domingo, 11 de maio de 2025

(voltar a) «Como um romance» de Daniel Pennac

"O verbo ler não suporta o imperativo. 
É uma aversão que compartilha com outros: o verbo «amar»... o verbo «sonhar»... 
É evidente que se pode sempre tentar. Vejamos: «Ama-me!» «Sonha!» «Lê!» «Lê, já te disse, ordeno-te que leias!»
- Vai para o teu quarto e lê!
Resultado?
Nada.
Ele adormeceu em cima de um livro."


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(pelo) Direito de adormecer com um livro

E se o leitor adormecer não tem mal. «Como um romance» de Daniel Pennac é um óptimo romance para se ter na mesinha de cabeceira. É um excelente companheiro, nada reclamador, mesmo que numa amizade longínqua, em que apenas lhe prestemos uma visita uma vez por década. A última leitura havia sido em 2010 e há pouco tempo apeteceu-me abri-lo, reencontrar algumas ideias sublinhadas e prestar-lhe a devida homenagem: relê-lo 😍 "A repetição é tranquilidade. É uma prova de intimidade (...) Reler não é repetir, é renovar constantemente um infatigável amor."


Ler mais direitos 😍

quinta-feira, 20 de março de 2025

“Voltar do Bosque” de Maddalena Vaglio Tanet :: Opinião

Recomendado por Paolo Cognetti — com quem já subi oito montanhas e me deixei deslumbrar pelo entorpecimento contemplativo da alta montanha — cheguei a «Voltar do Bosque», sobre o qual ele disse “que existe qualquer coisa no ser humano que não consegue renunciar à sua ligação profunda com a terra.” E é verdade, concordo plenamente com isso e Tanet também, porque o silêncio húmido da culpa de Sílvia, cresce, fragmenta-se e dissolve-se na contemplação, no refúgio e na expulsão que o bosque lhe dá.

«Voltar do Bosque» (Dom Quixote, 2024) é o romance de estreia de Maddalena Vaglio Tanet, nomeado para o Prémio Strega em 2023 e inspirado num caso real que aconteceu na sua família, o livro desenrola-se numa aldeia piemontesa em 1970, e começa quando Silvia, professora de uma escola primária, desaparece no bosque após o suicídio de uma aluna. 

Essa fuga, gesto silencioso e trágico, é impulsionada por uma culpa que ela julga não encontrar eco ou expiação possível dentro das paredes da sua comunidade. Então, será Martino — uma personagem asmaticamente frágil – um rapazinho recém-chegada à aldeia e talvez a única alma dissonante ali — quem a encontrará, dias depois, faminta, enlameada, e em choque.

A culpa de Silvia, que irradia angústia desde as primeiras páginas, é também a culpa de uma aldeia inteira que prefere calar. A Natureza não é palco; é presença viva. Ao mesmo tempo que acolhe, dilui. Fragmenta. Serve de refúgio à protagonista, mas não a reconstrói. Apenas absorve a sua dor.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

"Os Dias Contados" , de João Tordo :: Opinião

Em "Os Dias Contados", João Tordo transporta-nos para fevereiro de 2013, onde um acidente na Serra Nevada desencadeia uma série de eventos que culminam no primeiro grande caso da subcomissária Pilar Benamor. Este thriller mergulha-nos na personificação do mal, mas não esquece as crises familiares e existenciais de cada personagem, com um toque de humor muito peculiar, especialmente na dupla pai e filho que foram as partes que mais me conquistaram.


Por outro lado, quando peguei no livro achava que ia ler sobre um novo caso de Pilar Benamor, completando assim a trilogia, mas vê-se logo que não fui pesquisar sobre o livro e o processo de escrita, caso contrário teria percebido que um acidente pessoal fez nascer a personagem de Flores Baltazar que com os (seus) dias contados virou o livro numa prequela 😉 e em muito boa hora.

"Ela estacou. À luz do candeeiro de rua, naquele princípio de noite fria, vi uma mulher diferente daquela com quem me casara - alguém que, por via da relação com um homem como eu, se havia tornado, ela própria, uma dependente. Alguém que existia em função de apagar os fogos que eu ateava - vezes e vezes sem conta, repetidamente -, devido à minha personalidade ou às características mais empedernidas do meu carácter, que eu gostava de apelidar de criativo. Eu intuía que esse tempo estava a chegar ao fim; só não sabia ainda como.”

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

«Irmã Marginal» de Audre Lorde :: Opinião


Ler Irmã Marginal é entrar num território vivo e urgente, onde cada palavra é escolhida com a responsabilidade de quem sabe que o silêncio mata. A obra de Audre Lorde, aqui traduzida com enorme cuidado e sentido político por Gisela Casimiro, não se limita a somar ensaios; constrói uma constelação de ideias, feridas, revoltas e possibilidades que apontam para um horizonte comum: todas temos voz, e essa voz merece ser ouvida, em toda a sua complexidade.

“E quando as palavras das mulheres imploram por ser ouvidas, cada uma de nós deve reconhecer a nossa responsabilidade de procurarmos essas palavras, de as ler, partilhar e estudar a sua pertinência nas nossas vidas. Que não nos escondamos atrás da farsa das separações que nos foram impostas e tantas vezes aceitamos como nossas.”

Neste livro-colosso entramos livres de intimidações, cada texto é um convite de portas abertas à reflexão; feito de palavras que acolhem e desafiam à acção. O que nele encontramos não é um discurso hermético, mas um mapa de resistências e afetos onde o feminismo negro, a poesia, a maternidade, o erotismo e a pedagogia se cruzam como vias fundamentais para a sobrevivência e a mudança. E é ainda mais, porque é transversal a todas as mulheres e as suas lutas.

“A autoconexão partilhada é uma bitola da alegria que sei ser capaz de sentir, lembra-me a minha capacidade de sentir. Essa emoção profunda e insubstituível da minha capacidade de sentir alegria pede-me à vida que a viva sabendo que tal satisfação é possível e não temos de lhe chamar nem «casamento», nem «deus», nem «além».”

Em textos como "A poesia não é um luxo", Lorde devolve à escrita poética o seu lugar como forma de pensamento e de transformação. A poesia, diz-nos, é a expressão destilada da experiência. Mais do que ornamento, ela é ferramenta para imaginar novos modos de viver. Este é o primeiro gesto de empoderamento: resgatar a linguagem como campo de acção.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

«O nome que a cidade esqueceu» de João Tordo – Opinião

“Para quem isto que escrevo, então?
Resposta: Para ti, mas não para ti:
para mim; para ti em mim.”
J. M. COETZEE, A Idade do Ferro

Pelas palavras de Coetzee entramos na vida de Natacha e George B. e desde cedo sabemos que muito dos outros ficou dentro deles. Em parte, um muito que ficou por resolver e com quem fazer as pazes.

Embora as circunstâncias sejam muito distintas, fruto daquilo que não se controla; ambos estão exilados, não obstante serem livres. As suas acções estão presas ao passado, ao medo, à solidão, mas essencialmente ao medo de ter medo, de se magoarem ainda mais, de não saberem com quem contar.

Assim, o livro divide-se porque os dois caminharão em sentidos opostos, George B. não vai superar o seu isolamento, mas Natacha vai florir e abrir-se ao mundo e às pessoas. No meio, conheceremos as histórias de cada um deles e de quem ou o quê, os moldou a serem satélites. E pensamos...

De quantos satélites se compõe a nossa história? Quantos orbitam perdidos no espaço escuro e imenso que são as memórias e o passado? Quantos se tornam lixo espacial? Ou especial?
E o que é que os satélites têm a ver com a história? Muito! Os satélites e o espaço. O vazio!

domingo, 11 de agosto de 2024

Amy e Isabelle - Opinião - Opinião

“A vida, delicada como um tecido, podia ser rasgada pelos golpes caprichosos de um momento aleatório e egoísta.”

E a frase não podia ser mais verdadeira e transversal à história das mulheres que encontramos nos livros de Strout e mesmo este sendo o seu primeiro romance já se sente a provocação e o confronto geracional, especialmente no feminino e que povoará a relação mãe-filha em Barton ou até mesmo a forte e acutilante Kitteridge.

Em «Amy e Isabelle» uma insegurança disfarçada e uma certa indiferença, caracterizam filha e mãe, respectivamente e a conturbada relação entre ambas que de forma tentacular ultrapassa as fronteiras do doméstico, seja por estarem integradas numa comunidade próxima, seja porque a dada altura trabalham juntas. Ainda assim, a hostilidade aumenta entre as duas, depois do ambiente ficar envolto em mistério e segredos, transformando a atitude de cada uma, embora o início da idade adulta faça mais estragos que qualquer outro evento.

“O verdadeiro problema, claro, era que ela e a mãe passavam o dia todo juntas. Amy tinha a sensação de que as ligava uma linha negra, uma linha não maior do que um risco feito a lápis, talvez, mas, ainda assim, uma linha omnipresente.”

E essa linha nunca se apaga em todo o livro, tal como uma outra que une as mulheres do escritório, reforçando que quando é preciso são aliadas umas das outras, mostrando uma análise muito interessante por parte de Strout sobre os ambientes por onde o mulherio prolifera.

terça-feira, 16 de julho de 2024

«Acolher» de Claire Keegan - Opinião



"Acolher” de Claire Keegan lê-se enquanto se saboreia uma chávena de chá e confirma o que mais se ouve sobre as narrativas da autora: concisão e capacidade de sugestão. Cada linha mantêm a fina barreia entre o que é dito e o que por nós leitores é adivinhado.

Keegan narra o abandono de uma criança às mãos de uma família que não é a sua, mas que será a que tem meios para a sustentar e educar, enquanto se tecem sentimentos de forma subtil, lidos nas entrelinhas pelos desejos dos leitores de que aquela entrega corra bem.
A aceitação e o acompanhamento permitem à menina superar o medo do desconhecido e reconhecer aquela casa como sua. Mais até que a de origem, é certo. E embora o abandono seja o motor desta história, a forma como cada frase se torna leve, traz esperança e transforma um enredo que tinha tudo para estar ensombrado, numa história que enternece pelo poder do não-dito.

Ainda assim, não será pelo estilo de escrita que regressarei à obra da autora, falta-me pano de fundo, pontos de viragem, momentos de tensão, alimentados por descrições que me transportem para a acção. A economia de meios tão salientada em Keegan não me permitiu sequer ter tempo para temer pelos personagens.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

«Estela sem deus» de Jeferson Tenório :: Opinião


"Escutei e concordei com tudo. Não estava disposta a discutir nada com ele. Porque eu estava me aproximando do lado esquerdo do meu coração, então era preciso calar, calar até que o momento exato surgisse, até que meu grito pudesse sair puro e vulcânico, livre das amarras. Livre do peso dos homens.”
É curioso voltar a uma leitura através das frases a que se dá destaque, juntamente com um regresso ao livro anterior por aquilo que se escreveu, e ver as semelhanças que não foram sentidas aquando da leitura, no entanto, não é possível ignorá-las. A procura por um pai e a aspereza das relações entre as pessoas, juntamente com a racialização, a fé, a família, a educação (e os livros!) e o abandono, deixam feridas abertas em cada personagem e ESTELA não é excepção.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

«Sono» de Nick Littlehales :: Opinião

Ler «Sono» de Nick Littlehales é aprender que dormir 8h é um mito e só contribuí para a nossa ansiedade e é ficar desperto para termos como power nap, jetlag social, lâmpadas solares, dietas de luz, colchões e roupa de cama equivalente a nuvens, equilíbrio digital, a abordagem R90 e a controversa técnica de mouth taping.

"Ir para a cama quando não estamos cansados ou preparados para o fazer apenas causará problemas, e sentirmo-nos tensos por causa disso a meio da noite não nos ajudará a voltar a adormecer. Assim que começa a preocupação, libertam-se as hormonas do stress, como a adrenalina e o cortisol, e ficamos ainda mais alerta."

Mantendo essa ideia como a principal, já que o mito das 8h de sono é um "tamanho único" que claramente não serve a todos e juntando a organização do sono e do dia em períodos de 90m (Abordagem R90), sem esquecer que precisa tanto combater o jetlag social como reduzir o excesso de cafeína = «ser uma sombra nervosa de si próprio e claro» – e reduzir o nº de horas de uso de equipamentos, essencialmente o pc/tablet e o telemóvel.

Manter esta dieta de aparelhos e apimentar a vida com mais caminhadas, desporto em geral, música que estimule as ondas delta (para de noite) e as ondas beta (de dia!) e estipular períodos de 90m para organizar o dia-a-dia será o essencial para melhorar e reprogramar o cérebro para tempos de sono de qualidade.


Na Abordagem R90 há princípios básicos:
- acordar pelo menos 90m antes da hora de estar apto para o trabalho ou no trabalho;
- é importante manter sempre horário de acordar, mesmo quando não precisa, para não dar informações erradas ao organismo;
- organizar ciclos de 90m para estruturar o seu dia, seja com actividades, períodos de sono, de lazer;
- reduzir ou anular dispositivos antes de dormir (dieta de luz)

domingo, 7 de julho de 2024

«Terrinhas» de Catarina Gomes - Opinião

“Quer queira quer não, nas minhas memórias mais antigas parece que descubro batatas. Sempre me foram íntimas. Na casa onde eu cresci dava a impressão de que até tinham direitos”.

É entre batatas, memórias, medos e sacrifícios, e segredos, que a vida de Cláudia se estruturou. Uma vida que a partir de certa idade repele a terrinha e as perguntas que ficaram por fazer. As heranças e as coisas das quais se sabe pouco, como sempre soube pouco sobre batatas. Esse enigma, essa obsessão… onde residia o segredo que tornava as batatas da terrinha melhores que quaisquer outras?

“Durante meses a fio comprei batatas nos mais variados sítios, de mercearias a minimercados, supermercados e hipermercados. Só precisava de uma de cada vez. (…)
Pegava na batata solitária recém-comprada, numa das sobreviventes, e cozia-as às duas. Não lhes saboreava diferenças. E isso provocava em mim emoções diversas. A ausência do sabor distintivo fazia-me sentir cada vez mais próxima do dia em que as conseguiria mandar a todas embora, da libertação. Ao mesmo tempo, entristecia-me a ideia de que, ao que tudo indicava, as batatas que restaram não tinham nada de especial, que afinal eram iguais às que se podiam comprar em qualquer loja de esquina por tuta-e-meia.
Por medo de ver essa constatação a aproximar-se, persisti. Uma vez, estava a dar na televisão um programa sobre vinhos. Resolvi imitar o que vi os enólogos fazer: deixava os pedaços de batata tardarem-se-me longamente no palato, até se desfazerem.”

segunda-feira, 17 de junho de 2024

"O segredo dos teus olhos" de Eduardo Sacheri :: Opinião

“O segredo dos seus olhos”, aclamado primeiro romance de Eduardo Sacheri, foi adaptado ao cinema por Juan José Campanella, arrecadando diversos Prémios, entre eles, o Óscar de Melhor Filme Internacional (2010) e um Goya e ainda em 2016 foi inserido na lista dos 100 Melhores Filmes do Século XXI pela BBC. As ovações não são em vão, tanto livro como filme são dois objectos de culto distintos e amplamente intensos.

“Muitas vezes me surpreendeu notar no meu espírito certa alegria culpada perante os horrores alheios, como se a circunstância de sucederem coisas pavorosas aos outros fosse um modo de afastar da minha vida tais tragédias. Uma espécie de salvo-conduto.”

Benjamín Chaparro era o dono desse salvo-conduto, no entanto, um homicídio de uma bela mulher e o coração dilacerado do marido porão chaparro numa luta obstinada por descobrir o culpado, como se esse crime lhe desse “a oportunidade de ver reflectidos, nessa vida destroçada pela dor e pela tragédia, os fantasmas dos meus próprios medos.” 

domingo, 16 de junho de 2024

«O Samaritano» de Mason Cross - Opinião

Mason Cross tem publicada em Portugal a trilogia dedicada a Carter Blake, um operacional que satisfaz os pedidos do FBI quando é preciso encontrar quem não quer ser encontrado. A história que acompanha o percurso deste asset não é desconhecida das séries do grande público ou dos enredos típicos dos page turners habitualmente viciantes e frenéticos. E embora se perceba que mais tarde ou mais cedo, Blake saberá demais e tornar-se-á ele mesmo um alvo, a história não desilude, antes pelo contrário, é a perspectiva e os conhecimentos do próprio Blake que aceleram o ritmo da acção. 

Em «O Samaritano» a acção centra-se num homem que supostamente ajuda mulheres cujos carros avariam à beira da estrada. Mas será que avariam mesmo? Será ele uma ajuda?

Claro que não! No entanto, não é nada a que os detetives Allen e Mazzucco não estejam habituados: as mulheres são os alvos principais de determinado tipo de crime e o nível de violência tem escalado nos últimos, mas os corpos que agora são encontrados têm uma mutilação caraterística, um corte que é uma assinatura. 

No rasto dessa assinatura surge Blake, que desconfia de um outro profissional que ele conheceu bem.

“- É um local ótimo para se largar corpos e não se trata do trabalho de um novato. Até um recruta o perceberia imediatamente, (…).

Era verdade. Tudo o que haviam visto até ali apontava para que o corpo fosse a última vítima de uma série, e não um crime isolado. As feridas da tortura mostravam paciência, deliberação, confiança. Comedimento, até, se isso não fosse uma contradição. Tivera o cuidado de manter a jovem viva durante algum tempo. O golpe mortal fora desferido com determinação absoluta, à primeira tentativa. Várias pessoas tinham comentado o profissionalismo da sepultura. A sorte fora a única razão para o corpo ser descoberto. Tudo somado, apontava para a obra de um assassino experimentado. Mas não era a verdade completa. A verdade completa necessitava de mais reflexão antes que ela a revelasse a alguém, incluindo o homem em quem mais confiava no departamento. Sabia apenas que haveria mais corpos.”

Skills, calculismo, paciência e anos de treino, confiança e premeditação, anonimato, liberdade e impulsos homicidas tudo combinado com sorte, muita sorte a favor de um assassino que opera como um fantasma, até que um aluimento de terras o deserdou da sorte que lhe tem permitido correr o país a matar e a ocultar corpos. Crozier tem a preparação certa para continuar a sua obra: “Sem um corpo é impossível decidir conclusivamente que um desaparecimento é o resultado de um crime”, mas o facto de Blake conhecer o seu traço (o serrilhado da sua faca de mato) vem atalhar os planos de Crozier e bem sabemos que quando a pressão aumenta, os erros surgem.

E quando o caos se instala, todos são suspeitos e Blake não passa de consultor que oferece os seus serviços a troco de nada. E todos sabem que não há almoços de borla. Especialmente os detetives.


sexta-feira, 7 de junho de 2024

«O que é o quê, a história de Valentino Achak Deng» de David Eggers - Opinião


"(...) o mundo que conheci não é muito diferente do retratado nestas páginas. (...) sabíamos que as nossas histórias tinham de ser bem contadas (...) nenhuma privação ou perda era insignificante."

As palavas são do próprio Achak Deng sobre a forma que David Eggers encontrou para biografar grande parte da vida deste «lost boy» vítima da guerra civil e da ebulição étnica que vem assolando o Sudão, especialmente o Sudão do Sul, desde 1972 com a quebra do acordo de Addis Abeba, dividindo ainda mais a região e as suas diferenças étnicas e fundamentalismos religiosos e daí o título, porém, pode até ser uma metáfora para tudo o que aqui é contado, tornando difusa a linha que separa a realidade da ficção, não obstante, a violência, o abandono, o medo e as dificuldades e a enorme miséria por que qualquer povo passa perante a perseguição; ficando por vezes confuso saber quem persegue quem e porquê.

"Diz-me, onde está a tua mãe, Michael? Alguma vez a viste aterrorizada? Nenhuma criança devia ver tal coisa. É o final da infância quando vemos o rosto da nossa mãe sem expressão, os olhos baços, mortos. Quando fica derrotada ao ver simplesmente a ameaça a aproximar-se. Quando não acredita que é capaz de nos salvar."

terça-feira, 4 de junho de 2024

«Cem anos de perdão» de João Tordo :: Opinião

Se «Águas Passadas» não movem moinhos, ladrão que rouba ladrão tem «Cem anos de perdão». E estivessem certos os provérbios, o ritmo dos thrillers de João Tordo teriam por certo outro tom e embora este «Cem anos de Perdão» ainda comece com algum humor, rapidamente o cenário do crime anula qualquer risada que pudéssemos dar com um dupla de polícias trôpegos, no meio de uma ilha remota algures ao largo de Inglaterra. Aliás, Cícero está preso e o cenário na prisão está pejado de predadores e Pilar sobrevive na fria Helsínquia, rodeada de homens feios e pesadelos que adensam os seus traumas.

"(...) os pesadelos persistiam. O clarão. A memória dos dias no hospital. Os ossos do rosto desfeitos, os dentes perdidos. A recuperação lenta, morosa. Alguém lhe dissera que uma pessoa precisava de oito anos para resolver um trauma, se fosse assumido e tratado. Quanto tempo demoraria daquela maneira - oitenta anos?
(...)
O desejo, o sexo, o jogo do gato e do rato, a adrenalina que, temporariamente, lhe mitigava a ansiedade. O regresso, uma e outra vez, ao mesmo ritual perverso. Quando desligou, lembrou-se das <<características», repetidamente lidas nas reuniões: Temendo o abandono e a solidão, ficamos e regressa- mos a relações dolorosas e destrutivas, escondendo a nossa dependência de nós e dos outros, cada vez mais isolados e alienados dos amigos, das pessoas que amamos, de nós próprios, de Deus."

domingo, 26 de maio de 2024

«Águas passadas» - de João tordo :: Opinião

"Fui eu quem a descobriu, à afogada, no meu passeio matinal pela arriba. E a culpa nasce precisamente daí - de o meu temperamento melancólico se alimentar positivamente da morbidez; de o sofrimento ser o seu húmus mais fértil. Ao encontrar o cadáver, a minha vida ganhou novo alento.
Vergonhosamente, desabrochei."

É com esta descrição dele mesmo que Cícero se apresenta. Parte do alento que tinha perdido, sabemos em breve, deve-se à falta que Simples lhe faz, o cão que morreu faz pouco tempo. Mas a maior parte do seu sofrimento data de anos, muito antes de se ter tornado um eremita à beira da falésia na escarpada Azóia. E logo aí conquistou a minha atenção. Eu vi-me, contemplativa como Cícero e acompanhada de um cão, nos trilhos que serpenteiam o precipício com vista para o Atlântico. 

E claro, ter sabido que a série está a ser adaptada para série televisiva, colocou a leitura noutro nível. Eu ia lendo e fazendo o meu próprio casting. 

Quando o corpo de Charlie é descoberto, ficamos a conhecer a Subcomissária Pilar Benamor, a quem é pedido: "caso decida ir buscar a pobre rapariga ao Inferno, por favor, não olhe para trás no regresso.". Evocando o mito de Orfeu, o legista parece adivinhar os horrores que aí irão, embora Cícero já nos tenha dito que ele voltará a matar.

terça-feira, 14 de maio de 2024

«Quarto de despejo» de Carolina Maria Jesus - :: Opinião

"O que aborrece-me é elas vir na minha porta para perturbar a minha escassa tranquilidade interior (...) Mesmo elas aborrecendo-me, eu escrevo. Sei dominar meus impulsos. Tenho apenas dois anos de grupo escolar, mas procurei formar o meu carater. A unica coisa que não existe na favela é solidariedade. Veio o peixeiro Senhor Antonio Lira e deu-me uns peixes. Vou fazer o almoço. As mulheres sairam, deixou-me em paz por hoje. Elas já deram o espetaculo. A minha porta atual- mente é theatro. Todas crianças jogam pedras, mas os meus filhos são os bodes expiatorios. Elas alude que eu não sou casada. Mas eu sou mais feliz do que elas. Elas tem marido. Mas, são obrigadas a pedir esmolas. São sustentadas por associações de caridade.

Os meus filhos não são sustentados com pão de igreja. Eu enfrento qualquer especie de trabalho para mantê-los. E elas, tem que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor. A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses. Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos socegados. Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas."

domingo, 5 de maio de 2024

«Cadente» de Mário Rufino - Opinião

«Cadente» de Mário Rufino é um livro escrito com coragem — a de olhar de frente a degradação trazida pela doença e o que ela impõe a uma relação familiar íntima, na estreita proximidade com o narrador deste relato que se move entre a contenção e a exposição, entre o silêncio do que já não pode ser dito e o grito contido daquilo que ainda precisa ser narrado.

No centro está a relação entre neto e avó — atravessada pelo abandono maternal, a morte, a doença e as memórias de um crescimento atribulado e claro, por tudo o que se perde com o passar do tempo e um certo abandono próprio da correria das vidas que divergem.

Há momentos de grande beleza que nos ficam através de frases lapidadas pela precisão de quem escreve para gravar bem uma ideia no leitor, mas o texto nem sempre consegue manter essa marca e a tensão, oscilando entre o esculpido e o tom mais solto, enquanto navega por um rol de memórias, entre nostalgia e culpa, num acerto de contas à mercê do tempo que ainda lhes resta.

terça-feira, 30 de abril de 2024

«Três» de Valérie Perrin :: Opinião

Quando nos dizem que um livro tem uma personagem que é parecida connosco a curiosidade fervilha e a leitura é inevitável, certo?

Foi o que aconteceu com «Três» de Valérie Perrin e também por ser um livro que vem com banda sonora e ter música faz toda a diferença. 

Ainda assim, para as aventuras de Nina, Adrien e Étienne e claro Virginie 😉 faltaram algumas como, «She lost control», uma ou outra incontornável dos Depeche; ou então, basta colocar a masterpiece dos Nirvana, «Nevermind» e deixá-lo em repeat.

“And for this gift I feel blessed
Our little group it's always been
And always will until the end”


Ainda assim, desde o início, a minha cabeça cantarolou muitas vezes a eterna «Le Temps De L'amour» de Françoise Hardy, muito por culpa desta introdução:

domingo, 28 de abril de 2024

«A mãe e o crocodilo» de José Gardeazabal - Opinião

“A minha mãe conta que comecei a caminhar para trás. Ela dava-me a mão e eu avançava de costas, sem sequer olhar. Não acredito. A minha mãe diz que foi precisa imensa paciência até eu me resignar a andar para a frente.”

“Os sentimentos são um lago onde as pessoas se molham até ao pescoço e eu estou do lado de fora porque não sei nadar.”

Este é Vladimir e nós vamos continuar na dúvida como ele. Ou vamos duvidar dele. É uma escolha do leitor e vai determinar o quanto nos podemos divertir, sensibilizar, rir ou chorar com as dúvidas dele, do crocodilo e do gato que domem juntos no cimento, com a mãe, os vizinhos e vamos ainda pensar nas suas dores e dúvidas perante o mundo. Vamos cavalgar juntos no crocodilo e filosofar com eles. 

“A minha mãe está há três anos a falar sozinha a tentar dizer o que pensa. Não é muito tempo.”

Vladimir é filho de pai solteiro e mãe solteira, vive a cuidar da mãe e de Benito, o crocodilo 🐊 Vivem os três à procura de se compreenderem enquanto esperam o futuro, porque o futuro é um sítio onde se pode gritar, mas... “Na nossa casa, o passado e o futuro são tão iguais que não lhes vemos a cara quando dançam.” 

Fora de casa, divide as horas entre o trabalho, onde salva o mundo à mão, ou seja, recicla e o supermercado alemão que vende coisas baratas, ajudando assim a alimentar o mundo que lhe dá de comer. Um mundo de flores de plástico, comida de plástico, ideias de plástico... tudo pronto a reciclar. É a era do capitalismo verde.

“Reciclar rima com ressuscitar. Foi a nós, pobres trabalhadores, a quem confiaram a ressurreição do mundo. Não é pouco.”

Mas e o amor? Como e onde se recicla?

“O amor, para mim, é primeiro imaginação e depois realidade. Para mim, amar uma mulher é ficção. Ficção e mentira são coisas diferentes, os pobres e os sozinhos precisam muito de ficção.”

Vladimir diz gostar de mulheres, mas não tem nenhuma para troca ou reciclagem, seja no passado ou para o futuro, mas isso que importa se o presente se faz de palavras alemãs, críticas ao progresso, debates sobre a Lua, a crise da habitação, a reciclagem e os subsídios, a emigração e a política... Eles (Vladimir e os amigos) avançam reacionários contra tudo e eles mesmos. Os despedimentos, os temporários, os arrendatários, os imigrantes, os plásticos e a fábrica. Reacionários e unidos eles são um substantivo maior - eles estão (são?) sindicalizados.

“Os mais velhos lembram-se, normalização quer dizer que vai morrer gente. Racionalização, que a matança será organizada. (...) Um ano depois do fim da reciclagem (e já depois do fim da mina) as pessoas pareciam transparentes, de uma maneira má (…) a pobreza perdeu o seu romantismo, não há mais nada a perder.”

Mas o que interessa isso tudo se o que Vladimir quer gritar ao megafone 📣é sexualmente activo, já sem pausas, sem vírgulas... SexualmenteActivo, uma palavra só, uma palavras que rima sem coxear. Rima com Noor.

E afinal, onde entra a mãe e o crocodilo no meio disto tudo?

O leitor talvez saiba. Ou não! E tu, vais continuar na dúvida?

“Uma luzinha entra pela claraboia. Suspeito de um sol extraordinário do lado de fora. Não saio, para continuar em dúvida.”

terça-feira, 16 de abril de 2024

«Amor estragado» de Ana Bárbara Pedrosa :: Opinião

"Um dia, depois de um bagaço, desabafei com um amigo, que tinha sido burro e era padre. Coitado, aquilo dava-me pena. Passava os dias no meio de velhas beatas e nunca ia saber que o único milagre que existe está num corpo de uma mulher a dizer que não quer mais."

Que se sublinhe "num corpo de uma mulher a dizer que não quer mais"

Embora seja uma premissa mais do que errada, abusiva, violenta, tóxica e transtornante, essa é a premissa para se entrar na cabeça do Manel, e por sua vez, na voz que a Ana Bárbara tão acutilantemente criou para nos destabilizar com esta história desestruturante e destruidora de tudo o que pode ser uma relação e uma família, menos amor, desejo, compreensão, empatia, cumplicidade ou sequer intimidade. Tudo o que aqui nos surge perante os olhos e nos assome à garganta como asco e vómito, é uma dura e triste realidade. É a realidade de muitas famílias, mulheres e filhos. Uma realidade que pode estar debaixo do nosso nariz, na porta ao lado, no quarto por baixo do nosso, na nossa família, na casa do nosso irmão. É a realidade e nós fazemos parte dela. Por isso, metade do asco, da aspereza e da realidade está-nos debaixo das unhas e isso é feito com uma mestria brutal e desarmante, conseguida nesta escrita crua e estragada de Ana Bárbara.