem-sucedida, é um problema a seguir ao outro.”
Mas não esmoreça.
quarta-feira, 13 de julho de 2022
«A Porta» de Magda Szabó :: Opinião
«A Porta» é um relato enigmático, metafórico, desconcertante
e desconcertado, no quanto releva a inadequação das relações humanas quando falha
a comunicação. Podemos até dizer que a comunicação é mesmo uma porta, metáfora de fronteira, linha
ténue e frágil, cheia de sombras: a das classes, a do binómio urbano-rural e a do
fosso entre o que é braçal e intelectual, sem esquecer o tanto que não pode ser
dito com todas as palavras e que é político e militante. A critica apelida-a de
uma obra corajosa e confessional e nós leitores não somos capazes de ficar indiferentes
aos mundos de Magdusca e Emerence (e ao de Viola) que colidem contra diversas portas. A da violência e a da
sensibilidade (ou falta dela!) talvez sejam as que mais apoquentem o leitor, no
entanto, Szabó consegue redenção pelo brilhantismo com que escreve, empregando
a narrativa de inúmeras camadas.
“O que eu vira, Viola à mesa, talvez só aos meus olhos fosse
uma imagem idílica, e o festim de Emerence devia representar outra paixão
mitológica, pois, pensando melhor, não os via à mesa como um bravo cão
recompensado e a sua dona mas como dois convivas de um terrível banquete da
mitologia, e a carne engolida pelo animal não passava, acaso, de uma aparência
de assado, não era comida, mas invisíveis fibras e vísceras, uma espécie de
sacrifício humano, como se Emerence, com as suas lembranças e as suas boas
intenções, quisesse servir ao cão a pessoa que não tinha vindo à tarde (…)
beliscando o que havia de mais importante nas profundezas de Emerence, de que
ela nunca falava com ninguém.
(…). Voltara, enfim, à casa o silêncio, e, uma vez mais, nem
me dei conta de que este silêncio era tão falacioso como a calmaria antes da
tempestade, comprazia-me nele, quando as orelhas baixas de Viola e a sua atonia
deveriam ter-me feito compreender que alguma coisa estava para acontecer.”
É fácil compreender que este triângulo encerra parte do
enigma para toda a acção, porém, qualquer uma das mulheres é mais difícil de
entender que qualquer animal, embora dotadas da capacidade de fala, pouco fazem
uso dessa ferramenta. Emerence é secreta, desapegada (das pessoas) e noir. Tem episódios grotescos nos rasgos
de violência que profere ou tenta; e Magda não se torna menos grotesca e
chocante por “apenas” assistir. Também ela é enigmática nesse seu lado calado e
de consentimento, para o qual a intelectualidade não lhe confere nenhuma
vantagem. São duas mulheres sabedoras e vividas de realidades e cruezas
distintas e exercem, uma sobre a outra, uma toxicidade que oscila, mas alimenta
a amizade. Amizade essa que flui, aos repelões, como um cão que passeia à trela
nas mãos de um dono teimoso que não entende que o passeio é do cão e não o
deixa ir olfatar tudo o que precisa.
“Não me foi fácil admitir que (…) a sua existência
tornara-se uma das componentes da minha vida, e, no início, fiquei apavorada
com a ideia de a perder, se eu lhe sobrevivesse, o que aumentaria o meu exército
de sombras, cuja presença imanente e intangível me perturba e mergulha no
desespero. (…) por vezes, ela tratava-me de um moto tão rude que um estranho,
se assistisse, se espantaria por que razão eu tolerava isso. Tal não contava:
há muito que eu já não prestava atenção aos movimentos tectónicos que agitavam
a superfície de Emerence; ela deve ter descoberto o mesmo, e, por mais que não
quisesse arriscar o coração, (…), também ela não podia escapar à sua afeição
por mim.”
A insólita e dramática amizade que as mulheres mantêm terá repercussões
ao longo dos anos. São aprendizagens e partilhas, autênticas catarses, e
poderão ter efeito idêntico no leitor.
«A Porta» é um livro para se ler as entrelinhas, para se reflectir
no não dito, nos gestos que morrem à beira de uma mão que não se enlaça noutra.
É um relato que se espelha em nós e nos nossos, para se crescer e chorar, para
se espantar - espantando fantasmas - e revoltar-se com a inércia, mesmo sabendo
que não agir é em si uma acção, uma tomada de posição. É um relato para
despertar compaixão, fé e cumplicidade, para se saber que até a mais forte das
portas pode ser abalada e pisada, até mesmo quando as vontades são do Bem.
“- Há-de matar. Ainda há-de matar (…). Saiba que não se pode
prender aquele para quem chegou a hora, porque nada lhe pode oferecer no lugar
da vida. (…) O melhor presente que se pode dar a alguém é impedi-lo de sofrer.”
“(…) não analisara a fundo até que ponto a paixão é um
sentimento ilógico, mortal, imprevisível, e, contudo, conhecia a literatura
grega, que não representava mais do que as paixões, a morte, cujo o machado
cintilante é sustido pelas mãos enlaçadas do amor e da afeição.”
“Ora, ora! Viverá eternamente, isso não me preocupa. Agora, ao escrever estas linhas na máquina, sinto como se tivesse decidido pela segunda vez, e definitivamente, o seu destino, porque, nesse momento, lhe larguei a mão.”
«A Porta» é um livro cheio de contradições. Como a vida!
Quem o ler não lhe ficará indiferente.
terça-feira, 21 de junho de 2022
«Cai a noite em Caracas» de Karina Sainz Borgo :: Opinião
“(…) continuo a pensar que às palavras há que arrancar-lhes a pele. Não há outra maneira para perceber de que são feitas.”
A frase pertence a Saramago, mas encontrei-a enquanto relia
este fabuloso (mas um tanto assustador!) «Cai a noite em Caracas» e fez-me todo
o sentido, pois é exactamente o que se passa com as palavras que Karina Sainz
Borgo encontrou, ou escolheu cirurgicamente, para aprisionar o leitor,
trespassá-lo com um dardo de medo, tal como Adelaida Falcon vive os seus dias à
beira de cair nas mãos dos algozes.
Um relato de sobrevivência que cruza escuridão, medo e
silêncio com a desumanização bruta que gera força, coragem e engenho tudo na
mesma medida gritante de violência, desenraizamento e luto.
“«Lá» era um passado. Um lugar do qual pareciam ter saído na
condição de nunca mais o mencionarem. Uma palavra que ardia como o coto de um
braço amputado.”
Um romance feito furacão distópico que com a força bruta do
tom profético, lança um alerta sobre o quão ténue é a linha que nos separa de
um passado esgaçado pela guerra e do quanto a história se repete. E olhar para
trás afunda e Adelaida larga tudo, tudo o que é mais seu, os seus mortos, mas
também os vivos, a quem a sobrevivência morde com os dentes afiados da culpa.
Uma culpa que luta por migalhas onde até os afectos são racionados.
“Os vivos lutam às dentadas pelas sobras.”
Num país triturador, munido de uma infantaria violenta e impune, colocando todos em perigo e numa espécie de antecâmara do além-túmulo, seres na iminência de apodrecer lutam sem sequer ter direito a gritar. Tiram-lhes tudo, até o direito a enterrar os seus mortos. A ocupação chegou até aos ossos e não o inocente já não se distingue do carrasco. Por isso, abatida, desenraizada e numa demolição em espiral, Adelaide Falcon, filha, enterra Adelaide Falcon, mãe. Não há renascimento possível, nem na fuga nem nas chamas, restar-lhe-á a vocação para as palavras para conseguir firmar memórias, numa biografia fragmentada entre identidades separadas por um Oceano coberto pelo cinzentismo da História que castiga meninas e mulheres, mulheres-rocha que cimentam o mundo.
sem braços nem coxas tão fortes como os daquelas negras, essas catedrais de carne preta que cantavam de pé diante de uma chapa de ferro. Maneiras de chorar semelhantes aos incêndios do campo. (…)
Fechei os olhos e inspirei com força os restos de uma biografia feita à paulada. A vida foi aquilo que aconteceu. Aquilo que fizemos e que nos fizeram. O tabuleiro onde nos abriram ao meio como um pão prestes a crescer.”
sábado, 11 de junho de 2022
A Vida Secreta das Viúvas Panjábi de Balli Kaur Jaswal :: Opinião

"- O que foi? - perguntou ela, desviando o olhar. Ele esticou o braço e, suavemente, virou-lhe o rosto para o seu. Olharam-se e os lábios dela estremeceram. As gargalhadas encheram a divisão; eram como uma baforada de calor no primeiro dia de verão. Quando parara de rir, começaram de novo e repararam que estavam ambos a chorar. Limparam as lágrimas um do outro.
- Aquelas histórias... - disse Sarab. - Aquelas... histórias... - estava encantado."
Balli Kaur Jaswal traz até ao leitor «A vida secreta das viúvas panjábi» uma comédia romântica que
junta uma pitada de erotismo e um toque de policial. Afinal há um crime por
resolver que a pouco e pouco fica mais a descoberto, enquanto um grupo de viúvas
ou bibis, de idades bastante variadas, unem experiências, preocupações,
anseios e desafios que ditam para o papel sobre o disfarce de contos eróticos.
E digo disfarce, já que a sexualidade parece o tema central que desafia
as restrições impostas a estas mulheres, aliás a todas a da comunidade panjábi,
mas nas entrelinhas, dos contos e das conversas, as restrições e
condicionalismos são inúmeros e atentam à moral e aos costumes que elas trazem
desde a Índia até uma Londres supostamente cosmopolita. Por isso, Balli Kaur também
aborda a comunidade londrina no mosaico que a caracteriza, tocando em temas
como a imigração e a desigualdade de género.
Mas muito mais.
Existem diversas camadas disfarçadas sob o estilo de um romance leve. Que o é. É verdade. Até por um lado um tanto inocente e sonhador, mas que também é receita de sucesso para fazer passar a mensagem e lançar algumas sementes, tal como as aulas que a protagonista, Nikki, começa a dar.
"- Mas o sexo e o prazer são instintivos, certo? Sendo bom e satisfatório, faz todo o sentido, até para a pessoa mais analfabeta. Tu e eu estamos apenas habituados a vê-lo como uma invenção avançada, porque apenas ficámos a saber da sua existência depois de aprendermos as outras coisas básicas, como ler, escrever, aprender a mexer num computador, tudo isso. Para as viúvas, o sexo vem antes de todo esse conhecimento."
Neste excerto entre Nikki, a inusitada professora e Jason, que mesmo sendo um homem também se vê a braços com as tradições, podemos perceber que as descobertas e revelações não estão reservadas apenas ao grupo de viúvas, aliás, um vasto grupo de pessoas tem aprendizagens a retirar dos desafios que irão testar esta comunidade panjabi de Southall que de um momento para o outro achou que era mais do tempo de juntar mais masala às receitas mais ancestrais.
quinta-feira, 12 de maio de 2022
“Uma Solidão Demasiado Ruidosa” de Bohumil Hrabal :: Opinião
Depois de mais de vinte cinco anos da primeira edição (Afrontamento, 1992), a estrondosa obra «Uma solidão demasiado ruidosa» de Bohumil Hrabal volta aos escaparates portugueses (Antígona, 2019).
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
«O Século da Solidão» de Noreena Hertz :: Opinião
“Eu aninhada no corpo dele, o meu
peito encostado às suas costas, as nossas respirações sincronizadas, os pés
entrelaçados. Foi assim que dormimos mais de 5000 noites.
Mas agora dormimos em quartos
separados. Durante o dia, bailamos em ziguezague a dança da distância dos dois
metros. Abraços, carícias, beijos, a nossa estenografia diária, agora proibida;
«fica longe de mim» é a minha nova manifestação de ternura.”
Podia ser o início de um romance, tendo como pano de fundo
a pandemia mundial que a todos confinou. Uma pandemia também de isolamento que
a todos trouxe medo e uma outra dimensão da solidão e tantas questões de foro
psicológico levantou, juntamente com uma constatação: este é O Século da
Solidão e a culpa não foi da pandemia, como tão bem nos elucida Noreena Hertz
ao longo de uma boa dezena de capítulos onde percebemos quão longos são os
tentáculos da solidão.
Contrariando a ideia de global, de maior conexão, de mais
informação disponível, melhores condições e maior esperança de vida e de toda a
modernidade do nosso século, a verdade é que tudo parece contribuir para que
sejamos só mais um ratinho solitário numa roda movida a pilhas
inesgotáveis que nos torna cada vez menos sociáveis, mais tribais e mais
zangados. Nunca a busca por sentido foi tão complexa e vasta, alimentada por
tanta informação dispersa e desconectada. Numa era onde tudo pode ser
personalizado, também a solidão atingiu números assustadores e conclusões
científicas tão claras e alarmantes: a solidão consegue ser medida no quanto é nefasta
e tóxica num corpo e permite afirmar: a solidão mata!
“(…) a nossa capacidade de nos sentirmos sós e a nossa dor
e inquietação quando nos sentimos distantes de outros seres humanos, são uma
brilhante característica evolutiva. «Nunca devemos querer desligar o estímulo
da solidão», disse John Cacioppo (…)”
“Por um lado, um corpo solitário é um corpo stressado: é
um corpo que se fatiga facilmente e está excessivamente inflamado. (…) Com a
solidão crónica, não existe interruptor para desligar que lembre o corpo que se
deve acalmar. Por isso, a inflamação induzida pela solidão pode tornar-se
crónica - «o novo normal». (…) a solidão é um tipo de stress que pode
amplificar maciçamente os efeitos de outros stresses. (…) Um estudo influente
sugeriu que a solidão prejudica o funcionamento de várias glândulas endócrinas
que segregam as hormonas em todo o corpo e estão relacionadas com a nossa
resposta imunológica.”
O mundo actual padece de solidão e o seu eco propaga-se a
todas as dimensões da sociedade. Explicando diversos fenómenos, como por
exemplo o aumento da viragem para a aceitação de políticas extremistas, mas
também a exploração da solidão como negócio. Os exemplos são variados e Hertz
relata episódios dos mais variados países e classes sociais para que percebamos
que a solidão está generalizada e apresenta-se à frente dos nossos olhos das
mais variadas maneiras. Cabe-nos observamo-nos bem, a nós mesmos e aos outros e
agir: «fazer para não perder!»
“Para Arendt, o totalitarismo
«baseia-se na solidão […] que é uma das mais radicais e desesperadas
experiências que o Homem pode ter.»
Encontrando os seus adeptos nas pessoas cuja «principal
características […] não é a brutalidade nem a rudeza, mas o seu isolamento e a
sua falta de relações sociais normais», ela argumenta que, para quem «sente não
ter lugar na sociedade, é na entrega do seu eu individual à ideologia que o
solitário redescobre o seu propósito e amor-próprio.»”
A bibliografia é vasta e detalhada
e as leituras são inúmeras para o leitor que quiser mais informação além da
aqui compilada por Hertz, embora apenas esta leitura já possa desencadear um
sem número de pensamentos e acções com vista ao objetivo proposto pela autora:
reconectar, recuperar o sentido de comunidade, partilhar, repensar e agir.
Precisamos agir!
Precisamos recuperar ligações com
os que nos rodeiam, desde a família, aos vizinhos, aos colegas de trabalho ou
ao simples acto de falar com desconhecidos, quebrando a corrente da era digital
e deixando o “sem fios” apenas para os dispositivos eletrónicos, sendo capazes
de nos desligar da coisa certo ou seja, fugir ao chicote digital das redes
sociais e tantas outras aplicações que mascaram as relações interpessoais.
A epidemia do século é a solidão e
é disso que precisamos ter consciência, compreendendo até onde chega essa
doença e como afecta a todos. A todos, mesmo! E só assim poderemos actuar.
Sendo assim, anote algumas ideias-chave:
é preciso restaurar o conceito de comunidade e humanizar as cidades e bairros; queira
participar activamente no seio de sua comunidade; é preciso reaprender a
conversar para “discutir” melhor; olhar os outros nos olhos para nos
sincronizarmos uns com os outros; abraçar, abraçar mais e mais prolongado, pois
abraçar cura; sentir-se útil por participar, pertencer, cuidar e ser cuidado;
informe-se melhor para compreender melhor e aceitar, mas também para desconfiar
menos; tire os olhos do telefone e foque-os no mundo à sua volta; cuide da sua
saúde física e mental sem medos; avalie aspectos negativos do que o rodeia,
especialmente no trabalho e avalie para equilibrar melhor o binómio
vida-trabalho.
Em suma, para equilibrar uma série
de aspectos nas nossas vidas modernas o melhor será mesmo fazer algumas coisas
à moda antiga!
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022
«A Psicologia da Estupidez» de Jean-François Marmion :: Opinião
"«O bom senso é a coisa mais partilhada do mundo», escrevia Descartes. Então e a estupidez?"
Em jeito de advertência, Jean-François Marmion, compilou uma série de textos de altas personalidades na análise da estupidez e em muitas outras questões inerentes à existência do ser humano, para nos alertar para o facto de que somos todos um bocado estúpidos (mesmo que inteligentes!). Pois só um estúpido reconhece outros estúpidos!São mais de duas dezenas de textos, para tipificar a anatomia dos estúpidos, a fim de afirmar que a armadilha da estupidez é por vezes habilmente tecida e estrategicamente composta, levando individualmente um estúpido a engrandecer a sua estupidez, aderindo às massas que se metamorfoseiam em nome de ideias adulteradas, a tolice obstinada e a arrogância que cega.
"O estúpido por excelência condena sem apelo, de imediato, sem circunstâncias atenuantes, fazendo apenas fé nas aparências que, além disso, ele se limita a vislumbrar por entre os seus antolhos. Sabe mostrar-se zeloso para reunir os seus semelhantes, incitar ao linchamento, em nome da virtude, das conveniências, do respeito. O estúpido caça em matilha e pensa como uma manda."
Por entre uma manada de teorias espreme-se o lado científico que explica as atitudes dos estúpidos: "Ele tem dificuldades em compreender que a sorte é a interpretação que o estúpido dá às probabilidades" e começamos logo a rir e a constatar que realmente somos todos um bocado estúpidos, afinal quem é que não nomeia constantemente a sorte como escapatória para um comportamento, afinal, estúpido?
Abra bem o radar, pois as conclusões vão deixá-lo ainda mais sensível à estupidez. À sua e à dos outros, já que a teoria também explica que: "(...) é graças ao expediente de negatividade que somos capazes de detectar mais rapidamente um estúpido do que um génio num meio social complexo."
Claro que no capítulo dedicado à tipificação e em mais uma ou outra entrevista podemos perceber que, para além da estupidez ter vários níveis, tipologias e graus de imunização do sujeito estúpido, há todo um complexo índice de proporções quando falamos em estupidez colectiva. E essa é a mais preocupante. Seja pela forma como eleva a estupidez de cada indivíduo ou, quando em massa, tornando os actos galopantes e até descontrolados. Ou viralizando, estendendo os tentáculos numa escala desconhecida.
Os tentáculos analisados nos vários textos tocam aspectos tão banais, como a simples tolice e idolatria quase inocente do tolo teimoso, mas inofensivo do que outros e depois exemplos mais sofisticados e maquiavélicos que estrategicamente alimentam teorias da conspiração e esta era do pós-verdade e da manipulação pela redes sociais. Por isso, temas como as eleições americanas, a vacinação, o coronavírus, a desinformação e o culto do falso, a idolatria fácil e instável, o negócio da felicidade ou os crescentes nacionalismos, são terrenos férteis par analisar comportamentos estupidificantes. Mas também se analisam livros, filmes, séries e temas em geral que estão presentes no nosso quotidiano e nesses casos as entrevistas são excelentes pontos de partida para o debate.
É importante também referir que são vários os textos que fazem a ponte entre a estupidez e outros traços de personalidade, sem esquecer o peso das emoções e até as terapias e a necessidade constante de autoanálise, relembrando que se a estupidez é uma armadilha, o tempo também o é: "(...) mesmo quando encontramos o tempo certo para interagir com o passado, nunca conseguimos alterá-lo." (Adelino Cunha)
Em suma, é um livro ao qual devemos de vez em quando voltar, para que não nos percamos numa certa cegueira de achar que um produto acabado.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2022
"O Segredo de Christine" de Benjamin Black e «O Mar» de John Banville - Opinião
Fui ler «O Segredo de Christine» por ter gostado de «O Mar» de John Banville. Black é o pseudónimo de Banville quando este escreve enredos mais policias, no entanto, voltando agora a ambos os livros, às suas personagens e enredos, e aos dramas que aqui são revelados, descobrimos mais traços comuns do que diferenças.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2022
«Somos o Esquecimento que Seremos» de Hector Abad Faciolince :: Opinião
Aqui. Hoje. Já somos o esquecimento que seremos… Jorge Luis Borges
"Bairro sem saída" de Fernando Ribeiro - Opinião
terça-feira, 25 de janeiro de 2022
"A Ocupação" de Julián Fuks :: Opinião
segunda-feira, 24 de janeiro de 2022
«O AVESSO DA PELE» de Jeferson Tenório :: Opinião
"Às vezes você fazia um pensamento e morava nele.
Afastava-se. Construía uma casa assim. Longínqua. Dentro de si. (…) E apesar de
tudo, nesta casa, neste apartamento, você será sempre um corpo que não vai
parar de morrer. Será sempre o pai que se recusa a partir. Na verdade, você
nunca soube ir embora. Até ao fim você acreditou que os livros poderiam fazer
algo pelas pessoas. (…) É com eles que te invento e te recupero. É com eles que
tento descobrir quantas tragédias ainda podemos suportar (…)"
«O avesso da pele» de Jeferson Tenório arranca desta forma e
diz muito sobre a incompreensão e a dificuldade de relacionamento entre duas
pessoas. Uma realidade áspera, antes e agora, a de um filho que procura
recuperar e entender as memórias e ausência, uma ausência feita de objetos, feita
caos que comove.
A ausência de um pai, que pode ao mesmo tempo, ser um legado e um abismo. Um abismo do qual se abeira qualquer filho quando, entre pai e mãe começa mal. E daí ser tão pertinente: descobrir quantas tragédias ainda podemos suportar.
“(…) o que começa mal termina mal. Eram apenas duas pessoas
quebradas. Cada um com os seus cacos. Cada um buscando uma escora. O amor como
muleta. Naquele momento, a vida já havia tirado tanto, que vocês achavam
injusto que o amor não pudesse servir como amparo. Acontece que, em vez de
buscarem algo que pudesse reconstruíram os afetos, resolveram se cortar o que
restou."
Pedro, o narrador protagonista, perde-se na geografia vasta
dos afectos, a analisar o interior do labirinto que foi a vida familiar dos pais, e até a sua,
colocando na equação questões cruciais que se cruzavam com o amor, que o
delimitavam e definiram: a cor da pele! A pele na sociedade, a pele em todos os relacionamentos. A pele dentro da cabeça de cada um que é sempre mais do que pele.
Ou, e mais importante ainda, a conturbada relação entre pele e o avesso da
pele!
Mesmo com o ocutá atrás da porta, a pobreza, o
preconceito e a injustiça, espreitavam a cada esquina e aumentavam a ferida
funda que ameaçava rasgar o avesso, mas Pedro tenta, neste relato, recuperar os
afectos e entender todo o tipo de herança que lhe ficou. E o que fazer com ela.
“Li recentemente que as relações afetivas são formadas por
duas categorias: dos egoístas e dos doadores. Você era um doador nato. Minha
mãe era uma egoísta nata. (…) não a condeno por isso. (…) A infância nos
fornece certas mágoas e é com elas que lutamos.”
Jeferson Tenório explora os afectos, mas explora ainda mais
o viver confinado ao meio-fio da vida, porque a sociedade te coloca
nessa mesma berma, nesse lado marginal da vida e como combater para sair desse
lado, onde se é posto de parte. E o romance explora diversas formas de viver à
parte, por se ser lá colocado e por tanto se lutar pela integração, que a
pessoa acaba criando uma margem só sua, um lado de dentro só seu… uma forma de
alimentar uma solidão inacessível aos outros, talvez vencida, só pelos livros* e pelos
afectos (quando possíveis).
"Vocês só sabiam lidar com os afectos na precariedade. Vocês não eram equilibrados. Eram equilibristas. A corda bamba como terreno dos afectos"
É nessa corda bamba que, com um pé bem atrás do outro – passos curtos mas nem sempre
firmes - se avança, embora a dor e o trauma desenhem os contornos destas vidas, com que Tenório compõe um livro belíssimo. Duro, mas belíssimo.
* capítulo 7 de «O Jogo do Mundo» de Córtazar que eu fui descobrir graças aos livros aqui referidos
sexta-feira, 21 de janeiro de 2022
«Arco-íris» de Banana Yoshimoto :: Opinião
terça-feira, 18 de janeiro de 2022
«Os amores do Senhor Nishino» de Hiromi Kawakami :: Opinião
“Ato contínuo, ele colocou-se diante de mim. Tal como eu esperava, estava com cara de zangado. No entanto, a expressão era meiga. A doçura no rosto, o aprumo, a precisão com que atara o obi por mim era uma espécie de imagem de marca.”
"Nishino sorriu. Havia algo de misterioso no sorriso dele, como se soubesse de ciência certa que não existia nenhuma mulher capaz de o amar. O sorriso lembrava-me a chama azulada do aquecedor a gás."
Nishino e as suas amantes são tal como este frase: enigmática e ao mesmo tempo certeira, sem que perca uma aura própria que ecoa nos textos de Kawakami.
“À imagem e semelhança do colecionador que estica as asas de uma borboleta e as fixa com alfinetes numa caixa. Como quem manuseia delicadamente o corpo sem vida de um inseto, a fim de preparar o mostruário. Pode dizer-se que ele me captara. Sem me ter sequer tocado com um dedo. Sem que tivéssemos trocado um olhar. (...)
No entanto, tinha qualquer coisa de suave, de quente e infinitamente agradável, criando a ilusão de que a aura era o próprio Nishino.”
Ilusório é sem dúvida um adjectivo para a linha ténue com que se cose este enredo. Vamos conhecendo, mas pouco, a história de Nishino, pelas várias mulheres narradoras, das quais também apenas vislumbramos algumas características, para, uma após a outra, constatarmos que aqui o que importa é o mistério, os humores flutuantes e a melancolia e, até uma certa estranheza, tudo bem macerado com uma boa dose de Natureza que se cruza com a cidade e se prova em vários encontros gastronómicos. Detalhes esses que compõem muito cada breve narrativa e permite quase estabelecer um padrão, mas mais nas mulheres que tão fácil se aproximam de Nishino, como sabiamente recuam e o negam com subtileza.
"Imaginava que a luz secreta que caracterizava os nossos encontros - que podia ou não ser natural - se perderia a partir do momento em que deixássemos de ser apenas dois.
Tínhamos uma relação efémera. Era precisamente o que me agradava nela. Se começássemos a conviver com terceiros, receava que isso fizesse de nós «um casal». Mal isso acontecesse, a nossa relação ficaria exposta aos olhos do mundo, como uma fatura na parede, e seríamos forçados a acertar contas um com o outro."
No decorrer dos vários anos, as tonalidades com que estas mulheres vão colorindo ou acinzentando Nishino, mostram-nos também as oscilações nos seus próprios sentimentos e as relações entre algumas delas, num jogo subtil, onde se analisam com mais ou menos frieza, mas tentam perceber-se como parte de um todo, um corpo único que tentou amar e compreender Nishino, sem negarem uma certa exuberância que contrastava em absoluto com a tristeza espelhada no rosto (de algumas delas).
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
«De olhos fixos no sol» de Irvin D. Yalom :: Opinião
«Realize a sua vida»
e «Morra na altura certa»
Os epigramas de Nietzche podem resumir o objectivo deste «De
olhos fixos no sol» de Irvin D. Yalon, embora sejam mais fáceis de dizer do que
praticar. E é com isso que nos deparamos ao ler sobre a necessidade de nos
questionarmos e aceitarmos a inevitabilidade da morte e esse medo que nos
persegue, por vezes disfarçado de imensas fugas e sofrimentos mal resolvidos.
Reconhecer a ansiedade da morte é aceitar um caminho
manifestamente marcado pelo despertar de novas dinâmicas que trarão maior sentido
às interacções interpessoais, mas também àquelas em que dialogamos para dentro,
de modo a compreendermos que o que damos e deixamos aos outros não é mais do
que uma soma de atitudes e momentos que apenas perduraram no tempo através das
pessoas às quais nos conectamos (rippling).
Aceitar a morte ou encarar o sol de frente, reduzirá a
miséria humana, ou seja, reduzirá a origem, a raiz da maioria dos nossos
problemas. Ideia essa defendida por Epicuro e esmiuçada por Yalon nas suas
sessões de psicoterapia. E claro, parte do objectivo deste livro é explicar que
uma terapia bem orientada, numa base de empatia e conexão genuína entre o
terapeuta e o paciente é encontrar um meio facilitador para superar medos e
encontrar ferramentas de aceitação. E atenção, é aceitação, não rituais de
protecção, onde reprimimos e engolimos a noção da nossa natureza finita.
“A morte realmente faz comichão e é uma comichão bem
persistente; está sempre connosco, a arranhar alguma porta interior, a zumbir
suavemente, quase sem se ouvir, mesmo por baixo da membrana da consciência.
Escondida e mascarada, gotejando uma variedade de sintomas, é a fonte de muitas
das nossas preocupações, stress e conflitos.”
Ler este livro pode realmente abrir algumas dessas portas
interiores, mas o objectivo é mesmo esse, juntamente com relatos de casos
clínicos, mostrar aos leitores, uma panóplia de situações que escondem esse
receio da morte e o projectam em sentimentos, dores, preocupações e prisões que
diminuem a qualidade e a força da existência de cada um de nós.
“O escritor existencialista checo Milan Kundera sugere que
também provamos a morte através do acto de esquecer: «O que mete mais medo na
morte não é perder o futuro mas antes o passado. De facto, o acto de esquecer é
uma forma de morte sempre presente na vida.»”
Yalon vai mais longe e avisa-nos: contemplar a morte ou um
grande episódio de dor, podes ser experiências decisivas para despertar e
provocar mudanças, servindo-se de grandes filósofos (e não só!) para
desmitificar noções contraditórias sobre a morte que inflamam uma existência
menos independente.
“O leitor não poderá conectar-se ou dar seja o que for de importante aos que morrem, (…) a menos que esteja disposto a enfrentar os seus próprios medos, equivalentes aos de quem está a morrer, juntando-se-lhes num território partilhado. Ser capaz de fazer este sacrifício pelo outro é a essência de um acto de verdadeira compaixão e que traduz empatia. Esta disponibilidade para experimentar a nossa própria dor, em sintonia com a de alguém, tem feito parte da tradição curativa.”
A ideia poderosa do «eterno retorno» de Nietzche, em «Assim
falava Zaratustra» que propõe um desafio: "(...) e se pudesse viver uma existência
igualzinha à que viveu, uma e outra vez, por toda a eternidade, de que forma
isso mudaria a sua vida neste momento?”
Se a mera sugestão de que pode ser obrigado a repetir tudo é
assustadora, essa pode ser a força motriz que faltava para gerar mudança.
Ou seja, é o poder de olhar com maior transparência ao que nos acontece, permitindo uma maior higiene intelectual e equilíbrio emocional, alimentando a tão desejada serenidade mental ou equanimidade.
Mas o conselho maior é mesmo o de se socorrer de boas ideias, positividade e uma rede de boas memórias baseada na conectividade humana, combatendo a solidão e o isolamento e aumentando a compaixão e a empatia que permitem esbater a indiferença e baixar os muros da intolerância. E exemplo disso são sessões de psicoterapia que se sustentem na autenticidade, empatia e no olhar incondicionalmente positivo, criando uma interacção significativa.



